{"id":267,"date":"2012-03-18T14:47:01","date_gmt":"2012-03-18T18:47:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=267"},"modified":"2016-03-06T09:50:34","modified_gmt":"2016-03-06T13:50:34","slug":"a-cirurgia-como-arte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=267","title":{"rendered":"A cirurgia como arte"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\" align=\"left\"><strong>A cirurgia como arte<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\" align=\"left\"><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\" align=\"left\"><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\" align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"right\"><strong><em>Prof.Dr.HCJo\u00e3o Bosco Botelho<\/em><\/strong><\/div>\n<div align=\"right\"><\/div>\n<div align=\"right\"><\/div>\n<div align=\"right\"><\/div>\n<div align=\"right\"><\/div>\n<div align=\"right\"><\/div>\n<div align=\"center\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SmcYF8CPc2I\/AAAAAAAABiY\/0Y02cUzKpGA\/s1600-h\/David-Antiochus_et_Stratonice.jpg\"><img decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5361280371701805922\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SmcYF8CPc2I\/AAAAAAAABiY\/0Y02cUzKpGA\/s400\/David-Antiochus_et_Stratonice.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><em>Antiochus et Stratonice<\/em> (1774), de Jacques-Louis David (1748-1825). Eras\u00edstrato est\u00e1 sentado, de vermelho, ao lado da cama de Antiochus, denunciando a causa das palpita\u00e7\u00f5es do doente: sua bela madrasta Stratonice.<\/div>\n<div align=\"left\">.<\/div>\n<div align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"left\"><\/div>\n<div align=\"left\">A cirurgia, no passar dos mil\u00eanios, continua mantendo a mesma caracter\u00edstica b\u00e1sica \u2013 <strong>a arte trabalhada no pr\u00f3prio homem<\/strong> \u2013, onde a luta contra a dor e a morte \u00e9 o pilar sustentador da constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa estranha arte, que reconstitui o corpo para minimizar a dor e a morte, confunde-se com a hist\u00f3ria do Homem e tem acompanhado de perto os movimentos de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O primeiro registro inquestion\u00e1vel de uma cirurgia, como a\u00e7\u00e3o intencional do Homem sobre o homem, foi a amputa\u00e7\u00e3o de um bra\u00e7o, realiza em torno de 25.000 anos atr\u00e1s, por algu\u00e9m que percebeu que o membro deveria ser cortado para manter a vida, marcada no esqueleto pr\u00e9-hist\u00f3rico, achado no Monte Zagros, no Iraque.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos quarenta anos, em resposta aos anseios coletivos, a cirurgia adicionou \u00e0 pr\u00e1tica a fren\u00e9tica busca da perfei\u00e7\u00e3o do corpo, seja reconstruindo a forma ou recuperando a fun\u00e7\u00e3o, tornando-o mais belo, possivelmente, atada ao arqu\u00e9tipo divino antropom\u00f3rfico perfeito.<\/p>\n<p>Sem dificuldade, \u00e9 poss\u00edvel comparar a cirurgia com a pintura ou qualquer outra express\u00e3o da arte humana. Quando o cirurgi\u00e3o consegue retirar o c\u00e2ncer da tire\u00f3ide ou o da laringe ulcerada que amea\u00e7am a vida, desenvolve um conjunto de gestos que s\u00e3o indissol\u00faveis da arte. A sensa\u00e7\u00e3o da obra terminada em uma cirurgia n\u00e3o deve ser diferente da sentida pelo pintor ao terminar o quadro ou a do compositor ao ouvir a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dois s\u00e9culos, n\u00e3o se pode admitir a cirurgia fora da Medicina. Por\u00e9m, nem sempre foi assim. Somente no s\u00e9culo 17 a cirurgia come\u00e7ou a ser incorporada \u00e0 pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Foram os gregos que reconheceram a import\u00e2ncia da cirurgia para as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas. Os livros escritos, na Escola de C\u00f3s, na Gr\u00e9cia antiga, em torno do quarto s\u00e9culo a.C., cont\u00eam volumosa refer\u00eancia a cirurgias realizadas pelos m\u00e9dicos gregos.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o conquistador dos romanos e a organiza\u00e7\u00e3o militar daquele povo guerreiro, apareceram os hospitais militares, nas principais cidades do Imp\u00e9rio, para receber e tratar os soldados feridos em combate. Nessa fase, a cirurgia alcan\u00e7ou grande desenvolvimento, principalmente, na solu\u00e7\u00e3o das feridas traum\u00e1ticas da guerra. S\u00e3o dessa \u00e9poca os estudos dos grandes anatomistas Her\u00f3filo (340-? d.C.) e Eras\u00edstrato (330-? d.C.) que identificaram a tire\u00f3ide, a pr\u00f3stata, o est\u00f4mago, o duodeno, o sistema nervoso, al\u00e9m de diferenciar o tend\u00e3o do nervo.<\/p>\n<p>A partir da ascens\u00e3o do cristianismo, no s\u00e9culo IV, gradualmente, as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas absorveram o sentido da caridade e perderam grande parte das conquistas greco-romanas em torno da t\u00e9cnica. A Medicina passou a ser compreendida como sacerd\u00f3cio, em compara\u00e7\u00e3o ao minist\u00e9rio de Jesus Cristo, que operava milagres na cura dos cegos, paral\u00edticos e leprosos.<\/p>\n<p>Com o abandono da t\u00e9cnica e sob a ordem caritativa, o Ocidente cristianizado fechou as escolas de Medicina e construiu os hospitais para abrigar os indigentes \u2014 <em>nosocomium <\/em>\u2014 em nada parecidos com os hospitais gregos e romanos voltados \u00e0 interven\u00e7\u00e3o para recuperar a sa\u00fade.<\/p>\n<p>O nosoc\u00f4mio abrigava os doentes de todos os tipos, que esperavam a morte, assistidos pelos membros das ordens religiosas voltadas \u00e0 caridade.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, na baixa Idade M\u00e9dia, em consequ\u00eancia das restri\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas impostas pelo poder da Igreja, o corpo humano n\u00e3o pode mais ser estudado e as guardas sigilosas, nas abadias, dos livros da cultura greco-romana, contribu\u00edram decisivamente para que a cirurgia se tornasse uma atividade imposs\u00edvel de ser exercida.<\/p>\n<p>Nessa condi\u00e7\u00e3o restritiva, a cirurgia atravessou dez s\u00e9culos, sendo exercida, neste per\u00edodo, pelos cirurgi\u00f5es-barbeiros.<\/p>\n<p>Os cerceamentos eclesi\u00e1sticos n\u00e3o atentaram \u00e0s necessidades sociais. Os cirurgi\u00f5es-barbeiros preencheram os espa\u00e7os deixados pela aus\u00eancia da Medicina greco-romana. Esses homens admir\u00e1veis, com risco da pr\u00f3pria vida, enfrentaram a proibi\u00e7\u00e3o da Bula do Conc\u00edlio de Tours (1163) <em>Ecclesia Abohorret a Sanguine<\/em> (A Igreja abomina o sangue), para amputar pernas e bra\u00e7os dilacerados nas guerras e nos acidentes de ca\u00e7a, extrair dentes, drenar abscessos, e ainda, cortar os cabelos e as barbas.<\/p>\n<p>A primeira resist\u00eancia coletiva a essa situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou na Faculdade de Medicina de Montpellier, na Fran\u00e7a, em 1220. Um grupo de cirurgi\u00f5es-barbeiros, influenciados pelos novos ares acad\u00eamicos e liderados por Jean Pitard (1238-1315) fundou a Confraria de Cirurgi\u00f5es, sob a prote\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Cosme e S\u00e3o Dami\u00e3o, e se separaram dos barbeiros.<\/p>\n<p>A cirurgia foi incorporada, definitivamente, como especialidade m\u00e9dica a partir de 1436, quando os cirurgi\u00f5es-barbeiros foram aceitos como alunos na Faculdade de Medicina de Paris.<\/p>\n<p>Com a utiliza\u00e7\u00e3o da anestesia, a partir de 1846, e da antissepsia, em 1867, o cirurgi\u00e3o p\u00f4de debru\u00e7ar-se por mais tempo no objeto da sua arte \u2014 o homem e a mulher \u2014 e reunir esfor\u00e7os para empurrar os limites da dor e da vida.<\/p><\/div>\n<div align=\"center\"><\/div>\n<div align=\"center\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SmcU1OcLf9I\/AAAAAAAABiQ\/NeRdo2KNqec\/s1600-h\/CONFERENCIA+UNIV+BERNA.jpg\"><img decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5361276786049777618\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_Kt-aZ2vRve4\/SmcU1OcLf9I\/AAAAAAAABiQ\/NeRdo2KNqec\/s400\/CONFERENCIA+UNIV+BERNA.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<div align=\"center\">O autor em confer\u00eancia na Universidade de Berna, Sui\u00e7a,<\/div>\n<div align=\"center\">no \u00faltimo 02 de julho.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cirurgia como arte Prof.Dr.HCJo\u00e3o Bosco Botelho Antiochus et Stratonice (1774), de Jacques-Louis David (1748-1825). 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