{"id":1591,"date":"2015-12-12T16:09:05","date_gmt":"2015-12-12T20:09:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1591"},"modified":"2016-01-24T02:20:44","modified_gmt":"2016-01-24T06:20:44","slug":"medicina-como-especialidade-social-parte-2-intervencao-curadora-do-homem-no-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=1591","title":{"rendered":"MEDICINA COMO ESPECIALIDADE SOCIAL \u2013 PARTE 2 INTERVEN\u00c7\u00c3O CURADORA DO HOMEM NO HOMEM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palopatologia dos f\u00f3sseis mostra que os homens e mulheres pr\u00e9-hist\u00f3ricos estavam sujeitos a diversas doen\u00e7as semelhantes as que n\u00f3s, homens modernos, continuamos enfrentando nos dias atuais. N\u00e3o \u00e9 demais repetir que a fratura traum\u00e1tica constituiu uma das doen\u00e7as mais freq\u00fcentes nos f\u00f3sseis estudados, em algumas delas, foram confirmados sinais evidentes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">de infec\u00e7\u00e3o do osso, a osteomielite, lembrando as encontradas nos hospitais de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, foi poss\u00edvel estabelecer a exist\u00eancia de doen\u00e7as sist\u00eamicas, n\u00e3o traum\u00e1ticas, como a denominada gota das cavernas, uma esp\u00e9cie de reumatismo do homem pr\u00e9-hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com exce\u00e7\u00e3o do corpo congelado de um ca\u00e7ador, que viveu em torno de 6.000 anos, encontrado nos Alpes, na Su\u00ed\u00e7a, as pesquisas arqueol\u00f3gicas jamais encontraram outros corpos ou \u00f3rg\u00e3os anteriores a essa \u00e9poca. Por outro lado, foram identificadas v\u00e1rias bact\u00e9rias pr\u00e9-hist\u00f3ricas fossilizadas. O<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">p\u00f3len de Nen\u00fafar, designa\u00e7\u00e3o de diversas plantas da fam\u00edlia das ninfe\u00e1ceas, capazes de determinar rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica no homem atual, existe desde o Pleistoceno M\u00e9dio, isto \u00e9, h\u00e1 mais de 100.000 anos. A tuberculose \u00f3ssea na coluna vertebral, problema m\u00e9dico freq\u00fcente nos pa\u00edses subdesenvolvidos,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">foi documentada por achado de esqueleto de homem do per\u00edodo Neol\u00edtico, constituindo, sem d\u00favida, o primeiro exemplar m\u00e9dico dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ocorr\u00eancia de mol\u00e9stias na pr\u00e9-hist\u00f3ria \u00e9 indiscut\u00edvel. Por\u00e9m, interessa conhecer como os homens primitivos iniciaram a luta para controlar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a dor, conservar a sa\u00fade e empurrar os limites da vida. Certos autores, especializados em Hist\u00f3ria da Medicina, articulam respostas em compara\u00e7\u00e3o com o comportamento de certos animais, quando est\u00e3o feridos ou doentes: lambem os ferimentos, fazem limpeza m\u00fatua e comem plantas em\u00e9ticas. \u00c9 prov\u00e1vel que o homem primitivo tivesse se comportado da mesma maneira: lambendo a \u00e1rea ferida e pressionando o local para parar a hemorragia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdura a quest\u00e3o da exist\u00eancia de ritual m\u00e1gico, na pr\u00e9hist\u00f3ria, ligado \u00e0s concep\u00e7\u00f5es m\u00edticas da natureza circundante, na busca de cura das doen\u00e7as. Na gruta de Trois Fr\u00e9res, nos Pirimeus franceses, est\u00e1 a pintura de um personagem em movimento de dan\u00e7a, datando de 10.000 anos, travestido de cervo, em atitude que sugere uma esp\u00e9cie de ritual com a inten\u00e7\u00e3o de curar, semelhante \u00e0 dan\u00e7a dos bis\u00f5es, praticado pelos \u00edndios do norte dos Estados Unidos, e a dos \u00edndios tukanos, no norte do Amazonas, ambos em cerim\u00f4nias simbolizando o poder animal na cura das doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto das informa\u00e7\u00f5es paleopatol\u00f3gicas, no Neol\u00edtico, em torno de 10.000 anos, sugere fortemente a afetiva incorpora\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos emp\u00edricos estruturando a a\u00e7\u00e3o intencional do homem sobre outro homem. Essas atitudes, algumas vezes foram muito agressivos, como a trepana\u00e7\u00e3o do cr\u00e2nio com instrumentos suficientemente fortes para cortar regularmente os ossos do cr\u00e2nio em formas geom\u00e9tricas bem definidas. Essa extraordin\u00e1ria pr\u00e1tica \u00e9 facilmente comprovada por meio do estudo dos f\u00f3sseis. E mais, alguns desses homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos que sofreram essa cirurgia sobreviveram muito tempo ap\u00f3s a sua realiza\u00e7\u00e3o, o suficiente para favorecer o crescimento do osso cortado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto das informa\u00e7\u00f5es paleopatol\u00f3gicas do Neol\u00edtico, em torno de 10.000 anos, tamb\u00e9m sugere fortemente a incorpora\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos emp\u00edricos estruturando a a\u00e7\u00e3o intencional do homem sobre outro homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante assinalar, sem que existam explica\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis, que as craniotonias, difundidas, no Neol\u00edtico europeu, tamb\u00e9m foram executadas, at\u00e9 o s\u00e9culo 16, por sociedades que n\u00e3o tiveram contato inter\u00e9tnico, como as da Polin\u00e9sia francesa e as que floresceram no altiplano peruano nos tempos pr\u00e9-coloniais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Restar\u00e1 sempre a d\u00favida de por que essas craniotomias terem sido realizadas. De qualquer modo, n\u00e3o h\u00e1 como negarque, mesmo tendo sido esse o objetivo da interven\u00e7\u00e3o do homem sobre o homem, representou algo absolutamente extraordin\u00e1rio, na medida em que uma parte do corpo, o conte\u00fado do cr\u00e2nio, foi exposta intencionalmente, isto \u00e9, desvendando e materializando o escondido atr\u00e1s da pele e do osso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel que o curador pr\u00e9-hist\u00f3rico tenha exercido, simultaneamente, fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. Essa demonstra\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de poder \u2013 um homem mortal igual aos outros, intervindo dentro do corpo desconhecido de outro homem \u2013 resultaria em grande destaque no grupo social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respeitando as devidas propor\u00e7\u00f5es, essa rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o do curador sobre o objeto da sua pr\u00e1tica \u2013 o doente \u2013, sob alguns aspectos, perdura at\u00e9 os dias atuais. Esse poder do curador, na pr\u00e9-hist\u00f3ria como nos dias atuais, poderia aumentar o n\u00edvel de persuas\u00e3o sobre o doente, tendo como base dois dos pontos de maior sensibilidade humana: a at\u00e1vica fuga da dor e a preserva\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse processo complexo pode ter sido um dos pilares sustentadores que edificaram o homem primitivo no processo de assimila\u00e7\u00e3o do conhecimento para evitar a dor e a morte, capaz de impulsion\u00e1-lo para desvendar as d\u00favidas do vis\u00edvel, como primeiro passo a o aperfei\u00e7oamento da linguagem e da transmiss\u00e3o dos saberes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho A palopatologia dos f\u00f3sseis mostra que os homens e mulheres pr\u00e9-hist\u00f3ricos estavam sujeitos a diversas doen\u00e7as semelhantes as que n\u00f3s, homens modernos, continuamos enfrentando nos dias atuais. 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