{"id":2663,"date":"2019-06-21T10:33:21","date_gmt":"2019-06-21T14:33:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2663"},"modified":"2019-06-21T10:34:06","modified_gmt":"2019-06-21T14:34:06","slug":"companheiro-intimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2663","title":{"rendered":"COMPANHEIRO \u00cdNTIMO"},"content":{"rendered":"<p>ERICK FROTA GOMES FIGUEIREDO<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 era o terceiro dia de febre, sempre nesse mesmo hor\u00e1rio, final da tarde. Dona Raimunda, da casa da frente, me avisou sobre os banhos nos ramais do Puraquequara, mas nunca acreditei que algo pudesse acontecer por l\u00e1, sempre achei ser papo daquela mulher. Naquele dia do balne\u00e1rio n\u00f3s fomos cedo, teve peixe assado, tomamos cerveja bem gelada e ficamos batendo papo at\u00e9 o anoitecer. Foi \u00f3timo ficar de molho naquela \u00e1gua gelada e corrente, sair um pouco da rotina pesada e relaxar com esse contato com a natureza. Mas agora, indo pro Hospital, fico pensando se fiz algo errado pra merecer isso. Tomei os antibi\u00f3ticos que Seu Ramos, da casa do lado, recomendou, disse que era tiro e queda pra melhorar. Mas quem levou o tiro e est\u00e1 caindo sou eu, pois as dores e a febre est\u00e3o insuport\u00e1veis. Deve ser dengue, pensei, porque a tal da \u201czika\u201d que est\u00e3o falando s\u00f3 d\u00e1 nas mulheres gr\u00e1vidas, pelo menos foi o que meu primo disse. Acabou que n\u00e3o era dengue, nem zika e nem essa virose que todo mundo pega, o resultado veio em cruzes, duas cruzes de mal\u00e1ria, fiquei com medo, \u201cmeu Deus isso n\u00e3o mata?\u201d. Estava vendo o doutor falando, mas n\u00e3o estava entendo aquilo direito, ele disse alguma coisa sobre o f\u00edgado, \u201cmeu Deus! \u00c9 hoje que paro de beber\u201d. Fiquei feliz quando ele me deu a receita e disse que eu podia buscar os rem\u00e9dios ali mesmo, um por tr\u00eas dias e outro sete. Fui pra casa e comecei a tomar os rem\u00e9dios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No terceiro dia j\u00e1 n\u00e3o sentia mais febre. Contei pra Dona Raimunda dessa mal\u00e1ria e ela tem trazido todos os dias ch\u00e1 de alho com casca de \u201cn\u00e3o sei o qu\u00ea\u201d que ela tem no terreno dela, disse que \u00e9 \u00f3timo pra curar isso. Mesmo sem febre, ainda n\u00e3o estava muito bem, estava me sentindo cansado, sem vontade de nada, \u201cbad vibes\u201d mesmo. Achei estranho de manh\u00e3 ao ir ao banheiro e a urina estar escura demais, fiquei preocupado e aquilo n\u00e3o saiu da minha cabe\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o saiu da cabe\u00e7a como a urina ainda continuou vindo escura daquele jeito. Voltei com o doutor e falei tudo pra ele, e que estava com medo da mal\u00e1ria ter \u201cdescido\u201d, como na caxumba. Ele disse que far\u00edamos alguns exames, ligou para algu\u00e9m e logo depois apareceu um jovem de jaleco e maletinha branca, disse que faria uma<br \/>\ncoleta r\u00e1pida em mim. Pediram para que eu esperasse, fiquei na recep\u00e7\u00e3o observando todos aqueles outros pacientes, com certeza n\u00e3o era s\u00f3 mal\u00e1ria. J\u00e1 vi na tv que aqui no Hospital Tropical v\u00eam quem tem AIDS, espero que n\u00e3o me vejam por aqui. Quando voltei com o doutor ele disse que seu aluno havia feito um teste com meu sangue e viu que eu tinha uma defici\u00eancia. Estava com anemia, que o sangue j\u00e1 estava saindo na urina, tudo isso por causa do rem\u00e9dio para mal\u00e1ria. Doutor falou que existem outros como eu e que ficaria muito feliz se eu participasse do estudo dele. Logo apareceram outros alunos, curiosos, com v\u00e1rios pap\u00e9is pra ler e assinar, mais sangue. Quando os garotos sa\u00edram o doutor disse que o rem\u00e9dio teria que ser tomado de maneira diferente, para n\u00e3o continuar me sentindo mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seis meses depois e eu senti febre, aquela febre, depois de sentir uma vez \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer esse mal-estar. Em meio aos calafrios eu tentava refazer meus passos, n\u00e3o sa\u00ed mais daqui, nunca mais fui para banhos, nada de aventuras no meio do mato, ent\u00e3o como? Dessa vez foi mais r\u00e1pido no hospital, j\u00e1 sabia como funcionava e n\u00e3o foi diferente do que eu esperava, cruzes de mal\u00e1ria! Diferente, dessa vez, era o doutor que estava na sala, logo falei da \u00faltima vez e da defici\u00eancia de \u201cG6P n\u00e3o sei das quantas\u201d que acharam no meu sangue. Acho que consegui prestar aten\u00e7\u00e3o agora, ele disse que a mal\u00e1ria ficou no meu f\u00edgado e como n\u00e3o posso tomar o rem\u00e9dio certinho ela pode voltar, mesmo sem a carapan\u00e3 me ferar. Doutor pediu para participar de outro estudo, e como da primeira vez os meninos de branco chegaram com seus pap\u00e9is e seringas sedentas pelo meu sangue. Voltando pra casa fiquei pensando nessa mal\u00e1ria no meu f\u00edgado, ser\u00e1 ela vai ficar sempre acordando dentro de mim? Ser\u00e1 que o primeiro doutor com seus alunos conseguiu ver alguma coisa com meu sangue? Ser\u00e1 que o doutor de hoje vai conseguir? N\u00e3o sei, vou ver se Dona Raimunda tem cura pra isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ERICK FROTA GOMES FIGUEIREDO J\u00e1 era o terceiro dia de febre, sempre nesse mesmo hor\u00e1rio, final da tarde. 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