{"id":251,"date":"2012-03-18T14:33:29","date_gmt":"2012-03-18T18:33:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=251"},"modified":"2016-03-06T09:51:49","modified_gmt":"2016-03-06T13:51:49","slug":"medicina-como-paideia-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=251","title":{"rendered":"Medicina como Paideia I"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><strong>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\">.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SwvwtvtO7dI\/AAAAAAAACUY\/ENm96dyHEaA\/s1600\/Ascl%C3%83%C2%A9pio.JPG\"><img decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5407680446279380434\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SwvwtvtO7dI\/AAAAAAAACUY\/ENm96dyHEaA\/s400\/Ascl%C3%A9pio.JPG\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Ascl\u00e9pio, deus da Medicina, com o bast\u00e3o e a serpente.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"left\">Desde tempos \u00e1grafos, os homens e as mulheres ora aliaram-se aos pante\u00f5es, lutando para entender, sem aceitar, a finitude da vida frente \u00e0 natureza circundante; ora organizaram-se para viver mais e melhor desafiando a tir\u00e2nica compet\u00eancia dos deuses e das deusas para curar.<\/p>\n<p>A Medicina como Paideia \u00e9 um dos marcos nessa parte da hist\u00f3ria da humanidade, onde est\u00e1 transparente o conflito de compet\u00eancia entre as tr\u00eas medicinas \u2014 oficial, emp\u00edrica e divina \u2014 com o objetivo de ampliar os limites da vida. Esse processo complexo, oriundo desde os tempos imemoriais, alcan\u00e7ou o esplendor na Gr\u00e9cia do s\u00e9culo 4 a.C.<\/p>\n<p>Desde l\u00e1, permanece um ponto diferencial entre as tr\u00eas medicinas: s\u00f3 a medicina-oficial organizou estruturas te\u00f3ricas para sustentar as pr\u00e1ticas de curas, s\u00f3 registradas a partir das primeiras cidades, assim, de natureza muit\u00edssimo mais recente do que as outras.<\/p>\n<p>Do outro lado, tamb\u00e9m a partir dos primeiros registros escritos, os poderes organizadores dos n\u00facleos urbanos mais antigos ampararam, ora mais, ora menos, as tr\u00eas medicinas, pendendo mais para uma ou para outra, na mesma propor\u00e7\u00e3o em que resolviam os conflitos sociais provocados pelo medo coletivo da dor e da morte prematuras das epidemias que poderiam enfraquecer a ordem social.<\/p>\n<p>Desde os tempos \u00e1grafos, a medicina-divina e a medicina-emp\u00edrica evidenciam-se plenamente ancoradas nas pr\u00e1ticas divinat\u00f3rias e nos milagres e, menos, nos saberes emp\u00edricos historicamente acumulados. Por essas raz\u00f5es, o diagn\u00f3stico, o tratamento e o progn\u00f3stico trabalhados de maneira amet\u00f3dica e casual, sem compromisso da compreens\u00e3o das etiologias.<\/p>\n<p>Por outro lado, a maior parte das experi\u00eancias emp\u00edricas acumuladas permaneceu guardada pelos especialistas da coisa sagrada. Estes fatores representaram \u00e1speros obst\u00e1culos para reproduzir os saberes fora dos restritos grupos dos representantes das divindades, enclaustrados nos sil\u00eancios que impedem as cr\u00edticas e as respostas.<\/p>\n<p>Essa evid\u00eancia fica muito clara nas civiliza\u00e7\u00f5es que se desenvolveram na Mesopot\u00e2mia e nas margens dos rios Indo e Nilo. Apesar do not\u00e1vel senso emp\u00edrico, as pr\u00e1ticas de cura permaneceram contidas nas amarras do sagrado, como assinala a tradi\u00e7\u00e3o judaica em pelo menos tr\u00eas argumentos:<br \/>\n1. O incr\u00edvel poder do curador divino sobre a vida e a morte de tudo e de todos.<br \/>\nDt 32: 39 \u2014 <em>E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim n\u00e3o h\u00e1 outro Deus! Sou eu que mato e fa\u00e7o viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha m\u00e3o ningu\u00e9m se livra).<br \/>\n<\/em><br \/>\n2. Os saberes emp\u00edricos como d\u00e1divas divinas.<br \/>\nSb 17: 20 \u2014 <em>Ele me deu um conhecimento infal\u00edvel dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o come\u00e7o, o meio e o fim dos tempos, a altera\u00e7\u00e3o dos solst\u00edcios, as mudan\u00e7as de esta\u00e7\u00f5es, os ciclos do ano, a posi\u00e7\u00e3o dos astros, a natureza dos animais, a f\u00faria das feras, o poder dos esp\u00edritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das ra\u00edzes.<br \/>\n<\/em><br \/>\n3. O m\u00e9dico como representante reconhecido e festejado da divindade.<br \/>\nEclo 38: 1-2 \u2014 <em>Rende ao m\u00e9dico as honras que lhe s\u00e3o devidas, por causa de seus servi\u00e7os, porque o Senhor o criou. Pois \u00e9 do Alt\u00edssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ci\u00eancia do m\u00e9dico o faz trazer a fronte erguida, ele \u00e9 admirado pelos grandes.<br \/>\n<\/em><br \/>\nA cultura grega, no s\u00e9culo 4 a.C., absorveu as origens mais antigas da medicina-divina e da medicina-emp\u00edrica mantendo a figura social do m\u00e9dico, em princ\u00edpio, como dono do saber not\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sem abandonar a influ\u00eancia do divino sobre a vida e a morte, os cantos hom\u00e9ricos mostraram o claro destaque do m\u00e9dico como representante da medicina-oficial e agente social na luta contra os agravos \u00e0 sa\u00fade (Il\u00edada XI, 510: <em>M\u00e1xima gl\u00f3ria dos povos arquivos, Nestor de Gerena, toma o teu carro depressa; ao teu lado coloca Mac\u00e1on, e para as naves escuras dirige os velozes cavalos, pois \u00e9 sabido que um m\u00e9dico vale por muitos guerreiros, que sabe dardos extrair e calmantes deitar nas feridas<\/em>).<\/p>\n<p>O mesmo m\u00e9dico hom\u00e9rico tamb\u00e9m marcadamente estava inserido no espa\u00e7o sagrado das rela\u00e7\u00f5es sociais. Os m\u00e9dicos Mac\u00e1on e Podal\u00edrio, que se destacaram na guerra de Tr\u00f3ia, mencionado por Homero, s\u00e3o os dois filhos de Ascl\u00e9pio, o deus protetor das medicinas gregas.<\/p>\n<p>Essa aparente dualidade hom\u00e9rica, onde as tr\u00eas medicinas mostram-se sobrepostas, reproduz uma heran\u00e7a s\u00f3cio-cultural muit\u00edssimo mais anterior \u00e0 cultura grega, perdida no tempo da ontogenia, e que a genialidade de Homero tratou de expor.<\/p>\n<p>O deus Ascl\u00e9pio, filho de Apolo com a mortal Cor\u00f4nis conquistou uma fama inimagin\u00e1vel. Mais cirurgi\u00e3o do que m\u00e9dico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Junto com as suas filhas H\u00edgia e Panac\u00e9ia, era celebrado em grandes festas populares, pr\u00f3ximas do dia 18 de outubro, data em que, at\u00e9 hoje, se comemora o dia do m\u00e9dico no Ocidente.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 4 a.C., na Gr\u00e9cia, a medicina-oficial expondo abertamente o processo de conflito com outras medicinas, mas compreendida como arte, apresentava-se com clareza na estrutura dos saberes que procuravam desvendar a natureza vis\u00edvel e invis\u00edvel.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o m\u00e9dica estava t\u00e3o bem sedimentada em sistemas de aprendizado que influenciou, profundamente, nos vinte s\u00e9culos seguintes, os caminhos tomados pela medicina-oficial no Ocidente.<\/p>\n<p>A medicina-oficial grega do s\u00e9culo 4 a.C., concebida como ci\u00eancia e, nessa condi\u00e7\u00e3o, deveria valorizar a etiologia (Leucipo de Mileto In: Os Pr\u00e9-Socr\u00e1ticos: fragmentos, doxografia e coment\u00e1rios. 2. ed. S\u00e3o Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297: <em>Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas a partir da raz\u00e3o e por necessidade<\/em>). A busca pela etiologia da doen\u00e7a entendida como pressuposto do diagn\u00f3stico e da terap\u00eautica estava escancarada ao futuro: a fisiologia do corpo que amparava a pr\u00e1tica dessa medicina-oficial estava ligada aos pr\u00e9-socr\u00e1ticos, especificamente, aos fil\u00f3sofos j\u00f4nicos, int\u00e9rpretes da natureza circundante vis\u00edvel ou n\u00e3o por meio da t\u00e9khne.<\/p>\n<p>Um dos fatos que torna essa reflex\u00e3o fascinante \u00e9 que, como hoje, longe de haver separa\u00e7\u00e3o entre as pr\u00e1ticas das tr\u00eas medicinas, a cren\u00e7a no poder de cura dos deuses e deusas e o empirismo continuaram fortes e coerentes com o universo cultural grego.<\/p>\n<p>O her\u00f3i grego continuou associado \u00e0 cura de doen\u00e7as e malef\u00edcios. O senso comum compreendia grande n\u00famero de deuses e deusas possuindo, entre os principais atributos, o dom de sarar as doen\u00e7as e as feridas de guerra (Platon. Oeuvres Compl\u00e8tes. Paris. Ed. Gallimard. Biblioth\u00e8que de la Pl\u00e9iade. 1950. v.1, v.2. Rep. 407d: \u2014<em> Por conseguinte afirmaremos que tamb\u00e9m Ascl\u00e9pio sabia isto, e que, para os que gozam de sa\u00fade f\u00edsica, gra\u00e7as a sua natureza e \u00e0 sua dieta, mas t\u00eam qualquer doen\u00e7a localizada, para os que t\u00eam essa constitui\u00e7\u00e3o, ensinou a Medicina, que expulsa as suas enfermidades por meio de rem\u00e9dios e incis\u00f5es, prescrevendo-lhes a dieta a que est\u00e3o habituados, a fim de n\u00e3o prejudicarem os neg\u00f3cios pol\u00edticos.<\/em>)<\/p>\n<p>Contudo, o m\u00e9dico atuava muito al\u00e9m do espa\u00e7o sagrado, continuava exercendo a arte de adivinhar, por\u00e9m sobre um sistema te\u00f3rico coerente que observava e interpretava os sinais da natureza vis\u00edvel e invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Esse avan\u00e7o de dimens\u00f5es gigantescas \u00ad\u2014 a Medicina como Paideia \u2014 possibilitou estabelecer a ponte que ligaria, para sempre, a busca da etiologia das doen\u00e7as ao diagn\u00f3stico, tratamento e progn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Desse modo, a Medicina como Paideia feriu profunda e mortalmente o predom\u00ednio da medicina-divina e da medicina-emp\u00edrica sobre a medicina-oficial.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho . 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