{"id":1315,"date":"2014-03-11T21:28:39","date_gmt":"2014-03-12T01:28:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1315"},"modified":"2016-03-05T12:21:16","modified_gmt":"2016-03-05T16:21:16","slug":"resistencia-a-mecanizacao-do-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1315","title":{"rendered":"RESIST\u00caNCIA \u00c0 MECANIZA\u00c7\u00c3O DO CORPO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As id\u00e9ias oitocentistas, provavelmente incentivadas pela fisiologia experimental, presentes nos trabalhos de Claude Bernard, aprumaram a ci\u00eancia na tarefa de explicar como funcionava o corpo, quase sempre associando aos avan\u00e7os da t\u00e9cnica. O pleno exagero do mecanismo coube \u00e0s palavras do pensador La Mettrie, em 1748, que conduziu a mecaniza\u00e7\u00e3o do corpo ao limite m\u00e1ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo 19, essa compreens\u00e3o se manteve. Ao contr\u00e1rio, com a industrializa\u00e7\u00e3o impondo as linhas de montagem e a necessidade r\u00e1pida de m\u00e3o-de-obra, os corpos tornaram-se complementos das m\u00e1quinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mecanicismo trouxe um impressionante conjunto metaf\u00f3rico \u00e0 linguagem: o cora\u00e7\u00e3o passou a ser a bomba; o pulm\u00e3o, o fole; o rim, o filtro e, finalmente, o c\u00e9rebro, o computador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Do mesmo modo, n\u00e3o \u00e9 demais repetir que os reflexos sobre as mudan\u00e7as na forma\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico n\u00e3o tardariam. Em 1910, o Relat\u00f3rio Flexner, nos Estados Unidos e na Europa, foram instrumentos para reorganizar as faculdades de Medicina. A metodologia acad\u00eamica em torno dos valores da cura, mais do que nunca na Hist\u00f3ria, valorizaria exclusivamente a Medicina ligada \u00e0 t\u00e9cnica, aos laborat\u00f3rios, desprezando os componentes sociais das doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa linha metodol\u00f3gica chegou ao apogeu com Talcott Parsons, em 1951, sob a guarda das faculdades de Medicina, de modo semelhante \u00e0s cren\u00e7as e \u00e0s id\u00e9ias religiosas, ao sustentar que as enfermidades deveriam ser compreendidas como significantes de desvio social. A coes\u00e3o social s\u00f3 poderia ser alcan\u00e7ada com o controle das doen\u00e7as, mas sob a estreita supervis\u00e3o do agente da Medicina \u00be o m\u00e9dico. Essa foi a \u00e9poca do maior prestigio social do m\u00e9dico: agente absoluto da sa\u00fade, do bem, do belo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 evidente que o estudo de Parsons s\u00f3 poderia ser aplicado em alguns segmentos sociais, nos pa\u00edses industrializados, com grandes recursos dispon\u00edveis para pagar os servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo como a concep\u00e7\u00e3o da sa\u00fade atada exclusivamente ao social, a aplica\u00e7\u00e3o dessa Medicina mecanicista \u00e9 question\u00e1vel, na maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial, onde as dificuldades da sobreviv\u00eancia b\u00e1sica impedem o acesso aos hospitais. Essa imensa parcela populacional desassistida continua recorrendo aos curadores populares para resolver os problemas da sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, a pr\u00e1tica m\u00e9dica nos pa\u00edses do Terceiro Mundo, desde os anos sessenta, impregnada pelas teoriza\u00e7\u00f5es de Flexner e Parsons, empurrou os trabalhos acad\u00eamicos para valorizar a doen\u00e7a como fruto da injusti\u00e7a social, oferecendo a m\u00e1quina, a tecnologia, como solu\u00e7\u00e3o para prolongar empurrar os limites da morte temida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que a maior quest\u00e3o dos saberes m\u00e9dicos n\u00e3o estando resolvida, especialmente o paradoxo fundamental \u00be em qual dimens\u00e3o da mat\u00e9ria viva a doen\u00e7a substitui o normal? \u00be , os m\u00e9dicos seduzidos pelo tecnicismo exacerbado acreditam, perigosamente, na infalibilidade da Medicina e distanciaram-se do doente. As ordens m\u00e9dicas vindas da doutrina flexneriana se portam de maneira impessoal e a demonstra\u00e7\u00e3o de sentimentos, junto ao leito do enfermo, \u00e9 interpretada como sin\u00f4nimo de incompet\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O busca da cura, ancestralmente presente \u00e0 cabeceira do doente junto ao m\u00e9dico-amigo, n\u00e3o tem lugar nas propostas de Flexner e Parsons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resist\u00eancia a esse modelo trouxe \u00e0s universidades outras abordagens dos tratamentos, contr\u00e1rios \u00e0 tend\u00eancia mecanicista, com a convic\u00e7\u00e3o de nada substituir a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente humanizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho As id\u00e9ias oitocentistas, provavelmente incentivadas pela fisiologia experimental, presentes nos trabalhos de Claude Bernard, aprumaram a ci\u00eancia na tarefa de explicar como funcionava o corpo, quase sempre associando aos avan\u00e7os da t\u00e9cnica. 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