{"id":243,"date":"2012-03-18T14:28:15","date_gmt":"2012-03-18T18:28:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=243"},"modified":"2016-03-06T09:52:46","modified_gmt":"2016-03-06T13:52:46","slug":"medicina-como-paideia-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=243","title":{"rendered":"Medicina como Paideia III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Medicina como Paideia III<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><strong>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p>O corte separando o antes e o depois, nos saberes da Medicina como Paideia, encontra-se no livro Das Doen\u00e7as Sagradas, de autor desconhecido, do s\u00e9culo 4 a.C.:<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em>Quanto \u00e0 doen\u00e7a que n\u00f3s chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela n\u00e3o me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doen\u00e7as e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribu\u00edram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignor\u00e2ncia e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha \u00e0s outras.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">Pela primeira vez, uma enfermidade foi explicitamente assentada no dom\u00ednio da <em>t\u00e9khne<\/em>, ap\u00f3s ser retirada do dom\u00ednio dos deuses e deusas curadoras. N\u00e3o \u00e9 demais repetir que tamb\u00e9m nessa \u00e9poca, na ilha de C\u00f3s, ocorreu o \u00e1pice da medicina-oficial grega. O genial Hip\u00f3crates, o principal representante da Escola de Medicina de C\u00f3s, foi reconhecido como o marco nos saberes m\u00e9dicos por Plat\u00e3o (Prot\u00e1goras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Arist\u00f3teles (<em>La Politique<\/em>. Paris. J. Vrin. 1989. p. 484).<\/p>\n<p>Os integrantes da Escola de C\u00f3s constru\u00edram o maior legado da Medicina como Paideia: <strong>a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemol\u00f3gico da Medicina<\/strong>. Na realidade, a proposta te\u00f3rica uniu elementos reconhecidos da Filosofia e da Medicina. Para cada elemento de Emp\u00e9docles foi associada uma categoria te\u00f3rica, capaz de unir com coer\u00eancia as qualidades da natureza com as do corpo.<\/p>\n<p>A teoria dos Quatro Humores, atribu\u00edda a Pol\u00edbio, est\u00e1 descrita no manuscrito<em> Da Natureza do Homem<\/em> (Daremberg. <em>Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate<\/em>. Paris. Labe \u00c9diteur. 1855:<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em>O corpo humano cont\u00e9m sangue, fleuma, b\u00edlis amarela e b\u00edlis negra, que estes elementos constituem a natureza do corpo e s\u00e3o respons\u00e1veis pelas dores que se sentem e pela sa\u00fade que se goza. A sa\u00fade atinge o seu m\u00e1ximo quando estas coisas est\u00e3o na devida propor\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o umas \u00e0s outras, no que toca \u00e0 sua composi\u00e7\u00e3o, for\u00e7a e volume al\u00e9m de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando h\u00e1 excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturadas com as outras.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\">\nA Medicina como Paideia saltou do dom\u00ednio casual e amet\u00f3dico para o m\u00e9todo constru\u00eddo em torno da busca da etiologia nos desequil\u00edbrios dos humores. O diagn\u00f3stico acompanhava o progn\u00f3stico e a terap\u00eautica para identificar o excesso ou da falta do humor desequilibrado. Como consequ\u00eancia, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomit\u00f3rios, sudoreses, diureses, diarreias e sangrias. O progn\u00f3stico se materializava na boa ou na aus\u00eancia de resposta \u00e0 terap\u00eautica.<\/p>\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o da teoria dos Quatro Humores por alguns m\u00e9dicos da Escola de C\u00f3s, n\u00e3o atenuou os embates com alguns fil\u00f3sofos, em certa medida, defensores da medicina-emp\u00edrica e da medicina-divina, ambas livres das medidas de mensura\u00e7\u00f5es impostas pelo entendimento j\u00f4nico da natureza.<\/p>\n<p>Esses conflitos aparecem em dois textos:<br \/>\n&#8211; O fil\u00f3sofo Her\u00e1clito de \u00c9feso (540-470), de genialidade exclusiva, \u00e9 contundente na antipatia aos m\u00e9dicos (<em>Os Pr\u00e9-Socr\u00e1ticos: fragmentos, doxografia e coment\u00e1rios<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297: \u201cOs m\u00e9dicos, quando cortam, queimam, e de todo o modo torturam os pacientes, ainda reclamam um sal\u00e1rio que n\u00e3o merecem, por efetuarem o mesmo que as doen\u00e7as\u201d;<br \/>\n&#8211; O autor desconhecido de <em>Sobre a Medicina Antiga<\/em>, do s\u00e9culo 4 a.C., testemunha certo conflituoso entre alguns m\u00e9dicos e fil\u00f3sofos, no qual repudiaram de maneira enf\u00e1tica, a generaliza\u00e7\u00e3o de todas as doen\u00e7as estarem estritamente ligadas somente aos quatro elementos de Emp\u00e9docles: (DAREMBERG, 1855. <em>Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate<\/em>. Paris. Labe \u00c9diteur. 1855: \u201c1. Que no caso de um doente afetado por uma alimenta\u00e7\u00e3o crua e curado por uma alimenta\u00e7\u00e3o cozida, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer o que foi eliminado da direita, se o calor, se o frio, se a umidade ou a secura; 2. Que n\u00e3o existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar \u00e1gua quente ou vinho quente ou lente quente e a \u00e1gua o vinho e o leite tem propriedades diferentes que ser\u00e3o mais eficazes do que o calor\u201d.<\/p>\n<p>Em alguns trechos da mesma obra, Hip\u00f3crates tamb\u00e9m sustenta que o corpo humano \u00e9 composto por grande n\u00famero de coisas de naturezas diversas: salinas, amargas, doces, \u00e1cidas, adstringentes, ins\u00edpidas etc.; e n\u00e3o s\u00f3 de quatro componentes. Essa posi\u00e7\u00e3o hipocr\u00e1tica \u00e9 intrigante porque, em \u00faltima an\u00e1lise, pode ser entendida como resist\u00eancia \u00e0 teoria dos Quatro Humores do genro Pol\u00edbio.<\/p>\n<p>De certo modo, a contesta\u00e7\u00e3o hipocr\u00e1tica traduz o conflito que alcan\u00e7ou outros fil\u00f3sofos para reduzir a sa\u00fade e a doen\u00e7a somente aos quatro determinantes da teoria doa Quatro Humores (sangue, fleuma, b\u00edlis amarela e b\u00edlis negra). \u00c9 poss\u00edvel que os m\u00e9dicos da Escola M\u00e9dica de C\u00f3s tenham sofrido influ\u00eancia de Alcm\u00e9on, fil\u00f3sofo e m\u00e9dico de Crotona, no Sul da It\u00e1lia, que admitia um grande n\u00famero de for\u00e7as atuando nos corpos (Thivel, Antoine. <em>Cnide et C\u00f3s?<\/em> Paris. Les Belles Lettres. 1981. p. 289-383). No livro <em>Da Natureza do Homem<\/em>, atribu\u00eddo a Pol\u00edbio, na mesma \u00e9poca, ressalta as id\u00e9ias de Alcm\u00e9on (Jouanna, J. <em>Hippocrate et l\u2019\u00c9cole de Cnide<\/em>. Paris. Les Belles Lettres. 1974 p. 137- 174), o defensor da ideia de a sa\u00fade ser dependente do equil\u00edbrio de m\u00faltiplas for\u00e7as din\u00e2micas e a doen\u00e7a seria o predom\u00ednio de uma sobre as outras.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o (Rep\u00fablica 407b-c-d-e) adotou o modelo m\u00e9dico dos tempos hom\u00e9ricos. \u00c9 poss\u00edvel que essa leitura plat\u00f4nica tenha contribu\u00eddo para ativar o conflito de compet\u00eancia entre a Medicina, voltada \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o da natureza por meio da <em>t\u00e9khne<\/em>, e a religi\u00e3o. Em aparente contradit\u00f3rio, Plat\u00e3o retoma a Medicina como <em>t\u00e9hkne <\/em>ao distinguir as diferen\u00e7as entre as pr\u00e1ticas Medicinais entre pobres e ricos. O fil\u00f3sofo critica o modo como os m\u00e9dicos dos escravos correm de um paciente para outro e d\u00e3o instru\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas sem falar com os doentes e os compara com os m\u00e9dicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e):<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em>Se um deles ouvisse falar um m\u00e9dico livre a pacientes livres, em termos muito aproximados das confer\u00eancias cient\u00edficas, explicando como concebe a origem da doen\u00e7a e elevando-se a natureza de todos os corpos, morreria de rir e diria no que a maioria das pessoas chamadas m\u00e9dicos replica prontamente em tais casos: \u2014 O que fazes, n\u00e9scio, n\u00e3o \u00e9 curar o teu paciente, mas ensin\u00e1-lo como se a tua miss\u00e3o n\u00e3o fosse devolver-lhe a sa\u00fade, mas fazer dele m\u00e9dico.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\">\nEm certos aspectos, m\u00e9dicos e fil\u00f3sofos estavam de acordo. Tanto Plat\u00e3o (Platon. <em>Oeuvres Compl\u00e8tes<\/em>. Paris: Ed. Gallimard. Biblioth\u00e8que de la Pl\u00e9iade. 1950. v.1, v.2. Banquete, 186-187) quanto Hip\u00f3crates (Darembrg. <em>Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate<\/em>. Paris: Labe \u00c9diteur. 1855), reconheceram como insofism\u00e1vel a obriga\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade. Arist\u00f3teles (Aristote. <em>La Politique<\/em>. Paris: J.Vrin. 1989. I, 11, 1282) vai mais longe e distingue o m\u00e9dico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espa\u00e7o que cada um pode ocupar nas suas fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da medicina-oficial com a natureza que os gregos t\u00e3o bem assimilaram ao atingir o social, em sistemas de valores e respostas claramente configurados, refor\u00e7ava-se como Paideia. Nesta perspectiva, foi evocada por S\u00f3lon ao descrever os elos entre as doen\u00e7as pessoais e coletivas com a desorganiza\u00e7\u00e3o social. Baseado nesta rela\u00e7\u00e3o, esse legislador fundamentou parte do seu pensamento pol\u00edtico afirmando que as crises pol\u00edticas interferiam na qualidade da sa\u00fade de uma popula\u00e7\u00e3o.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medicina como Paideia III Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho O corte separando o antes e o depois, nos saberes da Medicina como Paideia, encontra-se no livro Das Doen\u00e7as Sagradas, de autor desconhecido, do s\u00e9culo 4 a.C.: Quanto \u00e0 doen\u00e7a que n\u00f3s &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=243\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-243","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=243"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2271,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/243\/revisions\/2271"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}