{"id":2642,"date":"2019-03-23T15:14:07","date_gmt":"2019-03-23T19:14:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2642"},"modified":"2019-03-23T15:14:57","modified_gmt":"2019-03-23T19:14:57","slug":"entendendo-a-saude-e-a-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2642","title":{"rendered":"ENTENDENDO A SA\u00daDE E A DOEN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ENTENDENDO A SA\u00daDE E A DOEN\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prof. Dr. HC JO\u00c3O BOSCO BOTELHO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A medicina como especialidade social<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>A dor e o prazer<\/li>\n<li>As mem\u00f3rias s\u00f3cias gen\u00e9ticas<\/li>\n<li>Ser-tempo e ser-n\u00e3o-tempo<\/li>\n<li>Curadores e adivinhos<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A MEDICINA COMO ESPECIALIDADE SOCIAL<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O passar dos olhos no processo hist\u00f3rico que consolidou a Medicina como especialidade social tr\u00e1s \u00e0 toma o esfor\u00e7o humano para:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Entender, dominar e modificar a multiplicidade din\u00e2mica das incont\u00e1veis formas e fun\u00e7\u00f5es das partes do corpo humano;<\/li>\n<li>Estabelecer os par\u00e2metros do normal e do patol\u00f3gico;<\/li>\n<li>Vencer as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo determinismo da dor e da morte;<\/li>\n<li>Manter aceso o conflito de compet\u00eancia com a religi\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A puls\u00e3o inata para desvendar o corpo, dotado de propriedades sens\u00edveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor e clamar pelo prazer, pode ser considerada uma<em> verdade fundamental <\/em>tanto no espa\u00e7o sagrado quanto no espa\u00e7o profano das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No espa\u00e7o profano, o observar emp\u00edrico do ancestral mais distante iniciou, na medida vis\u00edvel dos sentidos natos, as compara\u00e7\u00f5es entre o pr\u00f3prio corpo e os dos outros animais. Por outro lado, essa observa\u00e7\u00e3o jamais esteve desvinculada dos complexos sentimentos com o sagrado. Em muitas circunst\u00e2ncias, ainda hoje, \u00e9 imposs\u00edvel saber onde come\u00e7a o sagrado e termina o profano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na malha dessas emo\u00e7\u00f5es interligando sagrado e profano, o antepassado remoto\u00a0\u00a0 percebeu o quanto diferia dos membros do grupo, a carnalidade da pele, as batidas do cora\u00e7\u00e3o, o calor do ar expirado e a putrefa\u00e7\u00e3o da morte. As diverg\u00eancias f\u00edsicas somaram-se ao confronto entre o real e o imagin\u00e1rio, representado pelas sensa\u00e7\u00f5es do medo, prazer, coragem, amor e do \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00f3gico supor que os nossos antepassados remotos sabiam, atrav\u00e9s do conhecimento historicamente acumulado (CHA), que uma pancada na cabe\u00e7a era capaz de matar ou imobilizar a ca\u00e7a ou o inimigo muito mais r\u00e1pido. Esse primitivo elo entre forma e fun\u00e7\u00e3o pode ter alicer\u00e7ado o prim\u00f3rdio da consci\u00eancia do corpo ou da categoriza\u00e7\u00e3o segment\u00e1ria corporal \u00be a integridade da cabe\u00e7a como parte mais importante para a sobreviv\u00eancia do que o dedo amputado \u00be est\u00e1 inserido na mesma textura da precoce observa\u00e7\u00e3o do quanto os homens e as mulheres s\u00e3o semelhantes e, ao mesmo tempo, diferentes entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, muito mais do que isto, a consci\u00eancia do corpo transformou-se, rapidamente, na consci\u00eancia da vida e da morte. A dicotomia competitiva entre a vida, ligada ao sangue que coagula, e a morte, cercada do mal cheiro da putrefa\u00e7\u00e3o do corpo, moldou o cortejo das rela\u00e7\u00f5es socais com o objetivo de prolongar a vida e adiar a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O especialista capaz de adiar a morte ou interromper a dor assumiu import\u00e2ncia especial no seio comunit\u00e1rio primitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recusa da morte como o marco divisor nas rela\u00e7\u00f5es sociais de competi\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o est\u00e1 representado pelo sepultamento ritual\u00edstico. A arqueologia sustenta que os neandertalenses, no paleol\u00edtico m\u00e9dio, h\u00e1 400.000 anos, cuidavam dos feridos e enterraram os seus mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As necessidades f\u00edsica e mental da esp\u00e9cie, ao longo de centenas de gera\u00e7\u00f5es, moldaram a n\u00edvel gen\u00e9tico, as incont\u00e1veis formas e fun\u00e7\u00f5es do corpo humano para inibir a dor e aceitar o prazer. \u00c9 transparente o cont\u00ednuo frenesi para sentir, intensamente, o conforto f\u00edsico e emocional. O ser \u00e9 biol\u00f3gico e social; ele n\u00e3o existe sem as trocas e estas n\u00e3o seriam poss\u00edveis sem ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar em processo muito mais interativo unindo a estrutura gen\u00e9tica como o social\u00a0\u00a0 <em>\u00be<\/em><em> a mem\u00f3ria s\u00f3cio -gen\u00e9tica<\/em> (MSG)\u00be moldando o corpo humano ao longo de milhares de anos em torno da posse do territ\u00f3rio como garantia contra a fome e a sede, das liberdades de ir vir, falar e explorar, do abrigo contra o frio e o calor (Botelho, 1993).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos fogem da dor e procuram o prazer. Conforto e desconforto s\u00e3o as chaves acionadoras da MSG. Os corpos vivos, dos espongi\u00e1rios aos mam\u00edferos, s\u00e3o recobertos por tecidos especializados, em muitos milh\u00f5es de anos, para reagir \u00e0s agress\u00f5es externas de natureza f\u00edsica, qu\u00edmica ou biol\u00f3gica. A ontog\u00eanese, repetindo a filog\u00eanese, formou-se com a prioridade de enfrentar o sofrimento e receber, com harmonia, as sensa\u00e7\u00f5es prazerosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, \u00e9 evidente como a dor lacerante contribui para alterar as emo\u00e7\u00f5es, deter e amedrontar qualquer bicho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As rela\u00e7\u00f5es interpessoais, com ou sem ajuda da t\u00e9cnica, resultando prazerosas, s\u00e3o acatadas pela maioria. Sempre que o poder dominante insiste em limit\u00e1-las ocorre a resist\u00eancia. A rebeldia contra as fronteiras artificiais, o clamor \u00e9tnico, o sexo limitado, a incr\u00edvel sedu\u00e7\u00e3o pelas drogas proibidas, as revolu\u00e7\u00f5es milenaristas e a atual ordem internacional voltada para o verde est\u00e3o contidas na mesma geometria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A const\u00e2ncia transmitida aos descendentes, no patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, das mensagens comuns das mem\u00f3rias s\u00f3cio-gen\u00e9ticas pessoais forma a mem\u00f3ria s\u00f3cio-gen\u00e9tica coletiva (MSGC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As MSGs s\u00e3o competentes para explicar n\u00e3o s\u00f3 os fant\u00e1sticos dispositivos natos contra a dor que cobrem cada mil\u00edmetro do corpo, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o social em torno da resist\u00eancia pessoal e coletiva contra os que atentam contra os limites da suportabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a morte adv\u00e9m, como ant\u00edtese da vida, emudece a MSG, descolora o tegumento cut\u00e2neo, resfriando-o e tornando-o insens\u00edvel ao pior dos tormentos: a dor. O movimento respirat\u00f3rio e o cora\u00e7\u00e3o param. O corpo desfigurado pelo rigor cadav\u00e9rico enche de sentido a vida dos que choram. \u00c9 quando o vivo se apercebe da pr\u00f3pria exist\u00eancia e rejeita a morte refletida na carne indolor e desmemoriada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, a Hist\u00f3ria da Medicina \u00e9 uma parte importante do longo processo hist\u00f3rico da humanidade para escapar da dor, aumentar o prazer, prolongar a vida e fugir da morte a partir do desvendar do corpo em todas as dimens\u00f5es do vis\u00edvel e do invis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PRAZER<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos mais fascinantes do corpo humano \u00e9 como ocorreu o processo de adapta\u00e7\u00e3o da dor e do prazer \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. O maior obst\u00e1culo da neurofisiologia continua sendo estabelecer as correla\u00e7\u00f5es entre a forma e a fun\u00e7\u00e3o, no sistema nervoso central (SNC) e no sistema nervoso perif\u00e9rico (SNP), nos n\u00edveis macrosc\u00f3pico (\u00f3rg\u00e3o), microsc\u00f3pico (c\u00e9lula), ultramicrosc\u00f3pico (mol\u00e9cula), at\u00f4mico (part\u00edculas formadoras do \u00e1tomo) e subat\u00f4mico (intera\u00e7\u00e3o massa e energia)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito de outro modo, se o saber emp\u00edrico \u00e9 suficiente para comprovar que as pessoas s\u00e3o capazes de sentir dor e prazer, de muitos modos e diferentes intensidades, torna\u2011se obrigat\u00f3rio existirem \u00e1reas, em todos os n\u00edveis acima mencionados, respons\u00e1veis por aquelas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os entraves aumentam na raz\u00e3o direta do desvendar da menor estrutura. O desconhecimento fica mais denso a partir da mol\u00e9cula, por-tanto ainda muito distante do subat\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dor e o prazer est\u00e3o unidos em complexa ponte, constru\u00edda du-rante o lento processo de humaniza\u00e7\u00e3o, envolvendo o SNC e o SNP com a vida de rela\u00e7\u00e3o. Os principais alicerces dessa liga\u00e7\u00e3o entre o passado, oriundo de uma filogenia comum, e o corpo atual, formador de uma ontogenia pr\u00f3pria, \u00e9 o neo-c\u00f3rtex e a fant\u00e1stica malha de c\u00e9lulas espec\u00edficas os neur\u00f4nios\u00a0\u00a0\u00a0 cobrindo as superf\u00edcies corporais internas e externas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O neo-c\u00f3rtex adicionou ajustes no corpo muito remoto moldando-o \u00e0s emo\u00e7\u00f5es recentes, atualizadas na temporalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais. Composto pelo tronco encef\u00e1lico, hipot\u00e1lamo, t\u00e1lamo, \u00e1rea pr\u00e9\u2011frontal e sistema l\u00edmbico, permite o gesto da como\u00e7\u00e3o, o clamor da dor e a busca do prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o objetivo de aliviar a dor interior, o corpo, em n\u00edvel molecular, elabora opi\u00e1ceos endomorfina, dimorfina e encefalinas\u00a0\u00a0 de composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica semelhante \u00e0 morfina. Na forte emo\u00e7\u00e3o, os opi\u00e1ceos naturais podem exacerbar, a ponto de causa bem-estar. Por outro lado, modelos matem\u00e1ticos experimentais demonstram que a sensibilidade dolorosa aumenta no estresse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fuga da dor e busca do prazer continua sendo duas incontrol\u00e1veis ordens ontogen\u00e9ticas. As pessoas organizam\u2011se com o objetivo de evitar a dor e buscar as fontes determinantes de prazer. Entre as mais importantes, figuram a livre express\u00e3o da sexualidade, a posse da terra, a vida depois da morte, depend\u00eancia entre o seres-tempo e o seres n\u00e3o-tempo e o f\u00e1cil acesso ao alimento, todos acompanhados das varia\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceitar o prazer e recusar a dor tem sido um ponto comum de incontest\u00e1vel relev\u00e2ncia na vida humana. O corpo foi adaptado a essa determinante s\u00f3cio\u2011gen\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo evolutivo delimitou mudan\u00e7as, em todos os n\u00edveis do corpo, capazes de ajust\u00e1-lo ao movimento social. \u00c9 inconceb\u00edvel pensar na dor e no prazer ligados somente \u00e0s trocas metab\u00f3licas f\u00edsico\u2011qu\u00edmicas ou ao exclusivo contexto societ\u00e1rio. \u00c9 tempo de interagir a natureza, o social e a Hist\u00f3ria com a gen\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto das rea\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas e bioqu\u00edmicas, ligando o ser ao mundo das id\u00e9ias, s\u00f3 \u00e9 consolidado nas mentalidades\u00a0\u00a0 memorizado e reproduzido\u00a0\u00a0 quando estiver elaborado em estreita conson\u00e2ncia com as exig\u00eancias pessoais e coletivas, requeridas no processo de humaniza\u00e7\u00e3o. O ser \u00e9 biol\u00f3gico e social; ele n\u00e3o existe sem as rela\u00e7\u00f5es de trocas e estas n\u00e3o seriam poss\u00edveis sem ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto formador que gera a a\u00e7\u00e3o apreendida n\u00e3o se d\u00e1 sobre o nada. As estruturas nervosas, centrais e perif\u00e9ricas, respons\u00e1veis pela intercomunica\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria, a linguagem, os sentidos e o social ligam\u2011se atrav\u00e9s de bilh\u00f5es de sinapses. \u00c9 a pris\u00e3o mental de cada um. \u00c9 a jarra de Pandora, de onde saem os infort\u00fanios e as esperan\u00e7as da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As an\u00e1lises, pretendendo compreender e transformar a sociedade, desprezando um dos componentes extr\u00ednsecos (a natureza, o social e a Hist\u00f3ria) e o intr\u00ednseco (a gen\u00e9tica) t\u00eam pouca possibilidade de resistir \u00e0 cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 de existir algum tipo de coer\u00eancia funcional unindo, no n\u00edvel s\u00f3cio-gen\u00e9tico, a forma e a fun\u00e7\u00e3o dos SNC e SNP ao mundo das id\u00e9ias A capacidade individual para sentir a dor e expressar o prazer nasce dessas rela\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas e sociais. Algo que poderia ser chamado de cr\u00edtica da prote\u00e7\u00e3o pura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AS MEM\u00d3RIAS S\u00d3CIO-GEN\u00c9TICAS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de os estudos da anatomia e da fisiologia terem desvendado alguns aspectos importantes da forma e da fun\u00e7\u00e3o do SNC e do SNP relacionados \u00e0 dor e ao prazer, estamos longe, muito longe de compreender a maior parte das d\u00favidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das barreiras \u00e9 a fant\u00e1stica multiplicidade das formas, no ser vivente, gerando fun\u00e7\u00f5es semelhantes. Apesar de os homens e as mulheres possu\u00edrem \u00e1reas an\u00e1tomo\u2011funcionais semelhantes, relacionadas com a secre\u00e7\u00e3o dos opi\u00e1ceos naturais, nunca se expressam igualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As maneiras de sentir dor e prazer s\u00e3o infinitas. O produto final dessas sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis e prazerosas \u00e9 modulado atrav\u00e9s dos componentes extr\u00ednsecos (a natureza, o social e a Hist\u00f3ria) e os intr\u00ednsecos (os padr\u00f5es gen\u00e9ticos herdados na reprodu\u00e7\u00e3o sexuada).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo das mentalidades, em diferentes per\u00edodos, mostra um hist\u00e9rico repetir coletivo, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala filogen\u00e9tica, atr\u00e1s dos anseios fundamentais, ditados por uma categoria denominada neste ensaio de mem\u00f3ria s\u00f3cio gen\u00e9tica (MSG). \u00c9 traduzida na vida de rela\u00e7\u00e3o, desde os tempos imemoriais na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto f\u00edsico e emocional (aqui compreendido como a liberdade de ir e vir, de falar, de explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio) nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos fogem da dor e procuram o prazer. A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentidos no corpo, s\u00e3o as chaves acionadoras da MSG. Todas as rela\u00e7\u00f5es interpessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da t\u00e9cnica, que resultem prazerosas, s\u00e3o acatadas, sem esfor\u00e7o, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limit\u00e1\u2011las, ocorre resist\u00eancia. A rebeldia contra a falta da terra para cultivar, o sexo limitado, o alimento escasso e a incr\u00edvel sedu\u00e7\u00e3o pelas drogas proibidas s\u00e3o partes importantes do mesmo universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A const\u00e2ncia transmitida aos descendentes, pela reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, dos pontos comuns das mem\u00f3rias s\u00f3cio gen\u00e9ticas pessoais, forma a mem\u00f3ria s\u00f3cio gen\u00e9tica coletiva (MSGC), heran\u00e7a do tra\u00e7o ontogen\u00e9tico comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mensagens oral e escrita, estruturadas na ambig\u00fcidade objetivo\u2011subjetivo ou, sob certas leituras, do sagrado\u2011profano, trazendo a esperan\u00e7a de amenizar a dor, s\u00e3o sempre bem aceitas e festejadas pelas Mg. Nenhum poder ordenador amparado pela for\u00e7a expl\u00edcita conseguiu conter, apesar da brutal repress\u00e3o nos por\u00f5es da intoler\u00e2ncia de todos os matizes, a express\u00e3o clara das MSGs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A capacidade de convencimento, fazendo parte da ideia institucionalizada, assenta\u2011se, sobretudo, na hist\u00f3ria das representa\u00e7\u00f5es, das ideologias e das mentalidades constitu\u00eddas a partir do saber acumulado e sobre ele. Por essa raz\u00e3o, continua muito significativo, junto \u00e0s massas populares, a sedu\u00e7\u00e3o exercida na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, prometendo maior conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O empenho do poder, propondo a mudan\u00e7a, n\u00e3o obt\u00e9m resultados, quando toca, de modo inadequado, nas Mg. O medo da dor e do desconforto continuam t\u00e3o fortes quanto os mecanismos subjetivos, criados pela fic\u00e7\u00e3o, para atenu\u00e1\u2011los ou confundi\u2011los. \u00c9 poss\u00edvel compreender, nesse ponto, a fant\u00e1stica rela\u00e7\u00e3o entre a dor e o prazer com o nascer da consci\u00eancia, diferenciando o c\u00e9rebro da mente, traduzindo uma etapa significativa da corrente, entrela\u00e7ando a natureza, o social e a Hist\u00f3ria nas MSGs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O castigo, necessariamente carregado de sofrimento doloroso, \u00e9 imposto pelo homem ou pela divindade, nos espa\u00e7os sagrado e profano, para gerar obedi\u00eancia. O medo, advindo da amea\u00e7a\u00a0\u00a0 da dor f\u00edsica, passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados, do permitido e do proibido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arcabou\u00e7o da dor f\u00edsica na MSG, transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor hist\u00f3rica na MSGC. \u00c9 o grito humano pela vida, pela liberdade, pela sa\u00fade, pelo conforto, pela dignidade, pela paz e pela ruptura das correntes que prendem o homem \u00e0 tirania dos outros homens e dos deuses. \u00c9 a raz\u00e3o por que sempre existiu a procura de uma \u00e9tica na conduta humana, ligada \u00e0 sobreviv\u00eancia comum, registrada nos c\u00f3digos de postura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sagrado ficcional como mecanismo inato para compensar a dor, ativando os mecanismos end\u00f3genos da analgesia, encontrou resposta no brado dos espoliados. O exerc\u00edcio do poder, impondo o castigo doloroso aos resistentes, resultou nos princ\u00edpios da din\u00e2mica social, onde a coes\u00e3o e a dissolu\u00e7\u00e3o, em equil\u00edbrio din\u00e2mico, s\u00e3o dependentes, respectivamente, do predom\u00ednio do conforto e da dor, em determinado segmento da sociedade. Os contestadores, compreendidos como agentes da dissolu\u00e7\u00e3o ou pecadores, s\u00e3o punidos com o pior dos castigos: a exclus\u00e3o pela enfermidade, mensageira do sofrimento e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os curadores assumiram um papel de realce. Eram capazes de atenuar a dor e adiar a morte temida. Os livros sagrados, refer\u00eancia maior da ambig\u00fcidade sagrado-profana, s\u00e3o claros quanto ao destaque do curador\u00a0\u00a0 na ordem do espa\u00e7o ocupado. Os mais antigos registros escritos s\u00e3o contundentes. Os ass\u00edrios e babil\u00f4nicos entendiam o pecador como o rebelde possesso da antidivindade. As palavras sortil\u00e9gio, malef\u00edcio, pecado, doen\u00e7a, sofrimento aparecem como sin\u00f4nimos. Os atos coletivos, empregados para modificar a realidade, t\u00eam de estar, obrigatoriamente, assentados em pressupostos te\u00f3ricos, ligados \u00e0s\u00a0 MSGs. A coer\u00eancia ao ato apreendido passa nas pontes que interligam o sistema nervoso central e o sistema nervoso perif\u00e9rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem est\u00e1 vendo a dor da fome, estampada no rosto de pen\u00faria dos entes queridos, ou sentindo a ferida n\u00e3o cicatrizada, est\u00e1 sempre pronto para seguir qualquer proposta para finalizar o sofrimento. De modo semelhante, quando as aspira\u00e7\u00f5es s\u00e3o satisfeitas, a tend\u00eancia \u00e9 afrouxar a cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anseios dos homens e das mulheres, presentes nas MSGs, para refor\u00e7ar o conforto, s\u00e3o um dos fatores que provocam o movimento social. Quando as id\u00e9ias s\u00e3o desarm\u00f4nicas com o anseio, nem mesmo os mais brutais meios de repress\u00e3o conseguem mant\u00ea\u2011las ativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poder ordenador, mesmo sem saber por qu\u00ea, percebeu o valor dos registros s\u00f3cio gen\u00e9ticos. Os seus agentes, os pol\u00edticos vestidos de curadores, investem na conquista dos grupos sociais, atrav\u00e9s das mensagens repletas de d\u00e1divas que tocam profundamente as MSGs: as varia\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da sexualidade, da terra e do alimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">SER-TEMPO E SER-N\u00c3O-TEMPO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No intervalo de tempo entre esses dois pontos da consci\u00eancia do tempo, o in\u00edcio e o fim da vida, o homem convive com a certeza da doen\u00e7a e da morte. Nas poucas dezenas de anos que o homem consegue viver, gasta grande parte dormindo e na procura incessante do conforto, da sa\u00fade e da justificativa mais coerente da imagin\u00e1vel vida ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de estabelecer ao longo de milhares de anos as rela\u00e7\u00f5es dor e prazer, sa\u00fade e doen\u00e7a e vida e morte, o homem desenvolveu e acumulou historicamente conhecimentos objetivando vencer a dor, aumentar o prazer e prolongar o tempo de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grandeza biol\u00f3gica do material gen\u00e9tico humano sobre a de todas as outras esp\u00e9cies do planeta se completa com o renascimento ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta busca da imortalidade \u00e9 t\u00e3o antiga quanto os registros paleoantropol\u00f3gicos que\u00a0\u00a0 chegaram dos nossos ancestrais. Pode ter sido a respons\u00e1vel pelo aparecimento da especializa\u00e7\u00e3o social que deu origem a procura sistematizada do conforto f\u00edsico e da sa\u00fade e tamb\u00e9m forneceu as bases te\u00f3ricas da pr\u00e1tica m\u00e9dica como n\u00f3s a entendemos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cren\u00e7a no ser-imortal gerou a dualidade mat\u00e9ria-esp\u00edrito para transpor a inexorabilidade da putrefa\u00e7\u00e3o do corpo desmemoriado. O esp\u00edrito intemporal, como fic\u00e7\u00e3o, prolonga at\u00e9 o infinito a vida das pessoas queridas. Para dar sentido coerente ao renascimento, foi idealizado uma imagem corp\u00f3rea &#8211; a alma ou o <em>ser-n\u00e3o-tempo<\/em> &#8211; como o elo entre o vis\u00edvel e o invis\u00edvel, rejeitando a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o pensamento est\u00e1, sem d\u00favida alguma, dependente do sociocultural, os homens e as mulheres t\u00eam grande dificuldade para articular a linguagem fora do conhecimento patrocinado pela MSG. Deste modo, os seres-n\u00e3o tempo (deuses, duendes, dem\u00f4nios, almas, esp\u00edritos), mesmo recheados de varia\u00e7\u00f5es, s\u00e3o vistos e sentidos com cabe\u00e7as, bra\u00e7os e pernas. Os seres-n\u00e3o tempo foram formados \u00e0 semelhan\u00e7a do corpo vis\u00edvel, dotado de comunica\u00e7\u00e3o, movimento, pureza e impurezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel imaginar a exist\u00eancia do ser-tempo individual fora da natureza, da Hist\u00f3ria e do social. O homem e a mulher est\u00e3o h\u00e1 muito, muito tempo, atados ao conjunto greg\u00e1rio, augurando o ideal deslocado, pela for\u00e7a da fic\u00e7\u00e3o, para o ser-n\u00e3o-tempo. Nunca deixaram de amar e sofrer, de ligar a reprodu\u00e7\u00e3o sexuada \u00e0 fertilidade da terra, olhar e admirar o desconhecido, dar nomes \u00e0 natureza vis\u00edvel, especular o invis\u00edvel, acumular e reproduzir saberes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cuidado com a sa\u00fade pode ter come\u00e7ado em qualquer ponto da escala geneal\u00f3gica e certamente se iniciou na procura do conforto f\u00edsico. A retirada de espinhos e parasitas da pele em forma individual ou coletivamente com a ajuda de outros membros da comunidade foi a primeira forma de assist\u00eancia prestada nos nossos ancestrais. Esta assimila\u00e7\u00e3o da conduta social foi fundamental para o desenvolvimento e sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os nossos parentes mais pr\u00f3ximos, os chimpanz\u00e9s, com 97 % de se-melhan\u00e7a gen\u00e9tica, s\u00e3o capazes de se tratarem mutuamente lambeando pequenas feridas da pele, retirando parasitas e espinhos que penetram acidentalmente no corpo. N\u00e3o se trata de simples cata\u00e7\u00e3o. \u00c9 ind\u00edcio de verdadeira assist\u00eancia m\u00e9dica, porque envolve atividade consciente e dirigida a um determinado ponto onde est\u00e1 ocorrendo desconforto f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do aparecimento da consci\u00eancia do tempo no homem, reveladora da sua impot\u00eancia frente a ocorr\u00eancia das doen\u00e7as que levavam \u00e0 morte, multiplicaram-se as explica\u00e7\u00f5es transcendentes, m\u00edticas e religiosas a aceita\u00e7\u00e3o coletiva do desconhecido. O ponto de conver-g\u00eancia deste caminho que moldou o pensamento criativo do homem foi o fant\u00e1stico n\u00famero de deuses e outros personagens com poderes de curar e ressuscitar que a hist\u00f3ria registrou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, sob o ponto de vista hist\u00f3rico \u00e9 imposs\u00edvel dissociar a hist\u00f3ria da Medicina das rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-m\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto de converg\u00eancia que moldou o pensamento do homem foi o aparecimento da consci\u00eancia do tempo, reveladora da sua impo-t\u00eancia frente a morte inevit\u00e1vel. Em conseq\u00fc\u00eancia, engendrou um fant\u00e1s-tico n\u00famero de deuses e outros personagens com poderes de curar e ressuscitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os milhares de deidades, espalhadas nos quatro cantos do mundo, foram substitu\u00eddas, nos pa\u00edses cristianizados, pelos santos que operam milagres\u00a0\u00a0 capazes de modificar a rela\u00e7\u00e3o dor e prazer, vida e morte e sa\u00fade e doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas figuras humanas e m\u00edticas carregavam com elas uma capa-cidade intr\u00ednseca capaz de ressuscitar certos mortos e a cura de alguns doentes. As doen\u00e7as escolhidas foram sempre as que determinavam impacto nas rela\u00e7\u00f5es sociais. J\u00e1 foram lepra, a loucura, a s\u00edfilis e a tuberculose. No momento, \u00e9 a AIDS e os canceres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas intrincadas rela\u00e7\u00f5es que o homem desenvolveu com essas doen\u00e7as, sempre as fez porque desconhecia a etiologia e o tratamento. A impot\u00eancia humana foi buscar no transcendente a aceita\u00e7\u00e3o para o desconhecido. Para sustentar a at\u00e1vica fixa\u00e7\u00e3o de sua grandeza biol\u00f3gica, \u00e9 imperativo ao homem transferir\u00a0\u00a0 o imposs\u00edvel para o personagem divino antropom\u00f3rfico, com poder sobre-humano capaz de resolver todas as afli\u00e7\u00f5es da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como foi poss\u00edvel aos agentes da cura do passado e como \u00e9 aceito pelos m\u00e9dicos, na atualidade, essa rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-m\u00edtica que envolve comportamentos diferentes no trato do ser-tempo e do\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ser-n\u00e3o-tempo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram as buscas dessas respostas, algumas vezes angustiantes na sua totalidade, passando necessariamente pela hist\u00f3ria do pr\u00f3prio homem ligada na temporalidade da exist\u00eancia humana os respons\u00e1veis pelos pequenos avan\u00e7os que a humanidade fez na busca da raz\u00e3o da vida ligada \u00e0 consci\u00eancia do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade, quase intranspon\u00edvel, de se alcan\u00e7ar mais rapida-mente as explica\u00e7\u00f5es, reside no fato de que as cren\u00e7as e as ideias n\u00e3o s\u00e3o fossiliz\u00e1veis. Quando a arqueologia escava um t\u00famulo e junto com a paleontologia come\u00e7a a estudar o esqueleto e os utens\u00edlios encontrados, far\u00e3o importantes conclus\u00f5es de muitos aspectos relevantes que ajudar\u00e3o a compreender o grupo social do morto, por\u00e9m a maior parte dos valores e pensamentos dele continuar\u00e3o perdidos em mar de conjecturas. Estas dificuldades s\u00e3o proporcionalmente maiores na medida que recuamos no tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conquista do fogo e as consci\u00eancias do tempo finito, ligada ao ser-tempo, e do tempo infinito, unida ao ser-n\u00e3o-tempo assinalaram a separa\u00e7\u00e3o definitiva dos nossos ancestrais dos seus antecessores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mais antiga comprova\u00e7\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o do fogo data de 600.000 anos. Os usos racionais do fogo aliado com a busca pelo conforto f\u00edsico contribu\u00edram decisivamente para a sobreviv\u00eancia dos nossos ancestrais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagin\u00e1vel vida depois da morte tem acompanhado o homem na sua busca para prolongar ao m\u00e1ximo o seu tempo de vida. Possivelmente esta fant\u00e1stica busca come\u00e7ou com a id\u00e9ia religiosa arcaica de que \u00e9 poss\u00edvel, ao animal, renascer a partir dos ossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido \u00e9 conhecida e valorizada a cita\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento (Ezequiel, 37:1-8):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8221;A m\u00e3o do Senhor veio sobre mim, e me tirou para fora pelo esp\u00edrito do Senhor: e ela me tirou no meio de um campo, que estava cheio de ossos. E ela me levou por toda a roda deles. Eram, por\u00e9m, muitos em grande n\u00famero os que se viam sobre a face do campo, e todos sobremaneira secos. Ent\u00e3o me disse o Senhor: Filho do homem, acaso julgas tu que esses ossos possam reviver? E eu lhe respondi: Senhor Deus, tu o sabes. E ele me disse: vatici na acerca destes ossos, e: Ossos secos ouvi a palavra do Senhor. Isto diz o Senhor Deus a etes ossos: Eis a\u00ed vou eu a introduzir em v\u00f3s o esp\u00edrito e v\u00f3s vivereis. E porei sobre v\u00f3s nervos, e farei crescer carnes sobre v\u00f3s, e sobre v\u00f3s estenderei pele: e dar-vos-ei o esp\u00edrito e v\u00f3s estenderei pele: e dar-vos-ei o esp\u00edrito e v\u00f3s vivereis e sabereis que eu sou o Senhor&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta preocupa\u00e7\u00e3o com os ossos e o conhecimento da decom-posi\u00e7\u00e3o do corpo ap\u00f3s a morte influenciaram decisivamente no comportamento do homem em rela\u00e7\u00e3o ao processo do sepultamento ritual\u00edstico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os documentos arqueol\u00f3gicos mais antigos e confi\u00e1veis desse estudo s\u00e3o as ossadas. O in\u00edcio do sepultamento ritual\u00edstico data entre 70.000 e 50.000 anos. Em esqueletos e restos de ossos deste per\u00edodo, foram encontradas a ocra vermelha (argila colorida pelo \u00f3xido de ferro com v\u00e1rias tonalidades pardacentas), que substituiu o ritual do sangue como s\u00edmbolo da vida, sugerindo a cren\u00e7a, j\u00e1 naquela \u00e9poca, de que a exist\u00eancia de nova vida ap\u00f3s a morte era considerada n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel, mas alcan\u00e7\u00e1vel atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas coletivas que envolviam o tipo de sepultamento das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente a esperan\u00e7a da imortalidade pode justificar a preocu-pa\u00e7\u00e3o que acompanha o homem, desde a sua origem, na ritual\u00edstica do sepultamento das pessoas amadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil aceitar essa parte vital das rela\u00e7\u00f5es humanas como exclu-sivamente social ou, simploriamente, ligada \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o das imagens on\u00edricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os sepultamentos ritual\u00edsticos, datando entre 70.000 e 50.000 anos, melhor estudados, constam:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>No s\u00edtio arqueol\u00f3gico Lemoustier, na Fran\u00e7a, um esqueleto de adoles-cente do sexo masculino, girado sobre o seu lado direito como se estivesse dormindo, com o cr\u00e2nio repousando sobre pilha de s\u00edlex servindo de travesseiro e tendo ao lado um machado de pedra cuidadosamente esculpido pr\u00f3ximo a v\u00e1rios ossos de gado selvagem, sugerindo que foi enterrado com grande quantidade de carne para servir de alimenta\u00e7\u00e3o na sua nova vida ap\u00f3s a morte;<\/li>\n<li>Em Teshid Tash, na \u00c1sia Central, a ossada de crian\u00e7a jazia sobre os ossos de uma rena cujos chifres formavam esp\u00e9cie de coroa ao redor da cabe\u00e7a da morta;<\/li>\n<li>Na caverna de Shanider, no monte Zagros, no Iraque, o esqueleto de um homem adulto sobre uma enorme quantidade de p\u00f3len fossilizado de flores de diferentes esp\u00e9cies vegetais. A an\u00e1lise desse p\u00f3len mostrou tratar-se de plantas medicinais, ainda hoje utilizadas, pelos habitantes daquela regi\u00e3o, no tratamento de diversas doen\u00e7as. \u00c9 prov\u00e1vel que o homem enterrado tivesse sido o m\u00e9dico-feiticeiro do grupo social e as plantas colocadas no t\u00famulo para que ele continuasse o seu trabalho espec\u00edfico na outra vida ap\u00f3s a morte;<\/li>\n<li>Na gruta Chapelle-aux-Saints, na Fran\u00e7a, foi encontrado o esqueleto do homem adulto acompanhado de v\u00e1rios utens\u00edlios de s\u00edlex com peda\u00e7os de ocra vermelha.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o pode haver d\u00favida que a busca da explica\u00e7\u00e3o do sentido da vida e da morte sempre acompanhou o homem. A presen\u00e7a de utens\u00edlios, que eram enterrados junto com os nossos antepassados distantes, est\u00e1 diretamente relacionada com a cren\u00e7a no renascimento ap\u00f3s a morte e n\u00e3o somente isso, mas acompanha a certeza de que o morto continuar\u00e1 a sua principal atividade na nova vida ap\u00f3s a morte. A maioria desses corpos foram enterrados voltados para o leste, definindo a inten\u00e7\u00e3o de unir o renascimento com o curso do sol, s\u00edmbolo da vida e da intermin\u00e1vel renova\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CURADORES E ADIVINHOS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c <em>As fronteiras entre adivinha\u00e7\u00e3o e medicina s\u00e3o t\u00e3o vagas que n\u00e3o nos surpreender\u00e1 encontrar num tratado m\u00e9dico um progn\u00f3stico aventureiro e, num tratado de adivinha\u00e7\u00e3o, um diagn\u00f3stico m\u00e9dico pertinente<\/em>. \u201d\u00a0 Janine Carrier<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria, mesmo quando abordada como pretensa sucess\u00e3o imparcial dos fatos hist\u00f3ricos, est\u00e1 repleta de dados confirmando a exis-t\u00eancia, desde tempos imemoriais, dos curadores e adivinhos. A maioria desses trabalhos est\u00e1 colocada na polaridade est\u00e1tica que favorece o manique\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transcrevem em an\u00e1lise elogiosa quando eles est\u00e3o apoiando o poder dominante ou, simplesmente, despreza-os quando representam a resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendemos o papel social dos curadores e adivinhos como situado em contexto muito mais amplo. \u00c9 necess\u00e1rio estender a historiografia no tempo, sob o enfoque din\u00e2mico da luta travada pelos grupos na ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os sociais e pol\u00edticos, para que possamos compreend\u00ea-los como, agentes de coes\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E at\u00e9 poss\u00edvel que as pessoas especializadas em curar e adivinhar tenham uma qualidade especial pr\u00f3pria &#8211; o dom &#8211;\u00a0 que as distingam dos outros mortais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 not\u00f3rio, h\u00e1 milhares de anos, o reconhecimento coletivo da exist\u00eancia de homens e mulheres com capacidades especiais, de poss\u00edvel natureza transcendente, para curar e adivinhar, intermediando a vontade da Divindade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, continuamos sem compreender o seu significado biol\u00f3gico. Permanece sem resposta a indaga\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que o curso da vida pode ser modificado por esse dom?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto n\u00e3o temos outra resposta, continua prevalecendo o sentido b\u00edblico (CTG. 1,17), largamente difundido depois da cristianiza\u00e7\u00e3o do Ocidente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em> Todo dom precioso e toda d\u00e1diva perfeita vem do alto e desce do Pai das luzes<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto nas sociedades \u00e1grafas como nas que desenvolveram a linguagem escrita, \u00e9 poss\u00edvel identificar uma intricada rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia entre essas pessoas especiais com os diversos segmentos sociais das comunidades onde atuavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse n\u00f3, relacionado com a capacidade humana em abstrair o pensamento para enfrentar a doen\u00e7a e o futuro, est\u00e1 envolvido no processo de liga\u00e7\u00e3o humana com o transcendente atrav\u00e9s da experi\u00eancia religiosa com o sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel que essa complexa manifesta\u00e7\u00e3o social tenha come\u00e7ado no desconhecimento causal das intemp\u00e9ries naturais e alimentado pela necessidade do controle social pelos que detinham o poder pol\u00edtico e militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior pane da comunica\u00e7\u00e3o religiosa acabou sendo feita sobre a regra bin\u00e1rio do pr\u00eamio-castigo. A sa\u00fade e a bonan\u00e7a eram os pr\u00eamios pelo cumprimento das ordens, a doen\u00e7a e o mau tempo representavam o castigo pela desobedi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa raz\u00e3o, o aliado do poder dominador que curasse a doen\u00e7a e previsse os infort\u00fanios, representava a divindade. Ao contr\u00e1rio, quem n\u00e3o reproduzisse a mensagem dominadora, mesmo que sarasse e adivinhasse com a mesma compet\u00eancia, era identificado como a anti-divindade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m poss\u00edvel evidenciar que os curadores e adivinhos, em muitos contextos hist\u00f3ricos, exerceram fun\u00e7\u00e3o equivalente na organiza\u00e7\u00e3o social. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os tratados divinat\u00f3rios e os progn\u00f3sticos m\u00e9dicos est\u00e3o ligados desde os primeiros tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00f3gico pensar que a posse do dom sempre deu mais poder a quem o possu\u00eda, colocando-o em destaque na comunidade, sempre aparecendo na Hist\u00f3ria como conselheiro prudente ao intermediar a vontade divina e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas suas pr\u00e1ticas, eles utilizaram esse poder e os saberes historicamente acumulados no trato da doen\u00e7a para manter os seus privil\u00e9gios ou estruturar certos n\u00facleos de resist\u00eancia em situa\u00e7\u00e3o de adversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda possibilidade se d\u00e1, fundamentalmente, quando o poder, nas suas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, tenta impor novas concep\u00e7\u00f5es escatol\u00f3gicas, como etapa indispens\u00e1vel da substitui\u00e7\u00e3o cultural da luta entre dominador e dominado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem do dominador para manter o projeto pol\u00edtico de mudan\u00e7a do antigo pelo recente \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia. Ela deve trazer, de modo transparente a mensagem de esperan\u00e7a requerida pelos anseios coletivos anteriores \u00e0 conquista. S\u00f3 assim, ser\u00e1 competente para seduzir e minimizar a resist\u00eancia no povo conquistado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas circunst\u00e2ncias que seguem o jogo de for\u00e7a entre conquistador e conquistado, a resist\u00eancia nasce e manifesta-se na raz\u00e3o inversa da sedu\u00e7\u00e3o exercida pelas novas propostas de vida e morte ao fazer surgir outros conceitos de salva\u00e7\u00e3o pessoal e coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o do poder dominante com as id\u00e9ias religiosas \u00e9 caracterizada pela tend\u00eancia marcante, sempre que poss\u00edvel, para substituir o conjunto das cren\u00e7as do povo subjugado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando esta alternativa se toma imposs\u00edvel de ser realizada em curto prazo, s\u00e3o impostas as alian\u00e7as culturais atrav\u00e9s do sincretismo religioso, determinadas pelos n\u00facleos de resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns reis citados no Antigo Testamento, como Baal e As tarte cultuados na Mesopot\u00e2mia, foram identificados pelo juda\u00edsmo como cura-dores e adivinhos representantes da anti-divindade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos das tentativas de substitui\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as e das id\u00e9ias religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dura condi\u00e7\u00e3o de vida imposta aos povos conquistados pelos monarcas pr\u00e9-crist\u00e3os contribuiu para o aparecimento de v\u00e1rios her\u00f3is m\u00edtico de salva\u00e7\u00e3o durante a domina\u00e7\u00e3o romana na Palestina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surgimento do cristianismo pode ser inserido nesse contexto, onde muitos povos, desgastados com as suas antigas cren\u00e7as, foram buscar na nova mensagem crist\u00e3 as for\u00e7as da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de substitui\u00e7\u00e3o cultural nunca se d\u00e1 em linha reta. E efetuado em dois momentos distintos: o novo sendo difundido a partir da desmoraliza\u00e7\u00e3o do antigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade aumenta no embate das for\u00e7as de press\u00e3o e contrapress\u00e3o dos grupos que digladiam para ocupar os espa\u00e7os. Todavia, \u00e9 somente no segundo instante que a conquista se consolida, justamente quando pode aparecer o her\u00f3i m\u00edtico de salva\u00e7\u00e3o para satisfazer as aspira\u00e7\u00f5es coletivas imediatas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existiram muitos her\u00f3is m\u00edticos na Hist\u00f3ria das cren\u00e7as e das id\u00e9ias religiosas. Jesus Cristo, fundador do cristianismo, \u00e9 identificado como um dos mais importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mensagem crist\u00e3 de liberta\u00e7\u00e3o modificou completamente a estrutura s\u00f3cio-pol\u00edtica do mundo Quase dois mil anos depois, continua tendo uma sedu\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel, capaz de penetrar na profundidade do sentimento humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com os Evangelhos, Jesus Cristo veio ao mundo como o filho encamado de Deus, com poderes de curar e ressuscitar a fim de anunciar uma nova mensagem escatol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que n\u00e3o podemos deixar de pensar na exist\u00eancia de outras condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas para sedimentar a incr\u00edvel sedu\u00e7\u00e3o que acompanhou a mensagem salv\u00edfica anunciada pelo cristianismo primitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mis\u00e9ria tinha atingido um patamar insuport\u00e1vel para o povo ouvinte das primeiras mensagens crist\u00e3s. H\u00e1 1900 anos, a popula\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano foi calculada na ordem de 65 a 70 milh\u00f5es e somente perto de quatro milh\u00f5es, segundo os dados demogr\u00e1ficos levantados pelo imperador Augusto, eram cidad\u00e3os romanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os hebreus, no Oriente hel\u00eanico, que j\u00e1 adoravam um Deus \u00fanico centenas de anos antes, chegavam \u00e0 propor\u00e7\u00e3o significativa de um para cada dez habitantes daquela regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destitu\u00eddas do m\u00ednimo para sobreviver como escravos, durante muitas gera\u00e7\u00f5es as oposi\u00e7\u00f5es foram impiedosamente esmagadas pelo poder dominador. Elas resistiram utilizando artif\u00edcios de simula\u00e7\u00e3o, quase sempre refugiadas em guetos, onde a organiza\u00e7\u00e3o social r\u00edgida em imperativa para a sobreviv\u00eancia do grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As comunidades hebraicas faziam parte desse bizarro mosaico de mentalidades. Elas reproduziram, ao longo de tr\u00eas mil anos, as pr\u00f3prias experi\u00eancias sagradas atrav\u00e9s de tr\u00eas elementos de coes\u00e3o social organizados pelos seus representantes da Divindade: a f\u00e9 monote\u00edsta, a sinagoga e s\u00e1bado. Esse conjunto, em grande parte oriundo da mem\u00f3ria oral, foi transcrito para os livros sagrados (Tora e Talmude) e utilizado como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o semita vivia uma religi\u00e3o de f\u00e9 em Deus e a esperan\u00e7a no futuro capaz de modificar. \u00d2 intoler\u00e1vel jugo estrangeiro contestador dos elementos da coes\u00e3o social.\u00a0 A promessa de Divindade aos profetas transformou os hebreus no povo do futuro que desfrutaria da terra prometida farta que mana leite e mel. Assim, o juda\u00edsmo rompeu com no tempo c\u00edclico e estabeleceu a cren\u00e7a num tempo final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E evidente que as id\u00e9ias religiosas se manifestam no coletivo de modo sincr\u00e9tico, sem que se possa estabelecer limites precisos onde come\u00e7a uma express\u00e3o de religiosidade e termina a outra. O cristianismo primitivo, nascido no seio das mamas populares perseguidas pela implac\u00e1vel domina\u00e7\u00e3o romana, foi aquecido pelas cren\u00e7as mais antigas do juda\u00edsmo, que continuava esperando o seu her\u00f3i m\u00edtico de salva\u00e7\u00e3o (Jo 1,49):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;<em>Ent\u00e3o Natanael exclamou: Rab\u00ed, tu \u00e9s o filho de Deus, tu \u00e9s o Rei de Israel<\/em>?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda nesse ponto de sua hist\u00f3ria, o cristianismo era uma manifes-ta\u00e7\u00e3o religiosa de povos oprimidos, desesperados para minorar os sofrimentos, porque estava pleno de sincretismo, onde os curadores e adivinhos de todos os matizes tinham espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era indispens\u00e1vel que fosse consolidada a mudan\u00e7a. Os primeiros padres da cristandade, cumprindo o processo de substitui\u00e7\u00e3o cultural do velho pelo novo, deslocaram grande parte da antiga escatologia judaica e passaram com nitidez de uma concep\u00e7\u00e3o coletiva para valorizar mais o individual, onde a confiss\u00e3o a Jesus era a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a sua passagem de religi\u00e3o dos desprotegidos para dar legitimidade ao dominador, iniciou o longo processo de domina\u00e7\u00e3o por meio da catequese. Todos e tudo que se colocavam entre o Cristo crucificado e os projetos dominadores deveriam ser eliminados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paj\u00e9, esteio da coes\u00e3o tribal, foi uma das tristes v\u00edtimas dessa escolha. Apesar de ter sido brutalmente desmoralizado pela sanha colonial durante quatro s\u00e9culos, continuou resistindo nos. confins das florestas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O padre salesiano Bruzzi, depois de conviver durante mais de duas d\u00e9cadas num povoado do grupo Tukano, no Amazonas, \u00e9 testemunha viva desta resist\u00eancia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0&#8220;\u00c9 talvez o maior sacrif\u00edcio que a catequese cat\u00f3lica imp\u00f5e aos ind\u00edgenas crist\u00e3os, a ren\u00fancia \u00e0 cren\u00e7a no poder do paj\u00e9. Em alguns casos, s\u00f3 o consegue parcialmente&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma parte significante do clero cat\u00f3lico continua combatendo os curadores populares nascidos das tens\u00f5es sociais. Sem compreend\u00ea-los como agentes de coes\u00e3o social, n\u00e3o est\u00e1 conseguindo processar uma linguagem sedutora capaz de satisfazer os atuais desejos nascidos nas contradi\u00e7\u00f5es do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa dissocia\u00e7\u00e3o entre a hierarquia eclesi\u00e1stica e a concep\u00e7\u00e3o do sagrado das massas culminou, na Idade M\u00e9dia, com o brutal assassinato de milhares de pessoas nas fogueiras de lenha verde, acesas pela insanidade da Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse per\u00edodo, entre os anos 900 e 1600, quando se consolidou o cristianismo como religi\u00e3o dominante, no Ocidente, o processo abandonou os cuidados coletivos com a sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o e higiene recomendados pelos livros sagrados do juda\u00edsmo e pela cultura greco-romana. Como a nova religi\u00e3o n\u00e3o teve tempo para sedimentar outras regras, a maior parte das massas populares ficou sem par\u00e2metros para enfrentar as dificuldades resultantes da urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O triste resultado se revelou no tipo de arquitetura centrada sobre a catedral com o completo desprezo das regras de sa\u00fade coletiva e pessoal adotadas no mundo greco-romano. Provavelmente, este fato contribuiu para a dissemina\u00e7\u00e3o das grandes epidemias que sangraram a Europa no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a mesma abordagem \u00e9 tamb\u00e9m poss\u00edvel enfocar alguns aspectos do processo colonizador brasileiro, onde o sincretismo religioso se fez muito forte todos os estratos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a dos n\u00facleos de resist\u00eancia \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o cultural imposta pelo colonizador crist\u00e3o no Brasil, em diferentes \u00e9pocas, obedeceu \u00e0s tend\u00eancias das quatro tradi\u00e7\u00f5es religiosas lideradas pelos seus agentes, atuantes simultaneamente como curandeiros e adivinhos, mais ou menos valorizados ou combatidos pelo poder dominador de acordo com os componentes da tens\u00e3o social:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Ind\u00edgena &#8211; o paj\u00e9;<\/li>\n<li>Africana &#8211; o pai de santo;<\/li>\n<li>Crist\u00e3 &#8211; o padre;<\/li>\n<li>Kardecismo &#8211; o m\u00e9dium.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O catolicismo romano ao combater os curadores populares, nascidos nas tens\u00f5es sociais e sem compreend\u00ea-los como agentes da coes\u00e3o social, n\u00e3o est\u00e1 conseguindo processar uma linguagem sedutora capaz de satisfazer os atuais desejos erguidos pelos agravos da mis\u00e9ria social que domina o subdesenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A persist\u00eancia desse div\u00f3rcio entre a hierarquia eclesi\u00e1stica e a concep\u00e7\u00e3o do sagrado das massas populares \u00e9, em parte, respons\u00e1vel pelo esvaziamento das par\u00f3quias. Por outro lado, se reflete na gradativa diminui\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado, as novas igrejas crist\u00e3s, frutos da atomiza\u00e7\u00e3o do poder da C\u00faria Romana, divulgam mensagens mais sedutoras, promovendo as sess\u00f5es de curas e catarses ao som dos c\u00e2nticos de louvor \u00e0 divindade, entoados por milhares de fi\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essa estrat\u00e9gia, elas penetram com maior facilidade na vontade popular e ocupam os espa\u00e7os s\u00f3cio-pol\u00edticos nascidos do desencanto, da insatisfa\u00e7\u00e3o e da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os curandeiros e adivinhos tomaram-se elementos de coes\u00e3o social ao aperfei\u00e7oarem o trato com o sagrado, resistirem \u00e0s conquistas e impulsionarem o homem e a mulher em dire\u00e7\u00e3o da liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ENTENDENDO A SA\u00daDE E A DOEN\u00c7A Prof. Dr. HC JO\u00c3O BOSCO BOTELHO A medicina como especialidade social A dor e o prazer As mem\u00f3rias s\u00f3cias gen\u00e9ticas Ser-tempo e ser-n\u00e3o-tempo Curadores e adivinhos A MEDICINA COMO ESPECIALIDADE SOCIAL O passar dos &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2642\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-2642","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eticamedicabioetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2642"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2642\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2644,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2642\/revisions\/2644"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}