{"id":1215,"date":"2013-09-21T00:00:00","date_gmt":"2013-09-21T04:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2016-03-06T08:44:22","modified_gmt":"2016-03-06T12:44:22","slug":"transicao-da-etica-medica-alta-idade-media-ao-renascimento-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1215","title":{"rendered":"TRANSI\u00c7\u00c3O DA \u00c9TICA M\u00c9DICA: ALTA IDADE M\u00c9DIA AO RENASCIMENTO"},"content":{"rendered":"<p>As abadias de Salerno e Montpelier, dois dos n\u00facleos mais importantes das futuras universidades, se distinguiriam por retomarem antigos conceitos \u00e9ticos gregos da Escola de C\u00f3s: ?Em primeiro lugar, n\u00e3o fa\u00e7am mal?.<br \/>\nNo medievo europeu, as conjun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas determinadas pelos conflitos e contradi\u00e7\u00f5es entre a administra\u00e7\u00e3o laica e a Igreja, determinou o desconstru\u00e7\u00e3o de grande parte da conjun\u00e7\u00e3o da Medicina e do Direito. Nesse conjunto, o Direito visig\u00f3tico, em determinados momentos, se ajustou ao Direito can\u00f4nico, que nem sempre valorizou as recompensas ap\u00f3s a morte em detrimento da vida vivida.<br \/>\n    A id\u00e9ia da ordem universal, defendida de modo violento por algumas variantes do Direito can\u00f4nico, diminuindo grandemente a import\u00e2ncia do indiv\u00edduo freando o movimento social, interferiu de modo brutal tanto na busca da materialidade tanto da doen\u00e7a quanto do delito.<br \/>\nNesse conjunto muito complexo de fric\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas, se destacou a obra de Guilherme de Ockham (Opus nanaginta dierum), de 1332, associando o Direito ao poder, em torno de duas realidades confluentes: a primeira, intelig\u00edvel e inserida na realidade observ\u00e1vel, sem natureza jur\u00eddica; a segunda, de natureza jur\u00eddica atada ao poder. Essa importante constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica associando Direito e poder servir\u00e1 para a retomada das id\u00e9ias greco-romanas no Renascimento que se avizinhava.<br \/>\nAlguns acontecimentos marcaram o Renascimento como um novo tempo na Europa, interferindo diretamente na \u00e9tica m\u00e9dica oriunda do medievo: publica\u00e7\u00e3o mecanizada dos livros,  ruptura com as interdi\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas: dissec\u00e7\u00e3o p\u00fablica de corpos humanos; publica\u00e7\u00e3o dos livro: ?De humani corporis fabrica? de Andr\u00e9 Ves\u00e1lio, ?A cirurgia?, de Ambroise Par\u00e9, ?Christianismno restitutio?, de Miguel Servet, confrontando a veracidade da Trindade Crist\u00e3. Entre tantas produ\u00e7\u00f5es, se destacou o livro ?De viscerum structura?, de Marcelo Malpighi, descrevendo o mundo somente vis\u00edvel sob as lentes de aumento, iniciando o pensamento microl\u00f3gico, que pode ser considerado o segundo corte epistemol\u00f3gico da Medicina.<br \/>\nEntre outras singularidades do Renascimento, se destaca a vontade coletiva de retomar os ide\u00e1rios pol\u00edticos da Gr\u00e9cia plat\u00f4nico-aristot\u00e9lica. Desse modo, inicia-se outra fase da \u00e9tica m\u00e9dica com menos influ\u00eancia dos dogmas do cristianismo medieval: retomada das diretrizes te\u00f3ricas da Medicina greco-romana, atenua\u00e7\u00e3o do valor atribu\u00eddo aos santu\u00e1rios curadores, aumento do n\u00famero de m\u00e9dicos oriundos das novas universidades, maior participa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos laicos no processo formador da Medicina e a presen\u00e7a de geniais pintores e escultores, como Miguel \u00c2ngelo, Leonardo da Vinci, Rembrandt, entre outros, detalhando nas obras de artes o corpo desnudo.<br \/>\nNo andar desmontando certos dogmas crist\u00e3os em torno da sa\u00fade e da doen\u00e7a as confrarias e irmandades que cuidavam dos doentes, sob a guarda dos respectivos santos protetores, como a dos cirurgi\u00f5es sob a prote\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Cosme e S\u00e3o Dami\u00e3o, pelos Col\u00e9gios e Academias laicos, como o Royal College of Surgeons, em Londres, e a Sorbonne, em Paris.<br \/>\nO Renascimento tamb\u00e9m desmancha certas obscuridades do poder papal. Entre as muitas mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas, na Europa central, desponta a cirurgia apagada das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas, durante mil anos, por conta das interdi\u00e7\u00f5es sob a amea\u00e7a do castigo infernal: as pr\u00e1ticas cir\u00fargicas n\u00e3o s\u00e3o mais compreendidas como obras dos dem\u00f4nios, sendo incorporada \u00e0 Medicina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As abadias de Salerno e Montpelier, dois dos n\u00facleos mais importantes das futuras universidades, se distinguiriam por retomarem antigos conceitos \u00e9ticos gregos da Escola de C\u00f3s: ?Em primeiro lugar, n\u00e3o fa\u00e7am mal?. 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