{"id":1513,"date":"2015-10-10T09:17:56","date_gmt":"2015-10-10T13:17:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1513"},"modified":"2016-01-27T09:02:53","modified_gmt":"2016-01-27T13:02:53","slug":"medicina-na-mitologia-grega-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1513","title":{"rendered":"MEDICINA NA MITOLOGIA GREGA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria das mentalidades assinala que a rela\u00e7\u00e3o entre a Medicina e a compreens\u00e3o m\u00edtica da realidade se perde no tempo. \u00c9 imposs\u00edvel separar os muitos mitos relacionados ao entendimento que as pessoas fazem da sa\u00fade e da doen\u00e7a. \u00c9 poss\u00edvel que esse pressuposto esteja vinculado ao apoio oferecido pelos mitos para apaziguar a ang\u00fastia pessoal e coletiva nas sociedades que ainda n\u00e3o conseguem explicar de outra forma as contradi\u00e7\u00f5es da vida e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante assinalar que os mitos com as respectivas metamorfoses nascem da rela\u00e7\u00e3o com o mundo da natureza emp\u00edrica, mas acima do meramente emp\u00edrico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As primitivas rela\u00e7\u00f5es m\u00edticas do homem com outros animais, na pr\u00e9-hist\u00f3ria, resultaram na valoriza\u00e7\u00e3o do sangue como o mais importante elemento simb\u00f3lico. Posteriormente, depois do sedentarismo dos ca\u00e7adores-coletores, o sangue foi substitu\u00eddo pelas novas rela\u00e7\u00f5es com a terra cultivada, quando ocorreu o deslocamento dos mitos de origem em dire\u00e7\u00e3o aos valores dos frutos da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lenda do guaran\u00e1 dos \u00edndios mau\u00e9s, no Amazonas, tratando a fruta como rem\u00e9dio para todos os males, \u00e9 um entre muitos exemplos de como os mitos de origem podem se relacionar com as mentalidades sustentando, durante centenas de anos, explica\u00e7\u00f5es pontuais da sa\u00fade e da doen\u00e7a, da vida e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido espec\u00edfico, a constru\u00e7\u00e3o dos mitos junto \u00e0 terra cultivada contribuiu para fortalecer o uso das plantas na busca da sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos tra\u00e7os dessa mitologia passando do sangue \u00e0 terra cultivada, como elementos essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia dos homens e das mulheres, evolu\u00edram da Epop\u00e9ia de Gilgamesh, dos babil\u00f4nios, \u00e0 g\u00eanese judaico-crist\u00e3, passando pela Yeb\u00e1 bel\u00f3, a lenda desana da cria\u00e7\u00e3o do Sol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da melhor compreens\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o do pensamento m\u00edtico e das incont\u00e1veis metamorfoses, a dificuldade da interpreta\u00e7\u00e3o aumenta na propor\u00e7\u00e3o do tempo passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Ocidente, a partir do s\u00e9culo VI a.C., na Gr\u00e9cia, \u00e9 poss\u00edvel construir, com alguma seguran\u00e7a, um perfil m\u00edtico da Medicina, em torno de matamorfoses que perduram at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mitologia grega, a Medicina come\u00e7ou com Apolo, filho da uni\u00e3o de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros; depois, foi identificado como Aplous, aquele que fala verdade. Esse deus curava as pessoas purificando a alma por meio de lavagens e aspers\u00f5es e rem\u00e9dios obtidos das plantas medicinais. Por essa raz\u00e3o, Apolo era considerado como o deus que lavava e libertava o mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos seus filhos, Ascl\u00e9pio recebeu educa\u00e7\u00e3o do centauro Quir\u00e3o para ser m\u00e9dico. A escolha do centauro n\u00e3o foi por acaso; ocorreu porque dominava os saberes da m\u00fasica, magia, adivinha\u00e7\u00f5es, astronomia e Medicina. Al\u00e9m dessas habilidades, Quiron possu\u00eda incompar\u00e1vel destreza: manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos muitos templos espalhados nos territ\u00f3rios sob influ\u00eancia grega, Ascl\u00e9pio, o deus da Medicina grega, era celebrado em grandes festas p\u00fablicas, no dia 18 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ascl\u00e9pio conquistou fama inimagin\u00e1vel: demonstrava a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgi\u00e3o. Os doentes que n\u00e3o obtinham a cura em outros or\u00e1culos procuravam os milagres desse deus taumaturgo. Mais cirurgi\u00e3o do que m\u00e9dico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por ordem de Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, foi morto com os raios dos Ciclopes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ascl\u00e9pio e deixou duas filhas e dois filhos. As filhas: H\u00edgia, celebrada como a deusa da sa\u00fade perfeita; Panac\u00e9ia, como v\u00ednculo das rela\u00e7\u00f5es m\u00edticas com os frutos da terra cultivada, curava todas as doen\u00e7as por meio das plantas medicinais. Os filhos, Machaon e Podal\u00edrio, os famosos m\u00e9dicos guerreiros, descritos por Homero, se destacaram recuperando a sa\u00fade dos guerreiros feridos na guerra de Tr\u00f3ia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coube a Panac\u00e9ia continuar a linhagem de m\u00e9dicos, fazendo do seu filho Hipocoonte, um m\u00e9dico famoso e ancestral de Hip\u00f3crates.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem muitas comprova\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas das d\u00e1divas de agradecimentos dos doentes para Ascl\u00e9pio. Especialmente, na ilha de C\u00f3s, onde floresceu a Escola M\u00e9dica de Hip\u00f3crates, na Gr\u00e9cia, foram encontradas v\u00e1rias esculturas com o nome do doente a descri\u00e7\u00e3o da doente e da cura obtida. Outras estelas contendo o nome de Ascl\u00e9pio, produzidas entre os s\u00e9culos 6 e 2 \u00a0a.C., cont\u00eam a serpente enrolada num bast\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O simbolismo m\u00edtico da serpente lidado \u00e0 Medicina j\u00e1 estava presente na civiliza\u00e7\u00e3o babil\u00f4nica, dez s\u00e9culos antes da forma\u00e7\u00e3o da polis grega. Existe no Museu do Louvre, em Paris um vaso de cer\u00e2mica encontrado na regi\u00e3o de Lagash, representando o deus da cura babil\u00f4nico \u2013 Ningishida \u2013 duas serpentes entrela\u00e7adas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo geral, os mitos que envolvem a serpente ligam-se \u00e0 transcend\u00eancia da morte. Entre as mais conhecidas explica\u00e7\u00f5es para entender a rela\u00e7\u00e3o da Medicina com a serpente se destacam: a serpente pode viver em cima e embaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos, e a capacidade da serpente para mudar a pele de tempos em tempos, encenando o renascimento. Esta \u00faltima interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 relatada no Rig Veda (1.79,1), no qual os Adityas s\u00e3o descritos como os descendentes das serpentes, que ao perderem a pele velha, venceram a morte e adquiriram a imortalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a conquista romana da Gr\u00e9cia, Ascl\u00e9pio foi latinizado como Escul\u00e1pio e as festas de celebra\u00e7\u00e3o desse deus curador foram mantidas no dia 18 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a cristianiza\u00e7\u00e3o de Roma, a partir de Constantino, no s\u00e9culo 4, as festas populares comemorando o poder curador de Ascl\u00e9pio, no dia 18 de outubro, continuaram e se espalharam na Europa crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poder eclesi\u00e1stico romano, sem for\u00e7a para interromper essa festa greco-romana, decidiu que o dia 18 de outubro, marcado pelas celebra\u00e7\u00f5es de Ascl\u00e9pio e Escul\u00e1pio, fosse associado ao nascimento de S\u00e3o Lucas, o Evangelista m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A serpente de Ascl\u00e9pio se enrolou na cruz crist\u00e3 e formou um dos mais belos sincretismos da hist\u00f3ria da humanidade. A primeira, s\u00edmbolo da imortalidade embaixo da terra; a cruz, como a representa\u00e7\u00e3o do inating\u00edvel acima da terra, fecham o ciclo m\u00edtico pendular entre o desconhecido situado acima da cabe\u00e7a e abaixo dos p\u00e9s do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel que alguns dos m\u00e9dicos que se re\u00fanem, nos dias atuais, para festejar a Medicina, no dia 18 de outubro, desconhecem que continuam celebrando Ascl\u00e9pio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho A hist\u00f3ria das mentalidades assinala que a rela\u00e7\u00e3o entre a Medicina e a compreens\u00e3o m\u00edtica da realidade se perde no tempo. \u00c9 imposs\u00edvel separar os muitos mitos relacionados ao entendimento que as pessoas fazem da sa\u00fade &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1513\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-1513","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1513"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1514,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1513\/revisions\/1514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}