{"id":2678,"date":"2019-06-21T11:05:56","date_gmt":"2019-06-21T15:05:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2678"},"modified":"2019-06-21T11:06:31","modified_gmt":"2019-06-21T15:06:31","slug":"filhos-da-borracha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2678","title":{"rendered":"FILHOS DA BORRACHA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">M\u00c1RCIA DOS SANTOS DA SILVA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era fim de tarde no Amazonas. O sol se punha ao final das margens negras do rio em plena vazante e sua cor se misturava ao azul do c\u00e9u, tingindo a paisagem em tons de laranja, emitindo raios que invadiam portas e janelas at\u00e9 alcan\u00e7ar o rosto de Luiz. Sentado em sua habitual cadeira de balan\u00e7o, ele cochilava de frente para o rio em seu local preferido da casa, onde costumava descansar aos finais de semana. Era nesta casa, localizada no condom\u00ednio mais luxuoso de todo o Tarum\u00e3, que ele podia esquecer o dia a dia atribulado como empres\u00e1rio bem sucedido e se reconectar com suas origens humildes. Luiz era o quinto filho de um casal de seringueiros. Seus pais moravam em um pequeno casebre feito de palha, constru\u00eddo no meio do seringal, de onde tiravam o sustento dos doze filhos. Os tempos \u00e1ureos da borracha h\u00e1 muito haviam se passado. Quando o av\u00f4 de Luiz chegou em L\u00e1brea, conheceu o auge do per\u00edodo extrativista. Vindo do interior do Cear\u00e1, acreditou na oportunidade de enriquecer extraindo o tal ouro do Amazonas. Ali permaneceu durante toda a vida sem nunca ganhar mais do que o extremamente necess\u00e1rio para o seu sustento. Seus filhos seguiram seu passos e Luiz foi criado no meio da floresta Amaz\u00f4nica. Aos oito anos, ajudava o pai e os irm\u00e3os no trabalho de extra\u00e7\u00e3o. Acordava ainda na madrugada e adentrava a mata levando consigo uma faca e uma pequena tijela. Gastava o dia fazendo cortes paralelos na seringueira e aguardando a \u00e1rvore derramar suas l\u00e1grimas leitosas que garantiam o sustento da fam\u00edlia. Tinha a pele sempre queimada de sol, o rosto enegrecido pela fuma\u00e7a do l\u00e1tex e suas pernas traziam as marcas da ferida comum a todos os seringueiros da regi\u00e3o. Quando tinha 14 anos, decidiu mudar para Manaus e procurou o irm\u00e3o mais velho que anos antes havia feito o mesmo. Luiz passou a morar com o irm\u00e3o, Raimundo e sua esposa Joana, em uma pequena casa de dois c\u00f4modos na periferia da cidade. Logo arranjou emprego como chapeiro num pequeno bar pr\u00f3ximo de sua casa. Decidido a mudar seu destino, estudava durante a manh\u00e3 e trabalhava no bar das 18h at\u00e9 02h todos os dias. Ali conheceu os mais perigosos traficantes do bairro. Servia-lhes o tradicional x-salada com Coca Cola, sempre de cabe\u00e7a baixa e olhos fixos no ch\u00e3o para evitar qualquer possibilidade de desentendimento. Ap\u00f3s alguns meses, Nadson, o chefe do tr\u00e1fico local, chamou-o a mesa: &#8211; Pivete, manda a\u00ed aquele especial da casa &#8211; Sim senhor! &#8211; E a\u00ed pivete, qual teu nome? Luiz sentiu o sangue fugir das veias e o pavor invadiu seu corpo. Respondeu tr\u00eamulo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Er-er-er Lu-lu-Luiz. &#8211; Ent\u00e3o, pivete &#8211; disse o chefe do tr\u00e1fico aumentando o tom da voz &#8211; a partir de hoje voc\u00ea ser\u00e1 o novo avi\u00e3o do bar. Deixarei o produto todos os dias esse hor\u00e1rio e no final da madrugada venho recolher o meu dinheiro. Est\u00e1 fechado? Luiz quase desfaleceu. Jamais imaginou fazer algo ilegal na vida. Sabia que um outro colega gar\u00e7om era quem fazia este servi\u00e7o e preocupou-se com o que poderia ter acontecido a ele, pois haviam dois dias que ningu\u00e9m tinha noticias suas. Mas como ele poderia recusar tal ordem sem por em risco sua vida? Tinha certeza que se negasse a proposta, seria baleado e morto ali mesmo em quest\u00e3o de segundos. Sem ter outra op\u00e7\u00e3o, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a afirmativamente. Nadson entregou-lhe um sacola e uma folha de papel onde estavam anotados o nome dos produtos e o valor a ser cobrado. J\u00e1 no dia seguinte, Luiz vendeu todo o produto deixado por Nadson. Conforme avisado, o chefe passou na madrugada para receber seu dinheiro e entregou um envelope a Luiz. &#8211; Continue fazendo seu servi\u00e7o bem feito e ser\u00e1 sempre recompensado! Ao chegar em casa, Luiz mal pode acreditar na quantidade de notas dentro do envelope. Em um \u00fanico dia quase o mesmo sal\u00e1rio do m\u00eas! Embora sua extrema pobreza quisesse sucumbir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do dinheiro f\u00e1cil, Luiz relembrou sua origem humilde e decidiu enviar o dinheiro a seus pais. E assim se passaram meses&#8230; Luiz guardava todo o dinheiro dado por Nadson, sempre separando um quantia gorda para enviar aos pais no final do m\u00eas. Conseguiu juntar o suficiente para recome\u00e7ar longe dali, mas como poderia se desvencilhar do poder de Nadson? Por mais que pensasse, jamais chegava a nenhuma solu\u00e7\u00e3o e permanecia subordinado a ele, temendo pela pr\u00f3pria vida e com medo de contrariar o traficante mais poderoso da cidade. Em uma tarde de domingo, ouviram-se os sons de sirene, que logo se seguiram de tiros e gritos hist\u00e9ricos. A policia invadiu a casa que servia de quartel general do tr\u00e1fico e Luiz recebeu a noticia: Nadson fora morto pela pol\u00edcia. Sem pensar duas vezes, Luiz chamou o irm\u00e3o e confessou-lhe toda a historia com Nadson. Aos prantos, jurou ao irm\u00e3o jamais ter usado drogas e que somente aceitou o acordo por medo de ser morto. Luiz mostrou o dinheiro que havia guardado durante todo o tempo em que serviu a Nadson e suplicou ao irm\u00e3o: &#8211; Irm\u00e3o, vamos nos mudar daqui e recome\u00e7ar do outro lado da cidade. Agora que Nadson est\u00e1 morto, n\u00e3o poder\u00e1 nos perseguir. Se continuar aqui, logo terei que fazer o mesmo servi\u00e7o para o pr\u00f3ximo traficante que surgir para ocupar este lugar. Pensativo, Raimundo permaneceu alguns minutos cabisbaixo. &#8211; N\u00e3o posso deixar meu emprego e minha casa para tr\u00e1s!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas eu preciso da sua ajuda, irm\u00e3o! Com o dinheiro que juntei, podemos montar nosso pr\u00f3prio negocio e garantir uma vida melhor para nossa fam\u00edlia. Joana, que ouvia tudo do lado de fora do quarto, entrou subitamente e concordou: &#8211; Ele esta certo, Raimundo. H\u00e1 dinheiro suficiente para conseguirmos um bom lugar para morar e come\u00e7ar uma nova vida, longe do tr\u00e1fico e dessa viol\u00eancia. Os tr\u00eas rapidamente arrumaram tudo o que puderam e partiram no dia seguinte. Raimundo alugou uma casa simples no centro da cidade, localizada na parte de cima de um pequeno ponto comercial. Ali os irm\u00e3os montaram sua primeira lanchonete: Dois Irm\u00e3os. Enquanto Raimundo continuava trabalhando como oper\u00e1rio durante o dia, Luiz e Joana trabalhavam no bar. Com o crescimento da cidade, logo o movimento do bar tamb\u00e9m cresceu e Raimundo teve que largar o emprego para cuidar das finan\u00e7as do local. Os tr\u00eas poupavam cada centavo de lucro e n\u00e3o se permitam luxos mesmo quando o faturamento da lanchonete superava todas as expectativas. Ap\u00f3s dois anos, abriram sua segunda lanchonete localizada em um bairro habitado predominantemente por militares do ex\u00e9rcito. Luiz, Raimundo e Joana seguiam acumulando dinheiro e investindo em outras lanchonetes, pouco se permitindo aproveitar da vida. Em cinco anos, j\u00e1 eram donos de 4 grandes lanchonetes famosas na cidade e n\u00e3o mais lembravam a origem il\u00edcita do seu capital. Em uma bela noite de ver\u00e3o, enquanto Luiz recebia os pagamentos no caixa da lanchonete, uma jovem de pele clara e cabelos negros adentrou a lanchonete. Passou por ele exalando um delicioso perfume de rosas que invadiram suas narinas e pareciam estabelecer conex\u00e3o pr\u00f3pria com o seu c\u00e9rebro. Luiz estava hipnotizado. Notou na jovem um porte elegante acompanhado de roupas de marca que diziam a ele n\u00e3o ser poss\u00edvel. Quando despertou de seu r\u00e1pido momento de encantamento, notou que a jovem sorria para ele. Ruborizado, baixou os olhos e continuou seu trabalho. Nos dias seguintes, a jovem passou a ir diariamente na lanchonete, sempre no mesmo hor\u00e1rio. Assim que entrava, cumprimentava Luiz e sentava-se com uma ou duas amigas na mesa pr\u00f3xima a ele. Foram necess\u00e1rios meses at\u00e9 que Luiz finalmente tomasse coragem para perguntar seu nome. &#8211; Clara &#8211; disse ela. &#8211; O seu \u00e9 Luiz, n\u00e3o \u00e9 mesmo? &#8211; Sim. Como sabe? &#8211; Venho todos os dias aqui para ver meu futuro marido trabalhando. Como poderia n\u00e3o saber o nome dele? Luiz sorriu e respondeu: &#8211; Se sou seu futuro marido, acredito que poder\u00edamos jantar juntos hoje. &#8211; Seria maravilhoso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim Luiz e Clara come\u00e7aram a namorar. Ela era filha do dono de uma das maiores redes de posto de gasolina do estado. Embora temeroso e sempre se sentindo inferior, Luiz aceitou conhecer os pais de Clara. Logo que contou sua origem humilde e onde conseguira chegar, Luiz conquistou o poderoso homem de neg\u00f3cios, que passou a aconselh\u00e1-lo sobre como administrar sua rede de lanchonetes. Obviamente, omitiu a origem de seu dinheiro por medo de ser rejeitado. Ap\u00f3s o casamento com Clara, Luiz prometeu trabalhar para manter o alto padr\u00e3o de vida com o qual a esposa estava acostumada. O sogro lhe cedeu dois postos de gasolina para que fossem administrados por ele. E o sucesso financeiro aumentava cada dia mais. Viajou para lugares famosos, comprou uma bela casa em um condom\u00ednio de luxo e presenteava a esposa com lindas j\u00f3ias. Apesar dos esfor\u00e7os do marido, Clara nunca se importou com a riqueza que os cercava. Gostava de coisas simples e da comida regional preparada pela empregada que h\u00e1 anos estava junto de sua fam\u00edlia. Quando o marido decidiu comprar a casa nas margens do Rio Negro, logo animou-se com a possibilidade de desfrutar da natureza t\u00e3o bela de sua terra natal aos finais de semana. A casa foi minuciosamente planejada pelo casal. E era l\u00e1 que toda a fam\u00edlia se reunia aos finais de semana para festejar e tamb\u00e9m descansar. A sala ampla abrigava poltronas macias e as janelas eram revestidas por cortinas de linho branco. A sala de jantar apresentava ao centro uma enorme mesa de madeira com lugar para oito pessoas. Haviam quatro su\u00edtes para hospedar os convidados e uma cozinha bem equipada. Aos finais de tarde dos s\u00e1bados, Luiz e Clara admiravam a paisagem e contemplavam o p\u00f4r do sol na varanda, ele em sua cadeira de balan\u00e7o e ela se embalando pregui\u00e7osamente na rede. Foi em uma dessas tardes que o tormento de Luiz se iniciou. Sentiu uma forte press\u00e3o na face, seguida de uma sensa\u00e7\u00e3o gelada que escorria pela narina direita. Ao abaixar a cabe\u00e7a, viu as gotas vermelhas que saiam de seu nariz mancharem o ch\u00e3o de madeira. Clara, que observava a cena, correu ao encontro do marido: &#8211; Meu bem, o que houve? O que est\u00e1 acontecendo com o seu nariz? Luiz n\u00e3o conseguiu responder. Ao tentar falar, foi interrompido por uma cascata de co\u00e1gulos que saiam incontrolavelmente do seu nariz. Clara desesperada, queria levar o marido ao hospital, mas ele resistiu. Assim que o sangramento cessou espontaneamente, afirmou estar bem e que procuraria o m\u00e9dico no dia seguinte. H\u00e1 meses que ele sentia o nariz obstru\u00eddo, mas n\u00e3o deu import\u00e2ncia. Pela manh\u00e3, e a noite, eliminava crostas seguidas de pequenos raios de sangue pela narinas. Observou o nariz um pouco inchado, mas nada disso alertou-o para a possibilidade de algo mais s\u00e9rio. No dia seguinte, Luiz conseguiu uma vaga com um dos mais renomados otorrinolaringologistas da cidade. Ap\u00f3s um breve exame, o m\u00e9dico informou-o que seu nariz estava<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">com uma ferida, mas que logo cicatrizaria. Prescreveu uma pomada e disse que poderia ficar tranquilo. Semanas se passaram, e Luiz n\u00e3o observava melhoras. O nariz continuava obstru\u00eddo, e sempre que tentava limpar as narinas, saiam crostas enormes seguidas de sangue vermelho vivo cada vez em maior quantidade. Luiz retornou ao m\u00e9dico acompanhado de Clara: &#8211; Doutor, usei a pomada que o senhor me prescreveu durante v\u00e1rias semanas e meu nariz continua sangrando! &#8211; Pior que isso, Doutor &#8211; disse Clara. Vejo que meu marido retira crostas escuras de dentro do nariz, parecendo casca de ferida, que eu n\u00e3o consigo entender de onde surgem! O m\u00e9dico mais uma vez amenizou o problema: &#8211; N\u00e3o se preocupem. Vou receitar uma nova medica\u00e7\u00e3o que ajudara na cicatriza\u00e7\u00e3o dessa ferida. Luiz mais uma vez seguiu o tratamento prescrito, agora com antiinflamat\u00f3rios e um spray que aplicava tr\u00eas vezes ao dia para desinflamar o nariz, conforme havia dito o doutor. As crostas e o sangramento melhoraram logo nas primeiras semanas, mas o alivio foi por pouco tempo. Logo os sintomas voltaram e seu nariz ficava cada vez mais obstru\u00eddo. Desanimado com a falha no seu tratamento, Luiz desistiu de procurar atendimento m\u00e9dico. Permaneceu meses com epistaxe recorrente, elimina\u00e7\u00e3o de crostas e o nariz obstru\u00eddo. Quando come\u00e7ou a apresentar secre\u00e7\u00e3o purulenta de odor f\u00e9tido, Clara n\u00e3o pode mais suportar: &#8211; Vamos imediatamente ao m\u00e9dico! Tem que haver uma cura para isso! &#8211; N\u00e3o meu amor, infelizmente n\u00e3o h\u00e1 &#8211; disse Luiz cabisbaixo. &#8211; Como n\u00e3o? Vamos procurar outro m\u00e9dico. &#8211; Meu amor, preciso lhe confessar algo da minha vida que jamais tive coragem de lhe contar. Creio que essa doen\u00e7a que corr\u00f3i meu nariz \u00e9 o castigo merecido por ter ajudado a destruir tantas vidas no passado. &#8211; Destruir vidas no passado? Do que voc\u00ea esta falando? &#8211; Antes de conhecer voc\u00ea, morei em um local muito distante na periferia da cidade, dominado pelo tr\u00e1fico de drogas. Todo o meu dinheiro foi feito a partir das drogas. Nunca tive coragem para lhe contar, mas Deus agora est\u00e1 me punindo! Vendi drogas para muitos jovens&#8230; imagine a quantidade de vidas que eu ajudei a destruir! &#8211; N\u00e3o, meu bem. Deus \u00e9 justo. Ainda que voc\u00ea tenha feito algum mal, a vida lhe mostrou um novo caminho e voc\u00ea conseguiu se libertar! Deus jamais castigaria algu\u00e9m que se arrependeu das coisas ruins que fez no passado. N\u00e3o se esse arrependimento for verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Me arrependo muito sim. Mas eu n\u00e3o tive escolha. Quando pude escolher, escolhi fugir e apagar essa parte do meu passado que tanto me envergonha. &#8211; Deus h\u00e1 de nos ajudar meu amor. Vamos procurar outro m\u00e9dico. J\u00e1 no consult\u00f3rio do segundo otorrinolaringologista, Luiz contou o mal que lhe acometia: &#8211; Doutor, h\u00e1 quase um ano que sinto meu nariz ficar cada vez mais obstru\u00eddo. Quase n\u00e3o consigo respirar por ele. Pela manh\u00e3 e a noite, quando vou limp\u00e1-lo ap\u00f3s o banho, saem umas cascas pretas fedorentas enormes, sempre com um pouco de sangue. Tamb\u00e9m j\u00e1 apresentei sangramento intenso em tr\u00eas ocasi\u00f5es, al\u00e9m de perceber que meu nariz esta inchado e um pouco estranho&#8230; n\u00e3o sei explicar. E para piorar, agora estou assoando um catarro fedido que minha esposa consegue aguentar. &#8211; Entendi seu Luiz. Sente-se aqui para que eu possa examin\u00e1-lo. &#8211; Como quiser, doutor. &#8211; Pois bem, seu Luiz. Vejo que seu nariz est\u00e1 muito inflamado e inchado por dentro. Esse catarro amarelo fedorento nada mais \u00e9 que uma sinusite cr\u00f4nica. Vou prescrever o antibi\u00f3tico correto junto com uma boa dose de cortic\u00f3ide e o senhor logo se sentir\u00e1 melhor. &#8211; Espero que sim, Doutor. N\u00e3o aguento mais este tormento! Luiz deixou o consult\u00f3rio ainda pensativo. Ser\u00e1 que Deus o havida perdoado? Ser\u00e1 que finalmente seu nariz voltaria a funcionar normalmente? Infelizmente n\u00e3o foi o que aconteceu. A medica\u00e7\u00e3o prescrita pelo otorrinolaringologista somente aliviou o odor q exalava do seu nariz, mas os demais sintomas todos permaneciam. &#8211; Est\u00e1 vendo &#8211; disse Luiz a Clara, Deus n\u00e3o me perdoou! Ainda estou sendo punido pelos meus pecados. Errei muito e constru\u00ed minha vida com o dinheiro que veio do sofrimento e da destrui\u00e7\u00e3o de muitas vidas! Sou um pecador e mere\u00e7o a puni\u00e7\u00e3o! &#8211; Nada disso meu amor &#8211; Clara insistia &#8211; Deus n\u00e3o est\u00e1 lhe punindo. N\u00f3s vamos encontrar a cura para isto! Consultando com o terceiro m\u00e9dico, ap\u00f3s mais de um ano de sofrimento, Luiz explicava melancolicamente toda a sua trajet\u00f3ria de sintomas at\u00e9 ali. O m\u00e9dico jovem e rec\u00e9m formado ouvia tudo atentamente. Assim que realizou o exame f\u00edsico, o jovem doutor afirmou: &#8211; Senhor Luiz, nenhum dos diagn\u00f3sticos dados pelos meus colegas estava correto. Vejo que o seu nariz apresenta uma inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica sim, mas de aspecto diferente, com apar\u00eancia de ser uma doen\u00e7a granulomatosa&#8230; &#8211; Gr\u00e3o o que doutor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Granulomatosa! \u00c9 um tipo de inflama\u00e7\u00e3o encontrado em doen\u00e7as bem espec\u00edficas, sobretudo na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica. Me diga, o senhor costumava ir para \u00e1reas de mata ou algum munic\u00edpio do interior? &#8211; Claro que sim doutor! Fui criado dentro da mata e passei uma boa parte da minha inf\u00e2ncia dentro do seringal, trabalhando com meu pai. &#8211; E o senhor j\u00e1 teve ferida braba? Daquelas que demoram muito para sarar? &#8211; Aah sim&#8230; todo seringueiro j\u00e1 teve ferida braba uma vez na vida! Minha m\u00e3e preparava o emplastro de juc\u00e1. Era uma santo rem\u00e9dio! Demorava um tempo pra curar, mas dava certo. Veja doutor, tenho at\u00e9 a cicatriz at\u00e9 hoje. &#8211; Que interessante seu Luiz! O senhor tem uma hist\u00f3ria bem sugestiva de Leshmaniose. &#8211; Leish doutor? Nunca ouvi falar da ferida braba no nariz. Al\u00e9m do mais, j\u00e1 fazem muitos anos que eu n\u00e3o frequento o seringal, tampouco entro em mata. &#8211; Mas essa \u00e9 a historia natural da doen\u00e7a, seu Luiz. A leishmaniose quando acomete a pele e n\u00e3o \u00e9 tratada corretamente, pode surgir anos depois acometendo a mucosa do nariz, da boca ou da garganta. &#8211; Miseric\u00f3rdia Doutor! &#8211; N\u00e3o se assuste. Vou realizar uma bi\u00f3psia do seu nariz e enviar para an\u00e1lise no hospital de refer\u00eancia para doen\u00e7as tropicais. Tamb\u00e9m lhe recomendo uma consulta com o colega infectologista para realizar outros exames. &#8211; Tudo bem. Farei conforme a sua orienta\u00e7\u00e3o. Em poucos dias, Luiz recebeu o diagn\u00f3stico final: leishmaniose mucosa. &#8211; Viu como nada tem a ver com seus pecados e castigo de Deus? &#8211; lembrou Clara. &#8211; \u00c9 verdade meu amor! Eu estava desesperado vendo meu nariz ser destru\u00eddo por um mal que eu n\u00e3o conhecia. &#8211; Deus n\u00e3o castiga as pessoas enviando doen\u00e7as. &#8211; \u00c9 verdade. Gra\u00e7as a Ele e aos doutores que cuidaram de mim na Funda\u00e7\u00e3o de Medicina Tropical, hoje meu nariz est\u00e1 sarado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c1RCIA DOS SANTOS DA SILVA Era fim de tarde no Amazonas. 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