{"id":245,"date":"2012-03-18T14:29:12","date_gmt":"2012-03-18T18:29:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=245"},"modified":"2016-03-06T09:52:39","modified_gmt":"2016-03-06T13:52:39","slug":"medicina-como-paideia-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=245","title":{"rendered":"Medicina como Paideia IV"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Medicina como Paideia IV<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><strong>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/em><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p>Plat\u00e3o (G\u00f3rgias 464b, 465a, 501) utilizou parte da estrutura te\u00f3rica da medicina-oficial grega como instrumento para compor algumas linhas mestras da sua concep\u00e7\u00e3o \u00e9tico-filos\u00f3fica. Nesse genial processo, estabeleceu valor significante \u00e0 verdadeira <em>t\u00e9khne<\/em>, como forma de conhecimento na natureza do objeto destinado a servir ao homem.<\/p>\n<p>Os conceitos plat\u00f4nicos confirmaram o m\u00e9dico como a pessoa que, baseada no que sabe sobre a natureza do homem sadio, conhece tamb\u00e9m o contr\u00e1rio, o homem doente, e competente para encontrar os meios para restitu\u00ed-lo \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Com base neste modelo, Plat\u00e3o tra\u00e7ou a imagem do fil\u00f3sofo tendo a mesma fun\u00e7\u00e3o no trato da alma. Existiu, neste ponto do pensamento plat\u00f4nico, uma semelhan\u00e7a viva entre o m\u00e9dico e o fil\u00f3sofo, ao se completarem na busca da harmonia plena do homem com a natureza.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos gregos interpretaram um dos mais complexos problemas do diagn\u00f3stico: as m\u00faltiplas formas como uma mesma doen\u00e7a pode se manifestar. Para superar o estorvo, os te\u00f3ricos das escolas de Knido e C\u00f3s viabilizaram classifica\u00e7\u00f5es descrevendo essas manifesta\u00e7\u00f5es, mas reconhecendo-as como uma doen\u00e7a (Thivel, Antoine. Cnide et C\u00f3s? Paris. Les belles Lettres. 1981). O genial dessa nova interpreta\u00e7\u00e3o, nunca antes usada, \u00e9 o fato de ter evitado o erro cometido nas medicinas-oficiais anteriores, praticadas nas primeiras cidades, onde as muitas manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas da mesma mol\u00e9stia eram consideradas doen\u00e7as diferentes. Esse m\u00e9todo foi identificado por Plat\u00e3o como disseca\u00e7\u00e3o ou divis\u00e3o dos conceitos universais nas suas diferentes classes (Cornford, F. M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filos\u00f3fico grego. 2. ed. Lisboa. Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1981).<\/p>\n<p>A Medicina como Paideia tamb\u00e9m contribuiu para que Plat\u00e3o reconhecesse as tr\u00eas virtudes do corpo &#8211; sa\u00fade, beleza e for\u00e7a &#8211; que harmonizariam com as quatro virtudes da alma &#8211; piedade, valentia, modera\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>As atitudes educadoras da Medicina como Paideia ultrapassaram os limites da terap\u00eautica e inclu\u00edram a massagem, a pr\u00e1tica dos esportes, a m\u00fasica, a dan\u00e7a, o teatro e os banhos coletivos no cotidiano da busca da sa\u00fade. No texto <em>Das Epidemias<\/em> (Darember. Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate. Paris. Labe \u00c9diteur. 1855), da Escola de C\u00f3s, esta ideia est\u00e1 clara:<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em>A arte do m\u00e9dico consiste em eliminar o que causa dor e em sarar o homem, afastando o que o faz sofrer. A natureza pode por si pr\u00f3pria conseguir isto. Se sofre for estar sentado, n\u00e3o \u00e9 preciso mais que levantar-se; se sofre por se mover, basta descansar. E tal como neste caso, muitas coisas da arte do m\u00e9dico a natureza as possui em si pr\u00f3pria.<\/em><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\nTamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel sentir, ao longo do s\u00e9culo 3 a.C., o vigor da a\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ligada \u00e0 no\u00e7\u00e3o global da natureza j\u00f4nica. O livro <em>Das Epidemias<\/em> confirma os conceitos de harmonia e medida (Daremberg. Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate. Paris. Labe \u00c9diteur. 1855): \u201c &#8230; o esfor\u00e7o f\u00edsico \u00e9 o alimento para os membros e para os m\u00fasculos, o sono \u00e9 para as entranhas. Pensar \u00e9 para o homem o passeio da alma\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o m\u00e9dico era chamado para recompor a sa\u00fade, por meio de t\u00e9cnicas desconhecidas dos n\u00e3o-m\u00e9dicos. Para esse fim, utilizava os saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida da sa\u00fade. Hip\u00f3crates e os m\u00e9dicos da Escola de C\u00f3s, na obra <em>Da Medicina Antiga<\/em>, seguiram esse pressuposto ao afirmarem que o m\u00e9dico n\u00e3o pode saber de Medicina nem tratar os seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d\u2019Hippocrate. Paris. Labe \u00c9diteur. 1855: \u201c&#8230; os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Emp\u00e9docles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem \u00e9 desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos \u00e9 constitu\u00eddo\u201d.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de sa\u00fade dos gregos tamb\u00e9m envolveu a harmonia. Sendo de natureza harm\u00f4nica em si mesma, isto \u00e9, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes individuais, a sa\u00fade deveria ser procurada neste contexto da compreens\u00e3o do normal. Sob essa mesma perspectiva, Plat\u00e3o (F\u00e9don, 93e; Leis 773a; G\u00f3rgias 504c) entendeu a sa\u00fade como a ordem do corpo e Arist\u00f3teles (Aristote. \u00c9tica a Nic\u00f4maco. X 1180b) associou a multiplicidade do comportamento moral \u00e0s m\u00faltiplas dietas prescritas pelos m\u00e9dicos para as febres, mas n\u00e3o para todas as febres.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia classificat\u00f3ria do pensamento grego, especialmente o aristocr\u00e1tico, estimulou as tentativas de ordenar as doen\u00e7as em grupos que apresentassem alguma semelhan\u00e7a no diagn\u00f3stico, no tratamento e no progn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Com a literatura m\u00e9dica contendo as recomenda\u00e7\u00f5es espec\u00edficas das normas que deveriam ser obedecidas para evitar a doen\u00e7a, a medicina-oficial grega inicia outra importante contribui\u00e7\u00e3o para consolidar-se como Paideia &#8211; <strong>a sa\u00fade n\u00e3o dependeria s\u00f3 dos m\u00e9dicos<\/strong>. A dieta, a higiene, o lazer, a cultura, o esporte s\u00e3o partes do corpo s\u00e3o.<\/p>\n<p>Os hospitais constru\u00eddos nesse per\u00edodo eram grandes e possu\u00edam divis\u00f5es destinadas aos m\u00e9dicos e enfermos. O hospital da Escola M\u00e9dica, na ilha de C\u00f3s, possu\u00eda salas de exames, alojamentos individuais para os doentes, salas de banhos coletivos, pra\u00e7a de esportes e anfiteatro para dez mil pessoas. \u00c9 um dos muitos exemplos de como a arquitetura grega amparava o discurso te\u00f3rico da harmonia com a natureza na busca da sa\u00fade.<\/p>\n<p>O novo espa\u00e7o da Medicina como Paideia junto aos conceitos j\u00f4nicos com objetivos educadores, contribu\u00edram para o surgimento das mais importantes obras m\u00e9dicas destinadas ao p\u00fablico n\u00e3o m\u00e9dico. Essas obras, <em>Da Dieta, De um Regime de Vida Saud\u00e1vel e Da Natureza do Homem<\/em> cont\u00eam fant\u00e1sticas sugest\u00f5es de como deve ser a vida das pessoas para evitar as doen\u00e7as. Entre muitos aspectos, descrevem detalhes da caminhada ap\u00f3s cada refei\u00e7\u00e3o dependendo da idade e das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de cada pessoa nas diferentes esta\u00e7\u00f5es do ano.<\/p>\n<p>A palavra higiene se imp\u00f5e no sentido regulador n\u00e3o s\u00f3 da alimenta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como car\u00e1ter educativo na rotina do trabalho. A gin\u00e1stica passou a fazer parte da manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Por esta raz\u00e3o, os ginastas permaneceram independentes frente ao crescente poder m\u00e9dico nas rela\u00e7\u00f5es sociais e tamb\u00e9m conquistaram papel importante no aconselhamento do corpo sadio.<\/p>\n<p>O texto <em>De um Regime de Vida Saud\u00e1vel<\/em> se prop\u00f5e servir de guia ao p\u00fablico. O autor desconhecido estabeleceu os par\u00e2metros da cultura m\u00e9dica m\u00ednima que todos deveriam ter para permanecerem saud\u00e1veis. O objetivo central seria estabelecer, pela lei, o caminho que as pessoas deveriam seguir para evitar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito parece ser o mesmo do autor do livro <em>Da Dieta<\/em> que aborda, em quatro cap\u00edtulos, a teoria dos Quatro Humores. Se as patologias eram causados pelo desequil\u00edbrio dos humores &#8211; o sangu\u00edneo, o linf\u00e1tico, o bilioso amarelo e o bilioso negro &#8211; e estavam relacionadas com o cotidiano das pessoas, nada mais l\u00f3gico do que estabelecer normas alimentares com o intuito de evitar os males da alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A estrutura te\u00f3rica da Medicina como Paideia, na Gr\u00e9cia, no s\u00e9culo III a.C., estava t\u00e3o bem elaborada que perpassou o mundo romano. No s\u00e9culo II, o m\u00e9dico Galeno (138-201), o mais conhecido representante da medicina-oficial romano-crist\u00e3, acoplou aos humores da Escola de C\u00f3s as novas categorias denominadas temperamentos. Os escritos gal\u00eanicos, valorizados durante mais de quinze s\u00e9culos, no Ocidente crist\u00e3o, valorizava a sangria sobre todas as alternativas de tratamentos. Para cada humor haveria um temperamento que ditaria as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, de doen\u00e7a, e da capacidade intelectual de cada indiv\u00edduo:<\/p>\n<p>Humor \/ Temperamento<\/p>\n<p>Sangu\u00edneo \/ Sangu\u00edneo<br \/>\nFleuma \/ Linf\u00e1tico<br \/>\nBilioso preto \/ Melanc\u00f3lico<br \/>\nBilioso amarelo \/ Col\u00e9rico<\/p>\n<p>A imensa flexibilidade da Medicina como Paideia acabou ferida, na Idade M\u00e9dia, pela intoler\u00e2ncia restritiva exaltando a medicina-divina, onde Jesus Cristo e os Santos ao substitu\u00edrem os deuses e deusas greco-romanos, tornaram-se a \u00fanica terap\u00eautica requerida pelos incont\u00e1veis doentes sem esperan\u00e7as, nos incont\u00e1veis santu\u00e1rios, especialmente em Jerusal\u00e9m e Compostela.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia hipocr\u00e1tico-gal\u00eanica trazida pelo elemento colonizador esteve claramente presente no Brasil, quando a princesa Paula Mariana, filha do primeiro imperador do Brasil, sob os cuidados dos mais importantes m\u00e9dicos da corte, faleceu ap\u00f3s ser submetida a muitas sangrias e clisteres para expurgar os \u201cmaus humores\u201d. No s\u00e9culo XIX, o viajante Von Martius descreveu o temperamento dos \u00edndios como \u201cfleum\u00e1tico, por terem pouco sangue nas veias\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medicina como Paideia IV Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho Plat\u00e3o (G\u00f3rgias 464b, 465a, 501) utilizou parte da estrutura te\u00f3rica da medicina-oficial grega como instrumento para compor algumas linhas mestras da sua concep\u00e7\u00e3o \u00e9tico-filos\u00f3fica. 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