{"id":2350,"date":"2016-03-06T10:14:30","date_gmt":"2016-03-06T14:14:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2350"},"modified":"2016-03-06T10:14:30","modified_gmt":"2016-03-06T14:14:30","slug":"intervencao-curadora-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2350","title":{"rendered":"INTERVEN\u00c7\u00c3O CURADORA DO HOMEM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palopatologia dos f\u00f3sseis mostra que os homens e mulheres pr\u00e9-hist\u00f3ricos estavam sujeitos \u00e0s doen\u00e7as semelhantes as que n\u00f3s, na atualidade, continuamos enfrentando. A fratura traum\u00e1tica constituiu uma das doen\u00e7as mais frequentes nos f\u00f3sseis estudados, em algumas delas, foram confirmados sinais evidentes de infec\u00e7\u00e3o do osso, a osteomielite, lembrando as encontradas nos hospitais de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m se comprovou a exist\u00eancia de doen\u00e7as n\u00e3o traum\u00e1ticas, como a gota das cavernas, uma esp\u00e9cie de reumatismo. O p\u00f3len de Nen\u00fafar, designa\u00e7\u00e3o de diversas plantas da fam\u00edlia das ninfe\u00e1ceas, capazes de determinar rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica nos dias atuais, existe desde o Pleistoceno M\u00e9dio, isto \u00e9, h\u00e1 mais de 100.000 anos. A tuberculose \u00f3ssea na coluna vertebral, problema m\u00e9dico em muitos pa\u00edses, inclusive no Brasil, est\u00e1 documentado no esqueleto de homem do per\u00edodo Neol\u00edtico, constituindo, sem d\u00favida, o primeiro exemplar m\u00e9dico dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ocorr\u00eancia de mol\u00e9stias na pr\u00e9-hist\u00f3ria \u00e9 indiscut\u00edvel. Por\u00e9m, interessa conhecer como os homens primitivos iniciaram a luta para controlar a dor, conservar a sa\u00fade e empurrar os limites da vida. Desse modo, \u00e9 importante relembrar que certos animais, quando feridos, lambem os ferimentos; outros mam\u00edferos, promovem limpeza m\u00fatua dos pelos e comem plantas que provocam v\u00f4mitos. \u00c9 prov\u00e1vel que o homem primitivo tivesse se comportado da mesma maneira: lambendo o machucado e pressionando o local para interromper a hemorragia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdura a quest\u00e3o da exist\u00eancia de ritual m\u00e1gico, na pr\u00e9-hist\u00f3ria, ligado \u00e0s concep\u00e7\u00f5es m\u00edticas, na busca de cura das doen\u00e7as. Na gruta de &#8220;Trois Fr\u00e9res, nos Pirineus franceses, est\u00e1 a pintura rupestre de um personagem em movimento de dan\u00e7a, datando de 10.000 anos, travestido de cervo, em atitude que sugere uma esp\u00e9cie de ritual, semelhante \u00e0 dan\u00e7a dos bis\u00f5es, dos \u00edndios do norte dos Estados Unidos, e a dos \u00edndios tukanos, no norte do Amazonas, ambas utilizadas em cerim\u00f4nias simbolizando o poder animal na cura das doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto das informa\u00e7\u00f5es paleopatol\u00f3gicas, no Neol\u00edtico, sugere fortemente a gradual incorpora\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos emp\u00edricos estruturando a a\u00e7\u00e3o intencional do homem sobre outro homem. Essas atitudes, algumas vezes agressivas, como a trepana\u00e7\u00e3o do cr\u00e2nio, \u00a0a abertura dos ossos do cr\u00e2nio. Essa extraordin\u00e1ria pr\u00e1tica \u00e9 facilmente comprovada por meio do estudo dos f\u00f3sseis. E mais, alguns desses homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos submetidos a essa cirurgia sobreviveram muito tempo, comprovado pelo crescimento do osso cortado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante assinalar, sem que existam explica\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis, que as trepana\u00e7\u00f5es, realizadas no Neol\u00edtico europeu, tamb\u00e9m foram executadas at\u00e9 o s\u00e9culo 16, em sociedades que n\u00e3o tiveram contato inter-\u00e9tnico, como as da Polin\u00e9sia Francesa e as do altiplano peruano pr\u00e9-colonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora das d\u00favida por que as craniotomias foram realizadas, n\u00e3o se pode negar que representou algo absolutamente extraordin\u00e1rio, na medida em que uma parte do corpo, o conte\u00fado do cr\u00e2nio, foi exposto intencionalmente, desvendando o escondido atr\u00e1s da pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa demonstra\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de poder \u2013 o homem intervindo no corpo de outro homem \u2013 resultaria em grande destaque no grupo social. Respeitando as devidas propor\u00e7\u00f5es, essa rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o do curador sobre o objeto da sua pr\u00e1tica \u2013 o doente \u2013, sob alguns aspectos, perdura at\u00e9 os dias atuais como um dos instrumentos da at\u00e1vica fuga da dor e a preserva\u00e7\u00e3o da vida. Pode ter sido um dos pilares sustentadores que edificaram o homem primitivo no processo de assimila\u00e7\u00e3o dos saberes para evitar a dor e a morte, capaz de impulsionar o \u00edmpeto para desvendar o invis\u00edvel, como primeiro passo ao aperfei\u00e7oamento da linguagem e da transmiss\u00e3o dos saberes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho A palopatologia dos f\u00f3sseis mostra que os homens e mulheres pr\u00e9-hist\u00f3ricos estavam sujeitos \u00e0s doen\u00e7as semelhantes as que n\u00f3s, na atualidade, continuamos enfrentando. 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