{"id":2645,"date":"2019-03-23T15:52:12","date_gmt":"2019-03-23T19:52:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2645"},"modified":"2019-03-23T15:52:12","modified_gmt":"2019-03-23T19:52:12","slug":"o-ato-de-escrever-e-as-memorias-socio-geneticas-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2645","title":{"rendered":"O ATO DE ESCREVER E AS MEM\u00d3RIAS S\u00d3CIO GEN\u00c9TICAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof.\u00a0 Dr.\u00a0 HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>O desvendar do corpo e o ato de escrever.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos mais intrigantes e, ao mesmo tempo, fascinantes, no estudo da neuropsicologia, \u00e9 como ocorreu, no corpo, desde tempos imemoriais, o processo de adapta\u00e7\u00e3o que culminou no acervo, guarda e reprodu\u00e7\u00e3o do conhecimento historicamente acumulado, atrav\u00e9s das linguagens oral e escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na realidade, o maior obst\u00e1culo do pesquisador continua sendo estabelecer, no m\u00e9todo cient\u00edfico, as correla\u00e7\u00f5es entre a forma e a fun\u00e7\u00e3o, no sistema nervoso central, em n\u00edveis macrosc\u00f3picos (\u00f3rg\u00e3o), microsc\u00f3pico (c\u00e9lula), ultramicrosc\u00f3pico (mol\u00e9cula), at\u00f4mico e subat\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito de outro modo, se a observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica \u00e9 suficiente para comprovar que o ser humano \u00e9 capaz de falar e escrever, torna\u2011se obrigat\u00f3rio existirem \u00e1reas an\u00e1tomo\u2011funcionais, nos n\u00edveis acima mencionados, respons\u00e1veis por aquelas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os entraves aumentam na raz\u00e3o direta do avan\u00e7o dos estudos na dire\u00e7\u00e3o da menor estrutura. O desconhecimento fica mais denso a partir da mol\u00e9cula, portanto ainda muito distante da unidade massa\u2011energia, no interior do \u00e1tomo, objetivo maior da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A convic\u00e7\u00e3o de um evoluir temporal imp\u00f5e, de modo contundente, o estudo das mudan\u00e7as corporais estendidas no tempo. \u00a0Assim, sob a guarda da anatomia, no n\u00edvel macrosc\u00f3pico, e da fisiologia do sistema nervoso central (SNC) humano, \u00e9 poss\u00edvel ensaiar, atrav\u00e9s da paleopatologia\u00a0\u00a0 \u00a0com razo\u00e1vel margem de acerto, a an\u00e1lise das impress\u00f5es determinadas pelo c\u00e9rebro dos homin\u00eddeos, na face interna dos cr\u00e2nios f\u00f3sseis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As transforma\u00e7\u00f5es sofridas na forma do sistema nervoso central (SNC), h\u00e1 milhares de anos, e, consequentemente, o modo como o \u00f3rg\u00e3o se mantinha, em contato com os ossos do cr\u00e2nio, est\u00e3o, sem qualquer d\u00favida, relacionadas, tamb\u00e9m, com a atual capacidade de falar e de escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns antrop\u00f3logos<sup>1<\/sup> afirmam que as moldagens endocranianas dos Pitecantropos (Homo eretos viveu h\u00e1 300. 000 anos) evidenciam, na superf\u00edcie cortical, marcas das \u00e1reas identificadas, hoje, como respons\u00e1veis pela linguagem falada. Nesse sentido, \u00e9 razo\u00e1vel pensar que esse antepassado humanoide j\u00e1 possu\u00edsse algum tipo de fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os atos de falar e de escrever est\u00e3o unidos em complexa ponte, envolvendo a maior parte do SNC com a vida de rela\u00e7\u00e3o, principalmente certos segmentos do c\u00f3rtex, identificados com a capacidade de imaginar e representar a fic\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a coisa n\u00e3o percebida na materialidade espacial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admite\u2011se a exist\u00eancia de um c\u00e9rebro primitivo onde estariam escritas as mem\u00f3rias indispens\u00e1veis \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie<sup>2<\/sup>. A convic\u00e7\u00e3o dessa heran\u00e7a primitiva \u00e9 apoiada em estudos da embriologia, capazes de afian\u00e7ar a incr\u00edvel semelhan\u00e7a na forma entre embri\u00f5es de diferentes esp\u00e9cies, com at\u00e9 tr\u00eas semanas de vida intrauterina. Essa similitude imp\u00f4s o conhecido pressuposto: a ontogenia segue, em determinado tempo, a filogenia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos principais alicerces da ponte entre o passado muito antigo, contido no c\u00e9rebro primitivo, oriundo da filogenia comum, e o c\u00e9rebro atual, resultante do processo evolutivo \u00e9 a insubstitu\u00edvel polaridade entre a dor e o prazer<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fugir da dor e buscar o prazer continua sendo a mais forte das ordens filogen\u00e9ticas. Todos aos animais, de qualquer esp\u00e9cie, organizam\u2011se com o objetivo de evitar a dor de qualquer natureza e ativar, sempre que necess\u00e1rio, as fontes naturais produtoras de prazer. Entre as mais importantes est\u00e3o a sexualidade e o alimentos, ambos acompanhados das deriva\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As contradi\u00e7\u00f5es contidas nos dramas sociais, provocados pela luta em torno da sobreviv\u00eancia dos antepassados humanoides, induziram, pouco a pouco, modifica\u00e7\u00f5es na forma do corpo e, especificamente, na do SNC, ajustando as metas das novas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceitar o prazer e recusar a dor parece ter sido um ponto comum de incontest\u00e1vel relev\u00e2ncia no projeto da vida humana no planeta. Todo o corpo foi adaptado a esse determinante s\u00f3cio gen\u00e9tico. \u00a0Incont\u00e1veis termina\u00e7\u00f5es nervosas livres mant\u00eam todas as estruturas corporais atentas \u00e0 dor e ao prazer. Pode\u2011se afirmar, sem receio de estar cometendo um exagero, que a vida humana, nos moldes hoje aceitos como reais, n\u00e3o teria sido poss\u00edvel, sem essa adapta\u00e7\u00e3o neurossensorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Acoplado \u00e0 forma primitiva, como fruto do processo de humaniza\u00e7\u00e3o, formou\u2011se, no SNC, o neoc\u00f3rtex, adicionando um ajuste entre o passado remoto e as emo\u00e7\u00f5es, atualizadas, pouco a pouco, na temporalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O neoc\u00f3rtex \u00e9 um conjunto heterog\u00eaneo de \u00e1reas encef\u00e1licas, relacionado com o comportamento emocional e, desta forma, com a capacidade humana de reproduzir, tamb\u00e9m, o ato ficcional. Entre as suas estruturas mais importantes, est\u00e3o tronco encef\u00e1lico, hipot\u00e1lamo, t\u00e1lamo, \u00e1rea pr\u00e9\u2011frontal e sistema l\u00edmbico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 1937, gra\u00e7as aos estudos de James Paez, ficou demonstrado que as emo\u00e7\u00f5es est\u00e3o, na maior parte, relacionadas com as estruturas do sistema l\u00edmbico, do hipot\u00e1lamo e do t\u00e1lamo, conhecido, posteriormente, como circuito de Paez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 hoje, n\u00e3o foi poss\u00edvel separar a linguagem emocional (choro, riso, gestos, postura corporal, a m\u00edmica do prazer e da dor, o olhar, etc.), com origem, predominantemente, l\u00edmpida, da linguagem volunt\u00e1ria, cuidada no vocabul\u00e1rio, armazenado no neoc\u00f3rtex.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cirurgia experimental evidenciou, definitivamente, a import\u00e2ncia do sistema l\u00edmbico nas emo\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a retirada cir\u00fargica bilateral da parte anterior dos lobos temporais, em macacos R\u00e9us, lesando hipocampo, giro parahipocampal e corpo amigdaloide, os animais modificaram o comportamento, nos seguintes pontos:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>a agressividade foi substitu\u00edda pela passividade;<\/li>\n<li>passaram a comer alimentos antes recusados;<\/li>\n<li>incapacidade de reconhecer objetos, como ferro em brasa, e outros animais, como escorpi\u00f5es e cobras, antes, determinantes de dor f\u00edsica e medo;<\/li>\n<li>aumento da atividade oral levando todos os objetos \u00e0 boca, mesmo aqueles que poderiam causar a morte;<\/li>\n<li>aumento desordenado da atividade sexual, levando os animais a tentarem o ato sexual com parceiros de outras esp\u00e9cies e a de se masturbarem continuamente.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora da conhecida conjun\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, sem que saibamos por qu\u00ea, a lateraliza\u00e7\u00e3o funcional dos hemisf\u00e9rios cerebrais indica o esquerdo, nos indiv\u00edduos destros, como o predominante na linguagem e no controle da atividade gestual proposital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hemisf\u00e9rio cerebral direito \u00e9 o respons\u00e1vel pela apreens\u00e3o viso espacial, pelas atividades musicais e pelo reconhecimento da forma fision\u00f4mica. Assim, identifica e classifica, atrav\u00e9s da an\u00e1lise da forma, sem que o nome do objeto, na linguagem oral, ou a palavra, na linguagem escrita, necessitem ser expressos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos primatas, a vocaliza\u00e7\u00e3o organiza\u2011se na face interna do lobo frontal. No rastro da ontog\u00eanese, esse controle se torna, gradualmente, mais complexo e \u00e9 poss\u00edvel, no homem, determinar uma \u00e1rea especializada, na convexidade do c\u00f3rtex frontal, mantendo conex\u00f5es sin\u00e1pticas, no sentido cr\u00e2nio\u2011caudal, no n\u00edvel rinencef\u00e1lico, reticular peduncular, bulbo e \u00f3rg\u00e3os fonadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as a essa interliga\u00e7\u00e3o, entre outras determinantes, os humanos s\u00e3o capazes de reagir, seletivamente, ao sinal emitido pelos semelhantes e reproduzir, pela imita\u00e7\u00e3o, a mensagem ouvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sequ\u00eancia, as linguagens oral e escrita guardam, nas origens, a profunda marca da vida afetiva, onde as emo\u00e7\u00f5es sentidas ou friccionadas s\u00e3o armazenadas numa mem\u00f3ria, infelizmente escondida nas dimens\u00f5es molecular e at\u00f4mico\u2011corpuscular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos produtos finais da interliga\u00e7\u00e3o das estruturas cerebrais com a vida vivida \u00e9 reproduzida na consci\u00eancia de si mesmo, impondo aos homens a incr\u00edvel condi\u00e7\u00e3o de deposit\u00e1rio e herdeiro das gera\u00e7\u00f5es anteriores, transmitida, inicialmente, pela oralidade e, depois, seguida pela linguagem escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte dos pesquisadores concordam em que a linguagem, para se manifestar, estabelece estreitas correla\u00e7\u00f5es sin\u00e1pticas em todo o enc\u00e9falo, passando no neoc\u00f3rtex associativo, com o objetivo de manter ativa a percep\u00e7\u00e3o do circundando e a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es vividas na interpreta\u00e7\u00e3o do ato apreendido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na dimens\u00e3o macrosc\u00f3pica (\u00f3rg\u00e3o), os pontos cerebrais em torno dos quais se organiza a linguagem s\u00e3o a \u00e1rea de Broca, a \u00e1rea motora respons\u00e1vel pelo controle fon\u00e9tico da express\u00e3o, e a zona de Herschel, de natureza receptiva, onde a mensagem \u00e9 decodificada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois hemisf\u00e9rios cerebrais n\u00e3o participam, igualmente, desse complicado mecanismo neurofisiol\u00f3gico. A domin\u00e2ncia do esquerdo, como nas atividades manuais, \u00e9 programado, geneticamente. Por outro lado, sabe\u2011se que o hemisf\u00e9rio cerebral direito n\u00e3o \u00e9 desprovido de fun\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica. Apesar de n\u00e3o ter acesso \u00e0 palavra, \u00e9 capaz de manter a informa\u00e7\u00e3o em torno de frases curtas e pode decifrar a linguagem escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem que possamos estabelecer as causas, o hemisf\u00e9rio direito, mesmo anat\u00f4mico e funcionalmente menos adaptado para exercer o dom\u00ednio da linguagem, poder\u00e1 substituir o esquerdo, no caso de uma les\u00e3o irrevers\u00edvel, antes da idade de cinco anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez essa similitude escondida na forma e trazida \u00e0 tona na necessidade da fun\u00e7\u00e3o suprimida por causas n\u00e3o cong\u00eanitas, esteja relacionada com certos aspectos moduladores do discurso que interagem os dois hemisf\u00e9rios cerebrais, traduzidos na linguagem escrita, com os adv\u00e9rbios e as locu\u00e7\u00f5es exprimindo reserva e acentua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, \u00e9 razo\u00e1vel supor, mesmo n\u00e3o sendo ainda poss\u00edvel realizar demonstra\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio, que o processo evolutivo determinou tamb\u00e9m modifica\u00e7\u00f5es fundamentais a n\u00edvel celular e molecular capazes de ajustar as fun\u00e7\u00f5es cerebrais \u00e0s necessidades sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa afirmativa \u00e9 incisiva e incontest\u00e1vel em outras partes do corpo. Por exemplo, a diminui\u00e7\u00e3o gradativa da arcada dent\u00e1ria em fun\u00e7\u00e3o do menor uso do esfor\u00e7o mastigat\u00f3rio. A partir do uso do fogo<sup>4<\/sup>, mais ou menos em torno de trezentos mil anos, ocorreu um conjunto de fatores, incluindo o cozimento dos alimentos, tornando\u2011os mais macios, ocasionando a redu\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia da musculatura mastigat\u00f3ria e, em consequ\u00eancia, do tamanho e n\u00famero de dentes reptos, na maturidade. \u00a0Essa seria uma explica\u00e7\u00e3o dos terceiros molares permanecerem inclusos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, a maior parte do SNC permanece desconhecida a n\u00edvel molecular e dificulta o estudo nos moldes do m\u00e9todo experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 inconceb\u00edvel pensar no ato de escrever ligado somente \u00e0s trocas metab\u00f3licas f\u00edsico\u2011qu\u00edmicas, no n\u00edvel biol\u00f3gico\u2011molecular, ou na exclusiva origem social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tempo de interagir a natureza, o social e a Hist\u00f3ria com a gen\u00e9tica. A for\u00e7a mental que impulsiona a repeti\u00e7\u00e3o e molda a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte para ser exclusivamente sociocultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto das rea\u00e7\u00f5es neuroqu\u00edmicas, ligando o ser ao objeto, s\u00f3 \u00e9 consolidado nas mentalidades \u2500 memorizado e reproduzido \u2500 quando for elaborado em estreita conson\u00e2ncia com as necessidades pessoais e coletivas, requeridas no processo societ\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser \u00e9 biol\u00f3gico e social; ele n\u00e3o existe sem as rela\u00e7\u00f5es de trocas e estas n\u00e3o seriam poss\u00edveis sem ele. Logo, todas as a\u00e7\u00f5es por ele apreendidas, inclusive a escrita, tamb\u00e9m seguem o mesmo concatenamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As an\u00e1lises hist\u00f3ricas, pretendendo compreender e transformar a sociedade, e as teorias pedag\u00f3gicas, desprezando um dos componentes extr\u00ednsecos (a natureza, o social e a Hist\u00f3ria) e o intr\u00ednseco (a gen\u00e9tica) tem pouca possibilidade de resistir \u00e0 cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, os indicadores mostram que todas as teorias pretendendo desvendar os mist\u00e9rios da vida de rela\u00e7\u00e3o \u2011 nas quais est\u00e3o inclu\u00eddas as que tratam da fant\u00e1stica capacidade de escrever \u2011 valorizando a natureza humana pendular entre o objetivo e o subjetivo, contida nos determinantes intr\u00ednsecos e extr\u00ednsecos, acima citados, oferecem maior possibilidade de acerto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretendo, o conjunto formador que gera a a\u00e7\u00e3o apreendida n\u00e3o se d\u00e1 sobre o nada. As estruturas nervosas, centrais e perif\u00e9ricas, respons\u00e1veis pela intercomunica\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria, a linguagem, os sentidos e o social ligam\u2011se ao c\u00f3rtex cerebral, atrav\u00e9s de bilh\u00f5es de sinapses. \u00c9 a pris\u00e3o mental de cada um. \u00c9 a jarra de Pandora de onde j\u00e1 saiu, na oralidade, e continuar\u00e1 brotando, na linguagem escrita, todos os infort\u00fanios e todas as esperan\u00e7as da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida de rela\u00e7\u00e3o, registrada no ato de escrever, est\u00e1 sob o constante crivo neurol\u00f3gico\u2011funcional. N\u00e3o existe qualquer d\u00favida das conjun\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas e funcionais, unindo como g\u00eameos xif\u00f3pagos, a forma e a fun\u00e7\u00e3o, mesmo que at\u00e9 hoje n\u00e3o estejam bem explicadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, est\u00e3o identificados, pela cirurgia experimental, alguns centros neurol\u00f3gicos espec\u00edficos, relacionados com o comportamento emocional. Quando estimulados artificialmente por corrente el\u00e9trica, nos animais de laborat\u00f3rio, s\u00e3o capazes de os impelir \u00e0s express\u00f5es de sono, agressividade e medo ou fazer o animal assumir posi\u00e7\u00e3o de c\u00f3pula ou de choro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 de existir algum tipo de coer\u00eancia funcional a n\u00edvel celular, molecular e em dimens\u00f5es ainda menores, na conjun\u00e7\u00e3o massa\u2011energia, no interior do \u00e1tomo, ligando o ser ao objeto, transcrito no ato de escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, a capacidade individual para sentir e expressar as emo\u00e7\u00f5es, nas linguagens, nasceriam como consequ\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es biol\u00f3gico\u2011sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vez por outra, o lento desvendar avan\u00e7a, apoiado no estudo dos achados acidentais. Foram descritos dois casos cl\u00ednicos, na literatura especializada, relacionados com os n\u00facleos cerebrais da linguagem, atendidos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do Hospital Maggiore, Bolonha, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro, um homem com 62 anos, depois de sofrer um derrame cerebral, n\u00e3o conseguiu mais escrever as vogais; as palavras eram escritas em perfeita simetria com o pensamento expresso oralmente, por\u00e9m s\u00f3 com as consoantes. O paciente n\u00e3o conseguia simbolizar as cinco letras. N\u00e3o resta mais d\u00favida de que a escolha dos caracteres, para compor a linguagem escrita, est\u00e1 contida num segmento espec\u00edfico do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo relato diz respeito ao paciente do sexo masculino, 32 anos, norte\u2011americano, que depois de ser acometido por acidente vascular cerebral, perdeu a familiaridade com o ingl\u00eas, sua l\u00edngua materna, e passou a acrescentar vogais \u00e0s palavras, resultando num sotaque escandinavo. A cura do dist\u00farbio deu\u2011se na medida da recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea cerebral danificada pela isquemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente nessa converg\u00eancia, entre o f\u00edsico presente na estrutura celular e o crivo do gen\u00e9tico\u2011social, dando forma \u00e0 fun\u00e7\u00e3o, que ocorre a maravilhosa e intrigante materialidade da ideia invis\u00edvel, capaz de nominar, desvendar, criar e transformar o objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa raz\u00e3o n\u00e3o existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente<sup>5<\/sup>. No contexto da multidisciplinaridade, as gram\u00e1ticas s\u00e3o, na ess\u00eancia, ideol\u00f3gicas, porque expressam um tipo de posse do real e as caracter\u00edsticas pessoais que marcam, profundamente, nos corpos, os prazeres e as dores sentidos e imaginados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa raz\u00e3o, a busca da verdade opera\u2011se no conflito entre o objetivo e o subjetivo (de certa forma, confundindo\u2011se com o sagrado e o profano), refletindo o estado da coisa numa determinada temporalidade. A variante do tempo imp\u00f5e\u2011se, por estar contida na ess\u00eancia que torna percept\u00edvel a forma e a fun\u00e7\u00e3o do ser vivente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo prim\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gico\u2011motora (a ideia seguida do movimento do corpo), motivada pela mensagem at\u00e1vica\u2011social, responde, por si mesmo, ao mais fundamental sentimento mantenedor da sobreviv\u00eancia: a coopera\u00e7\u00e3o unindo os grupos para fugir \u00e0 dor e desfrutar do maior prazer. Algo que poderia ser chamado de cr\u00edtica da prote\u00e7\u00e3o pura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os seres vivos, sem exce\u00e7\u00e3o, desejam o abrigo protetor. N\u00e3o se trata, exclusivamente, do viver. O morrer pode representar, em certos instantes, o ato cooperativo dominante e, nesse caso, a morte representar\u00e1 a prote\u00e7\u00e3o pura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O anseio para compreender as diferen\u00e7as entre o constatado pelos sentidos (objetivo) e o imaginado extra\u2011sensorial (subjetivo), propiciou interdepend\u00eancia muito forte entre elas. Em certas etapas do processo, \u00e9 imposs\u00edvel saber onde come\u00e7a uma e termina a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existiram partidas independentes. A realidade, vivida pelos humanos com os outros animais, dividindo o meio ambiente comum, contribuiu para fortalecer profundas imita\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, presentes como marcas profundas do tempo passado, na consci\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos inventos e express\u00f5es est\u00e9ticas, no passado e no presente, projetadas pelo aprimoramento da t\u00e9cnica, acabam sendo facilmente identificadas no meio comum partilhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00edmpeto para reproduzir os elementos vis\u00edveis, tirando deles a utilidade para sustentar o conforto (aqui compreendido como a fome e a sede saciadas, o al\u00edvio da dor e o abrigo contra o frio e o calor), influenciou as primeiras intera\u00e7\u00f5es entre o pensamento, o ato e o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato dos nossos ancestrais long\u00ednquos terem aprimorado as c\u00f3pias do percept\u00edvel na natureza circundante<sup>6<\/sup>, animais e coisas, nos abrigos das cavernas, h\u00e1 milhares de anos, representa a certeza da profunda coer\u00eancia entre a forma e a fun\u00e7\u00e3o no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>As mem\u00f3rias s\u00f3cias\u2011gen\u00e9ticas<sup>3<\/sup><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de os estudos da an\u00e1tomo\u2011fisiologia terem desvendado alguns aspectos importantes da forma e da fun\u00e7\u00e3o do SNC relacionados com as linguagens oral e escrita, estamos longe, muito longe de compreender a maior parte das d\u00favidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A principal barreira \u00e9 a fant\u00e1stica multiplicidade das formas, no ser vivente, gerando fun\u00e7\u00f5es semelhantes. Apesar de os homens e as mulheres possu\u00edrem \u00e1reas an\u00e1tomo\u2011funcionais semelhantes, relacionadas com a linguagem, jamais se expressam igualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As maneiras de articular as palavras, formando as frases e as ideias ficcionais s\u00e3o infinitas. \u00a0Cada ser humano possui, como produto da intera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tico\u2011social, a pr\u00f3pria marca na linguagem utilizada. Apesar de a gram\u00e1tica ser finita, a l\u00edngua gerada por ela \u00e9 incomensur\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O produto final das linguagens oral e escrita \u00e9, consequente, um dos vetores que modulam os componentes extr\u00ednsecos (a natureza, o social e a Hist\u00f3ria) e os intr\u00ednsecos (os padr\u00f5es gen\u00e9ticos herdados na reprodu\u00e7\u00e3o sexuada).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo das mentalidades, em diferentes per\u00edodos, mostra um hist\u00e9rico repetir coletivo, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala filogen\u00e9tica, atr\u00e1s dos anseios fundamentais, ditados por uma categoria nominada neste ensaio de mem\u00f3ria<em> s\u00f3cio gen\u00e9tica<\/em> (MSG). \u00c9 traduzida na vida de rela\u00e7\u00e3o, desde os tempos imemoriais na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto f\u00edsico e emocional (aqui compreendido como a liberdade de ir e vir, de falar, de explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio) nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos fogem da dor e procuram o prazer. A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentido no corpo, s\u00e3o as chaves acionadoras da MSG. Todas as rela\u00e7\u00f5es pessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da t\u00e9cnica, que resultem prazerosas s\u00e3o acatadas, sem esfor\u00e7o, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limit\u00e1\u2011las, ocorre resist\u00eancia. A rebeldia contra o sexo limitado e seus s\u00edmbolos, em todas as vari\u00e1veis, o alimento escasso e a incr\u00edvel sedu\u00e7\u00e3o pelas drogas proibidas s\u00e3o partes importantes do mesmo universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A const\u00e2ncia transmitida aos descendentes, pela reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, dos pontos comuns das mem\u00f3rias s\u00f3cio gen\u00e9ticas pessoais, forma a <em>mem\u00f3ria s\u00f3cio gen\u00e9tica coletiva<\/em> (MSGC), contida no c\u00e9rebro primitivo, heran\u00e7a do tra\u00e7o filogen\u00e9tico comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com reserva por ser mais abrangente e estar contida numa base an\u00e1tomo\u2011funcional, a MSGC pode englobar a categoria jungia-a do inconsciente coletivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mensagens escritas ou orais, estruturadas na ambiguidade objetivo\u2011subjetivo ou, sob certas leituras, do sagrado\u2011profano, trazendo a esperan\u00e7a (n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio a certeza, basta o leve indicativo da possibilidade) de amenizar a dor e o sofrimento, s\u00e3o sempre bem aceitas e festejadas pela MSGC. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os acontecimentos, no Leste europeu, entre 1989 e 1992, s\u00e3o adequados para avaliar quanto o poder pol\u00edtico age, sem obter \u00eaxito, sobre a informa\u00e7\u00e3o consentida, tentando mudar a MSGC<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum poder ordenador amparado pela for\u00e7a expl\u00edcita conseguiu conter, apesar da brutal repress\u00e3o nos por\u00f5es da intoler\u00e2ncia de todos os matizes, a express\u00e3o clara da MSGC, oriunda dos tempos arcaicos, ativada pelo choque das ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo dos regimes autorit\u00e1rios, em todos os tempos, mostra a ordem mais forte criando, pela fic\u00e7\u00e3o, alternativas para influenciar e manter, pela coa\u00e7\u00e3o, o pensamento id\u00eantico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diversidade manifestada na linguagem, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o do subjetivo \u00e9 a primeira grande v\u00edtima. Os discordantes s\u00e3o perseguidos pela implac\u00e1vel ca\u00e7a ao dissidente<sup>8<\/sup>. Considerados loucos, os corpos perdem o valor de identidade e o confinamento compuls\u00f3rio, sob a guarda do poder, retira\u2011os da cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada mais esclarecedor do que o politicamente correto<sup>9<\/sup>, guiando a conduta da maioria, modificando a linguagem superficial e as atitudes, convencida da verdade na nova postura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A capacidade de convencimento, fazendo parte da ideia institucionalizada, assenta\u2011se, sobretudo, na hist\u00f3ria das representa\u00e7\u00f5es, das ideologias e das mentalidades constitu\u00eddas a partir do saber acumulado e sobre ele<sup>9<\/sup>. Por essa raz\u00e3o, continua muito significativo, junto \u00e0s massas populares, a sedu\u00e7\u00e3o exercida pelos pol\u00edticos, prometendo maior conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os saberes p\u00f3s\u2011industriais, baseados nos pressupostos da racionalidade, aqueles considerados durante longo tempo como garantia de progresso e abandonados depois de Auschwitz, Hidroxila e das den\u00fancias acerca dos por\u00f5es da intoler\u00e2ncia das ditaduras de direita e de esquerda, n\u00e3o mais capazes de negar o quanto o corpo sofre durante as emo\u00e7\u00f5es violentas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O empenho do poder, ordenado para orientar a mudan\u00e7a, n\u00e3o obt\u00e9m resultados, quando toca, de modo inadequado, na mem\u00f3ria das lembran\u00e7as historicamente acumuladas. O medo da dor e do desconforto continuam t\u00e3o fortes quanto os mecanismos subjetivos, criados pela fic\u00e7\u00e3o, para atenu\u00e1\u2011los ou confundi\u2011los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As investidas pol\u00edticas\u2011ideol\u00f3gicas para remodelar o mundo, tentando suprimir as lembran\u00e7as das Mg, fracassaram. A Hist\u00f3ria tamb\u00e9m mostra que nem a amea\u00e7a da morte coletiva \u00e9 capaz de desestimular a resist\u00eancia<sup>10<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ato de escrever acoplado \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, adaptou\u2011se, continuamente, a esse querer coletivo: aumentar o conforto e afastar a dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo contestados pelas observa\u00e7\u00f5es corriqueiras, muitos continuam resistindo \u00e0 ideia da estreita depend\u00eancia entre o subjetivo\u2011emocional (o mundo das ideias) e o objetivo\u2011biol\u00f3gico (o corpo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel compreender, nesse ponto, a fant\u00e1stica rela\u00e7\u00e3o entre o ato de escrever com o nascer da consci\u00eancia, diferenciando o c\u00e9rebro da mente, traduzindo uma etapa significativa da corrente, entrela\u00e7ando a natureza, o social e a Hist\u00f3ria nas MSGs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, colocou o homem e a mulher numa condi\u00e7\u00e3o singular e dif\u00edcil: possuir a intelig\u00eancia diferenciada e manter as mesmas caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas dos outros animais menos inteligentes, ligados no elo comum da filog\u00eanese. Enquanto procuram identificar\u2011se entre si, baseados nesse pressuposto, t\u00eam a plena certeza de que, mesmo fabricando os artefatos mais sofisticados, tamb\u00e9m precisam eliminar os excrementos pelos orif\u00edcios do corpo, exatamente como o s\u00edmio preso entre grades no zool\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consci\u00eancia da vida confort\u00e1vel atingida trouxe a inconformidade com o desprazer. Sendo mais inteligente, n\u00e3o poderia ter a mesma import\u00e2ncia das bestas. \u00a0Logo, \u00e9 inaceit\u00e1vel uma morte nos moldes da dos outros animais. Tornou\u2011se imperativo friccionar o conforto tamb\u00e9m ap\u00f3s a morte<sup>11<\/sup>. \u00a0Mas, n\u00e3o para todos. \u00a0Somente os aliados e os concordantes com a ordem teriam um repouso perfeito depois da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos tempos primordiais, as mudan\u00e7as operadas no corpo, causando a ang\u00fastia da deformidade dolorosa, eram as primeiras evitadas. A barriga eviscerada no acidente de ca\u00e7a ou nas disputas pela lideran\u00e7a, ligava o consciente \u00e0 dor e \u00e0 morte e era parte do mundo temido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O prazer, capaz de descontrair o m\u00fasculo enrijecido, trazia sempre a lembran\u00e7a do evento agrad\u00e1vel. A estrutura dos neur\u00f4nios foi continuamente adaptada para identificar, na MSG, a polaridade entre prazer e dor, como o caminho mantenedor da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O castigo, necessariamente carregado de sofrimento doloroso, era imposto pelo homem ou pela divindade, nos espa\u00e7os sagrado e profano, para gerar obedi\u00eancia. O medo, advindo da amea\u00e7a ou da dor f\u00edsica, passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados, do permitido e do proibido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arcabou\u00e7o da dor f\u00edsica na MSG, transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor hist\u00f3rica<sup>12<\/sup> na MSGC. A coes\u00e3o do grupo atingido \u00e9 refor\u00e7ada ao identificar as causas e, assim, orientar, atrav\u00e9s das linguagens, o caminho para elimin\u00e1\u2011la da ordem social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A categoria denominada dor hist\u00f3rica \u00e9 o grito humano pela vida, pela liberdade, pela sa\u00fade, pelo conforto, pela dignidade, pela paz e pela ruptura das correntes que prendem o homem \u00e0 tirania dos outros homens e dos deuses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a raz\u00e3o por que sempre existiu a procura de uma \u00e9tica na conduta humana, ligada \u00e0 sobreviv\u00eancia comum, registrada nos c\u00f3digos de postura, presente no C\u00f3digo de Hamurabi e nos livros sagrados de todas as express\u00f5es de religiosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sagrado ficcionado<sup>13<\/sup> como mecanismo biol\u00f3gico moldando a forma com a fun\u00e7\u00e3o para compensar a dor, imponder\u00e1vel por si mesma, encontrou unisson\u00e2ncia no brado dos espoliados em nome do territ\u00f3rio e do alimento negados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 inten\u00e7\u00e3o simplificar processo de tamanha complexidade. A partir de determinada refer\u00eancia, imp\u00f5e\u2011se a cren\u00e7a numa memoriza\u00e7\u00e3o lenta e gradual, onde as necessidades b\u00e1sicas para sobreviver desempenharam um papel fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bioqu\u00edmica da mem\u00f3ria \u00e9 um dos pontos mais angustiantes do saber acumulado, abriga a quase completa ignor\u00e2ncia de como funciona o sistema nervoso humano. Contudo, as informa\u00e7\u00f5es articuladas com o movimento social mostram a fascinante anatomia funcional no c\u00e9rebro. A procura das solu\u00e7\u00f5es, h\u00e1 mais de quinhentos mil anos, para os problemas enfrentados pelos nossos ancestrais, fez\u2011se em etapas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os instrumentos foram aparecendo, ao mesmo tempo em que ocorriam mudan\u00e7as significativas no c\u00e9rebro, identificadas nos cr\u00e2nios f\u00f3sseis. Todavia, o avan\u00e7o foi descont\u00ednuo. A arqueologia n\u00e3o deixa d\u00favida da coexist\u00eancia entre formas diferentes de artesanato num mesmo per\u00edodo, ajudando a superar as novas dificuldades, impostas pelo aumento gradual das trocas com o meio circundante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As primeiras evid\u00eancias do surgimento das ideias est\u00e9ticas e religiosas s\u00e3o encontradas no Paleol\u00edtico Superior. Apesar da impossibilidade de rastrear os sistemas religiosos na pr\u00e9\u2011hist\u00f3ria, antes de 10. 000 anos, tudo indica que o homem, no Neol\u00edtico, se comportava como o atual: dominava os mais fracos, modificava a natureza para obter o alimento, fugia da dor e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, foram atribu\u00eddos \u00e0 divindade os anseios da vida. Como a escolha n\u00e3o satisfez as exig\u00eancias da cr\u00edtica e n\u00e3o ressoava no observ\u00e1vel, iniciou\u2011se a longa caminhada de conflitos para achar outras vertentes capazes de responder \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exerc\u00edcio do poder dos representantes da divindade, os sacerdotes e as sacerdotisas, misto de curadores e adivinhos, impondo o castigo doloroso aos resistentes, resultou nos princ\u00edpios da din\u00e2mica social, onde a coes\u00e3o e a dissolu\u00e7\u00e3o, em equil\u00edbrio din\u00e2mico, s\u00e3o dependentes, respectivamente, do predom\u00ednio do conforto e da dor, em determinado segmento da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os contestadores das autoridades dominadoras, compreendidos como agentes da dissolu\u00e7\u00e3o ou pecadores, eram punidos com o pior dos castigos: a exclus\u00e3o pela enfermidade, mensageira do sofrimento e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, a linguagem oral e, depois, a escrita retiraram a doen\u00e7a do mundo abstrato. Passou a ser nominada e evitada pela obedi\u00eancia obsequiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parte significativa da MSGC, ligada \u00e0 sobreviv\u00eancia comum, aperfei\u00e7oada durante centenas de gera\u00e7\u00f5es, foi transcrita na passagem da oralidade para a escrita. Os adivinhos, encarregados de prever os malef\u00edcios mandados, como castigo, pelos homens ou pela divindade, assumiram um papel destacado no poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros sagrados, refer\u00eancia maior da ambiguidade sagrado\/profana, s\u00e3o claros quanto ao destaque do curador e do adivinho no controle das mentalidades e na ordem do espa\u00e7o ocupado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A adivinha\u00e7\u00e3o e a cura sempre estiveram associadas ao mesmo universo de ideias. Elas imp\u00f5em duas vertentes de abordagem: como atitude mental dos usu\u00e1rios, agente e cliente, e como institui\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o existem separadas; s\u00e3o associadas e dependentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reprodu\u00e7\u00e3o de um evento, exigindo conduta espec\u00edfica para mudar o cotidiano, s\u00f3 \u00e9 consolidada, se houver a pr\u00e9via coer\u00eancia com os registros memorizados. \u00c9 exatamente o que acontece com a pr\u00e1tica divinat\u00f3ria. Pouco importa a veracidade individual do ato. O peso da representa\u00e7\u00e3o est\u00e1 no convencimento dos atores, amparados pela aceita\u00e7\u00e3o coletiva onde atuam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo semelhante, o cientista, hoje, trabalhando no espa\u00e7o profano, pode tamb\u00e9m mitificar a inabilidade da ci\u00eancia, adotando postura igual, com as mesmas implica\u00e7\u00f5es s\u00f3cio\u2011pol\u00edticas, iguais \u00e0s operadas no espa\u00e7o sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mais antigos registros escritos, feitos na Mesopot\u00e2mia, s\u00e3o contundentes. \u00a0Os ass\u00edrios e babil\u00f4nicos entendiam o pecador como o rebelde possesso da antidivindade. Nos textos cuneiformes, as palavras sortil\u00e9gio, malef\u00edcio, pecado, doen\u00e7a, sofrimento aparecem como sin\u00f4nimos<sup>14<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito gerado na conviv\u00eancia dos nossos ancestrais no espa\u00e7o sagrado, onde a coisa s\u00e9ria engendrada pela divindade, e no espa\u00e7o profano, com o predom\u00ednio do conhecimento emp\u00edrico, determinou os rumos escolhidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura grega antiga, notadamente a da \u00e9poca hipocr\u00e1tico\u2011plat\u00f4nica, portou-se como o marco divisor da necessidade de distinguir a opini\u00e3o do conhecimento<sup>15<\/sup>. N\u00e3o bastava mais algu\u00e9m achar, era imperativo acrescentar os argumentos demonstrativos da linha condutora do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela ocasi\u00e3o, foi mais bem delimitada a materialidade do espa\u00e7o profano, onde iria florir, com maior vigor, os saberes para iniciar o moroso processo tentando desvendar o corpo e as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse suporte epistemol\u00f3gico, os m\u00e9dicos gregos, particularmente os das Escolas M\u00e9dicas de C\u00f3s e de Nido, come\u00e7aram a usar a linguagem escrita para decompor a doen\u00e7a e retir\u00e1\u2011la da primazia divina<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro A doen\u00e7a sagrada, escrito em torno do s\u00e9culo IV a. C, atribu\u00eddo a Hip\u00f3crates, esta quest\u00e3o est\u00e1 transparente: &#8220;Quanto \u00e0 doen\u00e7a que chamamos sagrada, eis aqui o que ela \u00e9: ela n\u00e3o me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que o resto das doen\u00e7as e por origem as mesmas causas que cada uma delas. &#8220;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem escrita, como a oral, est\u00e1 entrela\u00e7ada no conhecimento historicamente acumulado das MSGs. Por essa raz\u00e3o, os gregos hipocr\u00e1ticos foram buscar, nos elementos de Emp\u00e9docles \u2011 terra, \u00e1gua, ar e fogo \u2011 a justificativa das mudan\u00e7as determinadas pela doen\u00e7a no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fil\u00f3sofo de Agrigento, pretendendo a renova\u00e7\u00e3o da imagem do mundo, fundamentou a sua teoria em concep\u00e7\u00f5es mais antigas, que sustentavam, desde a oralidade, a import\u00e2ncia do fogo, da terra, do ar e da \u00e1gua, na sobreviv\u00eancia do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a doen\u00e7a e a morte s\u00e3o as duas institui\u00e7\u00f5es mais marcantes do universo cultural, nada mais sedutor do que a tarefa de desvend\u00e1\u2011las para vencer a vontade divina sobre os corpos<sup>17<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A teoria dos Quatro Humores, refletida nos elementos empedoclinianos, defendida pela escola de C\u00f3s, concebia o ser humano formado de quatro humores: sangu\u00edneo (ar), fleum\u00e1tico (\u00e1gua), bilioso amarelo (fogo) e bilioso preto (terra). A sa\u00fade seria o resultado da perfeita harmonia entre eles e a doen\u00e7a apareceria, quando um deles prevalecesse sobre os outros<sup>18<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os j\u00f4nicos, diversamente, admitiram muitos outros elementos interferindo na sa\u00fade. Os fil\u00f3sofos, notadamente o autor desconhecido de um dos mais c\u00e9lebres livros da antiguidade cl\u00e1ssica, Da natureza do homem, recusavam\u2011se a crer na esquem\u00e1tica regra da teoria dos quatro humores. \u00a0Contudo, o mais compreens\u00edvel, associado com o saber acumulado, defendido pelos hipocr\u00e1ticos, acabou prevalecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os atos coletivos, empregados para modificar a realidade, t\u00eam de estar, obrigatoriamente, assentados em pressupostos te\u00f3ricos, ligados \u00e0 MSGC. \u00c9 no SNC que a forma e a fun\u00e7\u00e3o se completam, dando coer\u00eancia ao ato apreendido. Quem est\u00e1 vendo a dor da fome, estampada no rosto de pen\u00faria dos entes\u2011queridos, ou sentindo a ferida n\u00e3o cicatrizada, est\u00e1 sempre pronto para seguir qualquer proposta para finalizar o sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O brutal mecanismo de for\u00e7ar o convencimento pela for\u00e7a, sempre utilizando o castigo doloroso, colocado em pr\u00e1tica pelo cristianismo como religi\u00e3o do Estado, a partir de Constantino, no s\u00e9culo IV, n\u00e3o foi suficiente para apagar da mem\u00f3ria coletiva o mundo sagrado oriundo dos tempos arcaicos. O povo continuava cultuando as festas equinociais e os deuses planet\u00e1rios metamorfoseados com a proposta de salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alternativa para manter a unidade e seduzir os resistentes foi iniciar um claro movimento em torno do sincretismo, retomar a MSGC, mantendo na linguagem escrita o antigo sob nova roupagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os deuses pag\u00e3os e cultos agr\u00e1rios, da Tr\u00e1cia e da Fr\u00edgia estavam entre os mais solicitados nos altares romanos. \u00a0Foram os primeiros atingidos pelo lento processo de mudan\u00e7a gradual da imagem para receber outro nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As divindades, que at\u00e9 a\u00ed contribu\u00edram para explicar a ideia e a morte, oriundas do universo m\u00edtico babil\u00f4nico, eg\u00edpcio e grego foram, pouco a pouco, sendo substantivadas como antidivindades e aglutinadas no novo espa\u00e7o, o inferno, adotado pela escatologia crist\u00e3, destinado aos transgressores e punidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parte do povo, infelizmente a maioria, desde os tempos remotos, alheia aos determinantes profundos do movimento m\u00edtico que fortalece a consci\u00eancia social, tende a aceitar a verdade sempre do lado do vencedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o simpl\u00f3rio copiador das tabelas dos arquivos, admirador incondicional da hist\u00f3ria escrita pelo vencedor, e para aqueles que manipulam as leis em benef\u00edcio pr\u00f3prio, os homens e os deuses vencidos s\u00e3o mentirosos e condenados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros escritos pelos m\u00e9dicos professos do cristianismo, foram adotados pelos doutores da Igreja como a nova verdade oficial. Podiam ser lidos, nunca questionados. A sa\u00fade e a doen\u00e7a, a vida e a morte, componentes essenciais do controle social, passaram para as m\u00e3os do Deus crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro e mais importante deles, Cl\u00e1udio Galeno, foi o continuador das ideias da escola de C\u00f3s. Durante toda a Idade M\u00e9dia e uma parte da Moderna, quem ousasse duvidar das teorias de Galeno, mesmo comprovando o disparate entre a afirma\u00e7\u00e3o e o observ\u00e1vel, era considerado louco varrido. Os ensinamentos galerianos foram repassados, no mundo crist\u00e3o, como uma verdade religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repress\u00e3o ideol\u00f3gica, patrocinada pela Igreja Cat\u00f3lica, para manter e reproduzir os princ\u00edpios do m\u00e9dico romano, criou uma insanidade coletiva semelhante ao que aconteceu com os escritos de Karl Marx, no Leste europeu, e entre os intelectuais da esquerda latino\u2011americana, nas d\u00e9cadas de sessenta e setenta, ao defend\u00ea-los como verdades acabadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paix\u00e3o dos marxismos p\u00f3s\u2011Marx, fruto da leitura das orelhas dos livros de ci\u00eancia pol\u00edtica, ao enveredar pela mesma trilha dogm\u00e1tica, contribuiu para agravar a crise de subjetividade que acelerou a derrubada do Muro de Berlim. Alcan\u00e7ou os limites de insanidade, quando afirmou ser o amor materno pela cria, um dos tra\u00e7os mais claros da filogenia, simples manifesta\u00e7\u00e3o burguesa<sup>19<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira mudan\u00e7a de peso na abordagem das rela\u00e7\u00f5es entre a forma e a fun\u00e7\u00e3o do SNC (uns cortes epistemol\u00f3gicos na linguagem bacelariam) ocorreu vinte s\u00e9culos depois dos estudos hipocr\u00e1ticos, na ilha de C\u00f3s, na Gr\u00e9cia. O estudo da micologia de Marcelo Malpighi (1628\u20111694) iniciou o deslocamento da fun\u00e7\u00e3o dos humores hipocr\u00e1tico\u2011gal\u00eanicos para o interior da c\u00e9lula, trazendo a forma e fun\u00e7\u00e3o para o n\u00edvel celular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novas perspectivas foram abertas pelo descortinar da microestrutura celular. A maior parte do ensino e da pr\u00e1tica dos saberes da atualidade est\u00e1 estruturada no universo da microscopia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco mais de duzentos anos se passaram, desde o corte malpighiano, para que as rela\u00e7\u00f5es entre a forma e a fun\u00e7\u00e3o alcan\u00e7assem a estrutura molecular do genoma, no n\u00facleo da c\u00e9lula (n\u00edvel molecular).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pioneiras publica\u00e7\u00f5es do frade dominicano Gregor Mendel (1822\u20111884), demonstrando a import\u00e2ncia das caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas de certos vegetais, foram aplicadas na nova busca da origem do pensamento, nas mol\u00e9culas do ADN.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, a cr\u00edtica do observ\u00e1vel mostra a inoper\u00e2ncia das tr\u00eas teorias \u2011 humoral, celular e molecular. S\u00e3o fr\u00e1geis e inconsistentes para explicar as d\u00favidas que persistem, tanto no pensamento l\u00f3gico quanto no ficcional expresso nas linguagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na distonia entre o vis\u00edvel e o lido nos comp\u00eandios, est\u00e1 o polo central das contradi\u00e7\u00f5es do ato de escrever. A fraqueza do saber, avolumando as d\u00favidas nas dimens\u00f5es extremas da mat\u00e9ria, oferece o suporte para a teoria das mem\u00f3rias s\u00f3cio gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anseios dos homens e das mulheres, presentes na <em>mem\u00f3ria s\u00f3cio gen\u00e9tica coletiva<\/em> (MSGC), para refor\u00e7ar o conforto \u00e9 um dos fatores que provocam o movimento social. Quando as ideias s\u00e3o desarm\u00f4nicas com o anelo, nem mesmo os mais brutais meios de repress\u00e3o conseguem mant\u00ea\u2011lo ativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Hist\u00f3ria recente evidencia, com transpar\u00eancia, um desses momentos marcantes da resist\u00eancia: o desmoronamento da ordem socialista, no Leste da Europa. Aqueles povos demonstraram que a insatisfa\u00e7\u00e3o com os limites da ideia n\u00e3o \u00e9 obstru\u00edda pela oferta generosa do trabalho, da moradia e da comida. A necessidade at\u00e1vica para buscar o conforto est\u00e1 al\u00e9m, muito al\u00e9m, da fome contida. \u00c9 mais um ind\u00edcio da extraordin\u00e1ria ordem em que se processa o pensamento coletivo, quando se trata da sobreviv\u00eancia comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ideias arcaicas, amparando a sobreviv\u00eancia, foram armazenadas, como parte dos mecanismos cerebrais prim\u00e1rios, em algum lugar do c\u00e9rebro. A capacidade de reproduzir a ideia ficaria por conta das leituras, no sistema nervoso central, identificando a proposta como algo capaz de aprimorar o conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caracter\u00edstica pessoal, \u00fanica e intransfer\u00edvel, processada pelo c\u00f3rtex cerebral, com a marca biol\u00f3gico\u2011molecular nos genes, transmitida com a reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, ficaria dependente da experi\u00eancia vivida no conjunto social. \u00c9 como nascem e se reproduzem todos os saberes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de a unidade ser mantida, teria tra\u00e7os comuns muito fortes. A dor e o desconforto seriam dois deles. Qualquer vari\u00e1vel circunstancial, capaz de ser entendida pelo ser como sensa\u00e7\u00e3o dolorosa, produziria resposta som\u00e1tico\u2011neurol\u00f3gica imediata buscando, na intimidade da mem\u00f3ria acumulada, todos os mecanismos cerebrais para impedir ou atenuar o desconforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade para moldar o pensamento coletivo, de acordo com a conveni\u00eancia do poder, reside nessa barreira: \u00e9 imposs\u00edvel encontrar duas estruturas biol\u00f3gicas exatamente iguais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, quando o dominante compreende o valor dos registros gen\u00e9ticos, principalmente a subjetividade, nascido na fic\u00e7\u00e3o, para suportar o desconforto e a dor, investe na conquista das mentalidades, atrav\u00e9s das linguagens oral e escrita, seduzindo a partir da valoriza\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma ineg\u00e1vel dificuldade para se ter acesso ao c\u00e9rebro humano, n\u00e3o s\u00f3 porque se desconhece onde e como, mas tamb\u00e9m pelos limites impostos pela \u00e9tica da pesquisa cient\u00edfica. \u00a0Contudo, os casos cl\u00ednicos, de achado acidental, s\u00e3o capazes de levar aos grandes progressos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudos desenvolvidos na Universidade Western, Ont\u00e1rio, sobre a consci\u00eancia n\u00e3o manifestam (ou aparente descompasso entre o comportamento manifesto e a mem\u00f3ria) s\u00e3o importantes para compreender a hip\u00f3tese das MSGs<sup>3, 20<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doente, estudada pelo grupo de pesquisadores, no Canad\u00e1, tinha sofrido dano cerebral por intoxica\u00e7\u00e3o de mon\u00f3xido de carbono. Quando se recuperou, a sequela neurol\u00f3gica ficou localizada pr\u00f3xima ao c\u00f3rtex visual prim\u00e1rio. Os testes seguintes mostraram que era incapaz de identificar uma x\u00edcara de ch\u00e1, todavia os movimentos para pegar a mesma x\u00edcara e lev\u00e1\u2011la \u00e0 boca eram normais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse tipo de comportamento alterado refor\u00e7a a exist\u00eancia de, pelo menos, duas formas diversas do reconhecimento visual: uma dependente da percep\u00e7\u00e3o e a outra das fun\u00e7\u00f5es motoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro relato significativo foi feito pelo psic\u00f3logo su\u00ed\u00e7o alaparde, no in\u00edcio do s\u00e9culo. As an\u00e1lises foram conclu\u00eddas numa paciente, portadora de severo dist\u00farbio para assimilar os fatos recentes. Na entrevista, ao apertar a m\u00e3o do entrevistador, teve a sua furada, intencionalmente, por um alfinete. No dia seguinte, ela n\u00e3o reconheceu ningu\u00e9m, por\u00e9m se recusou a repetir o gesto que provocou desconforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parte ativa da consci\u00eancia, alerta mesmo em situa\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica, a lembran\u00e7a do desconforto da dor, est\u00e1 atada ferozmente aos la\u00e7os gen\u00e9ticos e \u00e9, incomparavelmente, muito mais forte do que a banalidade motora de levantar um objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as tentativas de efetivar o controle social, pelo poder dominador giram nesses dois pontos comuns e antag\u00f4nicos: oferecer o prazer e a dor, respectivamente, como pr\u00eamio e castigo pela obedi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer mo\u00e7\u00e3o lembrando a possibilidade para atenuar a dor hist\u00f3rica e fortalecer a partilha igualit\u00e1ria, sentida pelas sucessivas gera\u00e7\u00f5es dos esfomeados de p\u00e3o e de justi\u00e7a, ter\u00e1 uma sedu\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel, ao resgatar os s\u00edmbolos comuns da MSGC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As teorias pol\u00edticas e pr\u00e1ticas religiosas para interferir no curso do movimento social utilizaram, em maior ou menor escala, os seguintes pontos, como vari\u00e1veis dos rem\u00e9dios para sarar as dores e das f\u00f3rmulas para aumentar o conforto:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>promessa de prolongar a vida;<\/li>\n<li>acesso \u00e0 sociedade onde o trabalho \u00e9 ameno, a comida \u00e9 farta e a pr\u00e1tica sexual \u00e9 liberta das amarras da conduta;<\/li>\n<li>a inconformidade com a morte antecipada pela doen\u00e7a, pela fome e pela injusti\u00e7a;<\/li>\n<li>um espa\u00e7o sagrado (templo) ou profano (partido pol\u00edtico) para defender a causa comum e julgar os resistentes;<\/li>\n<li>aumento da prote\u00e7\u00e3o individual;<\/li>\n<li>melhoria das situa\u00e7\u00f5es temidas, causadoras de desconforto: a fome e o frio.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo muito poderoso se passou na intimidade da mem\u00f3ria acumulada na esp\u00e9cie humana. \u00a0Ainda n\u00e3o podendo afirmar que as ideias s\u00e3o transmitidas de modo semelhante \u00e0s caracter\u00edsticas f\u00edsicas, resta\u2011nos o \u00eaxtase do quanto fascinam os homens e as mulheres alegorias simb\u00f3licas que ligam o passado remoto ao presente vivido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tudo isso, a escrita consolidou, nas mentalidades, o divino e a posse do territ\u00f3rio como os mais poderosos resultantes da fic\u00e7\u00e3o. Os dois ordenaram, no mundo objetivo, de acordo com a conveni\u00eancia temporal do poder as duas mais importantes fontes de prazer: a sexualidade e o alimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O divino \u00e9, intrinsicamente, forte e sem a sua ajuda n\u00e3o teria sido poss\u00edvel manter a atual ordem espacial, prevalente no mundo. Em qualquer hora, seria capaz de impor a dor e modificar a arqueologia do prazer, contra todos os ritmos esperados da natureza. Os mortais, feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a da divindade, s\u00e3o, ao mesmo tempo, os instrumentos e as v\u00edtimas. A d\u00e1diva ou o castigo divinos n\u00e3o ficam restritos somente \u00e0 vida; prolongam-se ap\u00f3s a morte. Dependendo da obedi\u00eancia aos preceitos, o renascimento ser\u00e1 confort\u00e1vel ou aflitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Livro dos Mortos, conjunto de textos funer\u00e1rios gravados nas paredes da Pir\u00e2mide Real do antigo Egito, com origem no reinado de unas (2345 a. C.), \u00faltimo rei de V dinastia, \u00e9 composto de hinos e receitas m\u00e1gicas para garantir o renascer protegido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As obras de Plat\u00e3o<sup>21<\/sup>, interpretando pensamentos muito mais antigos, espelho fiel das ang\u00fastias existenciais n\u00e3o resolvidas, contribuiu para manter o interesse especulativo, no Ocidente cristianizado, sobre o sentido da vida, partindo do esperado depois da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinema, como uma das express\u00f5es de arte mais significativas do nosso tempo, continuou o movimento e mostra o quanto \u00e9 robusto, no inconsciente coletivo, a sedu\u00e7\u00e3o para continuar vendo os matizes da dualidade pr\u00eamio\/castigo na vida e na morte<sup>22<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O controle social, imposto em diferentes momentos do processo de humaniza\u00e7\u00e3o, mesmo utilizando os recursos mais indignos da persegui\u00e7\u00e3o, do assassinato e do patrulhamento ideol\u00f3gico, n\u00e3o conseguiu remover das MSGs \u00e0 resist\u00eancia \u00e0 inevitabilidade da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pol\u00edtico, compreendido como o sucessor do intermedi\u00e1rio da divindade, travestido dos antigos poderes de curar e adivinhar os males da sociedade, est\u00e1 inserido na coer\u00eancia gen\u00e9tico\u2011social. \u00a0A cont\u00ednua penetra\u00e7\u00e3o do seu poder espelha a for\u00e7a da MSCG na ordem social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O avan\u00e7o organizado para consolidar o cristianismo como religi\u00e3o universal foi muito bem estruturado em torno da doen\u00e7a como mal pessoal e social, interpretado a partir da leitura da B\u00edblia judaico\u2011crist\u00e3. O mundo cristianizado est\u00e1 atado nesse registro arcaico da mem\u00f3ria coletiva, alcan\u00e7ando todos, independentemente da condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cristianismo, ao contr\u00e1rio do r\u00edgido monote\u00edsmo judaico, sobreviveu porque continua lembrando a metamorfose do polite\u00edsmo. Substitu\u00edram os antigos fetiches e amuletos pag\u00e3os pela \u00e1gua\u2011benta, o sinal da cruz, as velas da Ascen\u00e7\u00e3o, as palmas do domingo de Ramos, os ros\u00e1rios, as medalhas, os santinhos colocados no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A legitimidade da doen\u00e7a e do sofrimento como instrumentos de castigos e amea\u00e7as de dor, aperfei\u00e7oados pela linguagem escrita, est\u00e1 inserida no exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cr\u00edtica da prote\u00e7\u00e3o pura<sup>3<\/sup>, a relatividade do tempo \u00e9 reafirmada, \u00e0 medida em evidencia a fant\u00e1stica coer\u00eancia existencial entre o vis\u00edvel e o invis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bin\u00f4mio tempo\/espa\u00e7o, fracionado unicamente pelo pensamento, \u00e9 o come\u00e7o, o meio e o fim da intera\u00e7\u00e3o ajustada entre o ser e o objeto atrav\u00e9s das MSGs. Como unidade indissol\u00favel e insepar\u00e1vel, abriga e vivifica a diversidade das aspira\u00e7\u00f5es humanas arcaicas para viver sem dor e adiar a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A posse do territ\u00f3rio e a divindade s\u00e3o as mais importantes fic\u00e7\u00f5es, trabalhadas amb\u00edgua e alternadamente no profano e no sagrado. A ordem social, desde o passado \u00e1grafo, foi montada entre a terra, morada dos homens e das mulheres, e o c\u00e9u, abrigo dos deuses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sacerdotes e os pol\u00edticos, travestidos de curadores e adivinhos, como agentes das religi\u00f5es e das ci\u00eancias, continuam sendo os instrumentos leg\u00edtimos, usados pelo poder, para imobilizar o tempo e separar os espa\u00e7os, com o objetivo de ordenar as mentalidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A compet\u00eancia do controle das sociedades est\u00e1 no modo como \u00e9 tocada nas MSGs. \u00c9 na entranha do corpo, nos limites desconhecidos da massa com a energia, no interior das c\u00e9lulas, que o poder aperfei\u00e7oa as ferramentas para moldar a estrat\u00e9gia de sedu\u00e7\u00e3o, atualizando as proje\u00e7\u00f5es mentais muito antigas sobre as novas verdades e estimulando a coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito das contradi\u00e7\u00f5es, gerado pelo choque das ideias orais e escritas, \u00e9 a \u00fanica alternativa para afrouxar a domina\u00e7\u00e3o e o apagamento das MSGs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>WELLS, Calvin. <em>Ossos, corpos e doen\u00e7as<\/em>. Lisboa, Verbo, 1971. p. 148\u201155.<\/li>\n<li>MACHADO, Angelo. <em>Neuroanatomia funcional<\/em>. Rio de Janeiro, Atheneu, 1894. p. 213\u201131.<\/li>\n<li>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Arqueologia do prazer<\/em>. Manaus, Metro C\u00fabico, 1993. 219 p.<\/li>\n<li>LEROI\u2011GOURHAN, Andr\u00e9. <em>Pr\u00e9\u2011hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3oPaulo, Ed. daUniversidade de S\u00e3o Paulo, 1981. 319p. ;Ibden. <em>As religi\u00f5es da pr\u00e9\u2011hist\u00f3ria<\/em>. Lisboa, Ed. 70, 1985. p. 128\u201134.<\/li>\n<li>PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle. <em>A nova alian\u00e7a<\/em>. Bras\u00edlia, Ed. Universidade de Bras\u00edlia, c1984. \u00a0p. 41. \u00a0e SKIRBEKK, Gunnar. La rationalite scientifique comme destin. In: JANICAUD, Dominique. \u00a0<em>Les pouvoirs de la science<\/em>. \u00a0Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1987. \u00a0p. 95\u2011108.<\/li>\n<li>RIGAUD, Jean\u2011Philippe, dir. Lascaux: premier chef d&#8217;oeuvre de l&#8217;humanite. <em>Les dossiers d&#8217;archeologie<\/em>. Paris, n\u00ba 152, sep. 1990;CALIFE, Jorge Lu\u00eds. Escava\u00e7\u03a3es revelam astronomia pr\u00e9\u2011hist\u00f3rica na Bahia. <em>Jornal do Brasil<\/em>. Rio de Janeiro, 29 set. 1991: &#8220;Os homens que viveram em cavernas, h\u00e1 milhares de anos, conheciam muito bem o c\u00e9u e usavam o movimento dos astros para medir o tempo. &#8220;<\/li>\n<li>FERVOR religioso ressurge entre os albaneses:ap\u00f3s 24 anos de brutal persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9, igrejas e mesquitas reabrem e crucifixos s\u00e3o moda entre jovens. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 9 set. 1991.<\/li>\n<li>MISSA cat\u00f3lica rompe 23 anos de proibi\u00e7\u00e3o religiosa na Alb\u00e2nia. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 17 nov. 1990: &#8220;Cerca de cinco mil cat\u00f3licos albaneses romperam 23 anos de banimento religioso, celebran\u2011do uma missa p\u00fablica, informou ontem a r\u00e1dio do Vaticano. Foi o primeiro servi\u00e7o religioso na Alb\u00e2nia desde 1967, quando o ent\u00e3o presidente, Enver Hoxha, decretou o ate\u00edsmo de Estado e fechou todas as 2179 mesquitas e igrejas do povo&#8221;; LALLY, Kathy. Pravda vai vender o o \u00f3pio do povo:editora publica B\u00edblia para milh\u00f5es na URSS. <em>Jornal do Brasil<\/em>. \u00a0\u00a0Rio de Janeiro, 11 ago. 1991:&#8221; Depois de mais de 70 anos de resist\u00eancia, a Pravda, gigantesca e oficial\u00edssima casa editorial do Partido Comunista, decidiu dar \u00e0s massas o \u00f3pio do povo:planeja editar a B\u00edblia&#8221;;KGB diz ter\u00a0 matado quase 4 milh\u00f5es sob Stalin. \u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 22 jun. 1991:&#8221; O chefe do Comit\u00ea de Seguran\u00e7a do Estado \u2011 KGB, o servi\u00e7o secreto sovi\u00e9tico \u2011, Vladimir Kriuchkov, \u00a0afirmou que quase 4 milh\u00f5es de pessoas foram mortas pelo \u00f3rg\u00e3o, na URSS, nas persegui\u00e7\u00f5es promovidas pelo ditador Josef Stalin (de 1924 a 1953)&#8221;.<\/li>\n<li>CHIARELLI, Brunetto. <em>Origem da sociabilidade e da cultura humana<\/em>. Coimbra, Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, 1984. p. 289\u2011317<\/li>\n<li>MANIFESTO do Partido Comunista. In:<em>Marx e Engels<\/em>. Obras escolhidas. Lisboa, Avante, 1982. v. 1. p. 123; NOEL, \u00a0Francisco Luiz. Imagem que chora atrai multid\u00f5es: h\u00e1 quase dois anos, romeiros veneram Nossa Senhora das Dores, em modesto distrito de Duas Barras. <em>Jornal do Brasil. <\/em>\u00a0Rio de Janeiro, 26 dez. \u00a01990;ASSIS, Jesus de Paula. Virada do ano agita mercado de profecias. \u00a0\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. \u00a0S\u00e3o Paulo, 31 dez. 1990;FI\u00c9IS pedem a Santa Rita at\u00e9 desbloqueio de suas poupan\u00e7as. <em>Jornal do Brasil<\/em>. \u00a0Rio de Janeiro, 23 mai. 1990.<\/li>\n<li>O LIVRO dos mortos do antigo Egipto. Lisboa, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 1991. p. 9;JUNG, C. G. <em>Psicologia da religi\u00e3o Ocidental e Oriental<\/em>. Petr\u00f3polis, Vozes, 1983. \u00a0p. 3: &#8220;Antes de falar da religi\u00e3o, \u00a0devo explicar o que entendo por este termo. Religi\u00e3o \u00e9 \u2011 como diz o voc\u00e1bulo latino <em>religere<\/em> \u2011 uma acurada e conscienciosa observa\u00e7\u00e3o daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de numinoso, isto \u00e9, uma exist\u00eancia ou um efeito din\u00e2mico n\u00e3o causado por um ato arbitr\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua v\u00edtima do que o seu criador&#8221;; CLOTTES, Jean. Le mobilier dans les s\u00e9pultures n\u00e9olithiques et chalcolithiques. <em>Histoire et archeologie<\/em>. Paris, n. 66, p. 68\u201177, set. \u00a01982;LEROI\u2011GOURHAN, \u00a0Andr\u00e9. Os ca\u00e7adores da pr\u00e9\u2011hist\u00f3ria. Lisboa, Ed. 70, 1987. p. 133\u2011143;DEFLEUR, Alban;DUTOUR, Olivier. \u00a0L&#8217;homme de Cro\u2011Magnon enterre ses morts. <em>Les dossiers d&#8217;archeologie<\/em>, Paris, n. 161, p. 36\u201145, jun. \u00a01991.<\/li>\n<li>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Medicina e religi\u00e3o<\/em>:conflito de compet\u00eancia. Manaus, Metro C\u00fabico, 1991.<\/li>\n<li>41\u201163.<\/li>\n<li>ELIADE, Mircea. <em>O sagrado e o profano:<\/em>a ess\u00eancia das religi\u00f5es. Lisboa, Ed. Livros do Brasil, s\/d. p. 30 &#8220;O que nos interessa em primeiro lugar, \u00e9 apresentar as dimens\u00f5es espec\u00edficas da experi\u00eancia religiosa, salientar as suas diferen\u00e7as com a experi\u00eancia profana do Mundo. &#8220;<\/li>\n<li>LE GOFF, Jacques. Pecado. In:ENCICLOP\u00c9DIA EINAUDI. Mythos\/logos. Sagrado\/profano. Porto, Imprensa Nacional\u2011 -Casa da Moeda, 1987. p. 271;<\/li>\n<li>CORNFORD, F. M. <em>Principium sapientiae<\/em>:as origens do pensamento filos\u00f3fico grego. 2. ed. Lisboa, Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1981. p. 49\u201170;JAEGER, Werner. <em>Paid\u00e9ia<\/em>:a forma\u00e7\u00e3o do homem grego. S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 1986. p. 687.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol start=\"16\">\n<li style=\"text-align: justify;\">DAREMBERG, CH. <em>Oeuvres choisies d&#8217;Hippocrate<\/em>. Paris, Labe \u00c9diteur, 1855. p. 625;PLAT\u00c3O. Sophiste ou de l&#8217;\u00eatre. In:\u2011\u2011\u2011\u2011\u2011\u2011. <em>Oeuvres compl\u00e8tes<\/em>. Bruges, Gallimard, Biblioth\u00e8que de la Pl\u00e9iade, 969, v. 2. p. 296; ARISTOTE. <em>M\u00e9taphysique. <\/em>\u00a0Paris, J. Vrin, 1991. t. 1. p. 31\u20117;RAMNOUX, Cl\u00e9mence. Los presocraticos. In:PARAIN, Brice, dir. <em>Historia de la filosofia<\/em>. \u00a0Ed. Madri, Siglo Veintiuno, 1990. p. 30\u20112;JAEGER, Werner. Op. cit. , p. 714;GOUREVITCH, Danielle. \u00a0<em>Le triangle hippocratique dans le monde gr\u00e9co\u2011romain. <\/em>\u00a0Paris, \u00c9cole Fran\u00e7aise de Rome, 1984. \u00a0p. 303\u20118.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">CASTIGLIONI, Arturo. <em>Histoire de la m\u00e9decine<\/em>, Paris, Payot, 1931. p. 171.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">VERNANT, Jean\u2011Pierre. Parole et signes muets. In:VERNANT, Jean\u2011Pierre et all. <em>Divination et rationalit\u00e9<\/em>. Paris, Seuil, 1974. p. 9\u201125.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">BONALUME NETO, Ricardo. Para antrop\u00f3loga, amor materno \u00e9 mito burgu\u00eas. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, 10 nov. 1989.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">BOSCOV. Isabela. Caso \u00fanico sugere sistemas paralelos de vis\u00e3o <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 18 jan. 1991; DAMATO, Marcelo. Medo marca mem\u00f3ria por v\u00e1rios caminhos:Teste feito com ratos mostra que o c\u00e9rebro passa por v\u00e1rios processos para armazenar as emo\u00e7\u00f5es. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 1 mai. 1992;PROBLEMA est\u00e1 na dissocia\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00f5es e mem\u00f3ria. \u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 18 jan. 1991.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">PLAT\u00c3O. La Republique. In: \u2011\u2011\u2011\u2011\u2011\u2011\u2011. <em>Oeuvres compl\u00e8tes<\/em>. Monaco, Gallimard, Biblioth\u00e8que de la Pl\u00e9iade, \u00a01969, v. 1. \u00a0(509b, 518b, 532b e 534a).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">AUGUSTO, Sergio. E as almas do outro mundo invadem a tela. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo, 21 nov. 1990; KLOPPENBURG, Boaventura, dom. Reencarna\u00e7\u00e3o e doutrina crist\u00e3. <em>Jornal do Brasil. <\/em>Rio de Janeiro, 27 out. 1989:&#8221; A soteriologia auto\u2011redentora do reencarcionismo se op\u00f5e de modo obsoluto \u00e0 soteriologia heterorredentora do cristianismo. Este \u00e9 o ponto central na discuss\u00e3o teol\u00f3gica sobre a reencarna\u00e7\u00e3o. Segundo a teoria da reencarna\u00e7\u00e3o, a alma deve reencarnar por dois motivos:para expiar seus pecados cometidos em vida anterior e para progredir na escala da perfei\u00e7\u00e3o. . . &#8220;<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.\u00a0 Dr.\u00a0 HC Jo\u00e3o Bosco Botelho O desvendar do corpo e o ato de escrever. 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