{"id":241,"date":"2012-03-18T14:27:29","date_gmt":"2012-03-18T18:27:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=241"},"modified":"2016-03-06T09:52:54","modified_gmt":"2016-03-06T13:52:54","slug":"medicina-como-paideia-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=241","title":{"rendered":"Medicina como Paideia II"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><strong>Medicina como Paideia II<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><strong>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SxaFNKO0MjI\/AAAAAAAACXs\/tlluSQc31q0\/s1600-h\/Empedokles.jpg\"><img decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5410658463463518770\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SxaFNKO0MjI\/AAAAAAAACXs\/tlluSQc31q0\/s400\/Empedokles.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Emp\u00e9docles de Agrigento, autor da Teoria dos Quatro Elementos.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\">A associa\u00e7\u00e3o entre as id\u00e9ias da Escola M\u00e9dica de C\u00f3s, sob a lideran\u00e7a de Hip\u00f3crates, com a filosofia j\u00f4nica, sem d\u00favida, possibilitou um avan\u00e7o de dimens\u00f5es gigantescas \u00ad\u2014 a Medicina como Paideia \u2014 estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca da etiologia das doen\u00e7as ao diagn\u00f3stico, tratamento e progn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Desse modo, a Medicina como Paideia abriu o caminho para a domina\u00e7\u00e3o da medicina-oficial sobre a medicina-divina e a medicina-emp\u00edrica. \u00c9 poss\u00edvel que com esse objetivo central, os conceitos j\u00f4nicos da natureza tornaram-se as principais medidas da medicina-oficial. As normas alcan\u00e7aram os significantes das enfermidades entendendo-as como desvios da natureza e em maior amplitude, mudan\u00e7a na <em>physis<\/em> do homem.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel compor cinco alicerces fundamentais da <em>physis<\/em> embutidos na Medicina como Paideia:<br \/>\n&#8211; Como universalidade e individualidade: todas as coisas t\u00eam a sua physis pr\u00f3pria, os astros, os ventos, as \u00e1guas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doen\u00e7as (<em>Das Epidemias<\/em>, distingue: \u201c&#8230;a <em>physis<\/em> comum de todas as coisas, da <em>physis<\/em> pr\u00f3pria de cada coisa\u201d;<br \/>\n&#8211; Como princ\u00edpio: a <em>physis <\/em>\u00e9 o princ\u00edpio (arkh\u00e9) de tudo que existe (<em>Sobre os Lugares e o Homem<\/em>, l\u00ea-se: \u201cA physis do corpo \u00e9 o princ\u00edpio da raz\u00e3o da Medicina\u201d).<br \/>\n&#8211; Como harmonia: na sua apar\u00eancia e na sua din\u00e2mica a <em>physis<\/em> \u00e9 harmoniosa; \u00e9 a ordem que se realiza com beleza. A natureza \u00e9 harmoniosa e produz harmonia;<br \/>\n&#8211; Como racionalidade: a natureza \u00e9 racional em si mesma. Por esta raz\u00e3o existe uma fisiologia; a ci\u00eancia na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;<br \/>\n&#8211; Como divindade: a <em>physis<\/em> \u00e9 em si mesma divina.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que esse car\u00e1ter divino da <em>physis<\/em> estivesse transparecendo a necessidade de o senso comum manter a medicina-oficial ligada \u00e0 medicina-divina e \u00e0 medicina-emp\u00edrica ou, sob outra perspectiva, n\u00e3o ser poss\u00edvel a completa separa\u00e7\u00e3o entre as tr\u00eas medicinas.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Gr\u00e9cia, do s\u00e9culo 4 a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da sa\u00fade, em especial, ao deus Ascl\u00e9pio, os m\u00e9dicos de C\u00f3s e os fil\u00f3sofos estabeleceram elos duradouros entre o bin\u00f4mio sa\u00fade-doen\u00e7a com a natureza circundante, como est\u00e1 presente na introdu\u00e7\u00e3o do manuscrito <em>Dos Ventos, \u00c1guas e Regi\u00f5es<\/em>, de autor desconhecido, escrito no s\u00e9culo 4 (Daremberg. <em>Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate<\/em>. Paris. Labe \u00c9diteur. 1855. p. 1050):<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\n<em>Quem quiser aprender bem a arte de m\u00e9dico deve proceder assim: em primeiro lugar, deve ter presentes as esta\u00e7\u00f5es do ano e os seus efeitos, pois nem todas s\u00e3o iguais mas diferem radicalmente quanto \u00e0 sua ess\u00eancia especificada e quanto \u00e0s suas mudan\u00e7as. Deve ainda observar os ventos quentes e frios, come\u00e7ando pelos que s\u00e3o comuns a todos os homens e continuando pelas caracter\u00edsticas de cada regi\u00e3o. Deve ter presente tamb\u00e9m os efeitos dos diversos g\u00eaneros de \u00c1guas. Estas distinguem-se n\u00e3o s\u00f3 pela densidade e pelo saber, mas ainda por suas virtudes. Quando um m\u00e9dico chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posi\u00e7\u00e3o que ela ocupa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00e1rias correntes de ar, ao curso de sol (&#8230;) assim como anotar o que se refere \u00e0s \u00e1guas (&#8230;) e \u00e0 qualidade do solo (&#8230;) Se conhecer o que diz respeito \u00e0 mudan\u00e7a das esta\u00e7\u00f5es e do clima, o nascimento e o ocaso dos astros, conhecer\u00e1 antecipadamente a qualidade do ano. Pode ser que algu\u00e9m considere isto demasiadamente orientado para a ci\u00eancia, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudan\u00e7a nas doen\u00e7as do homem, est\u00e1 relacionada com a mudan\u00e7a do clima.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\">\nAs doen\u00e7as deixaram de ser compreendidas isoladas e passaram a compor parte da busca da etiologia. Esse \u00e9 um dos pontos fundamentais da medicina-oficial grega, do s\u00e9culo 4, marcando a uni\u00e3o entre a filosofia j\u00f4nica e os conceitos de sa\u00fade e de doen\u00e7a. Entre as muitas consequ\u00eancias \u00e9 poss\u00edvel identificar:<br \/>\n&#8211; Cada doente ficou compreendido como um doente, diferente de todos os outros;<br \/>\n&#8211; Desaparecimento gradual da receita m\u00e9dica que valia para todos, como uma receita de bolo.<\/p>\n<p>O centro de conflu\u00eancia dessa nova estrutura aproximou-se da teoria dos Quatro Elementos, do fil\u00f3sofo e m\u00e9dico Emp\u00e9docles (495-435 a.C.). Segundo esse magistral fil\u00f3sofo de Agrigento, os corpos s\u00e3o formados por quatro elementos eternos que permanecem em constante movimento: fogo, terra, \u00e1gua e ar.<\/p>\n<p>Estava em curso, pela primeira vez, uma proposta te\u00f3rica para explicar a origem das doen\u00e7as, divorciada dos deuses e deusas. Toda e qualquer enfermidade seria consequ\u00eancia do desequil\u00edbrio entre um ou mais elementos.<\/p>\n<p>Como toda mudan\u00e7a profunda nos saberes, a passagem da medicina-divina e da medicina-emp\u00edrica, ambas amet\u00f3dicas, mais ou menos m\u00e1gicas, para a medicina-oficial met\u00f3dica, unindo o diagn\u00f3stico, progn\u00f3stico e o tratamento valorizando a busca da etiologia, encontrou resist\u00eancia em muitos setores da sociedade grega. Para contornar esses estorvos, os m\u00e9dicos expunham, como os sofistas, perante o p\u00fablico, os problemas determinados pelas doen\u00e7as que poderiam causar a morte e a dor fora de controles.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 demais repetir que Plat\u00e3o, sistematizou o pensamento corrente da \u00e9poca ao descrever a nova postura do m\u00e9dico e do pol\u00edtico. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam sempre que necess\u00e1rio, intervir na sociedade para promover melhoras. O di\u00e1logo plat\u00f4nico estabelece alguns par\u00e2metros da nova posi\u00e7\u00e3o social do m\u00e9dico atuando como agente da Medicina como Paideia no magistral <em>Pol\u00edtico<\/em> (296a-b-c) (Platon. <em>Oeuvres Compl\u00e8tes<\/em>. Paris. Gallimard. Biblioth\u00e8que de la Pl\u00e9iade. 1950. v.1, v.2.):<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\n<em>Estrangeiro: \u2014 \u00c9 interessante. Dizem, com efeito, que se algu\u00e9m conhece leis melhores que as existentes n\u00e3o tem o direito de d\u00e1-las \u00e0 sua pr\u00f3pria cidade sen\u00e3o o que for necess\u00e1rio para promover melhoras na sociedade. <\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\nS\u00f3crates, o Jovem: \u2014 Muito bem! N\u00e3o estar\u00e3o eles certos?<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\nEstrangeiro: \u2014 Talvez. Em todo o caso, se algu\u00e9m dispensa esse consentimento e imp\u00f5e a reforma pela for\u00e7a, que nome se dar\u00e1 a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos precedentes.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\nS\u00f3crates, o Jovem: \u2014 Que queres dizer?<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\nEstrangeiro: \u2014 Suponhamos um m\u00e9dico que n\u00e3o procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, imp\u00f5e a uma crian\u00e7a, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, n\u00e3o importando os preceitos escritos. Que nome se dar\u00e1 a essa viol\u00eancia? Seria por acaso o de viola\u00e7\u00e3o da arte e erro pernicioso? E a v\u00edtima dessa coer\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas e ineptas por parte de m\u00e9dicos que as impuseram?<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\nS\u00f3crates, o Jovem: \u2014 Dizes a pura verdade.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><br \/>\nEstrangeiro: \u2014 Ora, como chamar\u00edamos aquele que peca contra a arte pol\u00edtica? N\u00e3o o qualificar\u00edamos de odioso, mau e injusto?<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\">\nA autoridade de Plat\u00e3o n\u00e3o foi suficiente para estancar as resist\u00eancias dos curadores da medicina-divina e da medicina-emp\u00edrica, que muito mais numerosos do que os m\u00e9dicos de C\u00f3s, promoveram manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas contra a nova for\u00e7a da Medicina como Paideia junto ao poder pol\u00edtico.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medicina como Paideia II Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho Emp\u00e9docles de Agrigento, autor da Teoria dos Quatro Elementos. 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