{"id":2698,"date":"2020-03-28T10:21:56","date_gmt":"2020-03-28T14:21:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2698"},"modified":"2020-03-28T10:21:56","modified_gmt":"2020-03-28T14:21:56","slug":"medicina-egipcia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=2698","title":{"rendered":"MEDICINA EG\u00cdPCIA"},"content":{"rendered":"<p>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os dos pesquisadores da medicina eg\u00edpcia antiga, infelizmente os poucos dados dispon\u00edveis das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas dizem respeito, exclusivamente, aos estamentos dominantes.<\/p>\n<p>Como as outras civiliza\u00e7\u00f5es regionais estruturadas ao lado dos rios f\u00e9rteis, a eg\u00edpcia se desenvolveu nas margens piscosas do Nilo, de onde retiravam o sustento da maior parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mitologia sofreu constantes modifica\u00e7\u00f5es de acordo com as \u00e9pocas e os espa\u00e7os. Os deuses, deusas e reis eram, essencialmente, curadores e protetores contra o mal. Os sacerdotes representavam os intermedi\u00e1rios do poder divino e a eles cabia a arte de curar e adivinhar.<\/p>\n<p>Entre os principais personagens taumat\u00fargicas, destacaram-se:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Thoth, um dos mais antigos do pante\u00e3o, curou Horus da picada do escorpi\u00e3o e as feridas causadas pela luta entre Horus e Set;<\/li>\n<li>Imnhotep, filho de Ptah, representado por incont\u00e1veis estatuetas de bronze, achadas nas escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas de v\u00e1rios per\u00edodos pol\u00edticos do Egito antigo;<\/li>\n<li>Isis, a curadora de Ra, possu\u00eda o poder de ressuscitar os mortos;<\/li>\n<li>Sechmet, a protetora das doen\u00e7as das mulheres;<\/li>\n<li>Zoser, rei da terceira dinastia, utilizava nas correspond\u00eancias a designa\u00e7\u00e3o Sa ou aquele que cura e nas inscri\u00e7\u00f5es do templo o t\u00edtulo de m\u00e9dico divino.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por outro lado, apesar da medicina eg\u00edpcia ter sido incompetente para estabelecer um sistema m\u00e9dico, acumulou impressionantes avan\u00e7os no trato emp\u00edrico da sa\u00fade e da doen\u00e7a. Diferente da tradi\u00e7\u00e3o ass\u00edrio-babil\u00f4nica, considerava a respira\u00e7\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o mais importante do corpo.\u00a0 O sangue foi substitu\u00eddo pelo ar como a subst\u00e2ncia vital.<\/p>\n<p>Sem abandonar a for\u00e7a do sangue, <em>O Livro dos Mortos<\/em> descreve o nascimento dos deuses Hu e Lia a partir do sangue sa\u00eddo do p\u00eanis do deus-sol Ra.<\/p>\n<p>A origem das doen\u00e7as estava lidada:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Vento;<\/li>\n<li>Parasitas da pele e dos intestinos;<\/li>\n<li>Alimentos;<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A estreita rela\u00e7\u00e3o entre doen\u00e7a e parasita nasceu, provavelmente, a partir da grande quantidade de infesta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria dos que moravam e trabalhavam nas \u00e1reas de v\u00e1rzea do Nilo. O conhecimento historicamente acumulado, ao longo de centenas de anos, interligou os vermes saindo pela boca ou pelos anus com a origem das doen\u00e7as dos indiv\u00edduos debilitados e incapazes de trabalhar.<\/p>\n<p>Os principais pontos articulados da medicina emp\u00edrica do Egito antigo est\u00e3o contidos nos papiros de Berlin, Carlsberg, Chester Beatty, Ebers, Edwin Smith, Hearst, Kahoun, Londres, Ramesseum.<\/p>\n<p>Os mais importantes e melhores conservados, o papiro de Ebers, escrito entre 1553 e 1550 a. C., e o de Edwin Smith, produzido em torno do ano 1550 a. C., foram encontrados em Tebas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Papiro de Ebers<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a longa introdu\u00e7\u00e3o dedicada aos deuses curadores, compilou os saberes m\u00e9dicos da \u00e9poca sobre os medicamentos para:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Aumentar o apetite;<\/li>\n<li>Melhorar a fun\u00e7\u00e3o intestinal e a digest\u00e3o;<\/li>\n<li>Dores reum\u00e1ticas;<\/li>\n<li>Paralisia dos membros;<\/li>\n<li>Estados gripais;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as dos olhos;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as do ouvido;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as do est\u00f4mago;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as do f\u00edgado;<\/li>\n<li>Obstru\u00e7\u00f5es intestinais;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as Pulmonares;<\/li>\n<li>Mordeduras de animais;<\/li>\n<li>Queimaduras;<\/li>\n<li>Cuidados com a pele e o cabelo;<\/li>\n<li>Poli\u00faria;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as dos dedos e das m\u00e3os;<\/li>\n<li>Cuidados com os dentes e a l\u00edngua;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as ginecol\u00f3gicas;<\/li>\n<li>Abcessos e tumores;<\/li>\n<li>Doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E descreveu de modo preciso a h\u00e9rnia inguinal, a angina do peito, a gastrite, conjuntivite e otites entre outras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2, Papiro de Edwin Smith<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma parte significativa \u00e9 dedicada ao diagn\u00f3stico, tratamento e progn\u00f3stico dos traumatismos. As descri\u00e7\u00f5es pormenorizadas incluem o quadro cl\u00ednico dos traumas faciais, pesco\u00e7o, clav\u00edcula, \u00famero, esterno, t\u00f3rax, costelas, ombro, coluna lombar.<\/p>\n<p>Os seus autores foram fascinantes ao n\u00e3o deixar d\u00favidas quanto ao valor na pr\u00e1tica m\u00e9dica:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Anatomia cir\u00fargica;<\/li>\n<li>Caut\u00e9rio;<\/li>\n<li>Curativos;<\/li>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o e imobiliza\u00e7\u00e3o das fraturas;<\/li>\n<li>Sinais cl\u00ednicos distinguindo a fratura da luxa\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Import\u00e2ncia da crepita\u00e7\u00e3o \u00f3ssea;<\/li>\n<li>Luxa\u00e7\u00e3o da mand\u00edbula;<\/li>\n<li>Paralisia dos membros secund\u00e1ria ao trauma da coluna e do cr\u00e2nio;<\/li>\n<li>Progn\u00f3stico ligado aos recursos dispon\u00edveis para beneficiar o doente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A especializa\u00e7\u00e3o dos conhecimentos m\u00e9dicos do Egito era um fato. O mais antigo m\u00e9dico conhecido, um certo Hesy-Ra, exercia a odontologia como especialidade nos anos 3000 a.C. Os registros dos papiros tamb\u00e9m citam oftalmologistas e ginecologistas.<\/p>\n<p>Her\u00f3doto refere o in\u00edcio da pr\u00e1tica da circuncis\u00e3o no Egito:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;<em>\u00c9 \u00f3bvio , realmente, que os c\u00f4lquios s\u00e3o de origem eg\u00edpcia, e eu mesmo fiz essa observa\u00e7\u00e3o antes de ouvi-la de outros&#8230;os c\u00f4lquios, os eg\u00edpcios e os et\u00edopes s\u00e3o os \u00fanicos povos que desde sua origem\u00a0 praticam a circuncis\u00e3o. Os fen\u00edcios e os s\u00edrios da Palestina reconhecem que aprenderam esse costume com os eg\u00edpcios<\/em>&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica n\u00e3o era obrigat\u00f3ria. Existem muitas ilustra\u00e7\u00f5es de como realizar essa opera\u00e7\u00e3o. A mais antiga est\u00e1 na tumba de Ankh-ma-Hor e descreve-a como um ato religioso realizado por um sacerdote especializado.<\/p>\n<p>O embalsamamento est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 cren\u00e7a eg\u00edpcia do renascimento ap\u00f3s a morte. O corpo enterrado deveria estar conservado tendo a cabe\u00e7a voltada ao Oeste para poder renascer na outra vida.<\/p>\n<p>O sacerdote era tamb\u00e9m o m\u00e9dico da morte. Entre as suas fun\u00e7\u00f5es estava a imperativa necessidade de depositar o corpo intacto no sepulcro.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem registros precisos do in\u00edcio do embalsamamento. No per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico, os eg\u00edpcios enterravam os seus mortos sem qualquer tipo de tratamento. A especial qualidade do terreno des\u00e9rtico, quente e seco, conservou intactos muitos corpos. N\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que a observa\u00e7\u00e3o desses mortos, exumados muitos anos ap\u00f3s o \u00f3bito, tenha contribu\u00eddo no aperfei\u00e7oamento das t\u00e9cnicas do embalsamamento com o objetivo de alcan\u00e7ar melhores resultados que favoreceriam o renascimento.<\/p>\n<p>Os mais antigos registros de mumifica\u00e7\u00e3o datam de 3.400 a. C. Trata-se de Hetep-Heres, m\u00e3e de Keops e mostram os membros desar-ticulados antes de terem sido envoltas com as bandagens. As m\u00famias do M\u00e9dio Imp\u00e9rio eram tratadas com as v\u00edsceras nas suas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Modifica\u00e7\u00f5es importantes ocorreram nos procedimentos para embalsamar os mortos, no Egito antigo, antes de existir a codifica\u00e7\u00e3o., elaborada no Novo Imp\u00e9rio. Nesta \u00e9poca, o trato do cad\u00e1ver obedecia \u00e0s normas mais ou menos r\u00edgidas de acordo com as posses financeiras e a import\u00e2ncia social do morto. Em alguns casos, os embalsamamentos duravam sessenta dias:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>O corpo era transportado \u00e0 Casa dos Deuses;<\/li>\n<li>O conte\u00fado craniano era retirado atrav\u00e9s dos orif\u00edcios naturais;<\/li>\n<li>A eviscera\u00e7\u00e3o abdominal se fazia com uma longa incis\u00e3o no flanco para a retirada inteira dos \u00f3rg\u00e3os;<\/li>\n<li>O cora\u00e7\u00e3o permanecia no lugar;<\/li>\n<li>As v\u00edsceras liberadas recebiam cuidados especiais e eram depositadas em recipientes adequados;<\/li>\n<li>O corpo era criteriosamente desidrato, submetido \u00e0s lavagens com \u00f3leos e ess\u00eancias e envolto com tiras de pano.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho Apesar dos esfor\u00e7os dos pesquisadores da medicina eg\u00edpcia antiga, infelizmente os poucos dados dispon\u00edveis das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas dizem respeito, exclusivamente, aos estamentos dominantes. 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