{"id":315,"date":"2012-03-18T15:14:11","date_gmt":"2012-03-18T19:14:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=315"},"modified":"2016-03-06T09:46:41","modified_gmt":"2016-03-06T13:46:41","slug":"medicina-como-especialidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=315","title":{"rendered":"Medicina como especialidade social"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Medicina como especialidade social<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A\u00e7\u00f5es intencionais e repetidas nos corpos com inten\u00e7\u00e3o de empurrar os limites da vida: rela\u00e7\u00f5es com as cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Entre os anos 1960 e 1970, de modo geral, nos pa\u00edses industrializados, os cursos de Medicina, desvincularam-se ainda mais das rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do doente e das doen\u00e7as. Esse fato pode ter contribu\u00eddo para acentuar a desinforma\u00e7\u00e3o sobre quanto representa o papel da Medicina, desde a pr\u00e9-hist\u00f3ria, no processo de busca, para manter a solidariedade na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, aumentar a materialidade e diminuir a abstra\u00e7\u00e3o na abordagem da sa\u00fade e da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O processo que culminou com a Medicina como especialidade social, com avan\u00e7o e recuos, tem proporcionado:<\/p>\n<p>&#8211; Entender, dominar e modificar a multiplicidade din\u00e2mica das formas e fun\u00e7\u00f5es do corpo;<\/p>\n<p>&#8211; Estabelecer os par\u00e2metros do normal e da doen\u00e7a;<\/p>\n<p>&#8211; Vencer as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo determinismo da dor e da morte.<\/p>\n<p>\u00c9 mais dif\u00edcil ao m\u00e9dico da atualidade compreender a Medicina, sem o olhar para tr\u00e1s e apreender a din\u00e2mica social co-relacionada \u00e0s pr\u00e1ticas de curas.<\/p>\n<p>Esses saberes hist\u00f3ricos, negligenciados pelos que optaram exclusivamente pela tecnologia m\u00e9dico-hospitalar, facilitam o entendimento da fun\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, como um dos especialistas sociais que trabalha para evitar a dor e empurrar os limites da morte.<\/p>\n<p>Sob esse enfoque \u2013 as pr\u00e1ticas de curas \u2013 n\u00e3o comportam a dissocia\u00e7\u00e3o entre o presente e o passado distante. As pr\u00e1ticas de curas constituem hist\u00f3ria de longa dura\u00e7\u00e3o, iniciado na pr\u00e9-hist\u00f3ria, antes de a nossa esp\u00e9cie ter promovido o sedentarismo. Os registros arqueol\u00f3gicos daquela \u00e9poca se mostram suficientes para que as an\u00e1lises paleopatol\u00f3gicas possam caracterizar algumas a\u00e7\u00f5es intencionais e repetidas do ancestral sobre o corpo do outro o fito de adiar os limites da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que as comunidades \u00e1grafas de ca\u00e7adores e coletores tivessem na busca da sobreviv\u00eancia cotidiana e na observa\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as, em torno da natureza circundante e do corpo, grande parte da aten\u00e7\u00e3o. As rela\u00e7\u00f5es entre a vida-morte e sa\u00fade-doen\u00e7a deveriam estar entre as mais significativas, j\u00e1 que interferiam na seguran\u00e7a pessoal e coletiva. Esse conjunto pode ter provocado a especializa\u00e7\u00e3o de alguns membros, que se interessaram em controlar as situa\u00e7\u00f5es de risco \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Nessa fase, quando o nosso ancestral come\u00e7ou a tentar modificar o processo dos bin\u00f4mios vida-morte e sa\u00fade-doen\u00e7a, iniciou o extraordin\u00e1rio processo com o objetivo de diminuir a abstra\u00e7\u00e3o e aumentar a materialidade das a\u00e7\u00f5es que pudessem evitar a dor e empurrar os limites da vida.<\/p>\n<p>Essas pessoas diferenciadas fizeram-se curadores!<\/p>\n<p>Naquele contexto, os nossos ancestrais distantes, marcados pela generosidade e coopera\u00e7\u00e3o como instrumentos mentais que os distinguiam dos outros animais, algu\u00e9m que cuidava do outro, fragilizado ou ferido, impossibilitado de se movimentar ou cuidar da pr\u00f3pria seguran\u00e7a, iniciou a constru\u00e7\u00e3o dos elos de confian\u00e7a entre o curador e o doente, bases sustentadoras da Medicina como especialidade social.<\/p>\n<p>Os registros paleopatol\u00f3gicos indicam a exist\u00eancia de pr\u00e1ticas de curas, na pr\u00e9-hist\u00f3rica, alguns milhares de anos antes dos documentos escritos na Mesopot\u00e2mia. Um bem documentado data de aproximadamente 45.000 anos, no Pleistoceno Superior. Trata-se do esqueleto de um Neandertal, descoberto no monte Zagros, no Iraque, com tra\u00e7os de amputa\u00e7\u00e3o intencional, no bra\u00e7o direito, com a marca indiscut\u00edvel de o osso ter sido seccionado com a ajuda de objeto cortante e, no coto amputado, sinal de crescimento \u00f3sseo, comprovando que o homin\u00eddeo viveu muito tempo ap\u00f3s a amputa\u00e7\u00e3o, suficiente para proporcionar o crescimento \u00f3sseo do \u00famero. Sem que jamais saibamos a raz\u00e3o pela qual o homin\u00eddeo teve o bra\u00e7o amputado, comprova que um ou mais membros praticaram a a\u00e7\u00e3o dirigida no corpo de outro, para adiar os limites da vida.<\/p>\n<p>Existem outras a\u00e7\u00f5es curadoras bem documentadas, como a encontrada no osso r\u00e1dio de ancestral que viveu em torno de 25.000 anos, com sinal de fratura traum\u00e1tica consolidada ap\u00f3s ter sido reduzida de modo correto e imobilizada, demonstrando que recebeu ajuda por outro membro do grupo social.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, fora das les\u00f5es determinadas pelos traumas, acidentes e embates dos nossos ancestrais entre eles e com outros animais, doen\u00e7as causadas por v\u00edrus, fungos e bact\u00e9rias deixaram marcas nos ossos dos pr\u00e9-hist\u00f3ricos que existiram antes da nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o maior \u00e9 tentar desvendar como esses grupos de ca\u00e7adores e coletores se relacionavam com as doen\u00e7as na luta pela sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do registro paleopatol\u00f3gico pode estabelecer paralelismos da a\u00e7\u00e3o curadora exercida pelo homem pr\u00e9-hist\u00f3rico com outras, que at\u00e9 poucos anos, podiam ser observadas em grupos humanos de ca\u00e7adores e coletores, como os bosqu\u00edmanos, na \u00c1frica, e grupos ind\u00edgenas no noroeste do Amazonas.<\/p>\n<p>A paleopatologia mostra que os homens e mulheres pr\u00e9-hist\u00f3ricos estavam sujeitos a diversas doen\u00e7as semelhantes as do homem moderno. A fratura traum\u00e1tica constituiu uma das doen\u00e7as mais freq\u00fcentes nos f\u00f3sseis estudados, em algumas delas, foram confirmados sinais evidentes de infec\u00e7\u00e3o do osso, a osteomielite, lembrando as encontradas nos hospitais de hoje.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, se comprovou a exist\u00eancia de doen\u00e7as sist\u00eamicas, n\u00e3o traum\u00e1ticas, como a denominada gota das cavernas, uma esp\u00e9cie de reumatismo do homem pr\u00e9-hist\u00f3rico que certamente dificultava a locomo\u00e7\u00e3o. Nesse caso, algu\u00e9m fornecia o alimento e a guarda desse elemento fragilizado, sugerindo a\u00e7\u00e3o plena de generosidade e coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o do corpo congelado de um ca\u00e7ador, que viveu em torno de 6.000 anos, encontrado nos Alpes, na Su\u00ed\u00e7a, as pesquisas arqueol\u00f3gicas jamais encontraram outros corpos ou \u00f3rg\u00e3os anteriores a essa \u00e9poca. Por outro lado, foram identificadas v\u00e1rias bact\u00e9rias pr\u00e9-hist\u00f3ricas fossilizadas. O p\u00f3len de Nen\u00fafar, designa\u00e7\u00e3o de diversas plantas da fam\u00edlia das ninfe\u00e1ceas, capazes de determinar rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica no homem atual, existe desde o Pleistoceno M\u00e9dio, isto \u00e9, h\u00e1 mais de 100.000 anos. A tuberculose \u00f3ssea na coluna vertebral, problema m\u00e9dico freq\u00fcente nos pa\u00edses subdesenvolvidos, foi documentada por achado de esqueleto de homem do per\u00edodo Neol\u00edtico, constituindo, sem d\u00favida, o primeiro exemplar m\u00e9dico dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia de mol\u00e9stias na pr\u00e9-hist\u00f3ria \u00e9 indiscut\u00edvel. Por\u00e9m, interessa conhecer como os homens primitivos iniciaram a luta para controlar a dor, conservar a sa\u00fade e empurrar os limites da vida. Sob essa perspectiva, \u00e9 poss\u00edvel articular respostas comparativas com o comportamento de certos animais, quando est\u00e3o feridos ou doentes: lambem os ferimentos, fazem limpeza m\u00fatua e comem plantas em\u00e9ticas. Parece l\u00f3gico pressupor que o homem primitivo tivesse se comportado da mesma maneira: lambendo a \u00e1rea ferida, pressionando o local para parar a hemorragia dos ferimentos traum\u00e1ticos e utilizando recursos da natureza circundante para interromper a dor, como a amputa\u00e7\u00e3o intencional realizada no homin\u00eddeo encontrado na sepultura pr\u00e9-hist\u00f3rica do monte Zagros.<\/p>\n<p>Perdura a quest\u00e3o de quando iniciou, na pr\u00e9-hist\u00f3ria, uma das mais importantes mudan\u00e7as no sistema nervoso central capaz de construir as concep\u00e7\u00f5es abstratas, que poderiam ter culminado nos rituais m\u00e1gicos, ligado \u00e0 busca de cura das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Na gruta de Trois Fr\u00e8res, nos Pirineus franceses, continua desafiando a imagina\u00e7\u00e3o coletiva a pintura do personagem, em movimento de dan\u00e7a, datada de 10.000 anos, travestido de cervo, em atitude que sugere uma esp\u00e9cie de ritual, semelhante aos movimentos do chamam, na dan\u00e7a dos bis\u00f5es, dos \u00edndios, no norte dos Estados Unidos, e do paj\u00e9, no norte do Amazonas, ambos em cerim\u00f4nias simbolizando o poder animal na cura das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>O conjunto das informa\u00e7\u00f5es paleopatol\u00f3gicas, no Neol\u00edtico, em torno de 10.000 anos, sugere fortemente a efetiva incorpora\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos emp\u00edricos estruturando a a\u00e7\u00e3o intencional do homem sobre outro homem. Essas atitudes, algumas vezes foram muito agressivas, como a trepana\u00e7\u00e3o do cr\u00e2nio com instrumentos suficientemente fortes para cortar regularmente os ossos do cr\u00e2nio em formas geom\u00e9tricas bem definidas. Essa extraordin\u00e1ria pr\u00e1tica \u00e9 facilmente comprovada por meio do estudo dos f\u00f3sseis. E mais, alguns desses homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos que sofreram essa cirurgia sobreviveram muito tempo ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o, o suficiente para favorecer o crescimento do osso cortado.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante assinalar que craniotonias semelhantes as do Neol\u00edtico europeu, tamb\u00e9m foram executadas, at\u00e9 o s\u00e9culo 16, em outras sociedades que n\u00e3o tiveram contato inter\u00e9tnico, como as da Polin\u00e9sia francesa e as do \u00a0altiplano peruano nos tempos pr\u00e9-coloniais.<\/p>\n<p>Restar\u00e1 sempre a d\u00favida do por que as craniotomias terem sido realizadas. De qualquer modo, n\u00e3o h\u00e1 como negar que representou conjunto de a\u00e7\u00f5es absolutamente extraordin\u00e1rias, na medida em que uma parte do corpo, o conte\u00fado do cr\u00e2nio, foi exposta intencionalmente, desvendando o escondido atr\u00e1s da pele e do osso.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o curador pr\u00e9-hist\u00f3rico tenha exercido, simultaneamente, fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. Essa demonstra\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de poder \u2013 um homem mortal igual aos outros, intervindo no corpo do outro \u2013 resultaria em grande destaque no grupo social.<\/p>\n<p>Respeitando as devidas propor\u00e7\u00f5es, essa rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o do curador sobre o objeto da sua pr\u00e1tica \u2013 o doente \u2013, sob alguns aspectos, perdura at\u00e9 os dias atuais. Esse poder do curador, na pr\u00e9-hist\u00f3ria como nos dias atuais, poderia aumentar o n\u00edvel de persuas\u00e3o sobre o doente, tendo como base dois dos pontos de maior sensibilidade humana: o pressuposto de a a\u00e7\u00e3o intencional do curador pode interromper a dor fora de controle ou aumentar os limites da vida.<\/p>\n<p>Esse processo complexo, da fuga da dor e da morte, pode ter sido um dos pilares sustentadores que edificaram os ancestrais distantes para aperfei\u00e7oar a linguagem e transmitir os saberes.<\/p>\n<p>Com o sedentarismo avan\u00e7ando, no Neol\u00edtico, importantes modifica\u00e7\u00f5es foram se processando nos grupos sociais que habitavam as terras f\u00e9rteis da Mesopot\u00e2mia e do Egito. Essas sociedades arcaicas iriam absorver parte da experi\u00eancia acumulada. Nessa fase, ocorreu o in\u00edcio da modifica\u00e7\u00e3o da economia produtora, passando do n\u00edvel de subsist\u00eancia coletiva \u00e0 concreta divis\u00e3o do trabalho, com o aparecimento do excedente de produ\u00e7\u00e3o e das trocas comerciais. As sociedades mostravam-se francamente hierarquizadas. Tamb\u00e9m surgiram as propriedades privadas, que possibilitaram os assentamentos duradouros dos antigos grupos de ca\u00e7adores e coletores, evoluirido para a organiza\u00e7\u00e3o das primeiras aldeias.<\/p>\n<p>As cidades foram sendo formadas e fortalecidas, nas margens de lagos e rios piscosos, nas rotas de migra\u00e7\u00e3o dos grupos ca\u00e7adores e coletores. Entre as mais festejadas, destacaram-se as que obtiveram avan\u00e7os na guarda territorial e poder de guerra de conquista de novos territ\u00f3rios: a babil\u00f4nia e a eg\u00edpcia. Esses povos, mesmo mantendo importantes diferen\u00e7as, decididamente influenciaram as culturas posteriores.<\/p>\n<p>As civiliza\u00e7\u00f5es regionais assimilaram, ao longo de v\u00e1rios mil\u00eanios, diferentes formas de governos, predominando o teocr\u00e1tico de regadio e mercantil-escravista. Nessas sociedades rigidamente hierarquizadas, moldaram a a\u00e7\u00e3o dos curadores em torno de tr\u00eas vertentes, sem que existissem limites precisos:<\/p>\n<p>&#8211; Apreens\u00e3o do conjunto de conhecimento historicamente acumulado, oriundo da pr\u00e9-hist\u00f3ria, voltado \u00e0s a\u00e7\u00f5es que poderiam interromper ou amenizar a dor fora de controle, que podem ser compreendidos como agentes da Medicina-emp\u00edrica, como as parteiras;<\/p>\n<p>&#8211; Utiliza\u00e7\u00e3o de ritos das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, para buscar a cura: agentes da Medicina-divina;<\/p>\n<p>&#8211; Processo formador, nos templos das divindades dominantes, sob a guarda do poder pol\u00edtico, capaz de transmitir e registrar nas respectivas linguagens escritas, os saberes envolvendo os dois anteriores acrescidos de outras observa\u00e7\u00f5es das doen\u00e7as e dos doentes: agentes da Medicina-oficial.<\/p>\n<p>As guerras ofereceram saques, novos escravos e territ\u00f3rios, fortaleceram a troca de conhecimentos entre os agentes de curas. \u00a0\u00c9 muito prov\u00e1vel que os mais destacados tenham sido absorvidos nas sociedades vencedoras. Por outro lado, os traumas provocados pelo combate corpo a corpo, acrescentaram outros saberes, principalmente, no manuseio das grandes feridas, incis\u00e3o de abscessos, imobiliza\u00e7\u00e3o das fraturados e nas amputa\u00e7\u00f5es dos membros dilacerados.<\/p>\n<p>Os metais foram fundidos e o cobre utilizado em v\u00e1rias atividades produtivas. A mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura tomou corpo com os arados primitivos. Apareceu o barco com vela e o uso do ferro. Esses fatos da nova vida social contribu\u00edram para aumentar as trocas do excedente da produ\u00e7\u00e3o, fortalecendo a maior especializa\u00e7\u00e3o e a propriedade privada dos mais poderosos..<\/p>\n<p>Outro extraordin\u00e1rio desdobramento da constru\u00e7\u00e3o do pensamento subjetivo, a cren\u00e7a no renascimento ap\u00f3s a morte, conduziu ao sepultamento ritual das pessoas prezadas, acompanhado de grandes quantidades de carne e artefatos de pesca e ca\u00e7a junto aos esqueletos, de acordo com o professor Leroi Gurhan presente desde 20.000. Esse cuidado importou manuseios espec\u00edficos do corpo morto, junto aos rituais religiosos, para a conserva\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte. Essa conduta alcan\u00e7ou n\u00edveis de grande sofistica\u00e7\u00e3o entre os eg\u00edpcios.<\/p>\n<p>Nas sociedades que floresceram, em torno de 4.000 anos, nas margens dos rios Tigre, Eufrates, Nilo e Indo, al\u00e9m dos agentes da Medicina-emp\u00edrica e Medicina-divina, os registros identificam os m\u00e9dicos, como agentes da Medicina-oficial, nominados de acordo com as fun\u00e7\u00f5es e especialidades e remunerados pelo poder pol\u00edtico dominante,<\/p>\n<p>A atividade m\u00e9dica deveria ser intensa e diferenciada nos v\u00e1rios segmentos sociais, suficiente para originar conflitos muito freq\u00fcentes, gerando mal-estar social e obrigando o legislador intervir. O rei Hammurabi (1728-1688 a.C.), da Babil\u00f4nia, dedicou v\u00e1rios par\u00e1grafos do seu famoso c\u00f3digo para disciplinar o exerc\u00edcio da Medicina, impondo pr\u00eamios e castigos. Nos par\u00e1grafos 218 a 223, est\u00e1 claro que: o m\u00e9dico era reconhecido e ocupava espa\u00e7o importante nas rela\u00e7\u00f5es sociais numa sociedade claramente hierarquizada.<\/p>\n<p>Somente \u00e9 poss\u00edvel entender as severidades das penas como espelho do problema social gerado pelo grande n\u00famero de conflitos oriundos da m\u00e1 pr\u00e1tica, todas oriundas de procedimentos cir\u00fargicos:<\/p>\n<p>218 \u2013 Se um m\u00e9dico fez em um awilum (homem livre em posse de todos os direitos de cidad\u00e3o) uma incis\u00e3o dif\u00edcil com uma faca de bronze e o causou a morte do awilum ou abriu o nakkaptum (sobre a sobrancelha) de um awilum com uma faca de bronze e destruiu o olho do awilum: eles cortar\u00e3o a sua m\u00e3o;<\/p>\n<p>219 \u2013 Se um m\u00e9dico fez uma incis\u00e3o dif\u00edcil com uma faca de bronze no escravo de muskenum (intermedi\u00e1rio entre o awilum e o escravo) e causou a sua morte: ele dever\u00e1 restituir um escravo como o escravo morto;<\/p>\n<p>220 \u2013 Se ele abriu a nakkaptum de um escravo com uma faca de bronze e destruiu o seu olho: ele pagar\u00e1 a metade do seu pre\u00e7o;<\/p>\n<p>221 \u2013 Se um m\u00e9dico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um m\u00fasculo doente: o paciente dar\u00e1 ao m\u00e9dico 5 ciclos (cerca de 40 gramas) de prata;<\/p>\n<p>222 \u2013 Se foi filho de um muskenum: dar\u00e1 3 ciclos (cerca de 24 gramas) de prata;<\/p>\n<p>223 \u2013 Se foi um escravo de um awilum: o dono de escravo dar\u00e1 2 ciclos (cerca de 16 gramas) de prata.<\/p>\n<p>Com isso o C\u00f3digo de Hammurabi firmou conceito e jurisprud\u00eancia de dois pontos cruciais da ordem m\u00e9dica:<\/p>\n<p>&#8211; San\u00e7\u00f5es que os m\u00e9dicos devem receber pela m\u00e1 pr\u00e1tica;<\/p>\n<p>&#8211; Honor\u00e1rios diferenciados pela pr\u00e1tica de bons resultados em pessoas dos diversos grupos sociais.<\/p>\n<p>Tanto as san\u00e7\u00f5es quanto as puni\u00e7\u00f5es eram diretamente proporcionais ao enquadramento social e financeiro do doente, quando mais pr\u00f3ximo do poder dominador estivesse o doente, maior o honor\u00e1rio pela pr\u00e1tica de bom resultado e mais severa a penalidade pela pr\u00e1tica que resultasse em sequela incapacitante ou morte, incluindo a amputa\u00e7\u00e3o das m\u00e3os. Ao contr\u00e1rio, se o doente fosse um escravo, a remunera\u00e7\u00e3o era menor e o castigo mais brando.<\/p>\n<p>Os registros apontam n\u00e3o terem ocorrido grandes diferen\u00e7as entre as a\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas nas sociedades que se desenvolveram nas margens dos rios Tigre, Eufrates e Nilo, no segundo mil\u00eanio a.C. Nessas civiliza\u00e7\u00f5es regionais, apesar dos avan\u00e7os, n\u00e3o existia nenhum esbo\u00e7o te\u00f3rico desvinculado das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas para compreender a sa\u00fade e as doen\u00e7as. Cada mol\u00e9stia era compreendida como unidade \u00fanica com indissol\u00favel componente dependente da vontade de um ou mais deuses ou deusas. Como conseq\u00fc\u00eancia da diviniza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da doen\u00e7a, s\u00f3 outra a\u00e7\u00e3o divina ou humana ajudada pelo deus ou deuses protetores poderia desfazer o n\u00f3 causador de sofrimento.<\/p>\n<p>Um dos antigos documentos escritos que registra a participa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, no antigo Egito, data de in\u00edcio do segundo mil\u00eanio a.C., na estela funer\u00e1ria de Was-ptah, onde est\u00e1 descrita uma morte por colapso card\u00edaco. Ainda no Egito, nesse per\u00edodo, j\u00e1 existia diferen\u00e7as entre as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas, traduzindo certa especializa\u00e7\u00e3o. Um m\u00e9dico da corte Khaui, na IV Dinastia, faz clara distin\u00e7\u00e3o entre cirurgi\u00f5es e m\u00e9dicos, que se dividiam em tr\u00eas especialidades: os que tratavam das doen\u00e7as dos olhos, dos dentes e do corpo.<\/p>\n<p>Os documentos com inestim\u00e1veis informa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicos, no Egito antigo, s\u00e3o os papiros de Ebers e o de Edwin-Smith, datando aproximadamente 4.000 anos. Nesses registros constam os nomes de dezenas de doen\u00e7as e os respectivos tratamentos com extraordin\u00e1rio bom senso.<\/p>\n<p>Apesar desse fato, refletindo a aus\u00eancia do processo te\u00f3rico para entender a sa\u00fade e a doen\u00e7a fora do pante\u00e3o, \u00e9 mantida com veem\u00eancia a depend\u00eancia dos m\u00e9dicos aos deuses e deusas protetoras.<\/p>\n<p>De modo geral, o conhecimento historicamente acumulado moldando os saberes emp\u00edricos da natureza circundante, sob a guarda dos m\u00e9dicos, estava presente nas terap\u00eauticas contidas nesses papiros. Mesmo \u00e0 luz dos conhecimentos atuais, n\u00e3o h\u00e1 como duvidar da extraordin\u00e1ria efic\u00e1cia, entre outros exemplos:<\/p>\n<p>&#8211; Recomenda\u00e7\u00e3o do ch\u00e1 de sementes da papoula aos rec\u00e9m-nascidos insones;<\/p>\n<p>&#8211; Digital aos idosos com taquicardia e edema nas pernas;<\/p>\n<p>&#8211; Identifica\u00e7\u00e3o dos diferentes tipos e sequelas dos traumas cr\u00e2nio-encef\u00e1licos;<\/p>\n<p>&#8211; Imobiliza\u00e7\u00e3o dos membros fraturados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 demais repetir que nessas culturas regionais tamb\u00e9m est\u00e1 clara a inter-rela\u00e7\u00e3o de tr\u00eas Medicinas-divina, Medicina-emp\u00edrica e Medicina-oficial, sempre atadas entre si, sem que seja poss\u00edvel estabelecer os limites onde uma come\u00e7ava e a outra terminava:<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-divina: com indissol\u00favel alian\u00e7a com deusas e deuses protetores e taumaturgos;<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-emp\u00edrica: utilizando o conhecimento historicamente acumulado a partir dos recursos terap\u00eauticos da natureza circundante;<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-oficial: representada pelas pr\u00e1ticas de curas realizadas m\u00e9dicos, desfrutando de reconhecidos e remunera\u00e7\u00e3o pelo poder dominante.<\/p>\n<p>Apesar da utilidade pr\u00e1tica dos monumentais conte\u00fados dos papiros de Ebers e de Edwin-Smith, a pr\u00e1tica da Medicina-oficial eg\u00edpcia estava longe de constituir um sistema organizado. N\u00e3o \u00e9 demais repetir a aus\u00eancia de estrutura te\u00f3rica para explicar a sa\u00fade e a doen\u00e7a fora do dom\u00ednio das cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas. A resultante dessa condi\u00e7\u00e3o estava atrelada no fato de cada doen\u00e7a ser considerada uma entidade m\u00f3rbida em si mesma.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de a Medicina praticada no Egito, a que era feita na Babil\u00f4nia, tamb\u00e9m apresentava caracter\u00edstica semelhante: aus\u00eancia da estrutura te\u00f3rica para entender a sa\u00fade e a doen\u00e7a fora dos dom\u00ednios do sagrado. \u00a0Entre muitos exemplos, a Medicina-divina babil\u00f4nica considerada as doen\u00e7as como castigo do deus Shamash, que presidia a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas m\u00e9dicas que se desenvolveram nessas cidades-estados, mesmo com a estrita vincula\u00e7\u00e3o religiosa, todas apresentam not\u00e1veis registros da efic\u00e1cia dos saberes historicamente acumulados articulando o uso emp\u00edrico dos recursos da natureza circundante. Confirmando que, paralelamente, existia as Medicina-emp\u00edrica e a Medicina-oficial que utilizavam rem\u00e9dios oriundos de plantas medicinais: beladona, anis, \u00f3leo de r\u00edcino, gengibre, hortel\u00e3, rom\u00e3 e a papoula, que continuam sendo utilizados at\u00e9 hoje, por milh\u00f5es de pessoas em v\u00e1rios continentes.<\/p>\n<p>Nessa fase, em torno da primeira metade do segundo mil\u00eanio, as pesquisas arqueol\u00f3gicas nas principais cidades, mostraram importantes mudan\u00e7as introduzidas para melhorar as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, pelo menos nas partes mais ricas, pr\u00f3ximas aos pal\u00e1cios da administra\u00e7\u00e3o: redes de esgotos, abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel, de fazer inveja as periferias urbanas de muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 porque duvidar que essa melhoria arquitet\u00f4nica, mesmo que somente voltada aos mais ricos e influentes, tamb\u00e9m fora relacionada \u00e0s informa\u00e7\u00f5es patrocina pelo sedentarismo, nas margens dos grandes rios e lagos, e com a efetiva participa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos interessados em diminuir as doen\u00e7as observ\u00e1veis nas partes urbanas, onde n\u00e3o existiam cuidados com os excrementos e sem \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 importante salientar que o progresso na melhoria da condi\u00e7\u00e3o de vida das pessoas que podiam desfrutar da \u00e1gua pot\u00e1vel e do esgoto sanit\u00e1rio, nas pr\u00f3prias casas, certamente, n\u00e3o acess\u00edvel aos mais pobres e escravos, n\u00e3o estava estritamente ligado \u00e0s id\u00e9ias e cren\u00e7a religiosas; se tratavam de objetivos concretos ligados \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Existe, no Museu de Louvre, em Paris, um vaso achado na regi\u00e3o de Lagash, apresentando o s\u00edmbolo do deus da cura \u2013 Ningishzida \u2013 com dois drag\u00f5es coroados e duas serpentes entrela\u00e7adas num bast\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que a solidez desse s\u00edmbolo m\u00edtico \u2013 a serpente \u2013 ligado \u00e0 cura de doen\u00e7as de alguma forma j\u00e1 estivesse fortemente presente nas gera\u00e7\u00f5es anteriores. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel explicar por que tenha sobrevivido durante tanto tempo, metam\u00f3rfica, na Medicina greco-romana, na serpente entrela\u00e7ada no bast\u00e3o, representando Ascl\u00e9pio, o deus grego da Medicina, e adotada pelos m\u00e9dicos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Essa solidez simb\u00f3lica pode estar acoplada ao fato de a serpente ter rela\u00e7\u00e3o com a requerida transcend\u00eancia humana, podendo renascer ap\u00f3s a morte: a cobra pode viver acima e abaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos, e, especialmente, como nenhum outro animal, de tempos em tempos, substitui a pele, marcando a capacidade de renascer em vida.<\/p>\n<p>A grande mudan\u00e7a das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas, no Ocidente, pelo menos a partir de P\u00e9ricles, na primeira metade do s\u00e9culo 5, ocorreu na consolida\u00e7\u00e3o da cultura grega ligada \u00e0 cidade-estado (do grego = p\u00f3lis) com estrutura pol\u00edtico-jur\u00eddica defendendo a liberdade de escolha do cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse conjunto, sobressaindo Hip\u00f3crates e seus seguidores, na ilha de C\u00f3s, entre outros extraordin\u00e1rios fil\u00f3sofos, constituiu o esplendor da nova vis\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es do homem com a sa\u00fade e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conflito de compet\u00eancia entre a Medicina e a religi\u00e3o. <\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Busca da materialidade da sa\u00fade e da doen\u00e7a: primeiro corte epistemol\u00f3gico.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na Escola M\u00e9dica de C\u00f3s, na Gr\u00e9cia, Pol\u00edbio, o genro de Hip\u00f3crates, baseado nos quatro elementos de Emp\u00e9docles (terra, fogo, ar, \u00e1gua), descreveu o primeiro processo te\u00f3rico capaz de compreender os bin\u00f4mios sa\u00fade-doen\u00e7a e vida-morte fora dos dom\u00ednios dos pante\u00f5es das divindades protetoras e vingadoras: a teoria dos Quatro Humores, preconizando a sa\u00fade como resultado do equilibro de quatro humores \u2013 bilioso preto, bilioso amarelo, sangu\u00edneo, fleum\u00e1tico:<\/p>\n<p>\u201cQuanto \u00e0 doen\u00e7a que n\u00f3s chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela n\u00e3o me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doen\u00e7as e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribu\u00edram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignor\u00e2ncia e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha \u00e0s outras\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div align=\"center\">\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">Ar<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"100\">\n<h4 align=\"left\">Fleuma<\/h4>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">\u00c1gua<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">Bile amarela<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">Fogo<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">Sangue<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">Terra<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"100\">\n<p align=\"left\">Bile preta<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desse modo, Pol\u00edbio firmou a correspond\u00eancia estrutural da teoria dos quatro elementos fundamentais da natureza defendida por Emp\u00e9docles com a teoria dos Quatro Humores fundamentais do corpo humano. Sem que at\u00e9 hoje saibamos, exatamente, o que representavam os humores, a id\u00e9ia revolucion\u00e1ria dos m\u00e9dicos gregos da Escola M\u00e9dica, na ilha de C\u00f3s, representados por Hip\u00f3crates, ficou conhecida como teoria dos Quatro Humores. Sob essa formid\u00e1vel concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, que dominou as pr\u00e1ticas da Medicina-oficial at\u00e9 o s\u00e9culo 17, o corpo humano seria constitu\u00eddo de quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile preta.<\/p>\n<p>O equil\u00edbrio entre a quantidade e qualidade dos humores seria o respons\u00e1vel pela sa\u00fade. Ao contr\u00e1rio, os desequil\u00edbrios entre eles provocaram as doen\u00e7as. Como conseq\u00fc\u00eancia imediata, esse sistema te\u00f3rico permitiu aos m\u00e9dicos hipocr\u00e1ticos explicarem a origem das doen\u00e7as e, pela primeira vez, iniciar o conflito de compet\u00eancia entre a Medicina-oficial com as cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas, quando a sa\u00fade e a doen\u00e7a come\u00e7aram a ser compreendidas pelo pequeno grupo de m\u00e9dicos da Escola de C\u00f3s, sob a lideran\u00e7a de Hip\u00f3crates como consequ\u00eancia do desequil\u00edbrio dos humores.<\/p>\n<p>O ponto inicial do conflito pode estar contido na nova abordagem da epilepsia, na \u00e9poca, at\u00e9 ent\u00e3o conhecida como \u201cdoen\u00e7a sagrada\u201d A epilepsia, tida como doen\u00e7a sagrada, de natureza divina, nas palavras de Hip\u00f3crates, foi arrancada do dom\u00ednio abstrato dos deuses e conduzida na trilha da busca da materialidade:<\/p>\n<p>\u201cQuanto a doen\u00e7a que n\u00f3s chamamos de sagrada, eis o que significa: ela n\u00e3o me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; tem a mesma natureza das demais doen\u00e7as e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens lhe atribu\u00edram natureza e origem divinas por causa da ignor\u00e2ncia e assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha \u00e0s outras.\u201d<\/p>\n<p>Sob a leitura de Bachelard, \u00e9 poss\u00edvel entender esse extraordin\u00e1rio avan\u00e7o para retirar dos deuses e deusas o destino dos homens e das mulheres como o primeiro corte epistemol\u00f3gico da Medicina.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Teoria dos Quatro Humores = primeiro corte epistemol\u00f3gico da Medicina.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estava iniciado o longo caminho, que perdura at\u00e9 os dias atuais, para desvendar a materialidade das doen\u00e7as, isto \u00e9, entender a sa\u00fade e a doen\u00e7a sem a interfer\u00eancia dos pante\u00f5es. Essa busca da materialidade indicava por meio da teoria dos Quatro Humores que o tratamento de qualquer doen\u00e7a deveria for\u00e7ar o equil\u00edbrio dos humores por meio de atitudes induzidas para eliminar os l\u00edquidos e excre\u00e7\u00f5es corp\u00f3reos. Os m\u00e9todos de tratamentos da Medicina-oficial utilizaram a sangria e as subst\u00e2ncias provocadoras do v\u00f4mito, da diurese, do suor e da diarr\u00e9ia.<\/p>\n<p>Hip\u00f3crates, o l\u00edder da Escola de Medicina de C\u00f3s, teria nascido no ano 460 a.C., na ilha de C\u00f3s, nessa Gr\u00e9cia que vivia a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de P\u00e9ricles no esplendor da polis. Considerado o pai da Medicina ocidental, foi contempor\u00e2neo de S\u00f3crates, Plat\u00e3o e dos magistrais sofistas G\u00f3rgias e de Dem\u00f3crito, com quem teria tido rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais em Abdera.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, al\u00e9m de Hip\u00f3crates representar para a Medicina s\u00edmbolos semelhantes dos de Plat\u00e3o para a filosofia, tamb\u00e9m iniciou as bases da atual ordem m\u00e9dica, representada pela incessante determina\u00e7\u00e3o de diminuir a abstra\u00e7\u00e3o e aumentar a materialidade na compreens\u00e3o da sa\u00fade e da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Sabe-se que alguns livros atribu\u00eddos a Hip\u00f3crates, foram escritos por outros m\u00e9dicos da Escola de C\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas da participa\u00e7\u00e3o de Hip\u00f3crates, direta ou indiretamente, na elabora\u00e7\u00e3o dos seguintes:<\/p>\n<p>&#8211; Epidemia;<\/p>\n<p>&#8211; O Progn\u00f3stico;<\/p>\n<p>&#8211; Tratado Cir\u00fargico;<\/p>\n<p>&#8211; Tratado Diet\u00e9tico;<\/p>\n<p>&#8211; Tratado Nosol\u00f3gico;<\/p>\n<p>&#8211; Tratado Ginecol\u00f3gico;<\/p>\n<p>&#8211; Tratado \u00c9tico.<\/p>\n<p>Mesmo que n\u00e3o existam documentos com relatos expl\u00edcitos, \u00e9 poss\u00edvel que o conjunto da Medicina, praticada na Gr\u00e9cia, desde os tempos da guerra de Tr\u00f3ia, descrita por Homero, fosse permissiva na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente e que muitos tratamentos, especialmente os cir\u00fargicos, resultassem em maus resultados e na morte dos doentes, provocando conflito social junto \u00e0s autoridades administrativa e pol\u00edtica. Essa possibilidade explicaria o destaque que a Escola de C\u00f3s dedicou \u00e0 conduta do m\u00e9dico. De modo expl\u00edcito ou entre as condutas t\u00e9cnicas, seis livros do conjunto te\u00f3rico conhecido como \u201cCorpo Hipocr\u00e1tico\u201d tratam da \u00e9tica:<\/p>\n<p>&#8211; Juramento;<\/p>\n<p>&#8211; Da Lei;<\/p>\n<p>&#8211; Da Arte;<\/p>\n<p>-Da Antiga Medicina;<\/p>\n<p>&#8211; Dos Preceitos do M\u00e9dico;<\/p>\n<p>&#8211; Da Conduta<\/p>\n<p>Como ocorreu plena aceita\u00e7\u00e3o da sociedade grega, inclusive com elogios de Plat\u00e3o, j\u00e1 no auge da fama, \u00e9 poss\u00edvel concluir que existia espa\u00e7o social e pol\u00edtico para as recomenda\u00e7\u00f5es \u00e9ticas elaboradas na Escola de Medicina de C\u00f3s.<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca em que Dem\u00f3crito lan\u00e7ava as bases do atomismo \u2013 tudo \u00e9 formado por \u00e1tomos que s\u00e3o part\u00edculas indivis\u00edveis e invis\u00edveis, eternase imut\u00e1veis \u2013 oferecendo pela primeira vez a possibilidade da materialidade das sensa\u00e7\u00f5es sem volume do odor, cor e sabor, a Escola de C\u00f3s difundia o trabalho de Pol\u00edbio &#8211; teoria dos Quatro Humores &#8211; para explicar o aparecimento de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Entre dezenas de ensinamentos hipocr\u00e1ticos, sempre refor\u00e7ando a determina\u00e7\u00e3o de aumentar a materialidade e diminuir a abstra\u00e7\u00e3o para compreender a doen\u00e7a e o doente, \u00e9 poss\u00edvel destacar como atuais os conceitos de diagn\u00f3stico, progn\u00f3stico e tratamento, distin\u00e7\u00e3o entre sintoma e doen\u00e7a e, muito especialmente, os tr\u00eas aforismos: o m\u00e9dico e a sua arte, o doente e a sua natureza individual e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Esses conceitos, apesar de terem sofrido reconstru\u00e7\u00f5es ao longo dos s\u00e9culos, continuam v\u00e1lidos e utilizados, mesmo com toda a tecnologia da Medicina-oficial.<\/p>\n<p>Alguns instrumentos cir\u00fargicos que foram utilizados pelos m\u00e9dicos gregos s\u00e3o semelhantes aos de hoje: sondas, bisturis, tr\u00e9panos, pin\u00e7as e afastadores. A concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos instrumentos m\u00e9dicos \u00e9 semelhante a dos artefatos constru\u00eddos pela intelig\u00eancia humana: ajudar os dedos na determina\u00e7\u00e3o de transformar ou aniquilar o vis\u00edvel.\u00a0 A mudan\u00e7a dos materiais al\u00e9m de aumentar a velocidade do ato humano,\u00a0 substituiu as m\u00e3os e os sentidos natos.<\/p>\n<p>As observa\u00e7\u00f5es do corpo humano, desvendando e materializando o escondido atr\u00e1s da pele, foram respons\u00e1veis por descri\u00e7\u00f5es minuciosas e maravilhosas da anatomia, como as de \u00a0Her\u00f3filo, contempor\u00e2neo de Hip\u00f3crates, que distinguiu o c\u00e9rebro do cerebelo, identificou as membranas meninges e o l\u00edquido c\u00e9rebro-raquidiano, as fun\u00e7\u00f5es motoras e sensitivas dos nervos perif\u00e9ricos e o sistema linf\u00e1tico, todos seriam \u201credescobertos\u201d nos s\u00e9culos 17 e 18.<\/p>\n<p>Mesmo com o grande avan\u00e7o para entender a sa\u00fade e a doen\u00e7a como partes do conjunto do corpo, com textos claramente dirigidos para retirar dos deuses e deusas os destinos da sa\u00fade e da doen\u00e7a, n\u00e3o ocorreu ruptura com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas que conviviam com as mentalidades da \u00e9poca. Aconteceu, sim, o in\u00edcio do conflito de compet\u00eancia entre a Medicina-oficial com as id\u00e9ias e cren\u00e7a religiosas. \u00c9 poss\u00edvel que essa concilia\u00e7\u00e3o cautelosa de Hip\u00f3crates e de outros m\u00e9dicos da escola de C\u00f3s, reconhecendo a materialidade das doen\u00e7as sem atacar o pante\u00e3o taumaturgo tenha contribu\u00eddo para que mantivesse o prest\u00edgio social e evitasse o mesmo destino de S\u00f3crates.<\/p>\n<p>A postura cautelosa dos m\u00e9dicos da Escola de Medicina de C\u00f3s em rela\u00e7\u00e3o ao pante\u00e3o, certamente, contribuiu para manter intoc\u00e1vel a extraordin\u00e1ria fama taumaturga de Ascl\u00e9pio, o deus da Medicina-oficial, Medicina-divina e Medicina-emp\u00edrica gregas, Desse modo, o templo dedicado ao deus Ascl\u00e9pio, anexo \u00e0 Escola de Medicina, continuou com o prest\u00edgio junto aos doentes. .<\/p>\n<p>Segundo a mitologia grega, Ascl\u00e9pio era filho de Apolo e da ninfa Coronis. Apolo matou Coronis e entregou o filho aos cuidados do centauro Quiron, famoso m\u00e9dico, que instruiu Ascl\u00e9pio na arte de curar e na delicadeza dos movimentos das m\u00e3os do cirurgi\u00e3o. Finalmente, Ascl\u00e9pio se consolidou como o principal deus protetor das Medicinas e dos m\u00e9dicos. Em sua homenagem foram constru\u00eddos muitos templos. O mais famoso deles \u00e9 aquele de Epidauro, na ilha de C\u00f3s, ao lado da Escola de Medicina, cuja reconstru\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica mostrou sal\u00f5es, vesti\u00e1rios e alojamentos para m\u00e9dicos e doentes, salas de banho e teatro para a recrea\u00e7\u00e3o onde eram encenados as com\u00e9dias e dramas destinados \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o dos doentes.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante assinalar que a fama de grande curador de Ascl\u00e9pio atravessou o mundo grego e, em certo tempo, reconhecido como o \u00fanico deus capaz de ressuscitar certos mortos. Em consequ\u00eancia desse poder sem limites, o deus dos deuses, Zeus, no majestoso trono no Olimpo, preocupado com a poss\u00edvel mudan\u00e7a na ordem no mundo, entendendo que a morte inevit\u00e1vel participa da vida que continua, fulminou Ascl\u00e9pio com os raios das C\u00edclopes. Assim, o mundo continuou carregando o mesmo drama at\u00e1vico: a doen\u00e7a podendo representar essa morte temida.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a figura do m\u00e9dico, como especialista social, dependente das cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas tenha chegado aos gregos com poucas mudan\u00e7as, oriunda de tempos muito anteriores. Quando a Escola de C\u00f3s j\u00e1 estava no apogeu e Hip\u00f3crates reconhecidamente autoridade m\u00e9dica, havia harmoniosa conviv\u00eancia entre a nova Medicina, proposta por meio da teoria dos Quatro Humores e as pr\u00e1ticas da Medicina-divina e Medicina-emp\u00edrica, exercidas pelos benzedores, rezadores e sacerdotes dos templos de Ascl\u00e9pio. Como inequ\u00edvoca comprova\u00e7\u00e3o do fato se destacam as v\u00e1rias estelas de m\u00e1rmores e argila, encontradas no templo de Epidauro, na ilha de C\u00f3s,\u00a0 dedicado a Ascl\u00e9pio, com inscri\u00e7\u00f5es de agradecimento pela cura obtida.<\/p>\n<p>\u00c9 pertinente, mais uma vez, assinalar que o conjunto te\u00f3rico atribu\u00eddo a Hip\u00f3crates e aos seus disc\u00edpulos mesmo obtendo importantes avan\u00e7os em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas m\u00e9dicas das cidades-reinos do Egito e da Mesopot\u00e2mia, n\u00e3o provocou explicitamente ruptura com as cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas do pante\u00e3o grego. Essa situa\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia harm\u00f4nica entre m\u00e9dicos, que provocaram o in\u00edcio do processo para materializar a sa\u00fade e a doen\u00e7a, e os devotos de Ascl\u00e9pio, o principal deus voltado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da Medicina, despertou interesse coletivo e recebeu cr\u00edticas \u00e1cidas, como as atribu\u00eddas a Arist\u00f3fanes, o ir\u00f4nico comedi\u00f3grafo de Atenas, que encenava pe\u00e7as ridicularizando os agentes da Medicina-divina, em especial, o m\u00e9dico-sacerdote de pouco escr\u00fapulo que se afanava de curador de todas as doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia cristalizada que perdura no pensamento ocidental de como o m\u00e9dico deve agir, falar, vestir e trabalhar, inclusive a rela\u00e7\u00e3o da Medicina com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, \u00e9 tamb\u00e9m uma das conseq\u00fc\u00eancias da assimila\u00e7\u00e3o, no Ocidente, do \u201cTratado \u00c9tico hipocr\u00e1tico\u201d. Refor\u00e7a este racioc\u00ednio o primeiro par\u00e1grafo de \u201cA Lei\u201d inserido no Tratado \u00c9tico: \u201cA Medicina \u00e9 de todas as profiss\u00f5es a mais nobre&#8230;\u201c.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o da Medicina das outras profiss\u00f5es foi adotada por Galeno, no s\u00e9culo 2, em Roma, considerado o sucessor de Hip\u00f3crates, na sua afirma\u00e7\u00e3o: \u201cTodo m\u00e9dico dever\u00e1 ser fil\u00f3sofo\u201d.<\/p>\n<p>A corre\u00e7\u00e3o conclu\u00edda por Galeno \u00e9 significativa para a reconstru\u00e7\u00e3o de como o m\u00e9dico, agente da Medicina-oficial, era entendido nos tempos hipocr\u00e1ticos e plat\u00f4nicos, exatamente porque os fil\u00f3sofos eram considerados possuidores de saberes superiores em rela\u00e7\u00e3o aos outros homens. O tema \u00e9 claramente expresso no \u201cF\u00e9don\u201d, de Plat\u00e3o, quando trata do \u201cMito do Destino das Almas\u201d, no di\u00e1logo entre S\u00f3crates e S\u00edmias:<\/p>\n<p>\u201cE, entre estes, aqueles que pela filosofia se purificarem de modo suficiente sem os seus corpos, durante o resto do tempo, e a residir em lugares ainda mais belos que os demais\u201d.<\/p>\n<p>O juramento original contido no \u201cTratado \u00c9tico\u201d, de Hip\u00f3crates, come\u00e7a assim: \u201cEu juro por Apolo, m\u00e9dico, por Ascl\u00e9pio, por H\u00edgia e Panac\u00e9ia, por todos os deuses e todas as deusas&#8230;\u201d, mantendo evidente rela\u00e7\u00e3o com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas daquele tempo. Essa posi\u00e7\u00e3o, de modo espetacular, atravessou os s\u00e9culos e foi mantida, de diferentes formas, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante assinalar que Hip\u00f3crates conviveu a morte de S\u00f3crates e, possivelmente, esse fato tenha contribu\u00eddo para evitar rupturas traum\u00e1ticas com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, capazes de gerarem tr\u00e1gicas consequ\u00eancias, semelhantes as sofridas pelo fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, mesmo ap\u00f3s as incont\u00e1veis mudan\u00e7as e reconstru\u00e7\u00f5es das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas, especificamente, incluindo as decis\u00f5es de assembl\u00e9ias m\u00e9dicas que trataram da conduta do m\u00e9dico frente ao doente:<\/p>\n<p>&#8211; Juramento de Montpelier, no s\u00e9culo 14;<\/p>\n<p>&#8211; Conclus\u00f5es da Assembl\u00e9ia Geral da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial, em 1994;<\/p>\n<p>&#8211; Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brit\u00e2nica, em 1997;<\/p>\n<p>&#8211; Carta da Profiss\u00e3o M\u00e9dica, em 2002, publicada nas respeitadas revistas cient\u00edficas \u201cThe lancet\u201de \u201cAnnals of Internal Medecine\u201d;<\/p>\n<p>Mantiveram os preceitos fundamentais do \u201cJuramento\u201d, da Escola de Medicina de C\u00f3s:<\/p>\n<p>&#8211; Prioridade do bem-estar do doente, relacionando a boa-pr\u00e1tica com os bons resultados do tratamento;<\/p>\n<p>&#8211; Autonomia do doente;<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Os compromissos unindo o \u201cJuramento\u201d, da Escola de Medicina de C\u00f3s, \u00e0s reconstru\u00e7\u00f5es dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, compreendem as exig\u00eancias que interferem na boa-pr\u00e1tica, como pressuposto dos bons resultados beneficiando o doente:<\/p>\n<p>&#8211; Compet\u00eancia profissional;<\/p>\n<p>&#8211; Sinceridade com os doentes;<\/p>\n<p>&#8211; Sigilo profissional;<\/p>\n<p>&#8211; Apropriado relacionamento na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente;<\/p>\n<p>&#8211; Qualidade das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas;<\/p>\n<p>&#8211; Facilidade de acesso aos recursos da Medicina;<\/p>\n<p>&#8211; Distribui\u00e7\u00e3o justa dos recursos destinados \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica;<\/p>\n<p>&#8211; Responsabilidade profissional no atendimento do doente, antes durante e ap\u00f3s o tratamento executado;<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do conte\u00fado \u00e9tico do juramento de Hip\u00f3crates constitui clar\u00edssima conduta com o objetivo de evitar a pr\u00e1tica m\u00e9dica prejudicial aos doentes, de certo modo semelhante ao c\u00f3digo de Hammurabi, por\u00e9m sem a agressividade punitiva babil\u00f4nica.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia do m\u00e9dico tamb\u00e9m foi prevista pelos ensinamentos hipocr\u00e1ticos. No cap\u00edtulo \u201cDo M\u00e9dico\u201d, no \u201cTratado \u00c9tico\u201d, l\u00ea-se: \u201cA norma do m\u00e9dico dever\u00e1 ter boa cor e bom aspecto&#8230; Pois ser\u00e1 de grande utilidade para si colocar-se elegantemente e perfumado agradavelmente&#8230; e tudo isto agradar\u00e1 ao doente\u201d. Continua sendo essa imagem exigida do m\u00e9dico ideal, em algumas circunst\u00e2ncias, independente do destaque no dom\u00ednio do conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Influ\u00eancia da Escola de C\u00f3s na Medicina romana<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 indiscut\u00edvel a influ\u00eancia da Medicina grega no vasto dom\u00ednio territorial romano. Ap\u00f3s a terceira guerra p\u00fanica, os romanos consolidaram o grande imp\u00e9rio no Mediterr\u00e2neo. Nos anos seguintes, alguns destacados intelectuais resistiram \u00e0 Medicina grega hipocr\u00e1tica. O historiador romano Marco P\u00f3rcio Cat\u00e3o, no s\u00e9culo 2 d.C., exp\u00f4s a sua opini\u00e3o: \u201cOs gregos decidiram matar todos os b\u00e1rbaros com a Medicina e a ainda cobram por isto\u201d. E em carta dirigida ao seu filho foi enf\u00e1tico: \u201cPro\u00edbo-te de recorrer aos m\u00e9dicos.\u201d<\/p>\n<p>O esp\u00edrito legislador romano alcan\u00e7ou, claramente, as atividades m\u00e9dicas. Com a regulamenta\u00e7\u00e3o romana, os m\u00e9dicos constitu\u00edram categoria profissional definida, tanto entre os homens livres quanto entre os escravos. As obriga\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico eram estipuladas pelo Estado romano que pagava pelos servi\u00e7os profissionais.<\/p>\n<p>Sob o imp\u00e9rio de Adriano, no s\u00e9culo 2 d.C., os m\u00e9dicos eram dispensados do servi\u00e7o militar e quase todas as cidades romanas dispunham de assist\u00eancia m\u00e9dica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em torno do s\u00e9culo 4 d.C., possivelmente, consequente ao grande volume de conflitos induzidos pela m\u00e1 pr\u00e1tica, tamb\u00e9m expostos por Marco P\u00f3rcio Cat\u00e3o, a profiss\u00e3o m\u00e9dica foi severamente fiscalizada e foi institu\u00eddo rigoroso exame para todos que quisessem exercer a profiss\u00e3o. Nesse novo contexto, para melhorar e expnadir o atendimento m\u00e9dico nos territ\u00f3rios conquistados, o imp\u00e9rio romano subvencionou os estudantes de Medicina, mas em troca eram obrigados a prestar assist\u00eancia aos pobres.<\/p>\n<p>Existem registros da proibi\u00e7\u00e3o do aborto e, especialmente, de o m\u00e9dico negar o atendimento a qualquer doente, sob risco de castigo corporal e multa.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, sob o imp\u00e9rio de Diocleciano, no ano de 300 d.C., ainda procurando melhorar o atendimento m\u00e9dico e, em consequ\u00eancia, evitar os conflitos sociais que poderiam alcan\u00e7ar a administra\u00e7\u00e3o, um \u00e9dito do Imperador impunha como condi\u00e7\u00e3o para entrar na escola de Medicina, a apresenta\u00e7\u00e3o de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade de origem.<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es, claramente exposta no genial \u201cIl\u00edada\u201d, recebeu refor\u00e7o da administra\u00e7\u00e3o romana. \u00c9 poss\u00edvel que essa separa\u00e7\u00e3o tenha paralelo com as m\u00e1s pr\u00e1ticas, desde o C\u00f3digo de Hammurabi, descritas exclusivamente entre os cirurgi\u00f5es.. Nesse sentido, C\u00edcero falava dos m\u00e9dicos verdadeiros, o que corresponderia aos cl\u00ednicos gerais de hoje. Em seus versos, o erudito romano registrou as especialidades m\u00e9dicas: \u201cCascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os c\u00edlios que irritam os olhos, Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos e Hermes goza de fama de ser o Podal\u00edrio das h\u00e9rnias.\u201d<\/p>\n<p>Os historiadores da Medicina acreditam que o grande n\u00famero de especialistas na Medicina romana tenha sido conseq\u00fc\u00eancia n\u00e3o somente dos progressos t\u00e9cnicos, mas principalmente porque as especialidades eram mais lucrativas para quem as exercia.<\/p>\n<p>Alguns m\u00e9dicos especialistas romanos como Stert\u00ednio, conseguiram formar grande fortuna como fruto do trabalho m\u00e9dico. Provavelmente, em conseq\u00fc\u00eancia dos abusos nos lucros obtidos por alguns m\u00e9dicos, no ano de<\/p>\n<p>368 d.C., o imperador Valentiano proibiu que os m\u00e9dicos empregados do Imp\u00e9rio recebessem dinheiro dos doentes pobres.<\/p>\n<p>Os problemas \u00e9ticos e pecuni\u00e1rios n\u00e3o impediram o aparecimento de grandes expoentes na Medicina romana. Entre eles, um dos mais destacados foi Galeno, considerado o sucessor de Hip\u00f3crates e que influenciaria decididamente a Medicina medieval. Esse famoso m\u00e9dico romano, professo do monote\u00edsmo, elaborou a teoria dos Quatro Temperamentos, como seguimento \u00e0 teoria dos Quatro Humores.<\/p>\n<p>De certa forma, Cl\u00e1udio Galeno refor\u00e7ou a teoria hipocr\u00e1tica admitindo que a predomin\u00e2ncia constante de determinado humor provocasse o aparecimento de um tipo espec\u00edfico de temperamento que marcaria, definitivamente, as rela\u00e7\u00f5es entre a sa\u00fade e a doen\u00e7a das pessoas na vida social: Desse modo, materializou no cotidiano social a teoria de Pol\u00edpio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div align=\"center\">\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"261\">\n<h6 align=\"left\">Teoria dos Quatro Humores \u2013 s\u00e9c. 4 a.C. \u2013 Pol\u00edbio, Gr\u00e9cia<\/h6>\n<h6 align=\"left\"><\/h6>\n<h6 align=\"left\">Fleuma<\/h6>\n<\/td>\n<td width=\"293\">\n<p align=\"left\">Teoria dos Quatro Temperamentos \u2013 s\u00e9culo 2 d.C \u2013 Galeno, Roma<\/p>\n<p align=\"left\">\n<p align=\"left\">\n<p align=\"left\">Fleum\u00e1tico<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"261\">\n<p align=\"left\">Bile amarela<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"293\">\n<p align=\"left\">Col\u00e9rico<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"261\">\n<p align=\"left\">Sangue<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"293\">\n<p align=\"left\">Sang\u00fc\u00edneo<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"261\">\n<p align=\"left\">Bile preta<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"293\">\n<p align=\"left\">Melanc\u00f3lico<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"115\" height=\"8\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Galeno nasceu em P\u00e9rgamo, na \u00c1sia Menor, no ano de 130 d.C. Sem d\u00favida, o mais famoso m\u00e9dico daquele tempo. Os seus livros abordaram quest\u00f5es da anatomia, fisiologia, patologia, sintomatologia e terap\u00eautica. A maior parte livros foi reeditada, em Veneza, no ano 1538, e constitu\u00edram as principais consultas dos m\u00e9dicos medievais.<\/p>\n<p>O outro m\u00e9dico romano de grande destaque foi Sorano, nascido em \u00c9feso. Os escritos dele que foram cont\u00eam informa\u00e7\u00f5es de extrema lucidez e bom senso. Esse m\u00e9dico not\u00e1vel descreveu a experi\u00eancia dos parteiros, que deveriam ser numerosos, semel<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>hantes \u00e0s parteiras da atualidade, e os que faziam abortos, proibidos pela lei romana. Os aborteiros eram punidos com o degredo, quando o conflito determinado pela morte da gr\u00e1vida passava ao conhecimento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Entre as obras de Sorano destaca-se o \u201cManual de Ginecologia\u201d, que serviu de orienta\u00e7\u00e3o para os m\u00e9dicos durante quase quinze s\u00e9culos, praticamente sem qualquer contesta\u00e7\u00e3o. Nesse livro, descreveu com absoluta precis\u00e3o as posi\u00e7\u00f5es anormais dos fetos no \u00fatero gr\u00e1vido:<\/p>\n<p>&#8211; Pod\u00e1lico com os p\u00e9s unidos;<\/p>\n<p>&#8211; Pod\u00e1lico com um s\u00f3 p\u00e9;<\/p>\n<p>&#8211; Ajoelhado;<\/p>\n<p>&#8211; Sentado;<\/p>\n<p>&#8211; De ombros.<\/p>\n<p>Essas posi\u00e7\u00f5es an\u00f4malas do feto, no desenvolvimento do parto, ainda hoje, representam maior aten\u00e7\u00e3o para os obstetras, mesmo com todos os recursos.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o Imp\u00e9rio Romano permaneceu atento \u00e0s pr\u00e1ticas m\u00e9dicas e por meio de leis constituiu o servi\u00e7o p\u00fablico amplo na maior parte das cidades do Imp\u00e9rio. Esse projeto de sa\u00fade p\u00fablica, que incluiu drenagem de p\u00e2ntanos, constru\u00e7\u00e3o de amplos esgotas e abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel, se iniciou partir da melhora da assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e0s militares das legi\u00f5es, que foram as primeiras benefici\u00e1rias, com a constru\u00e7\u00e3o de hospitais militares em diferentes regi\u00f5es do imenso Imp\u00e9rio Romano. O mais famoso deles, o de Vindonissa, em Windish, na atual Su\u00ed\u00e7a, com sessenta quartos e capacidades para 480 doentes distribu\u00eddos em enfermarias.<\/p>\n<p>\u00c9 inquestion\u00e1vel a preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade p\u00fablica, entre as diferentes fases do imp\u00e9rio romano. Entre as provid\u00eancias mais competentes figura \u201cA Lei das Doze T\u00e1buas\u201d, que remonta aos prim\u00f3rdios da Rep\u00fablica, estabelecendo normas para o sepultamento e queima dos cad\u00e1veres fora dos muros da cidade e a constru\u00e7\u00e3o dos esgotos, como a Cloaca M\u00e1xima, em Roma, que ainda \u00e9 utilizado na parte antiga da cidade.<\/p>\n<p>As autoridades p\u00fablicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene p\u00fablica. Os grandes arquitetos romanos, como Vitr\u00favio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a constru\u00e7\u00e3o das casas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos cuidados com a organiza\u00e7\u00e3o das cidades, foram constru\u00eddas centenas de banhos p\u00fablicos estimulando a higiene pessoal. Essas termas, algumas recuperadas pelos trabalhos arqueol\u00f3gicos, como o de Diocleciano, em Roma, contavam com m\u00e9dicos e podiam obrigar em diferentes piscinas e salas de gin\u00e1sticas centenas de pessoas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Com a divis\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, iniciada pelo Imperador Constantino, e consolidada por Teod\u00f3sio, em fins do s\u00e9culo 4, o Imp\u00e9rio Romano do Ocidente fixou a capital em Mil\u00e3o, na It\u00e1lia, e o Imp\u00e9rio Romano do Oriente, em Constantinopla, atual Istambul, capital da Turquia.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio Romano do Ocidente sofreu profundas transforma\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas nos anos que se seguiram, notadamente, em conseq\u00fc\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Invas\u00e3o dos visigodos;<\/p>\n<p>&#8211; Cristianiza\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Gradativa mudan\u00e7a do sistema mercantil-escravista para o feudal,<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, a pr\u00e1tica m\u00e9dica foi envolvida e reconstru\u00edda nas mudan\u00e7as em curso. Com a cristianiza\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano do Ocidente, a influ\u00eancia exercida pela Igreja Cat\u00f3lica na Medicina foi se fazendo de forma gradativa e irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Na realidade, a raiz dessa interfer\u00eancia remonta ao tempo pr\u00e9-crist\u00e3o, quando o pensamento judaico associava o aparecimento das doen\u00e7as aos pecados cometidos, gerando o castigo vindo por meio da c\u00f3lera de Deus, semelhante \u00e0s culturas eg\u00edpcias e babil\u00f4nicas. Progressivamente, a doen\u00e7a passou, novamente, de modo predominante representar esp\u00e9cie de pecado e o \u00fanico tratamento poss\u00edvel para curar o sofrimento seria obter o perd\u00e3o por meio das rezas e penit\u00eancias dirigida \u00e0 Trindade crist\u00e3, santos e m\u00e1rtires.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o do homem romano com a doen\u00e7a, consequente do pecado, ap\u00f3s a cristianiza\u00e7\u00e3o, evoluiu sem altera\u00e7\u00e3o e se consolidou, no Ocidente, atada \u00e0 a\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica de Jesus Cristo, que inclu\u00eda a capacidade de curar milagrosamente in\u00fameras doen\u00e7as, cujos relatos repassados nas gera\u00e7\u00f5es seguintes, por meio do Novo Testamento, pelos ap\u00f3stolos Marcos, Mateus, Lucas e Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os depoimentos dos ap\u00f3stolos de curas milagrosas que Jesus Cristo realizou, \u00e9 poss\u00edvel citar a cura do paral\u00edtico (Mt 7,32-35), do louco (Mt 20,30-34), do surdo-mudo (Mc 7,32-35), do epil\u00e9tico (Mc 9,16-26) , chegando a ressuscitar o filho da vi\u00fava de Naim (Lc 7,11-25) e L\u00e1zaro, j\u00e1 em processo de decomposi\u00e7\u00e3o do corpo (Jo 11,17-44).<\/p>\n<p>\u00c9 interessante assinalar a semelhan\u00e7a da mitopoese do destino de Ascl\u00e9pio, por ordem de Zeus, morto com os raios das C\u00edclopes, ap\u00f3s ressuscitar alguns mortos, e a crucifica\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, que tamb\u00e9m ressuscitou certos mortos. Essa similaridade se torna ainda mais impactante na escultura, com trinta cent\u00edmetros de altura, descrita por Castiglione, onde \u00e9 poss\u00edvel verificar, na base de apoio, o nome de Jesus Cristo escrito sobre o de Ascl\u00e9pio riscado.<\/p>\n<p>A leitura crist\u00e3 da rela\u00e7\u00e3o entre doen\u00e7a e pecado permaneceu inalterada, na Idade M\u00e9dia, fazendo com que a atividade m\u00e9dica perdesse grande parte das conquistas alcan\u00e7adas no per\u00edodo greco-romano, interferindo diretamente no enfraquecimento da Medicina-oficial, seguido do absoluto predom\u00ednio da Medicina-divina.<\/p>\n<p>As press\u00f5es pol\u00edticas e clericais atuaram para o gradual fechamento das escolas de Medicina, seguido da escassez de m\u00e9dicos, a partir do s\u00e9culo 5. O atendimento m\u00e9dico passou \u00e0s m\u00e3os despreparadas de padres e freiras, de diferentes ordens religiosas, dentro dos muros das abadias e dos conventos, fortalecendo a Medicina-divina e a Medicina-emp\u00edrica..<\/p>\n<p>Entre os muitos mosteiros que se destacaram no exerc\u00edcio da atividade m\u00e9dica, sob a \u00e9gide da caridade crist\u00e3, se destacaram: Monte Cassino, na It\u00e1lia, constru\u00eddo sobre antigo templo de Apolo; Montpelier, Paris e Toulousse.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o por igrejas dos tempos dedicados aos deuses do pante\u00e3o greco-romano se tornou objeto de clara determina\u00e7\u00e3o das autoridades crist\u00e3s. As edifica\u00e7\u00f5es eram conservadas e, na maior parte das vezes, ampliadas, e as antigas imagens dos deuses do polite\u00edsmo eram substitu\u00eddos pelos do cristianismo. Os santos protetores crist\u00e3os tomaram os lugares dos deuses e deusas curadores greco-romanos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, multiplicava-se o uso de rel\u00edquias para a prote\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as. Exemplos marcantes dessa pr\u00e1tica essencial da Medicina-divina podem ser sentidos nas palavras de Santo Agostinho: \u201cO perfume de azeviche afugenta os dem\u00f4nios e seu uso desata e desfaz o quebranto, ligaduras e encantamentos e todos os fantasmas tristes e melancolia\u201d<\/p>\n<p>Do mesmo modo, a forte presen\u00e7a crist\u00e3 conduzindo a Medicina-divina tamb\u00e9m \u00e9 clara na descri\u00e7\u00e3o da peste negra feita por Boccacio: \u201cNo ano de Nossa Senhora de 1348 ocorreu em Floren\u00e7a, a mais bela cidade de toda a It\u00e1lia, uma peste terr\u00edvel, que seja, devido \u00e0 influ\u00eancia dos planetas, ou seja, como castigo de Deus aos nossos pecados&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Cada vez mais presente a caridade crist\u00e3 imp\u00f4s nova concep\u00e7\u00e3o da pratica m\u00e9dica: o melhor m\u00e9dico seria o que atendesse segundo o Evangelho, sem remunera\u00e7\u00e3o, como Jesus Cristo, pleno de bondade atendeu todos sem pensar em pagamento. Dessa forma, o processo da cristianiza\u00e7\u00e3o da Medicina culminou no entendimento do trabalho profissional remunerado, presente desde a Mesopot\u00e2mia, para outro, como a\u00e7\u00e3o sacerdotal, n\u00e3o remunerado. Tamb\u00e9m por essa raz\u00e3o, a Medicina passou a ser exercida quase exclusivamente por religiosos no interior das abadias e mosteiros.<\/p>\n<p>Existem muitas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, em pinturas e esculturas, nos principais museus do mundo, produzidas entre os s\u00e9culos 12 e 15, saudando e estimulando a pr\u00e1tica m\u00e9dica como atividade religiosa n\u00e3o remunerada, simplesmente objetivando o bem do pr\u00f3ximo, como na par\u00e1bola do Bom Samaritano. No mesmo per\u00edodo, n\u00e3o por simples coincid\u00eancia, ocorreu maior especializa\u00e7\u00e3o dos santos que poderiam concretizar a cura de determinada doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Respondendo \u00e0s necessidades das popula\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0s abadias, dos mosteiros e conventos, os padres exerceram a Medicina fora dos muros da prote\u00e7\u00e3o clerical. Algumas igrejas foram depredadas e queimadas pelo povo enfurecido em conseq\u00fc\u00eancia dos atritos criados pelas graves complica\u00e7\u00f5es dos atos m\u00e9dicos desqualificados, em especial, as muitas mortes e outros danos causados nos doentes, como a sangria mal conduzida. A administra\u00e7\u00e3o romana respondeu, rapidamente, com Bulas papais, editadas nos Conc\u00edlios de Remis (1131) e de Roma (1139), proibindo os religiosos de exercer pr\u00e1ticas curadoras fora de qualquer constru\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Nessa fase, especialmente, entre os s\u00e9culos 10 e 11, apareceu o cirurgi\u00e3o-barbeiro, de grande import\u00e2ncia social, drenando abscessos, amputando membros gangrenados extraindo dentes apodrecidos pela c\u00e1rie, que tamb\u00e9m cortava cabelos e fazia barbas, preenchendo o espa\u00e7o vazio deixado pela Medicina-oficial e amenizando a incompet\u00eancia da Medicina-divina e da Medicina-emp\u00edrica.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o cirurgi\u00e3o-barbeiro tenha sido esculpido a partir de muitos vetores sociais e pol\u00edticos, entrecortados \u00e0s necessidades m\u00e9dicas imediatas das popula\u00e7\u00f5es que s\u00f3 contavam com os religiosos, nessa \u00e9poca, proibidos de exercer a Medicina fora dos muros religiosos:<\/p>\n<p>&#8211; Fechamento das Faculdades de Medicinas oriundas do per\u00edodo greco-romano;<\/p>\n<p>&#8211; Europa central fragmentada em muitos reinos, sob forte influ\u00eancia da hierarquia crist\u00e3, em cont\u00ednuo desest\u00edmulo \u00e0 Medicina-oficial;<\/p>\n<p>&#8211; Proibi\u00e7\u00e3o do manuseio do sangue por meio da Bula \u201cIgreja abomina o sangue\u201d;<\/p>\n<p>&#8211; Necessidades m\u00e9dicas das popula\u00e7\u00f5es, representada por desabrigados e famintos perambulando entre as terras de senhores implac\u00e1veis no controle do territ\u00f3rio;<\/p>\n<p>&#8211; Feridas traum\u00e1ticas produzidas nos torneios da nobreza, guerras intestinas e nas mais ambiciosas para conquistar territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Dessa forma, alguns cirurgi\u00f5es-barbeiros, t\u00e3o mal preparados quanto os agentes da Medicina-divina, tamb\u00e9m provocaram fortes conflitos resultantes dos maus resultados, eram obrigados a fugir rapidamente para evitar que fossem linchados pela popula\u00e7\u00e3o enfurecida. Alguns registros apontam para o fato de eles terem sido claramente tolerados pela Igreja, possivelmente, pelo fato de terem absorvido os escaramu\u00e7as antes dirigidas para os padres curadores que se aventuravam fazer sangrias e amputa\u00e7\u00f5es nas comunidades pr\u00f3ximas das abadias e mosteiros.<\/p>\n<p>Como forma de resist\u00eancia a absoluta falta de m\u00e9dicos qualificados, as cortes dos reinados e principados mais ricos contrataram m\u00e9dicos judeus e \u00e1rabes, que n\u00e3o eram obrigados seguir as normas conciliares e que receberam forte educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica nos pa\u00edses fora da orbita crist\u00e3.<\/p>\n<p>As press\u00f5es sociais pela mudan\u00e7a da incontorn\u00e1vel aus\u00eancia de Medicina-oficial evoluiu para a forma\u00e7\u00e3o das universidades. As primeiras, como Paris, Salerno, Montpelier e Toulousse, foram edificadas pr\u00f3ximas \u00e0s igrejas que abrigaram destacados n\u00facleos de Medicina-divina.<\/p>\n<p>A Escola M\u00e9dica de Salerno, no Sul da It\u00e1lia, fundada ao lado de um convento beneditino, foi uma das primeiras em receber a participa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos laicos, sendo respons\u00e1vel perante a Hist\u00f3ria pela famosa frase: \u201cPrimo, nou nuocere\u201d ou \u201cEm primeiro lugar, n\u00e3o fa\u00e7am mal\u201d, restaurando um dos fundamentos mais importantes da Medicina hipocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A Escola M\u00e9dica de Montpelier, na Fran\u00e7a, reteve as mesmas caracter\u00edsticas da italiana: os fundamentos do ensino da Medicina baseado nos livros de Hip\u00f3crates e Galeno. O grande expoente desse ensino, em Montpelier, Guy de Chauliac (1300-1370), autor do livro \u201cGrande Cirurgia\u201d, difundido na Europa, at\u00e9 o Renascimento.<\/p>\n<p>A c\u00e1tedra universit\u00e1ria remonta a este per\u00edodo. O professor ficava sentado numa grande cadeira, da\u00ed o nome de c\u00e1tedra, e ditava a aula aos alunos calados e atentos, \u00e1vidos de conhecimentos, sem questionar as exposi\u00e7\u00f5es do catedr\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Determina\u00e7\u00e3o para desvendar do corpo humano: desobedi\u00eancia \u00e0 Igreja <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, come\u00e7ou outra reconstru\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a eclesi\u00e1stica por meio dos escritos de Thom\u00e1s de Aquino (1225-1274). Como professor em Montpelier reformulou o pensamento aristot\u00e9lico que dominava a teologia medieval e retomou a rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a raz\u00e3o iniciada por Abelardo (1079-1142). Nas considera\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas em torno do \u201cser\u00e1\u201d, Thom\u00e1s de Aquino afirma que a perfei\u00e7\u00e3o m\u00e1xima n\u00e3o \u00e9 a id\u00e9ia de ser, mas o ato de ser e rejeita a interfer\u00eancia de Deus na auto-sufici\u00eancia do conhecimento humano. Com esta nova vis\u00e3o teol\u00f3gica o caminho para novos conhecimentos e indaga\u00e7\u00f5es estava aberto, mesmo que de forma restrita, culminando com a cria\u00e7\u00e3o de outras universidades, incluindo Bolonha e Paris.<\/p>\n<p>Os estudos da anatomia humana foram retomados por Mondino de Luzzi (1270-1326), professor da Universidade de Bolonha, tendo realizado, em 1315, sua primeira dissec\u00e7\u00e3o humana. Como fruto das muitas observa\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas, desacreditou publicamente alguns preceitos de Galeno, mantidos intoc\u00e1veis durante dez s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Os estudos de anatomia de Mondino receberam importante complemento nos de Ves\u00e1lio, em 1543, que publicou o seu maravilhoso tratado de anatomia humana \u201cHuman Corporis fabrica\u201d.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as trazidas com o desvendar dos corpos pela anatomia e a posi\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos, mesmo com a condena\u00e7\u00e3o de Galileu, em 1633, instigam novas leituras dos dogmas crist\u00e3os, acompanhadas de inevit\u00e1veis rupturas com o passado hipocr\u00e1tico-gal\u00eanico-crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Destacam-se, no s\u00e9culo 17, o m\u00e9dico ingl\u00eas Harvey, em 1628, com a publica\u00e7\u00e3o do \u201cExercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in anima\u201d, como Mondino, demonstrando outros erros cometidos por Galeno, dessa vez, sobre a circula\u00e7\u00e3o do sangue.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Busca da doen\u00e7a na micrologia \u2013 pensamento microl\u00f3gico = segundo corte epistemol\u00f3gico da Medicina<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De modo genial, Marcelo Malpighi\u00a0 (1628-1694), em 1666, com o livro \u201cDe viscerum structura\u201d retirou a doen\u00e7a dos humores de Hip\u00f3crates e recolocando-a na microestrutura, estabelecendo o segundo corte epistemol\u00f3gico da Medicina como especialidade social: o pensamento microl\u00f3gico, que mudaria quase tudo nos selos seguintes ate a atualidade.<\/p>\n<p>O resultado foi a institui\u00e7\u00e3o do pensamento microl\u00f3gico, inaugurando o desvendar da multiplicidade das formas e das fun\u00e7\u00f5es escondidas dos sentidos natos, numa dimens\u00e3o invis\u00edvel aos olhos desarmados.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, o estudo da c\u00e9lula dominou os meios acad\u00eamicos. Hoje, \u00e9 o sustent\u00e1culo do atual ensino da Medicina-oficial. Mesmo nos hospitais mais bem equipados, na atualidade, nos tratamentos dependem do diagn\u00f3stico microsc\u00f3pico quantitativo e qualitativo das c\u00e9lulas corporais. Isso significa que a estrutura te\u00f3rica dos saberes m\u00e9dicos, em pleno final do s\u00e9culo 20, em grande parte, se alicer\u00e7ada sobre os princ\u00edpios te\u00f3ricos da patologia celular oriunda do s\u00e9culo 17.<\/p>\n<p>O pensamento microl\u00f3gico enfraqueceu as teorias greco-romanas de Hip\u00f3crates e Galeno, entendidas como dogmas das universidades, no medievo europeu. N\u00e3o muito depois, pouco a pouco, os processos te\u00f3ricos que amparavam a micrologia, a busca da materialidade da doen\u00e7a na microscopia, substitu\u00edram as id\u00e9ias da Escola de C\u00f3s.<\/p>\n<p>Os sistemas te\u00f3ricos interligados e dependentes de Hip\u00f3crates e Galeno, capazes de explicar a sa\u00fade, a doen\u00e7a e a express\u00e3o do ser no social, mostraram-se t\u00e3o adequados ao observ\u00e1vel que dominaram as regras do diagn\u00f3stico, da terap\u00eautica e as bases do ensino da Medicina-oficial no Ocidente durante vinte s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Ao lado dessa forte rela\u00e7\u00e3o em torno das teorias hipocr\u00e1tico-gal\u00eanicas que atravessou a Idade M\u00e9dia, alguns religiosos, como Miguel Servet, estudante da Universidade de Tolousse, em 1530, imbu\u00eddo da leitura dogm\u00e1tica b\u00edblica, ao procurar explica\u00e7\u00e3o para o sopro de ar que deu vida ao primeiro homem, no livro \u201cChristianismi restituio\u201d, descreveu a pequena circula\u00e7\u00e3o cora\u00e7\u00e3o-pulm\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo foram os estudos de Hip\u00f3crates e Galeno que suplantaram todas as outras correntes cientificas. Alcan\u00e7aram o Brasil Col\u00f4nia e os m\u00e9dicos da corte portuguesa. Durante vinte e tr\u00eas dias de febre e convuls\u00e3o que antecederam a sua morte, a Princesa Paula Mariana, filha do primeiro Imperador do Brasil, foi submetida \u00e0s chupadas de quarenta sanguessugas, onze vesicat\u00f3rios, oito cataplasmas e sete clisteres, prescritos pela equipe de dez m\u00e9dicos que se revezaram \u00e0 cabeceira real.<\/p>\n<p>As teorias greco-romanas continuaram influenciara a Medicina-oficial at\u00e9 o s\u00e9culo 19. \u00c9 interessante assinalar que as id\u00e9ias alcan\u00e7aram n\u00e3o s\u00f3 os m\u00e9dicos da Coroa portuguesa, mas tamb\u00e9m os viajantes, do s\u00e9culo 18 que estiveram no Brasil. O m\u00e9dico e viajante Carlos Von Martius, em 1844, descreveu os \u00edndios brasileiros sob a perspectiva greco-romana, associando a teoria dos Quatro Humores de Hip\u00f3crates \u00e0 teoria dos Temperamentos de Galeno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pensamento molecular = terceiro corte epistemol\u00f3gico da Medicina<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os estudos do frade agostiniano Gregor Mendel (1822-1844), mesmo n\u00e3o sabendo a grandeza da sua descoberta, abriu as portas da dimens\u00e3o molecular, provocando nova reconstru\u00e7\u00e3o da Medicina como especialidade social, voltada ao desvendar da sa\u00fade e da doen\u00e7a nas menores dimens\u00f5es da mat\u00e9ria viva..<\/p>\n<p>Os hospitais dos pa\u00edses industrializados utilizam, na rotina di\u00e1ria, os resultados trazidos pelo pensamento molecular, acrescentado ao pensamento celular. Com o prop\u00f3sito de diagnosticar ou tratar certa doen\u00e7a, colocando a materialidade da sa\u00fade e da doen\u00e7a na dimens\u00e3o molecular, s\u00e3o analisadas as quantidades e as qualidades de uma ou mais mol\u00e9culas, entre as centenas de milhares que comp\u00f5em a c\u00e9lula corporal.<\/p>\n<p>O pouco tempo para a adequada dissemina\u00e7\u00e3o dos saberes da Medicina-oficial na dimens\u00e3o molecular, o alto custo e as dificuldades da tecnologia hospitalar de sair da c\u00e9lula para a mol\u00e9cula restringem esse avan\u00e7o em poucos hospitais e institui\u00e7\u00f5es de ensino nos pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Como uma das conseq\u00fc\u00eancias do pensamento molecular, da Medicina-oficial, a clonagem estreitou, geneticamente, a multiplicidade das formas e das fun\u00e7\u00f5es, criando em laborat\u00f3rio seres id\u00eanticos a partir de c\u00e9lulas retiradas de um indiv\u00edduo adulto.<\/p>\n<p>Apesar de assustador, o produto do clone n\u00e3o humano, do mesmo modo como todos os animais nascidos da reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, ao longo do processo de amadurecimento, sofrer\u00e1 a incisiva influ\u00eancia do social. Desta forma, no momento, n\u00e3o existe perspectiva de eliminar a multiplicidade geradora das respostas do ser vivente frente aos desafios da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Mesmo sendo teoricamente poss\u00edvel, a clonagem de seres humanos \u00e9 inconceb\u00edvel. N\u00e3o existem na linguagem oral e escrita para preencher a repulsa contra o alucinado ensaio de eliminar a principal caracter\u00edstica do planeta: a multiplicidade.<\/p>\n<p>Com mais liberdade para teorizar, se pode pensar que a busca da materialidade n\u00e3o ser\u00e1 interrompida na mol\u00e9cula. Nada nos impede de pensar na possibilidade de avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o do \u00e1tomo.<\/p>\n<p>Se assim ocorrer, a Medicina-oficial na dimens\u00e3o at\u00f4mica, no futuro, acrescentar\u00e1 novas constru\u00e7\u00f5es complementando dados identificados no pensamento celular e pensamento molecular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Reflex\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A Medicina como especialidade social, especialmente, a Medicina-oficial por ser a \u00fanica que sustenta processos te\u00f3ricos para desvendar a sa\u00fade e a doen\u00e7a, em permanente reconstru\u00e7\u00e3o por meio dos acr\u00e9scimos da ci\u00eancia e tecnologia: os tr\u00eas cortes epistemol\u00f3gicos.:<\/p>\n<p>&#8211; Teoria dos Quatro Humores, s\u00e9culo 4 a.C., dimens\u00e3o corporal, primeiro corte epistemol\u00f3gico;<\/p>\n<p>&#8211; Micrologia, dimens\u00e3o celular, s\u00e9culo 17, segundo corte epistemol\u00f3gico;<\/p>\n<p>&#8211; Ultra-micrologia, dimens\u00e3o molecular, s\u00e9culo 19, terceiro corte epistemol\u00f3gico.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Medicina e religi\u00e3o<\/em>: conflito de compet\u00eancia. 2\u00aa Ed. Manaus. Valer. 2005.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Hist\u00f3ria da Medicina: da abstra\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade<\/em>. 2\u00aa Ed. Manaus. Valer. 2011..<\/p>\n<p>Botelho, Jo\u00e3o Bosco. Epidemias: a humanidade contra o medo da dor e da morte.\u00a0 Manaus. Valer. 2008.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Arqueologia do prazer<\/em>. Manaus.Metro C\u00fabico. 1992.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Os limites da cura<\/em>. S\u00e3o Paulo. Plexus. 1998.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>O Deus-gen\u00e9tico<\/em>. Manaus. EDUA. 2000.<\/p>\n<p>HIPOCRATES. Sobre a Medicina Antiga. In: <em>Tratados Hipocr\u00e1ticos<\/em>. v. 1. Madri: Editorial Gredos. 1990.<\/p>\n<p>SOURNIA, Jean-Charles. <em>Histoire du diagnostic en Medecine<\/em>. Paris. Editions de Sant\u00e9. 1995.<\/p>\n<p>HIPPOCRATE. <em>L\u2019Ancienne M\u00e9decine<\/em>. Paris. Les Belles Lettres. 1983.<\/p>\n<p>HIPOCRATES. Sobre a Doen\u00e7a Sagrada. In: <em>Tratados Hipocr\u00e1ticos<\/em>. v. 1. Madri: Gredos. 1990.<\/p>\n<p>GALIEN. <em>Oeuvres m\u00e9dicales choisies I<\/em>. Paris. Gallimard. 1994.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Medicina como especialidade social \u00a0 Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho \u00a0 A\u00e7\u00f5es intencionais e repetidas nos corpos com inten\u00e7\u00e3o de empurrar os limites da vida: rela\u00e7\u00f5es com as cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas \u00a0 Entre os anos 1960 e &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=315\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-315","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eticamedicabioetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=315"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":316,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/315\/revisions\/316"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}