{"id":226,"date":"2012-03-18T14:16:36","date_gmt":"2012-03-18T18:16:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=226"},"modified":"2016-03-06T09:53:32","modified_gmt":"2016-03-06T13:53:32","slug":"o-paje-tupinamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=226","title":{"rendered":"O PAJ\u00c9 TUPINAMB\u00c1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Prof.Dr.HC. Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em maio de 1986 as ag\u00eancias de not\u00edcias em todo o mundo divulgaram a pajel\u00e2ncia feita pelo cacique Raoni no pesquizador Augusto Ruschi. Naquela \u00e9poca ele estava com graves insufici\u00eancias: do f\u00edgado e dos rins secund\u00e1rias \u00e0 cirrose hep\u00e1tica. A explica\u00e7\u00e3o para o aparecimento da doen\u00e7a foi dada pela imprensa como sendo em consequ\u00eancia do veneno de um sapo<strong> dendropata<\/strong> que teria sido inoculado no pesquisador em uma das suas viagens no Amazonas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Centenas de milh\u00f5es de pessoas viram as imagens pela televis\u00e3o mostrando o cacique Raoni soprando fuma\u00e7a de tabaco e fazendo gestos invocados aos esp\u00edritosdos mortos\u00a0 para\u00a0 ajudar na cura do grande naturalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0Pajel\u00e2ncia que durou alguns dias n\u00e3o conseguiu mudar o curso da enfermidade e o inesquec\u00edvel Augusto Ruschi morreu algumas semanas depois, num centro de tratamento intensivo qualquer, em Vit\u00f3ria\u00a0 do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As sociedades cient\u00edficas divulgaram notas explicativas que o sapo do g\u00eanero<strong> Dendroprates<\/strong> n\u00e3o \u00e9 capaz de provocar qualquer tipo de les\u00e1o hep\u00e1tica. Eles possuem algumas gl\u00e2ndulas subcut\u00e2neas que secretam alcal\u00f3ides e causam somente pequenas queimaduras na pele quando permanecem em contato.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por\u00e9m, o que mais impressionou nos notici\u00e1rios internacionais foi o est\u00edmulo\u00a0 dado pelo atual Presidente da rep\u00fablica para que consumasse o ritual, tendo inclusive oferercido o transporte a\u00e9reo para levar mais rapidamente o paj\u00e9 at\u00e9 o ornit\u00f3logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No atual desenvolvimento da sociedade que vivemos \u00e9 dif\u00edcil aceitar certos procedimentos com o r\u00f3tulo de cient\u00edfico. \u00c9 indiscut\u00edvel que as mudan\u00e7as no nosso sistema de valores foram tantas e t\u00e3o r\u00e1pidas que obrigaram a nova reflex\u00e3o dos cientistas, que acabaram mostrando uma ci\u00eancia pouco l\u00f3gica (1).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os estudos de Heisemberg na estrutura\u00e7\u00e3o da teoria qu\u00e2ntica demonstram claramente que o ideal cl\u00e1ssico de objetividade cient\u00edfica n\u00e3o pode mais ser sustentado em aspectos importantes do conhecimento acumulado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O homem tem utilizado empiricamente, durante milhares de anos, a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia para manter a sa\u00fade e evitar a doen\u00e7a. Muitas centenas de anos antes de Galileu ter, pela primeira vez, combinado o conhecimento emp\u00edrico com a matem\u00e1tica, o paj\u00e9 tupinamb\u00e1 j\u00e1\u00a0 preparava as por\u00e7\u00f5es medicamentosas, utilizando as combina\u00e7\u00f5es de quantidade e qualidade bem definidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 conhecido o aforismo de Einstein: <strong>&#8221; At\u00e9 onde as leis da matem\u00e1tica se refiram \u00e0 realidade, elas est\u00e3o longe de constituir algo certo; e, na medida em que constituem algo algo certo n\u00e3o se referem a realidade&#8221;.<\/strong> Depois desta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que se reflita na seguinte quest\u00e3o: se na matem\u00e1tica \u00e9 assim, como devemos encarar a inseguran\u00e7a dos conhecimentos m\u00e9dicos?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As atividades desenvolvidas pelo paj\u00bae tupinamb\u00baa foram admiradas e descritas por v\u00e1rios viajantes e cronistas que estiveram no Brasil col\u00f4nia. Muitas delas ainda est\u00e3o vivas no cotidiano do povo brasileir. \u00c9 evidente que elas sofreram transforma\u00e7\u00f4es ao longo dos s\u00e9culos, mas a ess\u00eancia \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 necess\u00e1rio buscar mais longe, nas nossas ra\u00edzes etnol\u00f3gicas junto aos tupinamb\u00e1s, alguns aspectos das rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-m\u00edticas que perduram at\u00e9 hoje no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existemv\u00e1rias express\u00f5es de origem tupi para designar o personagem que exercia durante os primeiros s\u00e9culos da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa o dom\u00ednio da pr\u00e1tica m\u00e9dico-m\u00edtica entre os tupinamb\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Stradeli (2) reconhece o <strong>Paj\u00e9<\/strong> como sin\u00f4nimo de <strong>Pai\u00e9: &#8221; \u00c9 o m\u00e9dico, o conselheiro da tribu, o padre, o feiticeiro , o deposit\u00e1rio autorizado da ci\u00eancia tradicional. Paj\u00e9 n\u00e3o \u00e9 qualquer. S\u00f3 os fortes do cora\u00e7\u00e3o, os que sabem superar as provas de inicia\u00e7\u00e3o, que t\u00eam o f\u00f4lego necess\u00e1rio para ser paj\u00e9&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>Pagi, pay, payni, pai\u00e9, pa\u00e9, piaec\u00e9, piach\u00e9, pantch\u00e9 <\/strong>s\u00e3o varia\u00e7\u00f5es de<strong> paj\u00e9. <\/strong>\u00c9 formada etmologicamente por<strong> pa-y\u00e9<\/strong>, aquele que diz o fim ou profeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tudo leva a crer que a figura social do paj\u00e9 \u00e9 universal. Ela est\u00e1 presente em incont\u00e1veis sociedades primitivas de todos os continentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os estudos antropol\u00f3gicos e sociol\u00f3gicos s\u00e3o muito sugestivos de que ele desempenhou um papel de destaque nas sociedades pr\u00e9-hist\u00f3ricas, talvez muito antes do homem ter a sua atual forma f\u00edsica. Colabora na veracidade desta suposi\u00e7\u00e3o as pinturas rupestres do mestre-feiticeiro da gruta de Trois-Fr\u00e9res, nos Pirineus franceses, com data\u00e7\u00e3o assegurada ultrapassando 10000 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nos v\u00e1rios trabalhos publicados sobre o sepultamento ritualizado se destaca aquele que descreveu o tumulo do homem da caverna de Shanidar, nas montanhas Zagros, no Irac. H\u00e1 mais ou menos 60000 anos, no m\u00eas de junho, foi enterrado o homem de Neandertal, sobre um leito feito de diversas plantas. A an\u00e1lise do p\u00f3lem mostrou que se tratava de mil-folhas, escovinha, cardosanto, taisneira, jacinto e cavalinha. os vegetais foram propositalmente colocados sob o morto, formando um verdadeiro leito multicolorido com uma delicada mistura de flores brancas, amarelas, azuis e verdes dos galhos da cavalinha. A maioria destas sementes ainda s\u00e3o utilizadas at\u00e9 hoje pelos habitantes daquela regi\u00e3o para tratar de diversas doe\u00e7as. \u00c9 prov\u00e1vel que o personagem enterrado naquela gruta tivesse o h\u00e1bito de utilizar as plantas no seu cotidiano e foi sepultado com elas para que acompanhassem na sua poss\u00edvel vida depois da morte(3).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A relev\u00e2ncia social do paj\u00e9 tupinamb\u00e1 pode ser entendida a partir da descri\u00e7\u00e3o feita por Gabriel Soares de Souza (4),\u00a0 que esteve no Brasil no final do s\u00e9culo XVI: &#8221; Entre esse gentil tupinamb\u00e1, h\u00e1 grandes feiticeiros, que tem este nome entre eles, por lhe, meterem em cabe\u00e7a mil mentiras; os quais feiticeiros vivem em casa apartada cada um por si, a qual \u00e9 muito escuro e tem por muita pequena, pela qual n\u00e3o ousa n\u00edngu\u00e9m de entrar na sua casa, nem lhe tocar em coisa dela; os quais pela maior parte n\u00e3o sabem nada e para se fazerem estimar e temer tomam este of\u00edcio, por entenderem com quanta facilidade se mete em cabe\u00e7a a esta gente qualquer\u00a0 (&#8230;) A estes feiticeiros chamam os tupinamb\u00e1s paj\u00e9s.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">LEITURA COMPLEMENTAR<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">1- Sobre a aus\u00eancia de l\u00f3gica nos atuais conhecimentos da f\u00edsica qu\u00e2ntica ver CAPRA, Fritjof. <strong>O Tao<\/strong>\u00a0 <strong>da F\u00edsica<\/strong>. 4 ed. S\u00e3o Paulo, Cultrix, 1987, 293 p. e sobre parcialidade da verdade ver SCHAFF, Adam.<strong> Hist\u00f3ria e Verdade<\/strong>. 3 ed. S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 1986, p.201-311.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">2- STRADELI,\u00a0 E. <strong>Vocabul\u00e1rio da L\u00edngua Geral Portuguez-Nheengatu e\u00a0 Nheengatu-Portugu\u00eas. <\/strong>Rio de janeiro, Revista do Instituto, 1929, p.585. Para maiores conhecimentos das fun\u00e7\u00f5es dos paj\u00e9s como os diferentes autores dos s\u00e9culos XVI e\u00a0 XIX os descreviam ver Ant\u00f4nio Geraldo da Cunha. <strong>Dicion\u00e1rio Hist\u00f3rico das palavras portuguesas de origem tupi.<\/strong> S\u00e3o Paulo, Melhoramentos, 1982, p.226-7.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">3- Para maiores informa\u00e7\u00f5es dos sepultamentos ritualizados na pr\u00e9-hist\u00f3ria ver Richard E. Leakey. <strong>A evolu\u00e7\u00e3o da Humanidade.<\/strong> S\u00e3o Paulo, Melhoramentos, 1981, p. 153-6 e Andr\u00e9 Leroi-Gourhan. <strong>As religi\u00f5es da pr\u00e9-hist\u00f3ria. <\/strong>Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es 70, 1985, p.49-68.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">4- Citado por Estev\u00e3o Pinto in Alfred Metraux.<strong> A Religi\u00e1o dos Tupinamb\u00e1s<\/strong>. S\u00e3o Paulo, Ed. USP, 1979, p.75.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existem poucos registros de como eram formados os paj\u00e9s na sociedade tupinamb\u00e1. \u00c9 poss\u00edvel\u00a0 que a ascens\u00e3o do iniciante se desse de v\u00e1rios modos. Entretanto, pelos relatos dos cronistas, os paj\u00e9s tinham, antes de mais nada, que mostrar compet\u00eancia no desempenho das suas fun\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-m\u00edticas, como ter \u00eaxito no tratamento de determinadas doen\u00e7as, fazer previs\u00f5es do tempo e das colheitas, antever acontecimentos importantes relacionados com as guerras.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O paj\u00e9 come\u00e7ava a acumular respeito no seio da comunidade a partir do momento em que se concretizava uma previs\u00e3o esperada, como revelou Yvez d&#8217;Evreux (4) &#8221;<strong>A revela\u00e7\u00e3o do feiticeiro dependia de algum acidente ou caso fortuito: como, por exemplo, se, anuciando as chuvas, estas caiam imediatamente depois. Se, ainda, tendo soprado algum doente, por ventura, recuperava a sa\u00fade, isto constituia um meio de ser logo respeitado e tido como feiticeiro de muita experi\u00eancia&#8221;.<\/strong> Algumas vezes a inicia\u00e7\u00e3o se efetivava atrav\u00e9s de ritual espec\u00edfico, como o presenciado por Hans Staden (5) e durante o qual os tupinamb\u00e1s elevavam algumas mulheres na dignidade dos paj\u00e9s: &#8221;<strong> <\/strong>\u00a0<strong>primeiramente v\u00e3o os selvagens a uma cho\u00e7a, tomam uma ap\u00f3s outra todas as mulheres da habita\u00e7\u00e3o e incensam-nas. Depois deve cada uma gritar, saltar e correr em roda at\u00e9 ficar t\u00e3o exausta que cai ao solo como morta. Ent\u00e3o diz o feiticeiro: &#8221; V\u00eade. Agora est\u00e1 morta<\/strong>.<strong> Logo a porei viva de novo. Quando volta a si diz ele est\u00e1 apta a predizer cousas futuras, e quando partem ap\u00f3s parar guerra, sobre esta tem as mulheres que profetizar&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como a figura pol\u00edtica do paj\u00e9 era de grande import\u00e2ncia na sociedade, os conquistadores al\u00e9m de terem percebido este fato muito rapidamente tiveram a certeza da absoluta necessidade de destru\u00ed-lo. Este fato \u00e9 da maior relev\u00e2ncia porque sobre ele se fundamentou parte da substitui\u00e7\u00e3o dos primitivos valores s\u00f3cio-culturais dos \u00edndios pelos do colonizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Era o poder concentrado nas m\u00e3os do paj\u00e9 que intermediava as for\u00e7as da Natureza com o conjunto da sociedade tupinamb\u00e1. Existem diversos dados que mostram a a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as da cruz crist\u00e3 e da espada atuando conjuntamente no desmoronamento do universo m\u00e9dico-m\u00edtico do paj\u00e9. O depoimento do capuchinho Claude d&#8217;Abbeville no seu livro <strong>Hist\u00f3tia dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranh\u00e3o e Terras Circunvizinhas<\/strong>, publicado em Paris em 1914, \u00e9 claro e ilustrador desta quest\u00e3o: &#8216; <strong>Perdeu muita import\u00e2ncia o of\u00edcio do paj\u00e9 depois que chegamos ao pa\u00eds, tanto mais quanto em nossa companhia havia um jovem que sabia fazer\u00a0 peloticas<\/strong> <strong>com as m\u00e3os e muitas prestidigita\u00e7\u00f5es (&#8230;). Logo que os maranhenses viram as peloticas daquele rapaz, puseram-se a admir\u00e1-lo e cham\u00e1-lo de paj\u00e9-a\u00e7u. Mostrou lhes ent\u00e3o o senhor de Rasilly que tudo se devia a certa habilidade, comparando-o com os paj\u00e9s, demostrou que estes n\u00e3o passaram de pelotiqueiros e embusteiros. resultou disso muitos abandonarem as suas cren\u00e7as e finalmente at\u00e9 crian\u00e7as zombavam dos paj\u00e9s&#8221;.(6)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 dif\u00edcil de acreditar que tivesse sido raz\u00f5es de moral e \u00e9tica as motiva\u00e7\u00f5es para que o senhor Rasilly provocasse a descren\u00e7a dos feiticeiros da ilha do Maranh\u00e3o mesmo porque este objetivo de substitui\u00e7\u00e3o dos valores culturais dos povos ind\u00edgenas no Brasil colonial pode ser facilmente comprovado em outras fontes como nos escritos dos jesu\u00edtas Jos\u00e9 de Anchieta quando descreveu as aventuras de Men de S\u00e1 <strong>(A Companhia de Jesus e a medicina no Brasil col\u00f4nia, J.C., 10.5.87): &#8221;J\u00e1 n\u00e3o ousas agora servir de teus artif\u00edcios, perversos feiticeiros, entre povos que seguem a doutrina de cristo: j\u00e1 n\u00e3o podes com m\u00e3os mentirosas esfregar membros doentes, nen, com l\u00e1bios imundos, chupar as partes do corpo que os frios terr\u00edveis enregelam, nem as v\u00edsceras que ardem de febre nem as lentas podagras nem os bra\u00e7os inchados. J\u00e1 nao enganar\u00e1s com tuas artes os pobres\u00a0 enfermos, que muito creram, coitados nas mentiras do enferno. Jaz por terra o velho engano, guarda o rebanho agora matilha de Deus, cujos latidos afastam lobos raivosos e trai\u00e7oeiros. Se te prender algum dia a m\u00e3o dos guardas, gemer\u00e1s em vingadoura fogueira ou pagar\u00e1s em sujo c\u00e1rcere o merecido castigo&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Est\u00e1 claro que na comunica\u00e7\u00e3o crist\u00e3 empregada na conquista e ocupa\u00e7\u00e3o dos novos territ\u00f3rios pela Igreja Cat\u00f3lica a substitui\u00e7\u00e3o do popder do paj\u00e9 estava na primeira linha de ataque. Este fato \u00e9 por si s\u00f3 suficiente para comprovar a import\u00e2ncia social do paj\u00e9 na sociedade tupinamb\u00e1, aponto de motivar a resposta do conquistador para destru\u00ed-lo e assentar a nova orienta\u00e7\u00e3o da ordem crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Alfred Metraux (7) diferencia nominalmente a maior compet\u00eancia do paje, isto \u00e9, ele descreve as v\u00e1ras denomina\u00e7\u00f5es que os feiticeiros poderiam ter\u00a0 em decorr\u00eancia da sua reconhecida capacidade. Esta diferencia\u00e7\u00e1o espec\u00edfica da mesma categoria numa sociedade de organiza\u00e7\u00e3o simples \u00e9, no m\u00ednimo, interessante. nos faz pensar se n\u00e3o se trataria de res\u00edduos sincr\u00e9tico do pr\u00f3prio conquistador aplicando na sociedade tupinamb\u00e1 os padr\u00f5es sociais prevalentes naquela \u00e9poca na Europa medieval. Dequalquer modo o reconhecimento cl\u00e1ssico de Metraux \u00e8 absolutamente claro neste sentido: &#8216;<strong>&#8216; Uns tantos dentre eles, todavia, adquiriram certa reputa\u00e7\u00e3o, que os colocava acima da confraria e lhes dava uma situa\u00e7\u00e3o superior, recebendo nome de Paj\u00e9-ouassou ou de Cara\u00edba, palavra que os antigos autores traduzem por santidagem ou homem sagrado&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Achamos importante levantar algumas indaga\u00e7\u00f5es. Devemos lembrar que ainda hoje, entre os m\u00e9dicos existe n\u00edtida extratifica\u00e7\u00e3o pela\u00a0 compet\u00eancia demonstrada pela resolu\u00e7\u00e3o de determinadas doen\u00e7as pouco comuns e que agridem a inseguran\u00e7a coletiva. Todos s\u00e3o m\u00e9dicos, por\u00e9m para caracterizar esta separa\u00e7\u00e3o, temos v\u00e1rias palavras complementares como competente preparado, sendo cl\u00ednico, estudioso e muitas outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Dicion\u00e1rio Hist\u00f3rico de Ant\u00f4nio Geraldo da Cunha (8) ajuda a refor\u00e7ar esta suposi\u00e7\u00e3o quando descreve o termo <strong>cara\u00edba<\/strong> como : &#8221;<strong>a cronologia das acep\u00e7\u00f5es foi estabelecida com base na documenta\u00e7\u00e1o hist\u00f3rica adiante descrita. Com efeito, Anchieta informa que o termo ind\u00edgena cara\u00edba traduz-se por &#8221;cousa sancta e sobrenatural&#8221;, esclarecendo ainda que os \u00edndios o adotaram para designar os portugueses, Cardim asseverava, or seu turno, que o termo era aplicado aos feiticeiros ind\u00edgenas, dando ao vocabul\u00e1rio, todavia, <\/strong>\u00a0<strong>uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa, pois entre os ind\u00edgenas cara\u00edba designava o guia espiritual, esp\u00e9cie de paj\u00e9 que presidia os seus cultos religiosos, Frei\u00a0 Vicente do Salvador apresenta uma bem fundamentada explica\u00e7\u00e3o\u00a0 da origem dos significados assumidos pelo vocabul\u00e1rio cara\u00edba, isto \u00e9 &#8221; homem branco, crist\u00e3o (8).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 muito dif\u00edcil separar o fant\u00e1stico do real nos relatos dos cronistas. Apesar de n\u00e3o haver qualquer d\u00favida de exist\u00eancia e da import\u00e2ncia social do paj\u00e9, \u00e9 necess\u00e1rio que se busque na cr\u00edtica do material dispon\u00edvel\u00a0 a resposta das quest\u00f3es que continua sem resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 evidente que existiu ao longo dos primeiros s\u00e9culos da coloniza\u00e7\u00e3o uma intrincada mistura das culturas tupinamb\u00e1 e europ\u00e9ia. Este fato gerou informa\u00e7\u00f5es repassadas oralmente que sofreram enormes distor\u00e7\u00f5es j\u00e1 reconhecidas. Entretanto. temos obrigatoriamente que retirar deste conjunto o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f3es que possam nos dar com a maior aproxima\u00e7\u00e1o poss\u00edvel, o papel social do paj\u00e9 da sociedade tupinamb\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">LEITURA COMPLEMENTAR<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">4 &#8211; Citado por Alfred Metraux. <strong>A Religi\u00e3o dos Tupinamb\u00e1s. <\/strong>S\u00e3o Paulo, Ed. USP., 1979,p.65.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">5 &#8211; STADEN, Hans. <strong>\u00a0Duas Viagens ao Brasil. <\/strong>Belo Horizonte, Itatiaia, 1974, p.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">6 &#8211; D&#8217;ABBEVILLE, Claude. <strong>Hist\u00f3ria da Miss\u00e3o dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranh\u00e3o e terras circunvizinhas. <\/strong>Belo Horizonte, Itatiaia, 1975, p.254.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">7 &#8211; Alfred Metraux, op. cit.,p.66.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">8 &#8211; Ant\u00f4nio Geraldo da Cunha, op., p.102.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lery participa da mesma id\u00e9ia de que o paj\u00e9 constitui um personagem diferente do cara\u00edba (9): &#8221;<strong>Se acontece cair doente algum deles logo mostra a um amigo uma parte do corpo em que sente mal e esta \u00e9 imediatamente<\/strong> <strong>chupada pelo companheiro ou por algum paj\u00e9, embusteiro de g\u00eanero diverso dos cara\u00edbas a que me refir\u00ed no cap\u00edtulo em que tratei da religi\u00e3o e que corresponde aos nossos barbeiros e m\u00e9dicos. E tais paj\u00e9s lhe fazem crer n\u00e3o somente que os curam mais ainda que lhes prolongam a vida&#8221;<\/strong>. No cap\u00edtulo referente ele descreve assim os cara\u00edbas : &#8221;<strong> Os<\/strong> <strong>selvagens admitem certos\u00a0 falsos profetas chamados cara\u00edbas que andam de aldeia em aldeia como os tiradores de ladainhas e fazem crer n\u00e3o somente que se comunicam com os esp\u00edrito e assim d\u00e3o for\u00e7a a quem lhes apraz, para vencer e suplantar os inimigos na guerra, mas ainda persuadem terem a virtude de fazer com que cres\u00e7am e engrossem as ra\u00edzes e frutos da terra do Brasil&#8221;<\/strong> (10).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nas notas do cap\u00edtulo VII\u00a0 da Rreligi\u00e3o dos Tupinamb\u00e1s<strong>, <\/strong>Estev\u00e3o Pinto tamb\u00e9m discorda dessa separa\u00e7\u00e3o feita por Lery (11) : &#8221;<strong> Lery quis fazer crer que o paj\u00e1 n\u00e3o passava de uma criatura de g\u00eanero diverso do cara\u00edba. Foi um erro desse calvinista. Todo cara\u00edba era paj\u00e9, embora nem todo paj\u00e9 era cara\u00edba&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Marcgrave (12) de igual modo percebeu, como Pinto o mesmo sentido para as palavras paj\u00e9 e cara\u00edba : &#8221; <strong>E tem feiticeiro, os quais dificilmente usam, doutra maneira que M\u00e9dicos, e a estes s\u00e3o sujeiros<\/strong> <strong>pelo grande desejo de ver a sa\u00fade ser recuperada (&#8230;) Os demais feiticeiros chamam paj\u00e9, cara\u00edba\u00a0 por\u00e9m \u00e9 para eles o poder deles de concluir os milagres, raz\u00e3o pela qual os lusitanos, porque muitas cousas faziam, que excediam a intelig\u00eancia deles, chamavam de cara\u00edbas e assim tamb\u00e9m hoje na verdade e chamam todos os Europeus&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E interessante o rumo europizante que tomou a qualifica\u00e7\u00e3o dos paj\u00e9s na literatura especializada. Recentimente, foi introduzida a palavra\u00a0 <strong>xam\u00e3<\/strong> como sin\u00f4nimo de paj\u00e9. Na realidade, este termo \u00e9 derivado do franc\u00eas = <strong>chamam,<\/strong> do alem\u00e3o = <strong>schamane <\/strong>e do russo = <strong>saman. O xamanismo <\/strong>\u00a0\u00e9 a religi\u00e3o de certos povos do norte da \u00c1sia e s\u00e3o baseados na primitiva cren\u00e7a de que os esp\u00edritos maus e bons podem ser dirigidos pelos xam\u00e3s para promover o bem e o mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 J\u00falio C\u00e9sar Melatti (13) no seu livro <strong>\u00cdndios no Brasil,<\/strong> j\u00e1 na 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o adotouo a religi\u00e3o asi\u00e1tica para diferenciar os paj\u00e9s brasileiros : &#8221; <strong>Existe uma certa categoria de m\u00e9dicos-feiticeiro que recebe o nome especial de xam\u00e3s. O que caracteriza o xam\u00e3 \u00e9 poder fazer de um estado de \u00eaxtase, durante o qual\u00a0 sua alma se retira para longe do corpo, percorrendo lugares distantes, ou durante o qual nele se encarna um esp\u00edrito estranho&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O mesmo \u00e9 encontrado em Berta Ribeiro (14) : &#8221;<strong>Na pajelan\u00e7a &#8211; fen\u00f4meno talvez concemtrado na Amazonia &#8211; \u00e9 que se faz sentir com mais for\u00e7a a influ\u00eancia ind\u00edgena. O paj\u00e9 n\u00e3o \u00e9 apenas o benzedor. \u00c9 mais que isso. Adivinha os pensamentos, os acontecimentos, previne-os\u00a0 e os combate. Os processos de cura do paj\u00e9 aproximam-se do xamanismo tupi : a par da introdu\u00e7\u00e3o da cacna\u00e7a, registra-se o uso do cigarro, do marac\u00e1, de rezas&#8221;<\/strong>. Do mesmo modo deViveiro de Castro(15) : &#8221;<strong> Duas figuras da sociedade humana mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o especial com os apapalutapa: os xam\u00e3s e os feiticeiros. O esp\u00edrito &#8211; qualquer um &#8211; \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o um xam\u00e3&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o pode haver d\u00favida em que existe uma certa confus\u00e3o na literatura dispon\u00edvel entre as figuras sociais do paj\u00e9 e do xam\u00e3. \u00c9 poss\u00edvel que esta situa\u00e7\u00e3o seja em consequ\u00eancia da introdu\u00e7\u00e3o por antrop\u00f3logos e atnol\u00f3gos europeus da palavra xam\u00e3 dos seus trabalhos sobre os \u00edndios da Am\u00e9rica. Depois, foram copiados sem a\u00a0 necess\u00e1ria cr\u00edtica do conte\u00fado. O mais interessante \u00e9 que a identifica\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 tupinamb\u00e1 com o xam\u00e3 asi\u00e1tico \u00e9 encontrada com muito maior assiduidade nos escritos do nosso s\u00e9culo. Os cronistas e viajantes dos s\u00e9culos XVI e XIX utilizaram a palavra paj\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Egon Schaden (16), o conhecido antrop\u00f3logo e historiador das regi\u00f5es, tamb\u00e9m embarcou nessa mistura inaceit\u00e1vel de denomina\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 brasileiro: &#8221;<strong>L\u00e1\u00a0 literatura<\/strong> <strong>\u00a0etonologica\u00a0 referente a Am\u00e9rica del Sur\u00a0 designa frequentemente\u00a0 com el nombre de chamanismo<\/strong>\u00a0 <strong>conjunto de practicas<\/strong> <strong>y funciones inherentes a esta profesion. El chamam indio puede a menudo ser tambien em hechicero, o ser considerado como tal, pero seria erronso aplicarle esta denominacion de modo indiscriminado. El ejercicio de la medicina figura casi siempre entre sus pincipales atribuciones, y este hecho se explica por el origem sobrenatural de la mayoria de las enfermidades&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existe um ponto comum nos outros autores que aparentemente confundem a complexidade s\u00f3cio-cultural do paj\u00e9 brasileiro com o xam\u00e3 asi\u00e1tico : \u00e9 o etn\u00f3logo Herbert Baldus. Talvez tenha sido suas obras que tenham influenciado o aparecimento da palavra xam\u00e3 na literatura especializada. As mais citadas s\u00e3o : <strong>Ensaios de Etinologia Brasileira, O Xamanismo. Sugest\u00f5es para pesquisas etnogr\u00e1ficas e a Bibliografia Cr\u00edtica da Etnologia Brasileira<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As fun\u00e7\u00f5es do paj\u00e9 tubinamb\u00e1 ultrapassavam e muito as atividades m\u00e9dico-m\u00edticas. Elas englobavam a totalidade do conjunto social na previs\u00e3o dos acontecimentos que interferiam com a sobreviv\u00eancia do grupo. Claude d&#8217;Abbeville descreve assim: &#8221;<strong>predizem a fertilidade da terra as secas e as chuvas e o mais. Al\u00e9m disso, fazem crer ao povo que lhes basta soprar a parte doente para cur\u00e1-la. Por isso, quando adoecem os \u00edndios os procuram e lhes dizem o que sentem, imediatamente os paj\u00e9s principiam a soprar na parte doente, sugando-a e aspirando o mal e insinuando a cura<\/strong>&#8221; (17).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A diferencia\u00e7\u00e3o feita pelos viajantes e cronistas dos poderes dos paj\u00e9s n\u00e3o fica somente aqui. Ela avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o da milenar e muito primitiva id\u00e9ia de que alguns homens diferenciados e divinizados s\u00e3o capazes de ressuscitar os mortos, fazem crescer as plantas e multiplicar miraculosamente os alimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A ressuscita\u00e7\u00e3o dos mortos \u00e9 citada por Fern\u00e3o Cardim (8): &#8221;<strong>Us\u00e3o de alguns feiticos, e feiticeiros, n\u00e3o porque crei\u00e3o nelles, nem os adorem, mas somente se d\u00e3o a chupar em suas enfermidades parecendo-lhes que receber\u00e3o sa\u00fade, mas n\u00e3o por lhes parecer que ha nelles divindades, e mais o fazem por receber sa\u00fade que por outro algum respeito. Entre elles se alevantar\u00e3o algumas vezes alguns feiticeiros a que chamam cara\u00edba, Santo ou Santidade, e \u00e9 de ordin\u00e1rio algum \u00edndio de ruim vida: este faz algumas feiti\u00e7aria, e cousas estranhas a naturaza, como mostrar que ressuscita algum vivo que se faz morto (&#8230;)&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essas tes caracter\u00edsticas do poder m\u00edtico dos paj\u00e9s &#8211; a ressuscita\u00e7\u00e3o dos mortos, o crescimento r\u00e1pido dos vegetais e a multiplica\u00e7\u00e3o milagrosa dos alimentos &#8211; est\u00e1 presente na maioria das religi\u00f5es conhecidas. No Velho<strong>\u00a0 <\/strong>e no Novo Testamento existem diversas passagens que registram a mesma coisa. Jesus Cristo curou doentes pelo sopro e pelo tocar das m\u00e3os, multiplicou o p\u00e3o e o peixe, ressuscitou alguns mortos e encheu a rede de peixes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esses anseios m\u00edticos do homem s\u00e3o sugestivos de uma matca at\u00e1vica da sua milenar luta pela vida, pela recusa da morte da garantia do alimento para\u00a0 sobreviv\u00eancia<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">LEITURA COMPLEMENTAR<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">9 &#8211; LERY, Jean. <strong>Viagem a terra do Brasil.<\/strong> S\u00e3o Paulo, ed. Martins, 1972, p.193<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">10 &#8211; Idem, idem, p.161-2.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">11 &#8211; Alferd, Metraux, op. cit.,p.76.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">12 &#8211; MARCGRAVE, Jorge. <strong>Hist\u00f3ria Natural do Brasil<\/strong>. S\u00e3o Paulo, imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo, 1942, p.279.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">13 &#8211; MELATTI, J\u00falio C\u00e9sar. <strong>\u00cdndios do Brasil. <\/strong>5. ed. S\u00e3o Paulo, Hucitec, 1987,p.144.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">14 &#8211; RIBEIRO, Berta. <strong>O \u00cdndio na cultura brasileira.<\/strong> Rio de Janeiro, Unibrade, 1987,p.138-9.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">15 &#8211; VIVEIROS DE CASTRO, E. B. <strong>Alguns aspectos do pensamento Yawalapiti (Alto Xingu): Classifica\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es <\/strong>in Sociedades ind\u00edgenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro, UFR\\Marco Zero, 1987, p.77.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">16 &#8211; SCHADEN, Egon. <strong>Las religiones indigenas de Amerca del Sur <\/strong>in Las Religiones em los Pueblos sin tradicion escrita. Barcelona, Sigio Vientiuno Ed. 1982. p.393-4.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">17 &#8211; D&#8217;ABBEVILLE, Claude. op.cit., p.253.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">18 &#8211; CARDIM, Fern\u00e3o. <strong>Tratados da Terra e Gente do Brasil. <\/strong>Belo Horizonte, Itatiaia, 1980,p.87.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existe concord\u00e2ncia entre os cronistas que estiveram no Brasil entre os s\u00e9culos XVI e XIX de que a origem do poder m\u00edtico do paj\u00e9 tupinamb\u00e1 e dos seus sucessores nos processos migrat\u00f3rios era em consequ\u00eancia de sua capacidade de comunica\u00e7\u00e3o com os esp\u00edritos dos mortos. Este \u00e9 o principal ponto de semelhan\u00e7a entre o paj\u00e9 brasileiro e o xam\u00e3 asi\u00e1tico. Ambos estabelecem estreita intimidade com os mortos e este fato pode ter contribu\u00eddo na atual analogia entre os dois personagens. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 D&#8217;Abeville relata na sua <strong>Historia da Miss\u00e3o dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranh\u00e3o e Terras Circunvizinhas<\/strong> que os tupinamb\u00e3s tinham conhecimento de astronomia e conseguiam prever o fluxo e refluxo do mar e ventos (17): &#8221;Poucos entre eles desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisf\u00e9rio; chama-nos por seus nomes pr\u00f3prios, inventados pelos seus antepassados (&#8230;) Temos entre n\u00f3s a <strong>poussini\u00e8re<\/strong>, que muitos conhecem e que denominam <strong>seichu.<\/strong>Come\u00e7a a ser vista,em seu hemisf~erio, em meados de janeiro, e mal a enxergam afirmam que as chuvas v\u00e3o chegar, como chegamefetivamente pouco\u00a0 depois.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 evidente que n\u00e3o se trata de simples advinha\u00e7\u00e3o. Representava o resultado do conhecimento acumulado historicamente pelos elementos que detinham essa fun\u00e7\u00e3o na comunidade. O mesmo pode ser suposto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra. Muitos grupos tinham como crit\u00e9rio para a escolha do chefe ou inclu\u00edam na forma\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 a obrigariedade do conhecimento do passado da tribo. Isto lhes dava condi\u00e7\u00f5es de analisar o momento em que poderiam acontecer os conflitos. Esta fun\u00e7\u00e3o \u00e9 desempenhada na nossa sociedade pelos soci\u00f3logos, cientistas pol\u00edticos e historiadores. Parece que a rela\u00e7\u00e3o com os esp\u00edritos, compreendida pelos tupinamb\u00e1s era categorizada em lugares que variava a import\u00e2ncia da cada um deles. Neste sentido, todos os membros do grupo eram capazes de estabelecer certo tipo\u00a0 de liga\u00e7\u00e3o com determinados esp\u00edritos. Por\u00e9m, somente os paj\u00e9s eram capazes de ter intimidade com os mais importantes. Entre estes existiam os que eram mais poderosos, sendo capazes de se comunicarem com determinados esp\u00edritos fortes e exclusivos. Talvez ocorra nesse ponto da hierarquiza\u00e7\u00e3o do sagrado a incorpora\u00e7\u00e3o das coisas no conjunto m\u00edtico. A partir da exist\u00eancia da categoriza\u00e7\u00e3o fica mais f\u00e1cil estabelecer o valor simb\u00f3lico de cada elemento. As plastas, pedras e o pr\u00f3prio homem s\u00e3o investidos do poder sobrenatural capaz de causar o bem e o mal. Uma das explica\u00e7\u00f5es para o aparecimento das doen\u00e7as era dada pelos \u00edndios como sendo causada por entidade sobrenatural (18) quando introduzida na v\u00edtima. Seria fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do paj\u00e9 a retirada do esp\u00edrito mal\u00e9fico causador da enfermidade. Para ajudar na sua pr\u00e1tica o paj\u00e9 utilizava determinada instrumentaliza\u00e7\u00e3o, como o marac\u00e1, a fuma\u00e7a do tabaco, roupas especiais e as plantas alucin\u00f3genas (19). Existem in\u00fameros relatos que confirmam a import\u00e2ncia que os tupinamb\u00e1s davam \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com os esp\u00edritos . Yves D&#8217;Evreux (20) cita que o paj\u00e9 convertido ao cristianismo disse-lhe : &#8221; (&#8230;) quando exercia a pajel\u00e2n\u00e7a era visitado por numerosos esp\u00edritos galhoteiros Voavam a sua frente, ao encontrar-se ele na mata, tomando v\u00e1rias cores. Mas n\u00e3o lhe faziam nenhum mal e, por isso, procurava familiarizar-se com os mesmos&#8221;. Esta rela\u00e7\u00e3o que algumas pessoas privilegiadas t\u00eam de falarem com as almas dos mortos parece ser uma cren\u00e7a universal. Nos dias atuais, os esp\u00edritas Kardecistas, principalmente na Am\u00e9rica Latina, se re\u00fanem em sess\u00f5es de cunho m\u00edtico-religioso durante as quais os esp\u00edritos dos m\u00e9dicos mortos prescrevem recomenda\u00e7\u00f5es para os doentes atrav\u00e9s de um agente que se chama <strong>medium<\/strong>. Al\u00e9m deles existem in\u00fameros grupos e seitas esot\u00e9ricas que se utilizam do mesmo expediente para solicitar vantagens pessoais. N\u00e3o h\u00e1 motivo para que se supor que a rela\u00e7\u00e3o que os tupinamb\u00e1s estabeleceram com os esp\u00edritos dos mortos tenham sido um produto do sincretismo com o cristianismo do conquistador. \u00c9 prov\u00e1vel que esta cren\u00e7a j\u00e3 estivesse presente na sociedade tupinamb\u00e1 antes da chagada do europeu. Foram estes \u00faltimos que associaram o universo tupinamb\u00e1 \u00e0 doutrina crist\u00e3 cintida nos Evangelhos. Os livros Sagrados da tradi\u00e7\u00e3o judaica-crist\u00e3 s\u00e3o modestos quando citam a vida depois da morte . Apesar das refer\u00eancias que expressam a convic\u00e7\u00e3o de que o homem depois da morte n\u00e3o \u00e9 reduzido a nada (Gen 42,13; Jer 31,15; Jo 7,21; Si 39,14), a id\u00e9ia de como seris este renascimento s\u00e3o vagas e superficiais. No Novo testamento do meesmo modo est\u00e1 presente a influ\u00eancia do judaismo. Segundo Mt 12,40; At 2,27; Rom 10,7; ICor 15,55, todos descem depois da morte para o reino da morte. Em Lc 19-31 \u00e9 mencionada uma morada especial para os justos chamado <strong>seio de Abra\u00e3o<\/strong>, diferente do lugar onde os pescadores s\u00e3o punidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este aspecto deve ter confundido muitos os brancos que, ao come\u00e7arem a compreender a sociedade tupinamb\u00e1, viram a completa hierarquiza\u00e7\u00e3o da vida da morte que compunha o universo m\u00edtico deles. \u00c9 importante o entendimento pr\u00e9vio desta quest\u00e3o porque ela justificou a atitude do conquistador em substituir as antigas concep\u00e7\u00f5es de vida\\morte e sa\u00fade~doen\u00e7a dos \u00edndios por outras que integravam o conjunto cultural europeu renascentista. \u00c9 da mesma forma bom lembrar que naquela \u00e9poca a igraja estava intimamente ligada ao Estado e possuia religiosos com forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para destruir e bubstituir a cultura dos povos que pretendiadominar. os colonos mission\u00e1rios recebiam a <strong>congrua,<\/strong> esp\u00e9cie de saj\u00e1rio pago pelo Estado. Os colonizadores j\u00e1 tinham entendido que era preciso aniquilar todas as cren\u00e7as anteriores para inroduzir a nova relig\u00e3o e com isto consolidar com efic\u00e1cia a\u00a0 domina\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria tinha como primeiro objetivo facilitar a coloniza\u00e7\u00e3o. O paj\u00e9 era o grande obst\u00e1culo a este objetivo, pela sua importante posi\u00e7\u00e3o no conjunto social tupinamb\u00e1. A maior parte das religi\u00f5es dos \u00edndios americanos do sul se relaciona com diferentes categorias de esp\u00edritos e, em alguns casos, estes est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o mais destacada que as divindades. Talvez por esta raz\u00e3o a conviv\u00eancia, comunica\u00e7\u00e3o e o controle destes esp\u00edritos necessitem de uma categoria especial, provida de poderes \u00fanicos, capaz de, entre outras qualidades, causar doen\u00e7as e de curar. A sacraliza\u00e7\u00e3o de animais , plantas e coisas caminha junto do poder do paj\u00e9. Qualquer objeto que seja investido da for\u00e7a sobrenatural pode ser utilizado como rem\u00e9dio para ajudar na cura. A maioria delas possui realmente propriedades farmatol\u00f3gicas j\u00e1 comprovadas e eram usadas como fruto da experi\u00eancia emp\u00edrica de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Os estudos antropol\u00f3gicos e etnol\u00f3gicos recentes mostram determinados grupos acreditando que o homem tem uma ou mais almas capazes de se mostrarem em outros animais. Esta compreens\u00e3o \u00e9 mais comum nos ca\u00e7adores. Nestes, os paj\u00e9s s\u00e3o capazes de se transformarem em qualquer animal. As curas provocadas\u00a0 pelo paj\u00e9 eram atribu\u00eddas aos esp\u00edritos. O interessante \u00e9 qque quase todas as cerim\u00f4nias rituais de cura utilizadas por eles inclu\u00eda o <strong>sopr, <\/strong>como fonte de vida e de sa\u00fade. A aten\u00e7\u00e3o dada ao sopro tamb\u00e9m parece ter car\u00e1ter universal. No Velho Testamento a palavra hebraica <strong>ru\u00e3h <\/strong>significa originariamente como tamb\u00e9m em grego e latim, <strong>spiritus<\/strong>, ar em movimento, portanto h\u00e1lito ou vento. Existem algumas d\u00favidas de que o sentido de <strong>h\u00e1lito <\/strong>tenha aparecido a partir do s\u00e9culo V a.C. Desta forma podemos compreender o esp\u00edrito com respira\u00e7\u00e3o sinal de vida. O <strong>ru\u00e3h<\/strong> \u00e9 sopro de vida (gen 6,17; 7,15;22; Ez 37,10-14 e outros). No Novo Testamento permaneceu o mesmo sentido. \u00c9 poss\u00edvel que tenha sido atrav\u00e9s da b\u00edbliaque o colonizador tenha dado o mesmo sentido ao sopro do paj\u00e9 tupinamb\u00e1. este poder contido no sopro do paj\u00e9 era t\u00e3o grande que por si s\u00f3 era suficiente para iniciar outros paj\u00e9s; &#8221; Fazem muitos disc\u00edpulos comunicando esse seu esp\u00edrito a outros com os de fumar e soprar, e \u00e0s vezes e isto de maneira que o que recebe tal esp\u00edrito treme e sua grandissimamente&#8221; (21) Eles tamb\u00e9m utilizavam o tabaco para aumentar a for\u00e7a transcendente do sopro. Este costume foi conservado em diferentes grupos da Am\u00e9rica do Sul ou coexiste com a utiliza\u00e7\u00e3o simult\u00e2ni ade plantas alucin\u00f3genas. O tabaco aparece com diferentes nomes entre os cronistas: Petum (Thevet), Pyryma (Lery), Bettin (Staden) e Petigma (Fern\u00e3o Cardim). Todos eles reconheceram a import\u00e2ncia do tabaco nas cerim\u00f4nias rituais. D&#8217;Evreux associou o sopro da pajel\u00e2nca com os gestos de Jesus Cristo: &#8221; Al\u00e9m das \u00e1guas de lustra\u00e7\u00f5es, e diab\u00f3licas ablus\u00f5es praticadas por estes feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo esp\u00edrito aos outros, isto \u00e9, por meio da\u00a0 herva Petun introduzida n&#8217;u cani\u00e7o, de que elles pucham a fuma\u00e7a, lan\u00e7ando-as sob os circundantes ou soprando-a mesmo na canna, exportando-os a receber seo esp\u00edrito e sua virtude. Parece que este caltelloso drag\u00e3o quer com tal cerim\u00f4nia falsa imitar Jesus Christo quando deo seo\u00a0 esp\u00edritos aos ap\u00f3stolos, e o seo poder aos seos sucessores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas. Assim l\u00ea em S\u00e3o Jo\u00e3o: soprou sobre eles e lhes disse &#8211; Recebei o Esp\u00edrito Santo. D&#8217;onde\u00a0 estes feiticeiros tiraram esta cerim\u00f4nia sat\u00e2nica, si o diabo n\u00e3o ih&#8217;as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n&#8217;esta grande e vasta regi\u00e3o do Brasil, sem comunica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie alguma com o velho mundo, como poderiam aprendel-a de outro modo?&#8221; (22).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 ineg\u00e1vel que em diferentes passagens que em diferentes passagens escritsa pelos cronistas est\u00e1 presente a compara\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos s\u00f3cio-culturais dos tupinamb\u00e1s com descri\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. \u00c9 claro que os narradores viram os acontecimentos. Em seguida eles os descreveram impregnados com os ju\u00edzos de valores. Como doen\u00e7a e o doente podem ser considerados como categorias sociais, cada sociedade lhes d\u00e1 o seu pr\u00f3prio tratamento. Este conjunto complexo e heterog\u00eabio envolve a pr\u00f3pria luta pela sobreviv\u00eancia e contribui para refor\u00e7ar a coes\u00e3o e a ordem social. Desta forma o controle da doen\u00e7a e dos imprevistos da Natureza foram fatores pol\u00edticos imprtantes que atuaram como mecanismo de escape das tens\u00f5es internas e externas dos tupinamb\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por esta raz\u00e3o, os paj\u00e9s n\u00e3o se limitavam a tratar somente as doen\u00e7as, mas toda a comunidade. A partir do momento em que o colonizador desacreditou o seu poder aglutinador, a sociedade ruim como um todo, porque foi estacelado o seu universo m\u00edtico que a equilibrava e nutria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">LEITURA COMPLEMENTAR<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">17 &#8211; D&#8217;ABBEVILLE, Claude, op. cit; p.246-7<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">18 &#8211; Esta id\u00e9ia \u00e9 apresentada por Egon Schaden, op. cit., p. 379 como o<strong> quid<\/strong> maligno, exatamente igual a Estev\u00e3o Pinto in Alfred Metraux, op. cit., p.7.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">19 &#8211; Para maiores informa\u00e7\u00f5es sobre o uso das plantas alucin\u00f3genas nos rituais de diferentes grupos ind\u00edgenas das am\u00e9ricas ver SANGIRARDI Jr. <strong>O \u00edndio e as plantas alucin\u00f3genasa.<\/strong> Rio de Janeiro, Editorial Alhambra, 1983, 207 pp.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">20 &#8211; D&#8217;EVREUX, Yves, citado por Alfred Metraux, op. cit,. p. 68.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">21 &#8211; ANCHIETA, citado por Alfred Metraux, op. cit,. p.71.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">22 &#8211; SANGIRARDI Jr., op. cit., p. 103.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Prof.Dr.HC. 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