{"id":317,"date":"2012-03-18T15:14:42","date_gmt":"2012-03-18T19:14:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=317"},"modified":"2016-03-06T09:46:34","modified_gmt":"2016-03-06T13:46:34","slug":"praticas-medicas-nas-sociedades-do-antigo-oriente-proximo-egito-mesopotamia-e-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=317","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas nas sociedades do antigo Oriente Pr\u00f3ximo: Egito, Mesopot\u00e2mia e \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas nas sociedades do antigo Oriente Pr\u00f3ximo: Egito, Mesopot\u00e2mia e \u00cdndia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h1>Com as mudan\u00e7as sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas provocadas pelo processo de sedentarismo, nos mil\u00eanios finais do Neol\u00edtico, importantes modifica\u00e7\u00f5es se processaram nas primeiros aldeamentos no antigo Oriente Pr\u00f3ximo: Egito, Mesopot\u00e2mia e \u00cdndia.<\/h1>\n<p>Essas sociedades absorveriam a experi\u00eancia acumulada em milhares de anos de luta pela sobreviv\u00eancia dos grupos n\u00f4mades de ca\u00e7adores-coletores.<\/p>\n<p>Nessa fase, teve in\u00edcio a modifica\u00e7\u00e3o da economia produtora em n\u00edvel de subsist\u00eancia coletiva, para a concreta divis\u00e3o de trabalho, com o aparecimento de excedentes de produ\u00e7\u00e3o, trocas comerciais e propriedade privada.<\/p>\n<p>As sociedades mostravam-se francamente hierarquizadas. A propriedade privada contribuiria, entre muitos fatores, no assentamento duradouro dos grupos humanos ligados por v\u00ednculos de sangue ou interesses comuns.<\/p>\n<p>O aparecimento dos aldeamentos, socialmente estratificados, voltados \u00e0 guarda do territ\u00f3rio ocupado se seguiu como resposta \u00e0 prem\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o social, para sobreviver aos conflitos de interesses internos e externos.<\/p>\n<p>Como sequ\u00eancia, n\u00e3o linear, as cidades se agigantaram, inicialmente, nas margens dos rios e lagos f\u00e9rteis, e, como produto dessa transforma\u00e7\u00e3o iniciaria as civiliza\u00e7\u00f5es regionais. As culturas assimilaram, ao longo do processo das respectivas consolida\u00e7\u00f5es, diferentes formas de administra\u00e7\u00e3o, predominando o teocr\u00e1tico de regadio e o mercantil-escravista.<\/p>\n<p>As cont\u00ednuas guerras entre grupos rivais ao mesmo tempo em que renovavam as lideran\u00e7as guerreira transformavam o poder com o butim. Os territ\u00f3rios ampliados incorporavam os escravos detentores de saberes que interessavam a organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 ordem social dominante.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o na transforma\u00e7\u00e3o acelerada da natureza circundante alcan\u00e7ou n\u00edveis inimagin\u00e1veis. Os metais foram fundidos, uso dos artefatos de cobre e ferro, mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura substituiu os arados primitivos, domestica\u00e7\u00e3o dos animais de tra\u00e7\u00e3o e deslocamento, e o barco \u00e0 vela constitu\u00edram condi\u00e7\u00f5es para fomentar as trocas dos excedentes da produ\u00e7\u00e3o e aumentar a especializa\u00e7\u00e3o das habilidades pessoais.<\/p>\n<p>Nessa etapa, a anterior cren\u00e7a na possibilidade de renascer ap\u00f3s a morte, ligada aos sepultamentos rituais desde o ter\u00e7o inferior do Mesol\u00edtico, interferiu para que o corpo humano fosse manuseado internamente, por especialistas do sagrado, nos templos, no esfor\u00e7o para conserv\u00e1-lo ap\u00f3s a morte, aparentemente, sem nenhum objetivo de conhecer e nominar as diferen\u00e7as anat\u00f4micas.<\/p>\n<h1>As sociedades que se desenvolveram, no antigo Oriente pr\u00f3ximo &#8211; Egito, Mesopot\u00e2mia e \u00cdndia &#8211; apresentaram significativas semelhan\u00e7as nas concep\u00e7\u00f5es que sustentavam a Medicina, especialmente, nos estreitos la\u00e7os com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas e os respectivos deusas e deuses dos muitos pante\u00f5es.<\/h1>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Medicina-divina, Medicina-emp\u00edrica e Medicina-oficial<\/strong><\/p>\n<p>Nas sociedades que floresceram, entre 4.000 anos e 5.000 anos, nas margens dos rios Tigre, Eufrates, Nilo e Indo, de modo mais ou menos uniforme, os registros assinalam que, al\u00e9m dos agentes da Medicina-emp\u00edrica e Medicina-divina, os m\u00e9dicos como agentes da Medicina-oficial, nominados de acordo com as fun\u00e7\u00f5es e especialidades e remunerados pelo poder pol\u00edtico dominante.Igualmente, tamb\u00e9m est\u00e1 clara a inter-rela\u00e7\u00e3o da Medicinas-divina, Medicina-emp\u00edrica e Medicina-oficial, sempre atadas entre si, sem se poder estabelecer os limites precisos onde uma come\u00e7ava e a outra terminava.<\/p>\n<p>\u00c9 razo\u00e1vel se pensar que a constru\u00e7\u00e3o das respostas, nas primeiras cidades, \u00e0s demandas sociais quanto \u00e0 inseguran\u00e7a criada pela dor fora de controle e o medo da morte prematura, tenha envolvido pelo menos:<\/p>\n<p>&#8211; Aplica\u00e7\u00e3o do conhecimento historicamente acumulado voltado \u00e0s a\u00e7\u00f5es que poderiam interromper ou amenizar a dor fora de controle: agentes da Medicina-emp\u00edrica;<\/p>\n<p>&#8211; Utiliza\u00e7\u00e3o de ritos das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, para buscar a cura: agentes da Medicina-divina;<\/p>\n<p>&#8211; Processo formador, nos templos das divindades dominantes, sob a guarda do poder pol\u00edtico, capaz de transmitir e registrar nas respectivas linguagens orais e escritas, os saberes envolvendo os dois anteriores acrescidos de outras observa\u00e7\u00f5es das doen\u00e7as e dos doentes: agentes da Medicina-oficial.<\/p>\n<p>Dessa forma, se consolidou tr\u00eas processos interligados para abordar as demandas provocadas pelas doen\u00e7as, secund\u00e1rias ou n\u00e3o do trauma:<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-divina: com indissol\u00favel alian\u00e7a com deusas e deuses protetores e taumaturgos;<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-emp\u00edrica: utilizando o conhecimento historicamente acumulado a partir dos recursos terap\u00eauticos da natureza circundante;<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-oficial: representada pelas pr\u00e1ticas de curas realizadas m\u00e9dicos, desfrutando de reconhecidos e remunera\u00e7\u00e3o pelo poder dominante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As civiliza\u00e7\u00f5es regionais assimilaram, ao longo de v\u00e1rios mil\u00eanios, diferentes formas de governos, predominando o teocr\u00e1tico de regadio e mercantil-escravista. Nessas sociedades rigidamente hierarquizadas, moldaram a a\u00e7\u00e3o dos curadores em torno de tr\u00eas vertentes, sem que existissem limites precisos:<\/p>\n<p>As guerras ofereceram saques, novos escravos e territ\u00f3rios, fortaleceram a troca de conhecimentos entre os agentes de curas. \u00c9 muito prov\u00e1vel que os mais destacados tenham sido absorvidos nas sociedades vencedoras. Por outro lado, os traumas provocados pelo combate corpo a corpo, acrescentaram outros saberes, principalmente, no manuseio das grandes feridas, incis\u00e3o de abscessos, imobiliza\u00e7\u00e3o das fraturados e nas amputa\u00e7\u00f5es dos membros dilacerados.<\/p>\n<h1>Apesar de as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas serem executadas sem qualquer processo te\u00f3rico para explicar a sa\u00fade e a doen\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel perceber certos aspectos das compreens\u00f5es e registros das doen\u00e7as tomaram dire\u00e7\u00f5es diferentes.<\/h1>\n<h1>Por essa raz\u00e3o, alguns aspectos das Medicinas das tr\u00eas civiliza\u00e7\u00f5es &#8211; Egito, Mesopot\u00e2mia e \u00cdndia \u2013 ser\u00e3o feitas separadamente.<\/h1>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Processo hist\u00f3rico da Medicina como especialidade social<\/strong><\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Egito<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infelizmente os dados dispon\u00edveis das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas dizem respeito, exclusivamente, \u00e0s camadas sociais dominantes.<\/p>\n<p>Como as outras civiliza\u00e7\u00f5es regionais estruturadas ao lado dos rios f\u00e9rteis, a eg\u00edpcia desenvolveu-se nas margens piscosas do Nilo, de onde retiravam o sustento alimentar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia antiga permaneceu como unidade territorial pelo per\u00edodo de tr\u00eas mil anos, mais ou menos, entre 3.300 e 332 d.C., correspondente \u00e0 conquista pelo ex\u00e9rcito de Alexandre, o Grande. Esse tempo, excepcionalmente longo, \u00e9 dividido em cinco per\u00edodos:<\/p>\n<p>&#8211; Primeiro per\u00edodo ou Antigo Imp\u00e9rio, de 2.647 a 2.140 a. C., das III a VI dinastias. Considerado o mais pr\u00f3spero, no qual foram produzidas algumas obras monumentais que perduram at\u00e9 hoje;<\/p>\n<p>&#8211; Segundo per\u00edodo ou M\u00e9dio Imp\u00e9rio, de 2.040 a 1.785 . C., das XI a XII dinastias, quando ocorreram importantes restaura\u00e7\u00f5es e acr\u00e9scimo de novos monumentos;<\/p>\n<p>&#8211; Terceiro per\u00edodo ou Novo Imp\u00e9rio, de 1.540 a 1.069 a.C., das XVIII a XX dinastias;<\/p>\n<p>&#8211; Quarto per\u00edodo, de 1.069 a 333 a. C., com varia\u00e7\u00f5es de grande prosperidade passando pela conquista de tr\u00eas ex\u00e9rcitos: o ass\u00edrio (663 a. C.), o persa (525 a. C.) e o grego;<\/p>\n<p>&#8211; Quinto per\u00edodo greco-romano, de 332 a 30 a. C., at\u00e9 a fal\u00eancia do modelo administrativo.<\/p>\n<p>As fontes hist\u00f3ricas s\u00e3o compostas de documentos reveladores de como os eg\u00edpcios, pelos menos os mais ricos, se relacionavam com a sa\u00fade e a doen\u00e7a, a vida e a morte: os papiros, m\u00famias, pinturas e esculturas:<\/p>\n<p>Papiros:<\/p>\n<p>&#8211; Papiros: constituem a mais importante fonte de conhecimento da Medicina eg\u00edpcia. Os principais s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Papiro de Ebers<\/strong>: o nome corresponde ao primeiro comprador do papiro, George Ebers, que o adquiriu, em 1872 de um desconhecido eg\u00edpcio. O autor ou autores escreveu(ram), em torno de 1550 a.C., durante o reinado de Amenophis I. Alguns especialistas acreditam que \u00e9 a c\u00f3pia de outro documento ainda mais anterior. Trata-se de conjunto de textos de natureza m\u00e9dica, mais tratamentos cl\u00ednicos n\u00e3o invasivos, predominando princ\u00edpios terap\u00eauticos e farmacol\u00f3gicos, contendo 875 receitas, nem sempre interrelacionados, com 20 metros de cumprimento, em perfeito estado de conserva\u00e7\u00e3o, encontra-se hoje na universidade de Leipzig, na Alemanha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de incomensur\u00e1vel valor hist\u00f3rico, cont\u00e9m importantes diagn\u00f3sticos e prescri\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para v\u00e1rias doen\u00e7as, especialmente as do cora\u00e7\u00e3o. Em uma das descri\u00e7\u00f5es, est\u00e1 claro n\u00e3o s\u00f3 o quadro cl\u00ednico sugestivo do infarto do mioc\u00e1rdio, mas, especialmente, como o m\u00e9dico deveria se comportar, comunicando ao doente que nada poderia fazer para evitar a morte:<\/p>\n<p>\u201cSe examinares um homem que sofre do est\u00f4mago, que se queixa de dores no bra\u00e7o e no peito, mais precisamente na parte lateral&#8230;Diz-se ent\u00e3o que se trata da doen\u00e7a wid&#8230;Deves dizer: \u00e9 a morte que se aproxima dele\u201d.<\/p>\n<p>De modo geral, o papiro de Ebers apresenta receitas para:<\/p>\n<p>&#8211; Aumentar o apetite;<\/p>\n<p>&#8211; Melhorar a fun\u00e7\u00e3o intestinal e a digest\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Dores reum\u00e1ticas;<\/p>\n<p>&#8211; Paralisia dos membros;<\/p>\n<p>&#8211; Estados gripais;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as dos olhos;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as do ouvido;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as do est\u00f4mago;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as do f\u00edgado;<\/p>\n<p>&#8211; Obstru\u00e7\u00f5es intestinais;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as pulmonares;<\/p>\n<p>&#8211; Mordeduras de animais;<\/p>\n<p>&#8211; Queimaduras;<\/p>\n<p>&#8211; Cuidados com a pele e o cabelo;<\/p>\n<p>&#8211; Poli\u00faria;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as dos dedos e das m\u00e3os;<\/p>\n<p>&#8211; Cuidados com os dentes e a l\u00edngua;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as ginecol\u00f3gicas;<\/p>\n<p>&#8211; Abscessos e tumores;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e9rnia inguinal;<\/p>\n<p>&#8211; Angina do peito;<\/p>\n<p>&#8211; Gastrite;<\/p>\n<p>&#8211; Conjuntivite;<\/p>\n<p>&#8211; Otites.<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Papiro Smith<\/strong>: achado em uma tumba em Tebas e comprado por Edwin Smith, em 1862, um jovem egipt\u00f3logo americano. Apesar de ter sido escrito, em torno de 1540 a 1600 a. C., na XVIII dinastia, do mesmo modo que o anterior parece ser a compila\u00e7\u00e3o de documentos mais antigos, no Antigo Imp\u00e9rio. Trata-se de bem ordenado conjunto de informa\u00e7\u00f5es mais voltado aos procedimentos cir\u00fargicos, de anatomia e tratamentos de doen\u00e7as cir\u00fargicas. A Instru\u00e7\u00e3o 35 descreve com incr\u00edvel atualidade o diagn\u00f3stico e o tratamento da fratura bilateral da clav\u00edcula:<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea estiver examinando um homem com fratura hsb em ambas as clav\u00edculas, encontrando ambas as clav\u00edculas, uma mais curta e em posi\u00e7\u00e3o que difere em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 segunda, ent\u00e3o voc\u00ea tem que dizer: trata-se de uma fratura em ambas as clav\u00edculas, uma enfermidade de que eu cuido. Voc\u00ea deve deit\u00e1-lo ent\u00e3o de costas, dobrando algum objeto para coloc\u00e1-lo entre suas omoplatas. Depois dever\u00e1 afastar as omoplatas para que as duas clav\u00edculas se estiquem, de modo que aquela fratura hsb retorne ao lugar certo. Fa\u00e7a ent\u00e3o dois chuma\u00e7os de tecido. Um deles voc\u00ea deve colocar do lado de dentro da parte superior do bra\u00e7o, o outro na parte inferior do \u00famero. Depois voc\u00ea deve colocar nela (na fratura) uma atadura com imr mineral w&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Parte significativa \u00e9 dedicada ao diagn\u00f3stico, tratamento e progn\u00f3stico dos traumatismos. As descri\u00e7\u00f5es pormenorizadas incluem o quadro cl\u00ednico dos traumas faciais, pesco\u00e7o, clav\u00edcula, \u00famero, esterno, t\u00f3rax, costelas, ombro, coluna lombar.<\/p>\n<p>&#8211; Anatomia cir\u00fargica;<\/p>\n<p>&#8211; Caut\u00e9rio;<\/p>\n<p>&#8211; Curativos;<\/p>\n<p>&#8211; Redu\u00e7\u00e3o e imobiliza\u00e7\u00e3o das fraturas;<\/p>\n<p>&#8211; Sinais cl\u00ednicos distinguindo a fratura da luxa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Import\u00e2ncia da crepita\u00e7\u00e3o \u00f3ssea;<\/p>\n<p>&#8211; Luxa\u00e7\u00e3o da mand\u00edbula;<\/p>\n<p>&#8211; Paralisia dos membros secund\u00e1ria ao trauma da coluna e do cr\u00e2nio;<\/p>\n<p>&#8211; Progn\u00f3stico ligado aos recursos dispon\u00edveis para beneficiar o doente.<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Papiro de Berlin ou de Brugsch<\/strong>: escrito em 1540 a. C., na XVIII dinastia, cont\u00e9m prescri\u00e7\u00f5es em forma de encantamentos para proteger as m\u00e3es e seus filhos.<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Papiro de Londres<\/strong>: descreve ritos m\u00e1gicos para curar as doen\u00e7as dos olhos e das mulheres.<\/p>\n<p>O conte\u00fado dos papiros de Berlin e Londres quanto os diagn\u00f3sticos e receitas \u00e9 muito sugestivo do quanto fazia parte do cotidiano das rela\u00e7\u00f5es sociais a presen\u00e7a de agentes da Medicina-emp\u00edrica e Medicina-divina exercendo ritos de curas, n\u00e3o ligados aos m\u00e9dicos, remunerados pela administra\u00e7\u00e3o do fara\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Papiro de Kahoun<\/strong>: \u00e9 o mais antigo dos papiros. Escrito em torno de 2.000 a. C., abrangendo as doen\u00e7as ginecol\u00f3gicas e obst\u00e9tricas. De certa forma, a antiguidade desses registros retrata a import\u00e2ncia da gesta\u00e7\u00e3o e frequ\u00eancia de certas doen\u00e7as ginecol\u00f3gicas, como o corrimento vaginal purulento, ambas requerendo maior aten\u00e7\u00e3o doa agentes da Medicina-oficial, especialmente, nas mulheres mais ricas.<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Papiro Cheaster Beatty<\/strong>: data da XIX dinastia, em torno de 1.300 a. C., descreve as doen\u00e7as e os tratamentos das doen\u00e7as e do \u00e2nus. Como o papiro anterior, o conte\u00fado especificamente voltado para dois itens pode ser entendido como de demonstra\u00e7\u00e3o da maior incid\u00eancia das doen\u00e7as da pele e do \u00e2nus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, j\u00e1 que essa popula\u00e7\u00e3o morava em \u00e1rea de v\u00e1rzea, com animais domesticados, pressupondo les\u00f5es de pele pela excessiva exposi\u00e7\u00e3o solar e muitos tipos de infesta\u00e7\u00f5es com repercuss\u00e3o anal e perianal.<\/p>\n<p>&#8211; <strong>M\u00famias<\/strong>:<\/p>\n<p>Os estudos paleopatol\u00f3gicos s\u00e3o instrumentos para determinar, com bastante precis\u00e3o, doen\u00e7as presentes nos corpos mumificados em diversas \u00e9pocas;<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Pinturas e esculturas<\/strong>:<\/p>\n<p>Objetos art\u00edsticos, como as est\u00e1tuas e pinturas de imagens e textos em hier\u00f3glifo, nos templos, sarc\u00f3fagos e tumbas, nas quais est\u00e3o representadaa algumas doen\u00e7as que afligiam os eg\u00edpcios..<\/p>\n<p>O povo eg\u00edpcio antigo manteve vivo, ao longo de tr\u00eas mil anos, pante\u00f5es que variavam em certas dinastias, plenos de deusas e deuses taumaturgos. Os nomes dos curadores sagrados e os respectivos sentidos simb\u00f3licos e metaf\u00f3ricos giravam em torno das teogonias e teofanias, provavelmente, oriundas de id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas oriundas de tempo anterior. As m\u00e1scaras mortu\u00e1rias, como a de Tutanc\u00e2mon, com o objetivo de conservar a fisionomia ap\u00f3s a morte, se relacionam \u00e0s cren\u00e7as no renascimento.<\/p>\n<p>A mitologia sofreu constantes reconstru\u00e7\u00f5es de acordo com as \u00e9pocas e os espa\u00e7os. Os deuses, deusas e reis eram, essencialmente, curadores e protetores contra o mal. Os sacerdotes representavam os intermedi\u00e1rios do poder divino e a eles cabia a arte de curar e adivinhar.<\/p>\n<p>Entre os principais deuses e deusas taumaturgos, destacaram-se:<\/p>\n<p>&#8211; Thoth, um dos mais antigos do pante\u00e3o, curou Horus da picada do escorpi\u00e3o e as feridas causadas pela luta entre Horus e Set;<\/p>\n<p>&#8211; Imnhotep, filho de Ptah, representado por incont\u00e1veis estatuetas de bronze, achadas nas escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas de v\u00e1rios per\u00edodos pol\u00edticos do Egito antigo;<\/p>\n<p>&#8211; Isis, a curadora de Ra, possu\u00eda o poder de ressuscitar os mortos;<\/p>\n<p>&#8211; Sechmet, a protetora das doen\u00e7as das mulheres;<\/p>\n<p>&#8211; Zoser, rei da terceira dinastia, utilizava nas correspond\u00eancias a designa\u00e7\u00e3o Sa ou aquele que cura e nas inscri\u00e7\u00f5es do templo o t\u00edtulo de m\u00e9dico divino.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos deuses e deusas, os eg\u00edpcios acreditavam que objetos, tornados sagrados, tinham o poder de influenciar a vida e a morte, a doen\u00e7a e a sa\u00fade:<\/p>\n<p>&#8211; Sol alado: n\u00e3o servia exclusivamente como prote\u00e7\u00e3o. Era um dos s\u00edmbolos m\u00e1ximos da cosmog\u00eanese eg\u00edpcia e situava-se no umbral dos p\u00f3rticos dos templos, c\u00e2maras e pal\u00e1cios alertando a todos o extraordin\u00e1rio significado da luz solar;<\/p>\n<p>&#8211; Kepher ou Akhpner ou escaravelho sagrado: um dos s\u00edmbolos m\u00e1ximos do processo inici\u00e1tico eg\u00edpcio. Traduzia a regenera\u00e7\u00e3o e a paternidade do mundo e dos homens, a renova\u00e7\u00e3o da vida e a ressurrei\u00e7\u00e3o. Traduzido tamb\u00e9m como transforma\u00e7\u00e3o, representava um dos principais amuletos. At\u00e9 hoje, em pequenas regi\u00f5es do sul do Egito e Sud\u00e3o oriental, o inseto \u00e9 secado ao sol, triturado, misturado com \u00e1gua e bebido pelas mulheres como t\u00f4nico infal\u00edvel para gerar uma grande fam\u00edlia;<\/p>\n<p>&#8211; Djed ou bast\u00e3o sagrado ou coluna Djed: s\u00edmbolo do poder m\u00e1ximo acima da temporalidade, ligado ao culto do deus Sokar;<\/p>\n<p>&#8211; Anki ou a cruz: simbolizava a vida boa em todos os seus sentidos e protegia da magia;<\/p>\n<p>&#8211; Uaret: a serpente naja simbolizava o real conhecimento e prote\u00e7\u00e3o, adornando o alto da coroa fara\u00f4nica;<\/p>\n<p>&#8211; Shen: s\u00edmbolo da eternidade envolvia e protegia os sagrados nomes do fara\u00f3 e rainha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1ticas M\u00e9dicas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos, tanto os agentes da Medicina-oficial quanto os das Medicina-divina e Medicina-emp\u00edrica, desfrutavam de lugar especial na sociedade eg\u00edpcia antiga. E, sem d\u00favida, existia complexa rela\u00e7\u00e3o entre as Medicinas e as cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas, relacionadas aos muitos aspectos da teogonia e da teofania. Dessa forma, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer, para todos os per\u00edodos, um \u00fanico entendimento. Contudo, a partir das fontes m\u00e9dicas, notadamente, nos da XVIII dinastia, isto \u00e9, entre 1.400 e 1.800 anos a. C., a compreens\u00e3o dos bin\u00f4mios vida-morte e sa\u00fade-doen\u00e7a estava contida em tr\u00eas compartimentos:<\/p>\n<p>&#8211; Corpo vis\u00edvel;<\/p>\n<p>&#8211; Esp\u00edrito: invis\u00edvel, podendo ser apreendido; representado na forma de p\u00e1ssaro, associado \u00e0 possibilidade de se descolar ap\u00f3s a morte para visitar o corpo conservado: a m\u00famia. O corpo morto desfigurado e decomposto pela podrid\u00e3o n\u00e3o receberia o esp\u00edrito;<\/p>\n<p><em>&#8211; Ka<\/em>: invis\u00edvel, podendo ser apreendido ap\u00f3s a morte, constitui o ser imut\u00e1vel com personalidade pr\u00f3pria que reside no homem, presen\u00e7a permanente durante a vida e ap\u00f3s a morte. \u00c9 respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o, vida, bem-aventuran\u00e7a, sa\u00fade e alegria. Sendo imposs\u00edvel conceber, ap\u00f3s a morte, deus ou qualquer pessoa com corpos desfigurados sem o Ka. Por essa raz\u00e3o, no passar dos mil\u00eanios, se avolumou a import\u00e2ncia da mumifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as seriam causadas:<\/p>\n<p>&#8211; Excessos de comida e bebida;<\/p>\n<p>&#8211; Vermes intestinais;<\/p>\n<p><em>&#8211; Oukhedou<\/em> ou <em>whdw<\/em>, concep\u00e7\u00e3o da etiologia das doen\u00e7as relacionada \u00e0s fezes, explicando o destaque dos clisteres como forma de tratamento;<\/p>\n<p>&#8211; Ventos transportadores de deuses ruins;<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o haver textos explicando os por qu\u00eas dessa abordagem da etiologia das doen\u00e7as em torno de quatro pilares, tamb\u00e9m \u00e9 vi\u00e1vel pressupor que as tr\u00eas primeiras, de natureza direta e indireta gastrointestinal, estivessem relacionadas ao tipo de solo e territ\u00f3rio circundante das cidades que se desenvolveram nas v\u00e1rzeas do Nilo. Finalmente, a quarta etiologia manteria la\u00e7os com as tempestades de areia, at\u00e9 hoje comuns e temidas.<\/p>\n<p>Por outro lado, a clara liga\u00e7\u00e3o entre as doen\u00e7as e os parasitos intestinais, expelido com as fezes, pelo menos na camada mais rica da popula\u00e7\u00e3o, contribuiu no aparecimento das instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e os primeiros esgotos, para retirar das resid\u00eancias as fezes e as urinas, por meio de canaliza\u00e7\u00e3o especifica, evitando os odores e os contatos com os excrementos.<\/p>\n<p>Outras concep\u00e7\u00f5es eg\u00edpcias refor\u00e7am a import\u00e2ncia dos ventos, tanto interferindo na vida quanto podendo determinar a morte, como consta no Papiro de Ebers: \u201cO sopro da vida entra pela orelha direita e o sopro da morte entra pela orelha esquerda\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, no Egito antigo, os m\u00e9dicos constitu\u00edam grupo de especialistas reconhecidos e recebiam destaque social:<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-oficial: a estrutura de poder entre os agentes da Medicina-oficial era hierarquizada e submetida ao rigoroso controle administrativo. Em ordem crescente de import\u00e2ncia, s\u00e3o conhecidos:<\/p>\n<p>&#8211; Sounou, a palavra significa algo parecido com \u201caquele que se interessa pelos indiv\u00edduos que sofrem\u201d, esse m\u00e9dico generalista, o \u00faltimo da escala hier\u00e1rquica, representado pelo hier\u00f3grifo contendo uma flecha, um pote e um homem sentado;<\/p>\n<p><em>&#8211; <\/em>Mer sounou, chefe dos m\u00e9dicos;<\/p>\n<p>&#8211; Our sounou, grande m\u00e9dico;<\/p>\n<p>&#8211; Senedj sounouou, inspetor dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Ao lado dessa distin\u00e7\u00e3o administrativa, v\u00e1rios outros m\u00e9dicos foram assinalados:<\/p>\n<p>&#8211; Per \u00e2a sounou ou m\u00e9dico da corte;<\/p>\n<p>&#8211; Sounou grergetl ou m\u00e9dico das colonias;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e9rishef N\u00e9knet ou m\u00e9dico das minas e dos templos.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, os agentes da Medicina-divina tamb\u00e9m eram identificados com precis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sacerdotes de Sekhmet, divindade com cabe\u00e7a de le\u00e3o, sanguin\u00e1ria, causadora de doen\u00e7as e epidemias;<\/p>\n<p>&#8211; Sacerdote de Hem ka, encarregado da circuncis\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto aos agentes da Medicina-emp\u00edrica, devem ter sido numerosos, se for considerado que acesso \u00e0 Medicina-oficial era restrito aos filhos de m\u00e9dicos e sacerdotes ou pessoas escolhidas por eles.<\/p>\n<p>\u00c9 muito significativa a carta de Uzahor-Resinet, m\u00e9dico-chefe do Egito, ao rei persa Dario, confirmando que tinha ajudado algu\u00e9m indicado pelo rei, para que alcan\u00e7asse \u00eaxito para ser m\u00e9dico. Essa correspond\u00eancia com autentica\u00e7\u00e3o reconhecida por especialistas, retrata pelo menos dois significantes:<\/p>\n<p>&#8211; Confirma a exist\u00eancia de escolas de Medicina-oficial no Egito antigo;<\/p>\n<p>&#8211; Reconhecimento por parte do rei persa da import\u00e2ncia e qualidade do processo formador da Medicina-oficial eg\u00edpcia;<\/p>\n<p>&#8211; Influ\u00eancia do pedido pol\u00edtico para ingressar no processo de aprendizado.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o m\u00e9dica era regulamentada pela administra\u00e7\u00e3o do fara\u00f3 que impunha severas puni\u00e7\u00f5es pela m\u00e1 pr\u00e1tica, especialmente, o aborto. Aqui, \u00e9 importante assinalar que s\u00f3 se tratava dos abortos que geravam maus resultados, especialmente, a morte das gestantes. Dessa forma, essa m\u00e1 pr\u00e1tica era associada ao mau resultado.<\/p>\n<p>Por outro lado, entre os muitos cuidados de preven\u00e7\u00e3o tomados pela administra\u00e7\u00e3o, se destacam os dedicados aos rec\u00e9m-natos, incluindo a guarda do leite materno em recipientes especiais.<\/p>\n<p>De modo bastante claro, as identifica\u00e7\u00f5es dos m\u00e9dicos e outros curadores e as respectivas fun\u00e7\u00f5es, asseguram a forte inter-rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 entre a Medicinas-divina, Medicina-emp\u00edrica e a Medicina-oficial, mas, principalmente com os complexos pante\u00f5es das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas<\/p>\n<p><em>&#8211; Wabu<\/em>, agiam como m\u00e9dicos e sacerdotes e atuavam sob a prote\u00e7\u00e3o de um ou mais deuses;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sunu<\/em>, curadores emp\u00edricos que possu\u00edam algum tipo de forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, contudo n\u00e3o estavam vinculados aos templos e deuses;<\/p>\n<p>&#8211; Benzedores, sem instru\u00e7\u00e3o m\u00e9dica oficial e agiam munidos de amuletos, rezas e encantamentos,<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a descri\u00e7\u00e3o de Her\u00f3doto dos m\u00e9dicos especialistas, tenha sido equ\u00edvoco do grande historiador grego. Na realidade, se tratava de agentes da Medicina-emp\u00edrica, que atuavam na maior parcela da popula\u00e7\u00e3o, sem acesso \u00e0 Medicina-oficial, exclusiva da corte do fara\u00f3, dos membros da administra\u00e7\u00e3o e dos mais abastados:<\/p>\n<p>&#8211; Oftalmologistas ou <em>sounou-irty<\/em> ou m\u00e9dico dos dois olhos;<\/p>\n<p>&#8211; Abdome ou <em>sounou-khe<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Anus ou <em>nerou pehout<\/em> ou <em>nerihou phout<\/em> , administrava os clisteres;<\/p>\n<p>\u00c9 razo\u00e1vel pensar que essas especializa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas tenham rela\u00e7\u00e3o com a resposta social \u00e0s doen\u00e7as mais comuns.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 registro de sistema monet\u00e1rio, antes do Novo Imp\u00e9rio, de 1.540 a 1.069 a.C., das XVIII a XX dinastias, \u00e9 poss\u00edvel que a remunera\u00e7\u00e3o pelos servi\u00e7os prestados fosse feita por meio de coisas de valor, como alimentos, como indica o papiro achado junto \u00e0 necr\u00f3pole de Rams\u00e9s II: \u201cDois khars (unidade de medida) de gr\u00e3os para os dois escribas, tr\u00eas <em>khars<\/em> para um comerciante e um <em>khar<\/em> para um m\u00e9dico\u201d.<\/p>\n<p>A intricada rela\u00e7\u00e3o entre os m\u00e9dicos e os sacerdotes est\u00e1 clara na certeza de que a forma\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos estava situada nos templos mais importantes: Menphis, Abydos, El Amarna, Coptos, Esna, Edfou e Sa\u00efs. Essa era uma das diferen\u00e7as, talvez a mais significante, entre as tr\u00eas Medicinas: somente existem registros de processos formadores da Medicina-oficial.<\/p>\n<p>Por outro lado, apesar de as administra\u00e7\u00f5es dos templos e das escolas de Medicina-oficial estarem em locais distintos, existiu ineg\u00e1vel intimidade entre ambas. O chefe da escola m\u00e9dica de Sa\u00efs e o l\u00edder sacerdotal da deusa Neith, a principal divindade dessa cidade usavam a mesma titula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato de n\u00e3o ter existido um sistema te\u00f3rico para explicar a sa\u00fade e as doen\u00e7as, a Medicina-oficial acumulou impressionantes avan\u00e7os no trato emp\u00edrico da sa\u00fade e da doen\u00e7a, comprovadas nos papiros.<\/p>\n<p>Diferente da tradi\u00e7\u00e3o ass\u00edrio-babil\u00f4nica, que considerava o sangue o elemento vital, no Egito antigo, a respira\u00e7\u00e3o era entendida como a fun\u00e7\u00e3o mais importante do corpo, sugerindo que o sangue tenha sido substitu\u00eddo pelo ar como a subst\u00e2ncia vital.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 demais repetir que a origem das doen\u00e7as se atava aos componentes vis\u00edveis e facilmente identificados no cotidiano: vento, alimentos e parasitas da pele e dos intestinos. E tamb\u00e9m a estreita rela\u00e7\u00e3o entre doen\u00e7a e parasita nasceu, provavelmente, a partir da grande quantidade de infesta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria dos que moravam e trabalhavam nas \u00e1reas de v\u00e1rzea do Nilo. O conhecimento historicamente acumulado, ao longo de centenas de anos, antes do sedentarismo, interligou os vermes saindo pela boca ou pelo anus com a origem das doen\u00e7as dos indiv\u00edduos debilitados e incapazes de trabalhar.<\/p>\n<p>A especializa\u00e7\u00e3o dos conhecimentos m\u00e9dicos do Egito era um fato. O mais antigo m\u00e9dico conhecido, Hesy-Ra, tamb\u00e9m tratava as c\u00e1ries e confeccionava pr\u00f3teses, nos anos 1750 a. C.<\/p>\n<p>Os registros dos papiros tamb\u00e9m citam oftalmologistas e ginecologistas e Her\u00f3doto refere o in\u00edcio da pr\u00e1tica da circuncis\u00e3o no Egito:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 \u00f3bvio, realmente, que os c\u00f4lquios s\u00e3o de origem eg\u00edpcia, e eu mesmo fiz essa observa\u00e7\u00e3o antes de ouvi-la de outros&#8230;os c\u00f4lquios, os eg\u00edpcios e os et\u00edopes s\u00e3o os \u00fanicos povos que desde sua origem praticam a circuncis\u00e3o. Os fen\u00edcios e os s\u00edrios da Palestina reconhecem que aprenderam esse costume com os eg\u00edpcios&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A circuncis\u00e3o, ato cir\u00fargico seccionando o ligamento da glande, n\u00e3o era obrigat\u00f3ria e parece que tinha sentido religioso. N\u00e3o pode ser menosprezado o sentido de utilidade, como atitude para evitar as infec\u00e7\u00f5es da glande, facilitadas pela pouca higieniza\u00e7\u00e3o peniana em contato com o esmegma, trazido do conhecimento historicamente acumulado. Existem algumas ilustra\u00e7\u00f5es de como realizar essa opera\u00e7\u00e3o. A mais antiga, na tumba de Ankh-ma-Hor, descreve-a como ato religioso, realizado por um sacerdote especializado.<\/p>\n<p>O embalsamento est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 cren\u00e7a do renascimento ap\u00f3s a morte. O corpo enterrado deveria estar conservado tendo a cabe\u00e7a voltada ao Oeste, para poder renascer na outra vida. N\u00e3o existem registros precisos do in\u00edcio do embalsamamento. No per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico, os eg\u00edpcios enterravam os seus mortos sem qualquer tipo de tratamento. A especial qualidade do terreno des\u00e9rtico, quente e seco, conservou intactos muitos corpos. N\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que a observa\u00e7\u00e3o desses mortos, exumados muitos anos ap\u00f3s o \u00f3bito, tenha contribu\u00eddo no aperfei\u00e7oamento das t\u00e9cnicas do embalsamamento com o objetivo de alcan\u00e7ar melhores resultados que favoreceriam o renascimento.<\/p>\n<p>Os mais antigos registros de mumifica\u00e7\u00e3o datam de 3.400 a. C.; trata-se de Hetep-Heres, m\u00e3e de Keops, que mostram os membros desarticulados antes de terem sido envoltas com as bandagens. Aparentemente, o processo mumificador que acabou prevalecendo, passou por mudan\u00e7as; as m\u00famias do M\u00e9dio Imp\u00e9rio eram tratadas com as v\u00edsceras mantidas nas respectivas posi\u00e7\u00f5es. No Novo Imp\u00e9rio, o trato do cad\u00e1ver obedecia normas mais ou menos r\u00edgidas de acordo com as posses financeiras e a import\u00e2ncia social do morto.<\/p>\n<p>Sempre com varia\u00e7\u00f5es, dependendo da riqueza do morto, em alguns casos, os embalsamamentos duravam sessenta dias:<\/p>\n<p>&#8211; Corpo era transportado \u00e0 casa dos deuses;<\/p>\n<p>&#8211; Conte\u00fado craniano era retirado liquefeito por meio de trauma continuado com estiletes met\u00e1licos atrav\u00e9s das fossas nasais;<\/p>\n<p>&#8211; Eviscera\u00e7\u00e3o abdominal por meio de incis\u00e3o no flanco esquerdo, para a retirada das v\u00edsceras;<\/p>\n<p>&#8211; Cora\u00e7\u00e3o permanecia no lugar;<\/p>\n<p>&#8211; V\u00edsceras retiradas recebiam cuidados especiais antes do serem colocadas nos recipientes: os canopos;<\/p>\n<p>&#8211; Corpo criteriosamente desidratados, submetido \u00e0s lavagens com \u00f3leos e ess\u00eancias e envolto com tiras de pano.<\/p>\n<p>As fontes contidas nos papiros s\u00e3o claras no sentido de n\u00e3o havido correla\u00e7\u00e3o entre o extraordin\u00e1rio progresso alcan\u00e7ado na t\u00e9cnica de mumifica\u00e7\u00e3o e o conhecimento da anatomia humana. Sob a perspectiva atual, considerando o incont\u00e1vel n\u00famero de m\u00famias produzidas, em mais dois mil anos, seria natural esperar-se um soberbo conhecimento anat\u00f4mico humano. Mas, n\u00e3o foi isso o ocorrido. A descri\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os estava quase sempre identificada com ferimentos traum\u00e1ticos abertos. Esses fatos refor\u00e7am as suposi\u00e7\u00f5es no sentido de:<\/p>\n<p>&#8211; Mumificadores n\u00e3o mantiveram nenhuma aten\u00e7\u00e3o com a anatomia;<\/p>\n<p>&#8211; Componentes da teogonia e teofania eg\u00edpcios, principalmente, o <em>ka<\/em>, que valorizava o conserva\u00e7\u00e3o do corpo, na esperan\u00e7a do renascimento, contribu\u00edram para que n\u00e3o fosse atribu\u00edda import\u00e2ncia \u00e0 anatomia;<\/p>\n<p>&#8211; Modo como esses especialistas tratavam o corpo com o objetivo de mumificar, evitando ao m\u00e1ximo as deformidades, utilizando para retirar as v\u00edsceras do abdome e do t\u00f3rax uma curta incis\u00e3o na lateral direita da barriga e o conte\u00fado cerebral era extra\u00eddo pela fossa nasal, tamb\u00e9m indica a import\u00e2ncia dada \u00e0 inviolabilidade corp\u00f3rea.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o conhecimento emp\u00edrico, estava presente em muitas faces da Medicina-oficial: o exame f\u00edsico valorizava a inspe\u00e7\u00e3o e a palpa\u00e7\u00e3o, notadamente, do pulso perif\u00e9rico associado \u00e0s batidas do cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cO come\u00e7o do segredo dos m\u00e9dicos: conhecer os segredos da marcha do cora\u00e7\u00e3o e conhecimento do cora\u00e7\u00e3o (Papiro de Ebers 854a).<\/p>\n<p>A semiologia baseada na inspe\u00e7\u00e3o, palpa\u00e7\u00e3o e ausculta tamb\u00e9m valorizava muitos sinais e sintomas, at\u00e9 hoje levados em considera\u00e7\u00e3o na anamnese m\u00e9dica;<\/p>\n<p>&#8211; Dor;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00edvel da consci\u00eancia ap\u00f3s trauma;<\/p>\n<p>&#8211; Colora\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea;<\/p>\n<p>&#8211; Fisionomia;<\/p>\n<p>&#8211; Deformidades;<\/p>\n<p>&#8211; Hematomas;<\/p>\n<p>&#8211; Paralisias;<\/p>\n<p>&#8211; Aspecto da urina e das fezes.<\/p>\n<p>Entre os principais grupos de doen\u00e7as que foram descritas, pela riqueza dos sinais e sintomas, \u00e9 poss\u00edvel distinguir em:<\/p>\n<p>&#8211; Cardiovasculares: provavelmente ligado \u00e0 import\u00e2ncia da associa\u00e7\u00e3o cora\u00e7\u00e3o-pulm\u00e3o em torno da respira\u00e7\u00e3o, existem muitas descri\u00e7\u00f5es sobre doen\u00e7as que envolvem o cora\u00e7\u00e3o e os vasos. Contudo, duas foram particularmente bem relacionadas:<\/p>\n<p>&#8211; Palpita\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Insufici\u00eancia card\u00edaca com edema pulmonar e aumento do volume do f\u00edgado.<\/p>\n<p>&#8211; Pulmonares: a maior parte das doen\u00e7as pulmonares foi agrupada sob a designa\u00e7\u00e3o de tosse. Existe a descri\u00e7\u00e3o, no papiro de Ebers, nos itens 326 a 335, de um quadro cl\u00ednico semelhante \u00e0 asma sob o nome <em>gehoul;<\/em><\/p>\n<p>&#8211; Anais: como a maior parte da popula\u00e7\u00e3o, no Egito antigo, habitava \u00e1reas de p\u00e2ntanos e v\u00e1rzeas, junto com animais de pastoreio, portanto, com grande possibilidade de infesta\u00e7\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que o destaque dado \u00e0s doen\u00e7as anais tamb\u00e9m estivesse relacionado com a mesma concep\u00e7\u00e3o de serem os vermes um dos grandes causadores de doen\u00e7as;<\/p>\n<p>&#8211; Traumas da face: mesmo sem estarem associadas com outras doen\u00e7as ou comprometendo fun\u00e7\u00f5es vitais, as seq\u00fcelas desses traumas foram descritos como determinantes de dist\u00farbios funcionais.<\/p>\n<p>No Papiro de Edwin Smith, escrito na XVIII dinastia, em torno de 1550 a.C., na se\u00e7\u00e3o chamada Livro das Feridas, est\u00e1 caracterizada a diferen\u00e7a entre a fratura e a luxa\u00e7\u00e3o da mand\u00edbula, expressando, intelig\u00edvelmente, a ang\u00fastia com o respectivo progn\u00f3stico:<\/p>\n<p>\u201cQuando examinares um homem com uma fratura em sua mand\u00edbula, colocar\u00e1s tua m\u00e3o sobre ela e se observares que essa fratura crepita sob teus dedos deves dizer a respeito dela: &#8211; Eis algu\u00e9m que tem uma fratura na mand\u00edbula, em cuja superf\u00edcie se encontra uma ferida&#8230; (e) ele tem febre devido a ela. Uma doen\u00e7a que n\u00e3o tem tratamento\u201d.<\/p>\n<p>De igual modo, o professor da Medicina eg\u00edpcia detalha as manobras para reduzir com \u00eaxito a luxa\u00e7\u00e3o mandibular, aconselhando a imobiliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cSe examinares um homem com deslocamento da mand\u00edbula, achar\u00e1s sua boca aberta (e) se sua boca n\u00e3o pode ser fechada, deves colocar teu polegar (es) no fim dos dois ramos da mand\u00edbula, no interior da boca (e) tuas duas garras abaixo do queixo (e) deves produzir um recuo de tal forma que volte ao seu lugar. Deves dizer a respeito disso: &#8211; Eis algu\u00e9m que tem deslocamento da mand\u00edbula uma doen\u00e7a de que tratarei. Deves amarr\u00e1-la com ymrw (e) mel, todos os dias at\u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Igualmente, a cultura m\u00e9dica eg\u00edpcia antiga, no mesmo papiro de Edwin Smith, distingue a gravidade dos traumas faciais da regi\u00e3o masseterina, com ou sem fratura do osso malar acompanhada de restri\u00e7\u00e3o ao movimento mandibular. O quadro cl\u00ednico \u00e9 fortemente sugestivo de fratura do osso malar e do arco zigom\u00e1tico com impacta\u00e7\u00e3o do c\u00f4ndilo mandibular na cavidade glen\u00f3ide do osso temporal, sob a a\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos pterig\u00f3ideos lateral e medial no fragmento \u00f3sseo resultante da fratura traum\u00e1tica, impossibilitando a abertura da boca:<\/p>\n<p>\u201cSe examinares um homem com um rasgo em sua bochecha, e se encontrares o lado de fora da fenda, inchado, exposto e vermelho, dever\u00e1s dizer a respeito: &#8211; Eis algu\u00e9m que tem uma fenda em sua bochecha. Uma doen\u00e7a de que eu tratarei\u201d.<\/p>\n<p>Em outro trecho do papiro de Edwin Smith:<\/p>\n<p>Se examinares um homem golpeado em sua bochecha, deves colocar tua m\u00e3o na bochecha no lugar da pancada. Se crepitar sob os teus dedos, ao mesmo tempo em que ele solta sangue por sua narina&#8230;, e sofre dor ao abrir a boca, deves dizer a respeito: &#8211; Eis algu\u00e9m golpeado na bochecha e que solta sangue pelas narinas&#8230; Uma mol\u00e9stia que n\u00e3o tem cura.<\/p>\n<p>Essa descri\u00e7\u00e3o sugere trauma da face resultando na fratura de maior gravidade, atingindo o andar m\u00e9dio da face e \u00f3rbitas.<\/p>\n<p>Pelos menos nas camadas mais abastadas havia especial cuidado com a higiene e o enfeite do corpo.<\/p>\n<p>As leis puniam o aborto provocado, o abandono de crian\u00e7as, o sexo oral e as rela\u00e7\u00f5es sexuais durante a menstrua\u00e7\u00e3o. Essas proibi\u00e7\u00f5es poderiam estar relacionadas com algumas possibilidades m\u00e9dicas e sociais:<\/p>\n<p>&#8211; Aborto, como na cultura mesopot\u00e2mica, aparentemente, a interdi\u00e7\u00e3o \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o provocada da gravidez poderia estar relacionada \u00e0s graves consequ\u00eancias da manipula\u00e7\u00e3o intra-uterina, inclusive podendo com frequ\u00eancia determinar a morte da gr\u00e1vida. Por outro lado, fincada na absoluta necessidade daqueles povos de aumentar o n\u00famero dos seus habitantes.<\/p>\n<p>Os registros apontam para a certeza de que a circuncis\u00e3o foi iniciada, no Egito, desde as primeiras dinastias. As evid\u00eancias do fato podem ser encontradas nas pinturas e esculturas, daquela \u00e9poca, nas quais o p\u00eanis \u00e9 claramente visto sem o prep\u00facio. De acordo com o papiro de Ebers, as circuncis\u00f5es masculina e feminina eram executadas aos quatorze anos de idade. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio refletir quanto aos motivos dessas pr\u00e1ticas nos corpos adolescentes executadas por m\u00e9dicos e sacerdotes. \u00c9 poss\u00edvel que possam estar envolvidas com motiva\u00e7\u00f5es diferentes no homem e na mulher. De modo semelhante \u00e0s mutila\u00e7\u00f5es femininas realizadas, ainda hoje, felizmente, em poucos pa\u00edses, a retirada sob coa\u00e7\u00e3o familiar ou social do clitores est\u00e1 relacionada \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da libido, n\u00e3o tendo liga\u00e7\u00e3o com a higiene vaginal; no homem, al\u00e9m de determinar a possibilidade de melhor higieniza\u00e7\u00e3o da glande pela facilidade de retirada continua do esmegma, pode interferir na melhoria da sexualidade ao evitar as inflama\u00e7\u00f5es e infec\u00e7\u00f5es locais pela falta de higiene peniana.<\/p>\n<p>Apesar do avan\u00e7o na compreens\u00e3o de muitas doen\u00e7as, os eg\u00edpcios como os outros povos que constru\u00edram as respectivas culturas, entre 2.000 e 1000 anos a.C., n\u00e3o conseguiram articular um processo te\u00f3rico capaz de explicar a sa\u00fade e as doen\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mesopot\u00e2mia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A Mesopot\u00e2mia (do grego, meso = meio; potamos = rio), pode ser considerada tamb\u00e9m como um dos ber\u00e7os, do processo do sedentarismo. A regi\u00e3o compreende os vales f\u00e9rteis dos rios Tigre e Eufrates. Atualmente, corresponde em parte aos territ\u00f3rios da Turquia, S\u00edria e Iraque.<\/p>\n<p>Nessa \u00e1rea geogr\u00e1fica, entre os anos 2.000 e 1.000 anos a.C., com diferentes intensidades, floresceram as civiliza\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; Sum\u00e9rios;<\/p>\n<p>&#8211; Ac\u00e1dios, com o lend\u00e1rio Sargon unificando v\u00e1rias cidades-estados e estruturando o primeiro imp\u00e9rio do mundo;<\/p>\n<p>&#8211; Babil\u00f4nios, com o n\u00e3o menos famoso Hammurabi (1792-1750 a. C.), que reinou no apogeu da Babil\u00f4nia;<\/p>\n<p>&#8211; Neo-babil\u00f4nicos, com Nabucodonosor II (604-562 a.C.), cujos imensos dom\u00ednios ultrapassaram a Mesopot\u00e2mia e inclu\u00edram a Palestina e a S\u00edria. Esse extenso territ\u00f3rio foi conquistado, em 539 a. C. pelos persas e, dois s\u00e9culos ap\u00f3s, dominado por Alexandre.<\/p>\n<p>Algumas primeiras cidades-estados, Ur, Ourouk, Sumer e Nippur, desenvolveram-se nessa regi\u00e3o com not\u00e1veis acervos do conhecimento em torno da Medicina, matem\u00e1tica, astrologia, metalurgia, astronomia e linguagem escrita.<\/p>\n<p>Os sum\u00e9rios foram os primeiros a inventar a escrita \u2013 os caracteres cuneiformes -, conseq\u00fcentemente, os poucos escriba assumiram grande import\u00e2ncia na organiza\u00e7\u00e3o social. As descobertas arqueol\u00f3gicas e a decifra\u00e7\u00e3o dessa linguagem t\u00eam revelado as tradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas desses povos. Entre os documentos decifrados destacam-se alguns anteriores ao s\u00e9culo 15 a.C.:<\/p>\n<p>&#8211; C\u00f3digo de Hamurabi contendo as leis que regiam a vida e a propriedade dos s\u00faditos do imperador Hamurabi (1.728 a.C.?\u20131.686 a.C.?);<\/p>\n<p>&#8211; Enuma Elis, poema babil\u00f4nico da cria\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Epop\u00e9ia de Gilgamesh, relato da vida do lend\u00e1rio soberano de Uruk, cidade sum\u00e9ria nas margens do rio Eufrates.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas exemplos, entre outros de grande import\u00e2ncia na constru\u00e7\u00e3o da cultura mesopot\u00e2mica, uniram alguns pensamentos abstratos \u00e0 concretude da ordem social. No primeiro, explicando a origem da vida e a inexorabilidade da morte, como no poema Enuma Elis e na epop\u00e9ia de Gilgamesh; no segundo, a absoluta necessidade do controle da ordem social, punindo os excessos gerados pelos conflitos sociais, numa sociedade complexa, francamente hierarquizada e em franco crescimento populacional, como no C\u00f3digo de Hammurabi, onde est\u00e3o explicitados os pagamentos pela boa pr\u00e1tica e sever\u00edssimas puni\u00e7\u00f5es pela m\u00e1 pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O sistema de escrita cuneiforme, desenvolvido pelos sum\u00e9rios, consistia em marcas moldadas em t\u00e1buas de barro molhado. Ap\u00f3s a secagem eram armazenados e\/ou transportados para locais espec\u00edficos, as bibliotecas, que abrigaram milhares de documentos fundamentais na melhor compreens\u00e3o dessa cultura. Essa escrita tornou-se dominante por mais de 1.000 anos na Mesopot\u00e2mia. O sistema de escrita cuneiforme, registrado em t\u00e1buas de argila, continuam como o maior registro dispon\u00edvel sobre a Medicina mesopot\u00e2mica.<\/p>\n<p>Existem duas grandes fontes das informa\u00e7\u00f5es que tratam sobre pr\u00e1ticas m\u00e9dicas:<\/p>\n<p>&#8211; A biblioteca de Assurpanipal, composta com mais de vinte mil t\u00e1buas de argila, o \u00faltimo grande rei ass\u00edrio, encontrada em N\u00ednive;<\/p>\n<p>&#8211; A biblioteca de Hammurabi, localizada em Mari, tamb\u00e9m com milhares de t\u00e1buas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920, alguns textos m\u00e9dicos, extra\u00eddos das t\u00e1buas da biblioteca de Assurban\u00edpal, foram publicados por Campbell Thompson. Esses registros, conhecidos como \u201cTratado de Diagn\u00f3sticos e Progn\u00f3sticos M\u00e9dicos\u201d, est\u00e3o entre os registros mais antigos, em torno de 1600 a. C., com informa\u00e7\u00f5es organizadas em subse\u00e7\u00f5es que tratam de doen\u00e7as de crian\u00e7as e mulheres descritas por meio de observa\u00e7\u00f5es minuciosas e agu\u00e7adas.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos registros, importantes concep\u00e7\u00f5es da Medicina, exercida pelos povos da Mesopot\u00e2mia, atravessaram os mil\u00eanios. Entre as mais significativas, sinalizando o estudo de partes do corpo, est\u00e3o o entendimento do cora\u00e7\u00e3o como sede da intelig\u00eancia e do f\u00edgado, como o centro da circula\u00e7\u00e3o. Quanto ao cora\u00e7\u00e3o, de certo modo, \u00e9 poss\u00edvel compreender a associa\u00e7\u00e3o espacial com a intelig\u00eancia, na medida em que o cora\u00e7\u00e3o ao parar de bater, provoca a morte, gerando o corpo morto, sem vida, sem qualquer manifesta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia. Quanto ao f\u00edgado, \u00e9 poss\u00edvel que a associa\u00e7\u00e3o estivesse ligada \u00e0 sanguinidade do \u00f3rg\u00e3o, mesmo algum tempo ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os conceitos terap\u00eauticos mesopot\u00e2micos antigos baseavam-se na cren\u00e7a de todas as mudan\u00e7as nos corpos, da sa\u00fade e das doen\u00e7as, se encontravam estreitamente unidos e subordinados \u00e0 vontade dos deuses, identificados com os astros vis\u00edveis no c\u00e9u mesopot\u00e2mico.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o teoc\u00eantrica unindo deuses e deusas, identificados nos corpos celestes, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 doen\u00e7a, efetivou a grande import\u00e2ncia atribu\u00edda ao estudo dos movimentos desses corpos celestes, gerando sa\u00fade ou doen\u00e7a.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as e curas se explicavam por meio de complexa rela\u00e7\u00e3o entre os deuses bons e deuses maus. O deus bom protegia as pessoas dos mal\u00e9ficos, causadores de doen\u00e7as, onde cada enfermidade conhecida e temida era associada a um ou mais deuses maus. Nessa complexa constru\u00e7\u00e3o, o pante\u00e3o mesopot\u00e2mico era dominado pelo poderoso deus Marduk, que acima de qualquer outro, poderia oferecer a sa\u00fade ou a doen\u00e7a a quem lhe aprouvesse. Esse conjunto associado \u00e0 palavra <em>sh\u00eatu<\/em>, que<em> <\/em>significava, simultaneamente, doen\u00e7a, pecado ou castigo divino, demonstrando que a doen\u00e7a poderia estar compreendida como:<\/p>\n<p>&#8211; Conseq\u00fc\u00eancia de castigo divino;<\/p>\n<p>&#8211; Originada em ofensa espec\u00edfica a determinado deus;<\/p>\n<p>&#8211; Interven\u00e7\u00e3o direta dos deuses maus;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7a como resultante do abandono do g\u00eanio protetor ou na influ\u00eancia de dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a interven\u00e7\u00e3o dos curadores, representantes da Medicina-divina, iniciava-se na confiss\u00e3o do doente, quando expunha todos as a\u00e7\u00f5es que pudessem significar ofensa aos deuses e deusas. A terap\u00eautica, tamb\u00e9m com objetivo de purifica\u00e7\u00e3o, estava associada \u00e0 catarse provocada pelo medicamento, rezas e encantamentos.<\/p>\n<p>Ainda mais interessante e simb\u00f3lica, a utiliza\u00e7\u00e3o da serpente como s\u00edmbolo de cura, presente na teogonia e teofania mesopot\u00e2micas, pode estar ligada \u00e0 lenda do her\u00f3i Gilgamesh, o rei sum\u00e9rio, da cidade-estado de Uruk (hoje em dia Warka, no Iraque), possivelmente, oriunda ap\u00f3s a metade do terceiro mil\u00eanio. Essa extraordin\u00e1ria narrativa, recuperada na tradu\u00e7\u00e3o de doze t\u00e1buas, achada por arque\u00f3logos, na biblioteca de N\u00ednive, na antiga Ac\u00e1dia, escrita em linguagem ac\u00e1dia, durante o reinado de Assurbanipal (668 \u2013 627 a.C.), reproduziu concep\u00e7\u00f5es ainda mais antigas da inexorabilidade da morte.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o desse \u00e9pico explica, inicialmente, a natureza do her\u00f3i m\u00edtico Gilgamesh, sendo de natureza divina, em dois ter\u00e7os, e, humano, em um ter\u00e7o, tamb\u00e9m reconhecido guerreiro, simultaneamente, bondoso e desp\u00f3tico. A narrativa explica que os deuses atendendo \u00e0s s\u00faplicas do povo oprimido, enviam Enkidu, meio humano, meio animal, para que enfrente Gilgamesh e o mate. A luta tit\u00e2nica n\u00e3o resultou em vencedor ou vencido. Ao contr\u00e1rio, os dois tornam-se amigos e partem para novas aventuras. J\u00e1 longe de Uruk, enfrentam Huwawa, o guardi\u00e3o divino dos bosques de Cedro. Apesar de faltarem partes das t\u00e1buas, \u00e9 poss\u00edvel deduzir que Gilgamesh derrota Huwawa. Voltando para Uruk, Ishtar, a deusa do amor e da fertilidade lhe prop\u00f5e casamento. Gilgamesh sabendo do triste destino dos homens que se unem a ela recusa o convite. Ishtar, enciumada e col\u00e9rica, convence outros deuses para enviar o touro celestial para matar Gilgamesh. Contudo, ele e Enkidu enfrentam o monstro e o derrotam. Por ter participado do duelo, Enkidu recebe dos deusesa amea\u00e7a de castigo em sonho, quando os tr\u00eas deuses, Anu, Ea e Shamah, dizem-lhe que ir\u00e1 morrer em breve. Como previsto, adoece e morre. Gilgamesh, desconsolado chora a morte de seu amigo e parte numa perigosa viagem em busca do s\u00e1bio Ut-Napishtim, possuidor do segredo da imortalidade e \u00fanico sobrevivente do dil\u00favio babil\u00f4nico. Ut-Napishtim \u00e9 relatado como justo e piedoso no meio da barb\u00e1rie e da injusti\u00e7a. Os deuses o advertem para que construa um barco no meio do deserto e espere o pior. Durante seis dias e seis noites, acontece uma chuva t\u00e3o intensa que at\u00e9 mesmo os deuses se assustam. Gilgamesh sobrevive a esse novo desafio e quando o n\u00edvel das \u00e1guas abaixa, surge a nova Mesopot\u00e2mia. Na busca da imortalidade, Gilgamesh ouve do imortal Ut-Napishtim onde conseguir a planta que lhe dar\u00e1 a juventude eterna: est\u00e1 no fundo de um lago. Gilgamesh parte na busca da imortalidade. Na jornada, enfrenta muitos desafios inimagin\u00e1veis e sempre triunfa. Ao voltar para Uruk, muito cansado, descansa na margem do lago. Durante o sono, a serpente lhe rouba a planta milagrosa e ap\u00f3s engoli-la, rejuvenesce mudando a pele. Nada mais resta a Gilgamesh a n\u00e3o ser chorar, amargamente, a perda da imortalidade para todos os homens. Assim, a \u00fanica oportunidade de os homens serem imortais foi perdida para a serpente, de nada adiantou as lutas \u00e9picas para obter a imortalidade, o destino do homem \u00e9 ser mortal.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que as duas cobras enroscadas, esculpidas em ta\u00e7a cerimonial, a mais conhecida representa\u00e7\u00e3o de Ningishzida, o deus sumeriano da cura, tenha rela\u00e7\u00e3o direta com a narrativa \u00e9pica do mito de Gilgamsh. Esse deus tamb\u00e9m representa a mais antiga associa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre a cura das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas e a serpente.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante relembrar que tamb\u00e9m na cultura eg\u00edpcia, mais ou menos no mesmo per\u00edodo, apesar de n\u00e3o ter sido especificamente identificada com a cura de doen\u00e7as, a serpente estava presente nas coroas dos fara\u00f3s, tamb\u00e9m com significado de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do outro lado, no pante\u00e3o mesopot\u00e2mico, entre os deuses causadores de doen\u00e7as, recebeu destaque Pazuzu, cuja representa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mistura grotesca de homem, le\u00e3o e escorpi\u00e3o, com dois pares de asas emplumadas, pernas e garras. \u00c9 poss\u00edvel articular algum pensamento<\/p>\n<p>Mesmo atribuindo a dor de dente ao verme roedor, os textos m\u00e9dicos contidos nas t\u00e1buas de escrita cuneiforme, descreveram com muita clareza muitas doen\u00e7as e quadros cl\u00ednicos relacionados com:<\/p>\n<p>&#8211; Febres isoladas;<\/p>\n<p>&#8211; Febres acompanhadas de outros sinais e sintomas muito sugestivos de mal\u00e1ria;<\/p>\n<p>&#8211; Apoplexia, provavelmente resultantes de les\u00f5es cerebrais agudas;<\/p>\n<p>&#8211; Tuberculose, em diferentes fases da evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica;<\/p>\n<p><em>&#8211; Muit\u00e2me<\/em>, uma doen\u00e7a infecciosa end\u00eamica desconhecida;<\/p>\n<p>&#8211; Dist\u00farbios mentais, atribu\u00eddas aos ferimentos ou aos dem\u00f4nios;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as dos olhos e ouvidos;<\/p>\n<p>&#8211; Dores articulares;<\/p>\n<p>&#8211; Certos tumores;<\/p>\n<p>&#8211; Abscessos;<\/p>\n<p>&#8211; Algumas doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Inflama\u00e7\u00f5es na pele e mudan\u00e7as na cor e sensibilidade;ele;<\/p>\n<p>&#8211; Secre\u00e7\u00f5es purulentas da uretra e vagina.<\/p>\n<p>As sintomatologias de v\u00e1rias doen\u00e7as foram descritas com extraordin\u00e1ria precis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Tuberculose pulmonar: \u201cO doente tosse muito; sua expectora\u00e7\u00e3o \u00e9 densa e, \u00e0s vezes, cont\u00e9m sangue, sua respira\u00e7\u00e3o d\u00e1 um som semelhante ao de uma flauta, sua pele \u00e9 fria mas os p\u00e9s est\u00e3o quentes, ele sua muito e seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito perturbado. Quando a doen\u00e7a \u00e9 extremamente grave os intestinos se abrem muitas vezes\u201d;<\/p>\n<p>&#8211; Otite: \u201cFogo penetra no interior do ouvido, paralisando a audi\u00e7\u00e3o. Grande quantidade de pus irrompe no local e seu estado \u00e9 de dores\u201d;<\/p>\n<p>&#8211; Gastrite: \u201cQuando algu\u00e9m come e bebe at\u00e9 ficar satisfeito, sentindo depois dores no est\u00f4mago com o se sua pele inteira queimasse como fogo\u201d;<\/p>\n<p>&#8211; Hepatite: \u201cQuando os olhos de algu\u00e9m ganham colora\u00e7\u00e3o amarela e a doen\u00e7a avan\u00e7a at\u00e9 sua vista, de modo que o interior do olho se torna amarelo como cobre&#8230; quando ele vomita e a bebida&#8230; quando at\u00e9 seu rosto e o corpo todo se torna amarelo, ent\u00e3o a enfermidade resseca o corpo todo do doente, de modo que ele chega a falecer\u201d;<\/p>\n<p>&#8211; Asma br\u00f4nquica: \u201cQuando o doente sofre de tosse; quando sua traqu\u00e9ia produz um chiado ao respirar; quando tem acessos de tosse\u201d<em>.<\/em><\/p>\n<p>Existiam tr\u00eas tipos distintos de m\u00e9dicos na Mesopot\u00e2mia:<\/p>\n<p><em>&#8211; Ashipu<\/em>, era mais importante agente da Medicinas-divina e da Medicina-emp\u00edrica, sendo o respons\u00e1vel pelo diagn\u00f3stico da doen\u00e7a, indicava o deus ou o dem\u00f4nio causador e analisava se o pecado do paciente estava relacionado \u00e0 doen\u00e7a. Tamb\u00e9m atuava no tratamento prescrevendo o rito do encantamento que deveria ser seguido para afastar o mal e, consequentemente, obter a cura;<\/p>\n<p><em>&#8211; Asu<\/em>, agente da Medicina-oficial e especialista em rem\u00e9dios obtidos a partir das plantas Medicinais e certos procedimentos cir\u00fargicos. No tratamento das feridas, usava tr\u00eas movimentos: lavava a ferida, usava compressas e aplicava curativos Entre os muitos vegetais com propriedades curativas, a raiz da mandr\u00e1gora era uma das mais utilizadas. Como essa planta lembra, grosseiramente, o corpo humano, lhe era atribu\u00edda propriedade m\u00e1gica.<\/p>\n<p><em>&#8211; Baru<\/em>, relacionado com a Medicina-divina, como adivinho reconhecido predizia o futuro da sa\u00fade e da doen\u00e7a e das cat\u00e1strofes coletivas.<\/p>\n<p>De certa forma, n\u00e3o h\u00e1 como separar, rigidamente, as \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas curadores, trabalhavam ligando o conhecimento historicamene acumulado \u00e0s cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que a reprodu\u00e7\u00e3o dos saberes para a forma\u00e7\u00e3o de novos m\u00e9dicos, notadamente, o <em>asu<\/em>, o agente da Medicina-oficial, portando cart\u00e3o de visita, se desenvolvessem no interior dos templos, restrito \u00e0s pessoas abastados.<\/p>\n<p>Por outro lado, nas sociedades escravistas \u00e9 certo que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o nunca teve acesso \u00e0 Medicina-oficial. Na Mesopot\u00e2mia, n\u00e3o era diferente e, assim, \u00e9 perfeitamente aceit\u00e1vel a observa\u00e7\u00e3o de Her\u00f3doto, no s\u00e9culo 5 a. C., descrevendo o h\u00e1bito desse povo de levar os doentes \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, para que fosse diagnosticado e medicado por algu\u00e9m que tivesse experi\u00eancia na mesma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o da t\u00e1bua cuneiforme com seis por tr\u00eas cent\u00edmetros de tamanho, lembrando um cart\u00e3o de visitas, pertencente ao <em>asu<\/em> Urlugaledina, representa de modo categ\u00f3rico o pensamento m\u00e9dico mesopot\u00e2mico. Entre duas figuras desenhadas na argila, sendo \u00e0 esquerdo, a imagem de um deus e, \u00e0 direita, uma planta Medicinal, contra o texto: \u00f3 deus Edinmugi, vizir do deus Gir, que protege os animais quando tem seus filhos, o m\u00e9dico Urlugaledina \u00e9 seu servo.<\/p>\n<p>\u00c9 indispens\u00e1vel assinalar que esse conhecimento historicamente acumulado, sempre presente e sustentando grande parte da estrutura te\u00f3rica e pr\u00e1tica das especialidades sociais, nessa \u00e9poca, \u00e9 refor\u00e7ado na sua utilidade social e, por isso mesmo, valorizado e reproduzido sem esfor\u00e7o. Esse fato pode ser verific\u00e1vel em torno das compressas, para tratar as feridas traum\u00e1ticas, no qual se assentava parte dos procedimentos do <em>asu<\/em>, ainda hoje, pode ser comprovada a utilidade. Muitas dessas compressas inclu\u00edam misturas de ingredientes Medicinais aplicados sobre a ferida e mantidas no lugar com a ajuda das bandagens. Pelas descri\u00e7\u00f5es, algumas delas exigiam o aquecimento de resina retirada de planta ou gordura animal com teor alcalino. Essa mistura, quando aquecida, liberava sab\u00e3o, que ajudaria a proteger contra as infec\u00e7\u00f5es bacterianas.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, as t\u00e1buas de argila encontrada na resid\u00eancia de <em>um ashipu<\/em> indicam que existia coopera\u00e7\u00e3o entre os curadores mesopot\u00e2micos, o <em>ashipu<\/em> e o asu. Os doentes mais ricos, provavelmente, buscavam os cuidados m\u00e9dicos de ambos. De certa forma, al\u00e9m de compartilhar alguns pacientes, algumas vezes, se alternavam nas suas fun\u00e7\u00f5es: o <em>asu<\/em> podia, ocasionalmente, fazer um encanto e o ashipu, prescrever uma droga.<\/p>\n<p>O <em>C\u00f3digo de Hamurabi<\/em>, esculpido num bloco negro de diorita, constitui outra importante fonte de informa\u00e7\u00e3o, tanto em rela\u00e7\u00e3o aos tipos de procedimentos quanto aos pagamentos e penalidades, respectivamente, como recompensa pelo sucesso e castigo pelas maus resultados. Esse conjunto de normas n\u00e3o era um c\u00f3digo de leis como entendemos hoje, mas provavelmente uma cole\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es legais tomadas pelo rei Hamurabi e tornadas leis, mais ou menos, em 1700 a. C.. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Medicina, de modo muito claro, esse conjunto de leis estabelece:<\/p>\n<p>&#8211; Estratifica\u00e7\u00e3o social, onde m\u00e9dicos atendiam pessoas de diferentes estratos s\u00f3cio-econ\u00f4micos e recebiam remunera\u00e7\u00e3o ou penalidades diferenciadas;<\/p>\n<p>&#8211; Medicina como especialidade social;<\/p>\n<p>&#8211; Trabalho m\u00e9dico remunerado, para os bons resultados;<\/p>\n<p>&#8211; Existe muito maior aten\u00e7\u00e3o ao trabalho m\u00e9dico invasivo, isto \u00e9, para os atos cir\u00fargicos, fazendo supor que provocavam muito mais conflito do que as consultas n\u00e3o invasivas;<\/p>\n<p>&#8211; Severas penalidades para as cirurgias que culminavam com resultados insatisfat\u00f3rios.<\/p>\n<p>As principais leis que regeram a Medicina, no c\u00f3digo de Hammurabi, s\u00e3o as seguintes:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 215: <em>Se um m\u00e9dico fez em um awilum, uma opera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com um escalpelo de bronze e curou o awilum ou (se) abriu a nakkaptum de um awilum com um escalpelo de bronze e curou o olho do awilum, ele receber\u00e1 10 siclos de prata<\/em>;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 216: <em>Se foi o filho de um muskenum, ele receber\u00e1 5 siclos de prata<\/em>;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 217: <em>Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dar\u00e1 ao m\u00e9dico dois siclos de prata;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 218: <em>Se um m\u00e9dico fez em um awilum uma opera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com um escalpelo de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum e destruiu o olho do awilum, eles cortar\u00e3o a sua m\u00e3o<\/em>;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 219: <em>Se um m\u00e9dico fez uma opera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com um escalpelo de bronze no escravo de um muskenum e causou-lhe a morte, ele dever\u00e1 restituir um escravo como o escravo (morto);<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 220: <em>Se ele abriu a sua nakkaptum com um escalpelo de bronze e destruiu o seu olho, ele pesar\u00e1 a metade de seu pre\u00e7o<\/em>;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 221: <em>Se um m\u00e9dico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um m\u00fasculo doente, o paciente dar\u00e1 ao m\u00e9dico 5 siclos de prata<\/em>;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 222: <em>Se foi um muskenum, dar\u00e1 3 siclos de prata<\/em>;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a7 223: <em>Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dar\u00e1 2 siclos de prata<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que os atos cir\u00fargicos al\u00e9m de atuarem em les\u00f5es superficiais e nos membros, mesmo em menor n\u00famero, tamb\u00e9m fossem praticados no t\u00f3rax e abdome. Mesmo danificadas, foram identificadas quatro t\u00e1buas de escrita cuneiforme tratando de algumas cirurgias e cuidados p\u00f3s-operat\u00f3rios:<\/p>\n<p>&#8211; Em uma delas, existe a descri\u00e7\u00e3o do cirurgi\u00e3o incisando o peito do paciente com o objetivo de remover pus da pleura, isto \u00e9, dentro do t\u00f3rax;<\/p>\n<p>&#8211; Duas outras, pertencem \u00e0 cole\u00e7\u00e3o chamada <em>Receitas para Doen\u00e7as de Cabe\u00e7a<\/em>, onde o cirurgi\u00e3o utiliza a faca do asu para incisar levemente a cabe\u00e7a do paciente;<\/p>\n<p>&#8211; A \u00faltima, menciona os cuidados p\u00f3s-operat\u00f3rios de cirurgia no t\u00f3rax, recomendando atadura de \u00f3leo de gergelim, planta herb\u00e1cea reconhecida com atividade Medicinal.<\/p>\n<p>Outro ponto importante da pr\u00e1tica m\u00e9dica mesopot\u00e2mica \u00e9 o uso sistem\u00e1tico de v\u00e1rios rem\u00e9dios, descritos com clareza, envolvendo componentes animais e vegetais. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a identifica\u00e7\u00e3o de muito deles porque os nomes s\u00e3o metaf\u00f3ricos, como gordura de le\u00e3o, l\u00edrio do tigre, etc. Entre as por\u00e7\u00f5es com as origens j\u00e1 esclarecidas, usadas pelo asu, constam extratos de plantas e resinas com reconhecida capacidade antibi\u00f3tica e anti-s\u00e9ptica.<\/p>\n<p>Fora dessa clara atua\u00e7\u00e3o da Medicina-oficial atuado em conjunto com a Medicina-emp\u00edrica, os povos mesopot\u00e2micos utilizavam, no cotidiano, a Medicina-divina com o grande pante\u00e3o de deuses e deusas curadores. Alguns templos desses taumaturgos, quase sempre situados pr\u00f3ximos aos rios, possu\u00edam bibliotecas dedicadas aos temas da sa\u00fade e da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Alguns registros indicam a cren\u00e7a coletiva no poder curador da \u00e1gua. Dessa forma, em alguns abrigos eram constru\u00eddos pr\u00f3ximo \u00e0s margens dos rios para ajudar nos tratamentos de certos doentes.<\/p>\n<p>A partir dos pressupostos de os astros vis\u00edveis representarem deuses e as doen\u00e7as dependerem inteiramente da vontade dessas divindades, as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas em grande parte, estavam ligadas \u00e0 capacidade de certos elementos da sociedade, os agentes das Medicinas-divina, Medicinas-emp\u00edrica e Medicinas-oficial, para decifrar as mensagens dos deuses que poderiam causar a doen\u00e7a ou determinar a cura.<\/p>\n<p>Dessa forma, desenvolveram-se duas vertentes da adivinha\u00e7\u00e3o: astrologia e hepatoscopia:<\/p>\n<p>&#8211; Astrologia pretendeu estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre os movimentos dos astros, as esta\u00e7\u00f5es e as doen\u00e7as. A aceita\u00e7\u00e3o coletiva dessa suposta inter-rela\u00e7\u00e3o, como verdade acabada, gerou formid\u00e1vel ex\u00e9rcito de especialistas capazes de interpretar a irregularidade no movimento dos astros como sinais de diagn\u00f3stico e progn\u00f3stico;<\/p>\n<p>&#8211; Como vest\u00edgio das primitivas rela\u00e7\u00f5es dos nossos ancestrais com o sangue, o f\u00edgado, o mais sang\u00fc\u00edneo dos \u00f3rg\u00e3os, era identificado como o centro da vida. Assim, quem pudesse interpretar as mensagens contidas no f\u00edgado dos animais sacrificados, estaria mais pr\u00f3ximo de saber onde, quando e como as doen\u00e7as acometeriam as pessoas.<\/p>\n<p>Parece que o mais antigo deus protetor da Medicina, na Mesopot\u00e2mia, foi representado pela lua, com o nome de Sin. Essa divindade noturna governava o crescimento das ervas Medicinais, por esse motivo, n\u00e3o poderiam ser expostas ao sol.<\/p>\n<p>Os deuses protetores do pante\u00e3o mesopot\u00e2mico:<\/p>\n<p>&#8211; Marduk, o grande deus curador;<\/p>\n<p>&#8211; Ninib, filho de Enlil;<\/p>\n<p>&#8211; Nabu, deus das ci\u00eancias e da arte de curar;<\/p>\n<p>&#8211; Ninchursag, deus ligado a oito divindades, cada uma com poder de curar uma doen\u00e7a espec\u00edfica;<\/p>\n<p>&#8211; Ninurta, deus dos m\u00e9dicos;<\/p>\n<p>&#8211; Gula, mulher de Ninurta;<\/p>\n<p>&#8211; Ningischzida, filho de Ninurta, representado pelas duas serpentes enroladas no bast\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Sachan, a deusa-serpente;<\/p>\n<p>&#8211; Ishtar, a deusa da gra\u00e7a, da fecunda\u00e7\u00e3o e criadora da libido no homem e na mulher.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses deuses deusas, s\u00e3o citados alguns dem\u00f4nios que respons\u00e1veis pelo aparecimento das doen\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8211; Nergal, da febre;<\/p>\n<p>&#8211; Ashakku, do pulm\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; Tiu, dor de cabe\u00e7a;<\/p>\n<p>&#8211; Namtaru, da boca, do nariz e das orelhas.<\/p>\n<p>A Medicina mesopot\u00e2mia \u00e9 uma das mais antigas de que se tem conhecimento atrav\u00e9s de registros hist\u00f3ricos. Estes foram preservados em t\u00e1buas que cont\u00e9m tais informa\u00e7\u00f5es no sistema cuneiforme.<\/p>\n<p>Nas t\u00e1buas de escrita cuneiforme, os relatos m\u00e9dicos eram bastante detalhistas, o que demonstra a preocupa\u00e7\u00e3o e o cuidado com o indiv\u00edduo acometido por determinada doen\u00e7a. Outro fato importante que fica esclarecido pelas t\u00e1buas \u00e9 a import\u00e2ncia social do m\u00e9dico, especificamente, Ashipu, respons\u00e1vel pelo diagn\u00f3stico. O outro, tamb\u00e9m reconhecido, Asu, prescrevia a terapia utilizando ervas Medicinais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00cdndia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Caracter\u00edsticas gerais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A \u00cdndia, situada na \u00c1sia meridional apresenta duas \u00e1reas geogr\u00e1ficas distintas. O Sul, a pen\u00ednsula do Decan; o Norte; contida na cordilheira de Himalaia, que separa a \u00cdndia dos outros pa\u00edses. Entre essas duas regi\u00f5es localiza-se a plan\u00edcie do Hindust\u00e3o, sulcada pelos rios que descem do Himalaia, o Indo, o Ganges e o Bramaputra.<\/p>\n<p>O fato de a \u00cdndia ser cercada por mares, o mar de Oman e o oceano Indico, aliado \u00e0 presen\u00e7a de montanhas contribui para o isolamento geogr\u00e1fico e cultural.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o da plan\u00edcie do Hindust\u00e3o, extremamente f\u00e9rtil e chuvosa ou f\u00e1cil de irrigar, \u00e9 onde se acumulam as grandes massas de popula\u00e7\u00e3o da \u00cdndia.<\/p>\n<p>A partir de 3.000 a.C., o primeiro Imp\u00e9rio, os Ma\u00farias estavam assentados, no noroeste, no vale do Pendjabe. As`principais cidades eram: Harapa e Mohenjo-Daro, que ofereciam impressionante organiza\u00e7\u00e3o social, com ruas bem tra\u00e7adas, silos e especial aten\u00e7\u00e3o com os esgotos.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, os indus praticando agricultura baseado no regime de cheia e vazante, em conjunto com a cria\u00e7\u00e3o de animais dom\u00e9sticos e gado (carneiros, b\u00fafalos, zebus, e porcos). Tamb\u00e9m utilizaram o bronze para a fabrica\u00e7\u00e3o de instrumentos de trabalho, armas e utens\u00edlios.<\/p>\n<p>O desenvolvimento do artesanato propiciou o aparecimento de grupo social, possivelmente pr\u00f3spero que interferiu no aumento do com\u00e9rcio. Foram encontradas provas arqueol\u00f3gicas de com\u00e9rcio local, nas ru\u00ednas de Moendjo-Daro, ao lado das habita\u00e7\u00f5es, representadas pelos dep\u00f3sitos com caracter\u00edsticas de loja que podem ser comparada ao atual bazar indiano.<\/p>\n<p>Na primeira metade do segundo mil\u00eanio a.C., come\u00e7ou a decad\u00eancia dessa civiliza\u00e7\u00e3o, sem resist\u00eancia \u00e0 invas\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o pelos arianos ou indo-europeus.<\/p>\n<p>Da metade do segundo \u00e0 metade do primeiro mil\u00eanio, no in\u00edcio da Idade do Ferro, os registros contam com os textos sagrados, os Vedas, e com poemas \u00e9picos, Maabarata e Ramaiana, o que n\u00e3o aconteceu com os per\u00edodos anteriores, onde s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel estudar os dados arqueol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A terra caracterizava-se como propriedade comum, cultivada pela comunidade, sendo o excedente da produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 se tornava mercadoria a partir do instante em que era apropriado pelo Estado.<\/p>\n<p>Os trabalhos agr\u00edcolas eram executados pela irriga\u00e7\u00e3o e drenagem do solo por meio de instrumentos de ferro. Por essa raz\u00e3o, regi\u00f5es do vale de Ganges e da \u00cdndia Central foram exploradas de maneira mais sistem\u00e1tica, resultando no aparecimento de cidades pr\u00f3speras.<\/p>\n<p>Ao lado dessa parcela social produtiva, em forma de comunidade, apareceram grupos de pessoas com fun\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas:<\/p>\n<p>&#8211; Juiz, chefe de policia e cobrador de impostos, exercidas por uma \u00fanica pessoa;<\/p>\n<p>&#8211; Escriba;<\/p>\n<p>&#8211; Encarregado da prote\u00e7\u00e3o dos viajantes;<\/p>\n<p>&#8211; Guardas fronteiri\u00e7os;<\/p>\n<p>&#8211; Inspetor das \u00e1guas;<\/p>\n<p>&#8211; Sacerdote;<\/p>\n<p>&#8211; Mestre-escola;<\/p>\n<p>&#8211; Br\u00e2mane astr\u00f3logo;<\/p>\n<p>&#8211; Ferreiro;<\/p>\n<p>&#8211; Carpinteiro;<\/p>\n<p>&#8211; Oleiro;<\/p>\n<p>&#8211; Barbeiro;<\/p>\n<p>&#8211; Lavador;<\/p>\n<p>&#8211; Ourives.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, nessa fase, perceber o fortalecimento de uma aristocracia cada vez fechada e que acentua a desigualdade social, constituindo uma hierarquia caracterizada pelas varnas ou castas. A hierarquia social era composta:<\/p>\n<p>&#8211; Aristocr\u00e1ticos de nascimento se agrupava em dois varnas:<\/p>\n<p>&#8211; Br\u00e2manes ou grupo sacerdotal;<\/p>\n<p>&#8211; X\u00e1trias formado pelos governantes e militares;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o aristocr\u00e1ticos:<\/p>\n<p>&#8211; Vaicias constitu\u00edda de pessoas livres, artes\u00e3os e comerciantes;<\/p>\n<p>&#8211; Sudras ou estrangeiros livres, nada possu\u00edam dentro da comunidade, sem direito de participar nas cerim\u00f4nias do culto e nas decis\u00f5es comunit\u00e1rias.<\/p>\n<p>&#8211; Sem castas:<\/p>\n<p>&#8211; P\u00e1rias ou intoc\u00e1veis.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o na \u00cdndia antiga era centralizada, hierarquizada e exercida nesse est\u00e1gio, pelo bramanismo que colocava o Estado como car\u00e1ter divino, enaltecendo a pessoa do rei (Raja).<\/p>\n<p>N\u00e3o ha registros de onde surgiu a cren\u00e7a coletiva na metempsicose como possibilidade de dever cumprido na vida anterior, isto \u00e9, ap\u00f3s a morte, a pessoa poderia ascender socialmente (mudan\u00e7a de casta) se tivesse cumprido os deveres na vida precedente.<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos 5 e 6 a.C., a \u00cdndia era formada por v\u00e1rios reinos independentes que lutavam entre si, disputando a supremacia pol\u00edtica. Aos poucos esse n\u00famero foi se reduzindo devido a conquista militar dos mais fracos pelos mais fortes e hegem\u00f4nicos. O reino de Magada depois de ferrenha luta com o de Co\u00e7ola, se tornou o principal da \u00cdndia., cujo dom\u00ednio abrangia todo o vale do Ganges e territ\u00f3rio da \u00cdndia central.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia do maior relacionamento com outros pa\u00edses, as riquezas e a prosperidade da \u00cdndia provocaram o interesse de outros reinos belicistas. Dario I, no final do s\u00e9culo 6, dominou regi\u00f5es do vale do Indo. O mesmo aconteceu, em 327 a. C., ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Persa, na conquista de Alexandre da Maced\u00f4nia.<\/p>\n<p>Embora Alexandre tenha firmado alian\u00e7as com alguns reis da \u00cdndia, n\u00e3o conseguiu estender seu dom\u00ednio da maneira que desejava porque o seu ex\u00e9rcito enfraquecido pelos combates, n\u00e3o quis continuar a invas\u00e3o. Apesar de ter instalado, em algumas regi\u00f5es conquistadas, v\u00e1rios comandantes maced\u00f4nios, pouco adiantou porque em 317 a. C., foram expulsos pelos povos locais.<\/p>\n<p>O bramanismo j\u00e1 n\u00e3o conseguia justificar as enormes desigualdades sociais e, como conseq\u00fc\u00eancia, os conflitos se acentuaram surgindo assim outra interpreta\u00e7\u00e3o do sagrado \u2013 o budismo &#8211; que pregava a passividade e resigna\u00e7\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o social de cada um. De certa forma, ajudou a fundamentar um conjunto de a\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas prop\u00edcias a forma\u00e7\u00e3o dos Estados escravistas nascentes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a expuls\u00e3o dos maced\u00f4nios, diferentes imp\u00e9rios independentes e inimigos entre si, disputaram os territ\u00f3rios mais f\u00e9rteis e pr\u00f3speros. Pouco a pouco, a religi\u00e3o budista tornou-se dominante.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio interno era vigoroso por meio das trocas comerciais e circula\u00e7\u00e3o de moedas de cobre e prata. Por via mar\u00edtima, o com\u00e9rcio alcan\u00e7ava o Egito, Mesopot\u00e2mia, Ceil\u00e3o, pa\u00edses do Sudeste Asi\u00e1tico; por via terrestre, Ir\u00e3 e pa\u00edses da \u00c1sia Central. Paralelamente, como sociedade escravista, escravos trabalhavam nas propriedades reais e nos trabalhos dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a Medicina da \u00cdndia antiga j\u00e1 estivesse sistematizada como especialidade social s\u00e9culos antes da sua invas\u00e3o pelos arianos vedas em torno do ano 2.000 a.C.<\/p>\n<p>Essa suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada nos estudo arqueol\u00f3gicos feitos na cidade Mohenjo-Daro, no noroeste da \u00cdndia, nas margens do rio Indo. Nesta cidade foram encontrados diferentes seguimentos aluvionai, datados de at\u00e9 7.000 anos, o que lhe confirma a primazia de estar entre as cidades mais antigas do mundo, desde que o homem come\u00e7ou o seu irrevers\u00edvel processo de sedentarismo.<\/p>\n<p>As escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas de Mohenjo-Daro evidenciaram ruas bem tra\u00e7adas com rede de esgotos, canaliza\u00e7\u00e3o para \u00e1gua e banhos p\u00fablicos. Estes achados colaboram na confirma\u00e7\u00e3o de que a civiliza\u00e7\u00e3o que se desenvolveu no vale do Indo possu\u00eda precisa da import\u00e2ncia dos cuidados de sa\u00fade p\u00fablica na profilaxia da doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Essa cidade e outras do mesmo per\u00edodo, que floresceram no vale do Indo e dos cinco afluentes, conhecidos como Pendjad, eram constitu\u00eddas por diferentes grupos \u00e9tnicos que obtinham o sustento na agricultura e comercializavam o excedente.<\/p>\n<p>A primeira sistematiza\u00e7\u00e3o da Medicina na \u00cdndia antiga est\u00e1 contida no Ayurveda, escritos originalmente em s\u00e2nscrito com forte religiosidade.<\/p>\n<p>O Ayurveda significa veda da longa vida e constitui a base te\u00f3rica da Medicina tradicional da \u00cdndia. O texto original tem no seu conjunto mil cap\u00edtulos divididos em cem mil vers\u00edculos ou Shlokas, por sua vez, subdivididos em Asht\u00e2nga, palavra que at\u00e9 hoje \u00e9 utilizada na \u00cdndia como pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>O Ayurveda cont\u00e9m oito cap\u00edtulos bem definidos que tratam de diferentes temas m\u00e9dicos:<\/p>\n<p>1. Shalya: cirurgia para retirada de corpo estanho, feto morto retido intra-uterino, drenagem de ferida com pus e a utiliza\u00e7\u00e3o de instrumental cir\u00fargico para efetuar estes e outros procedimentos;<\/p>\n<p>2. <em>Shalakya<\/em>: cirurgia dos olhos, nariz, orelhas e garganta, considerado hoje como um verdadeiro tratado de oftalmologia e otorrinolaringologia;<\/p>\n<p>3. <em>Kayacikits\u00e3<\/em>: trata da terap\u00eautica em geral e descreve mais de oitocentos diferentes tipos de plantas Medicinais;<\/p>\n<p>4. <em>Bhutavidya<\/em>: s\u00e3o os ensinamentos que permitem tratar com os esp\u00edritos dos mortos, com os dem\u00f4nios e com os doentes que foram possu\u00eddos pelos deuses que causam as doen\u00e7as;<\/p>\n<p>5. <em>Kaumarabhritya<\/em>: cuidados dos rec\u00e9m nascidos e das mulheres gr\u00e1vidas;<\/p>\n<p>6. <em>Agadatantra<\/em>: se refere a toxicologia, aos venenos e os ant\u00eddotos;<\/p>\n<p>7. <em>Rasayana<\/em> ou <em>Jar\u00e2<\/em>: estuda as ervas do rejuvenescimento e os afrodis\u00edacos que contribuem para a manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade;<\/p>\n<p>8. <em>Vajikarana<\/em> ou <em>Vrisha<\/em>: descreve as propriedades dos afrodis\u00edacos.<\/p>\n<p>Como as Medicinas antigas, do Egito e da Mesopot\u00e2mia, denominadas pr\u00e9-gregas, a da \u00cdndia n\u00e3o possu\u00eda estrutura te\u00f3rica para explicar a sa\u00fade e a doen\u00e7a fora das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas. Dessa forma, cada doen\u00e7a era uma entidade nosol\u00f3gica espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Contudo, existia esfor\u00e7o para compreender o bin\u00f4mio sa\u00fade-doen\u00e7a, na \u00cdndia antiga, entrela\u00e7ado \u00e0 natureza circundante. Essa aproxima\u00e7\u00e3o era entendida por meio de cinco elementos fundamentais:<\/p>\n<p><em>&#8211; Dhatu<\/em>: \u00e9ter ou vazio;<\/p>\n<p><em>&#8211; Vayu<\/em>: vento;<\/p>\n<p><em>&#8211; Agni<\/em>: fogo;<\/p>\n<p><em>&#8211; Jata<\/em>: \u00e1gua;<\/p>\n<p><em>&#8211; Bhumi<\/em>: a terra.<\/p>\n<p>O corpo humano seria resultante da complexa combina\u00e7\u00e3o desses elementos e as doen\u00e7as seriam formadas pelo desequil\u00edbrio entre eles.<\/p>\n<p>Constru\u00e7\u00e3o semelhante ocorreu, no s\u00e9culo 4 a.C., na Gr\u00e9cia, na Escola M\u00e9dica de C\u00f3s, com a teoria dos Quatro Humores de Pol\u00edbio, o genro de Hip\u00f3crates. No livro \u201cDa Medicina antiga\u201d, Pol\u00edbio ancorado nos quatro elementos de Emp\u00e9docles (agua, ar, terra, fogo), fora das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, preconizou a origem da sa\u00fade a partir do equil\u00edbrio entre os humores: sangu\u00edneo, linf\u00e1tico, bilioso preto, bilioso amarelo.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre as propostas te\u00f3ricas reside na presen\u00e7a do dhatu ou \u00e9ter ou vazio, na indiana, que poderia ser considerado como res\u00edduo das id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, portando n\u00e3o representando uma proposta te\u00f3rica completamente desatada da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os alimentos inadequados eram considerados a principal causa do aparecimento da desarmonia entre os cinco componentes maiores da natureza humana. Como conseq\u00fc\u00eancia, a dieta e a higiene desempenhavam papel importante na terap\u00eautica contida no Ayurveda.<\/p>\n<p>As diferentes formas de tratamento encontradas no Ayurveda, distingue os rem\u00e9dios que fortaleciam o organismo dos que curavam. Os primeiros eram os afrodis\u00edacos e os segundos eram os vegetais com propriedades terap\u00eauticas, que deveriam ser tomados segundo as normas rituais contidas nos Vedas. Nesse tratado de terap\u00eautica est\u00e3o descritas mais de setentas diferentes esp\u00e9cies de vegetais usadas, na \u00cdndia, durante mais de tr\u00eas mil anos.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, nas cidades da \u00cdndia, ainda \u00e9 encontrado o curandeiro andarilho shivaista, que carrega consigo os conhecimentos da formulas m\u00e1gicas, administrando-as aos doentes ao som m\u00edtico dos hinos v\u00e9dicos cantados em tom melodioso.<\/p>\n<p>Segundo os ensinamentos contidos no <em>Ayurveda<\/em>, as doen\u00e7as se dividem em tr\u00eas tipos:<\/p>\n<p>&#8211; Cur\u00e1veis ou <em>sadhya<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Melhor\u00e1veis ou <em>yapya<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Incur\u00e1veis ou <em>pratyakhyeya<\/em>.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, admite claramente que as doen\u00e7as s\u00e3o conseq\u00fcentes das culpas das vidas anteriores ou <em>karmaja<\/em> e que para cur\u00e1-las totalmente \u00e9 indispens\u00e1vel a penit\u00eancia ou <em>prayashcitta<\/em>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a invas\u00e3o ariana veda, seguida da destrui\u00e7\u00e3o das cidades e fortifica\u00e7\u00f5es, os indianos foram transformados em escravos e passaram a constituir a quarta e mais inferior das castas dos tempos v\u00e9dicos, os <em>shudras<\/em>. Essa conquista na \u00cdndia tamb\u00e9m \u00e9 relatada nos textos dos Vedas.<\/p>\n<p>Esses textos podem ser entendidos como a compreens\u00e3o do corpo ligado ao mundo circundante, donde <em>Veda<\/em> = o conhecimento, o saber e <em>Ayur <\/em>ou <em>Ayu<\/em> = o corpo vivente religado ao mundo pelos cinco sentidos. Dessa forma, tamb\u00e9m \u00e9 aceit\u00e1vel compreender a palavra <em>Ayurveda <\/em>como o conhecimento da vida humana ou a ci\u00eancia da vida humana.<\/p>\n<p>Esse conjunto de saberes milenares tem como objeto o estudo das fun\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e mentais dos homens e da mulheres, onde a alma (<em>jiva<\/em>) deve unir-se ao ser c\u00f3smico (<em>divino<\/em>). O corpo em si representaria uma esp\u00e9cie de doen\u00e7a, por impedir a alma de viver livremente, principalmente se ele apresentar doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa complexa rela\u00e7\u00e3o que submete as pessoas \u00e0 vontade do divino, foi implantada pelos arianos, ap\u00f3s a conquista.<\/p>\n<p>Existem quatro Vedas e eles tratam das rela\u00e7\u00f5es m\u00edticas da trindade bram\u00e2nica \u00be Vishnu, Brahma e Shiva:<\/p>\n<p><em>\u00a0&#8211; Rigveda<\/em>: formada das estrofes <em>rik<\/em> que s\u00e3o cantadas durante os sacrif\u00edcios rituais;<\/p>\n<p><em>\u00a0&#8211; Yarjurveda<\/em>: agrupam os <em>Yajus<\/em> ou as f\u00f3rmulas dos sacrif\u00edcios;<\/p>\n<p><em>&#8211; S\u00e2maveda<\/em>: que re\u00fane os <em>S\u00e2man <\/em>ou melodias sagradas;<\/p>\n<p><em>&#8211; Atharvaveda<\/em>: comp\u00f5e no seu conjunto a <em>Atharvan<\/em> ou as formulas sagradas.<\/p>\n<p>A totalidade destes textos constitui a base doutrin\u00e1ria da religi\u00e3o v\u00e9dica e do bramanismo. Transmitidos oralmente durante milhares de anos, serviram para consolidar o controle social pelo conquistador ariano, tendo a Medicina papel destacado nessa estrat\u00e9gia de substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os deuses e os dem\u00f4nios representam parte importante da compreens\u00e3o da sa\u00fade e da doen\u00e7a nos textos v\u00e9dicos. Os deuses curadores mais importantes s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Os g\u00eameos Ashvin, de certa forma lembrando S\u00e3o Cosme e S\u00e3o Dami\u00e3o, da religi\u00e3o crist\u00e3, que no <em>Rigveda<\/em> (X, 39, 3b) aparecem como m\u00e9dicos dos cegos, dos desnutridos e dos que sofreram fraturas;<\/p>\n<p>&#8211; Rudra, de duplo car\u00e1ter, mal\u00e9fico e caridoso. \u00c9 adorado como o primeiro m\u00e9dico divino nos versos do yajurveda;<\/p>\n<p>&#8211; Shiva, oriundo da metamorfose de Rudra, manteve a dupla interpreta\u00e7\u00e3o deste deus, sendo simultaneamente o deus caridoso e col\u00e9rico;<\/p>\n<p>&#8211; Varuna, considerado o ordenador da ordem c\u00f3smica. De certa forma, as doen\u00e7as s\u00e3o entendidas como o castigo pelo pecado cometido contra essa ordena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, os dem\u00f4nios s\u00e3o os principais causadores das doen\u00e7as incur\u00e1veis:<\/p>\n<p>&#8211; Nirrit, encarna a perdi\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Grahi, o endemoninhado;<\/p>\n<p>&#8211; Rakshas, especializado em abortos;<\/p>\n<p>&#8211; Sitala, a deusa da var\u00edola.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que esses dem\u00f4nios estivessem relacionados a certas situa\u00e7\u00f5es comuns e temidas: altera\u00e7\u00e3o de comportamento, excessiva agressividade, abortos e a var\u00edola.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a doen\u00e7a e o castigo divino \u00e9 constante e muito estreita. Como em outras culturas escravistas, nos segundo e primeiro mil\u00eanios a. C., Egito e Mesopot\u00e2mia, era comum o uso de amuletos para a prote\u00e7\u00e3o contra as doen\u00e7as temidas e adere\u00e7os voltados a sexualidade.<\/p>\n<p>A maior parte das etiologias das doen\u00e7as f\u00edsicas estavam relacionadas \u00e0 dom\u00ednio das transgress\u00f5es das normas de conduta social. Em extensas \u00e1reas geogr\u00e1ficas da atual \u00cdndia, alguns aspectos desses antigos conceitos continuam vivos.<\/p>\n<p>Esse processo contribuiu para que a forma\u00e7\u00e3o do pensamento coletivo indiano atual em rela\u00e7\u00e3o aos significados dos bin\u00f4mios sa\u00fade-doen\u00e7a e vida-morte tivessem marcas profundas da influ\u00eancia dos conceitos v\u00e9dicos contidos no <em>Yajurveda<\/em>. Por exemplo, o termo <em>yaksma <\/em>usado muitas vezes nos textos v\u00e9dicos, com o sentido de debilidade e caquexia, continua sendo utilizado na atualidade pela Medicina-divina indiana, com o sentido preciso de caracterizar as doen\u00e7as cr\u00f4nicas como a tuberculose que exaurem cronicamente o organismo.<\/p>\n<p>De acordo com a mitologia v\u00e9dica a Medicina teve origem divina. Ela foi revelada por Brahma a Prajapati, o senhor de todas as criaturas, que transmitiu aos Ashvin, os m\u00e9dicos g\u00eameos; estes, \u00e0 Indra, o rei dos deuses e este \u00faltimo, a Divodasa, rei de K\u00e2shi (atual Benares). Finalmente, o rei de Benares a ensinou aos homens mortais, revelando os segredos da Medicina aos m\u00e9dicos. Entre eles, estava o lend\u00e1rio m\u00e9dico indiano Sushruta.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que entre esses personagens m\u00edticos, tenha existido autores reais que contribu\u00edam para a transmiss\u00e3o do conhecimento m\u00e9dico historicamente acumulado. Um dos exemplos \u00e9 o personagem semidivino Atreya, que \u00e9 cantado em v\u00e1rias lendas ao longo de centenas de anos.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Sushruta, o \u00faltimo da cadeia da origem m\u00edtica da Medicina da \u00cdndia antiga, escreveu o <em>Sushrutasamhita<\/em> ou <em>Manual M\u00e9dico de Sushruta<\/em>. Esse tratado de Medicina, com pouco mais de novecentas p\u00e1ginas, nas edi\u00e7\u00f5es modernas, \u00e9 conhecido como <em>Corpus Sushruta<\/em>.<\/p>\n<p>Provavelmente, o <em>Sushruta-samhita<\/em> j\u00e1 estava elaborado nos \u00faltimos s\u00e9culos antes de Cristo. Aborda os diagn\u00f3sticos e os tratamentos descrevendo, minuciosamente, as plantas com as respectivas modalidades de preparo. Est\u00e1 dividido em seis livros que tratam de:<\/p>\n<p>&#8211; Cl\u00ednica;<\/p>\n<p>&#8211; Cirurgia;<\/p>\n<p>&#8211; Higiene pessoal e coletiva, banhos e massagens;<\/p>\n<p>&#8211; Doencas;<\/p>\n<p>&#8211; Dieta e exerc\u00edcios;<\/p>\n<p>&#8211; Gravidez.<\/p>\n<p>O segundo mais importante tratado m\u00e9dico da \u00cdndia antiga \u00e9 atribu\u00eddo a Charaka. De data posterior ao de Sushruta, \u00e9 caracterizado pela pouca import\u00e2ncia dada a cirurgia como forma de tratamento das doen\u00e7as. O achado de vasilha especialmente destina \u00e0 guarda de rem\u00e9dios, fortalece a id\u00e9ia de que as pr\u00e1ticas de cura estavam perfeitamente assentadas.<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a dos conceitos \u00e9 muito grande para ser somente uma mera coincid\u00eancia entre a teoria grega dos Quatro Humores e a indiana dos cinco elementos. Um dos exemplos da conflu\u00eancia dos conceitos \u00e9 a refer\u00eancia ao vento nas obras de Sushruta e a da Escola de C\u00f3s. No livro \u201cDos Ventos, \u00c1guas e Ares\u201d, atribu\u00eddo a v\u00e1rios autores, escrito em torno do s\u00e9culo 4 a.C., na Gr\u00e9cia, existem pontos muito semelhantes as dos livros indianos.<\/p>\n<p>O juramento que era feito pelos iniciados na Medicina, da \u00cdndia antiga, tamb\u00e9m guarda not\u00e1vel similaridade ao Juramento atribu\u00eddo a Hip\u00f3crates. Os pontos doutrin\u00e1rios de ambos os juramentos s\u00e3o basicamente os mesmo:<\/p>\n<p>&#8211; Dedica\u00e7\u00e3o plena \u00e0s atividades de curar;<\/p>\n<p>&#8211; Origem divina da Medicina;<\/p>\n<p>&#8211; Resist\u00eancia frente as tenta\u00e7\u00f5es da sexualidade;<\/p>\n<p>&#8211; Manuten\u00e7\u00e3o do segredo profissional;<\/p>\n<p>&#8211; Obedi\u00eancia as normas sociais.<\/p>\n<p>As rotas comerciais regulares entre a \u00cdndia e a Gr\u00e9cia, descritas por Estrab\u00e3o e Plinio, e a presen\u00e7a dos gregos, bem documentada, a partir do s\u00e9culo 4 a.C., quando sob o reinado de Dario, foi fundada a cidade de Barce, na regi\u00e3o de Cirenaica, onde j\u00e1 florescia um importante n\u00facleo de conhecimento m\u00e9dico, explicam as trocas dos conhecimentos entre as duas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O tratado m\u00e9dico de <em>Charaka Samhita<\/em>, composto de oito livros, uma das mais extraordin\u00e1rias produ\u00e7\u00f5es da Medicina indiana, \u00e9 apresentado em forma de um di\u00e1logo entre o mestre e disc\u00edpulo, descreve impressionantes conhecimentos de cirurgias, especialmente a que utiliza um retalho de pele para a reconstru\u00e7\u00e3o nasal, at\u00e9 hoje conhecida como <em>retalho indiano<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o desenvolvimento dessa t\u00e9cnica cir\u00fargica espec\u00edfica tenha sido conseq\u00fc\u00eancia das press\u00f5es sociais exercidas pelo grande n\u00famero de pessoas que sofreram a puni\u00e7\u00e3o, resultando na amputa\u00e7\u00e3o do nariz, como por exemplo, no adult\u00e9rio.<\/p>\n<p><em>Sushruta<\/em> explica o procedimento cir\u00fargico: da folha de determinada planta, cortava um peda\u00e7o do tamanho do nariz para moldar a exato formato do retalho de pele a ser utilizado na reconstru\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica. Ao final, para possibilitar que o paciente respirasse, inseria dois peda\u00e7os de junco nas cavidades nasais.<\/p>\n<p>O exame cl\u00ednico compreendia procedimentos semelhantes aos da Medicina grega, notadamente, os recomendados pela Escola de C\u00f3s: a inspec\u00e3o e palpa\u00e7\u00e3o das partes do corpo e a ausculta do cora\u00e7\u00e3o e dos pulm\u00f5es.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as eram atribu\u00eddas ao desequil\u00edbrio dos tr\u00eas humores:<\/p>\n<p>&#8211; F\u00edsico-espiritual;<\/p>\n<p>&#8211; B\u00edlis;<\/p>\n<p>&#8211; Fleuma.<\/p>\n<p>V\u00e1rias doen\u00e7as foram descritas com not\u00e1vel precis\u00e3o, como a diabetes e a tuberculose. De igual modo, existem ind\u00edcios de a mal\u00e1ria ter sido associada ao mosquito e a peste, ao rato.<\/p>\n<p>Os tratamentos eram divididos em:<\/p>\n<p>-Cl\u00ednicos:<\/p>\n<p>&#8211; Purgativos;<\/p>\n<p>&#8211; Enemas;<\/p>\n<p>&#8211; Sangrias pela flebotomia e sanguessugas;<\/p>\n<p>&#8211; Hidroterapia;<\/p>\n<p>&#8211; Banhos de vapor;<\/p>\n<p>&#8211; Inala\u00e7\u00f5es;<\/p>\n<p>&#8211; Cerca de 760 plantas Medicinais foram descritas, inclusive a <em>Atropa belladona<\/em> a <em>Rauwolfa serpentina<\/em> como sedativo.<\/p>\n<p>&#8211; Cir\u00fargicos:<\/p>\n<p>&#8211; Cirurgia pl\u00e1stica, para reconstru\u00e7\u00e3o nasal ;<\/p>\n<p>&#8211; F\u00edstulas anais;<\/p>\n<p>&#8211; Hemorr\u00f3das;<\/p>\n<p>&#8211; Tumores no pesco\u00e7o;<\/p>\n<p>&#8211; Am\u00edgdalas;<\/p>\n<p>&#8211; Drenagem de abscessos;<\/p>\n<p>&#8211; Amputa\u00e7\u00f5es de membros;<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e1 foma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita do l\u00e1bio e palato (fissura l\u00e1bio-palatina);<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e9rnias;<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1lculos vesicais;<\/p>\n<p>&#8211; Catarata;<\/p>\n<p>&#8211; Cesariana era praticada com grande precis\u00e3o, de modo a salvar tanto a m\u00e3e quanto o filho;<\/p>\n<p>&#8211; Retirada de feto morto retido: quando o feto j\u00e1 estava morto, no \u00fatero materno, era realizado o cuidadoso desmembramento atrav\u00e9s da vagina, com a finalidade de evitar o risco representado pela abertura do abd\u00f4men materno;<\/p>\n<p>&#8211; Mudan\u00e7a da posi\u00e7\u00e3o fetal por meio de manobras intra-uterinas para facilitar o parto<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses procedimentos cir\u00fargicos, o livro descreve o tipo e a profundidade de incis\u00e3o mais recomendada. A delicadeza dos instrumentos cir\u00fargicos voltados \u00e0 di\u00e9rese e a s\u00edntese, refor\u00e7am a convic\u00e7\u00e3o de que a cirurgia fazia parte integrante das pr\u00e1ticas de cura:<\/p>\n<p>&#8211; Nos abscesso deveria ter dois dedos de profundidade;<\/p>\n<p>&#8211; Sempre na dire\u00e7\u00e3o das cavidades;<\/p>\n<p>&#8211; Em certas \u00e1reas espec\u00edficas, como p\u00e1lpebras, bochechas, t\u00eamporas, l\u00e1bios, axilas, deveriam acompanhar as pregas naturais;<\/p>\n<p>&#8211; Dire\u00e7\u00e3o transversa, nas para as regi\u00f5es palmares;<\/p>\n<p>&#8211; Circulares e semicirculares, para o \u00e2nus e o p\u00eanis;<\/p>\n<p>&#8211; No t\u00e9rmino da cirurgia, a \u00e1rea deveria ser lavada com morna;<\/p>\n<p>&#8211; Uso de retalho de linho como drenos nos abcessos que deveriam ser retirados ap\u00f3s tr\u00eas dias;<\/p>\n<p>&#8211; Renova\u00e7\u00e3o di\u00e1ria dos curativos;<\/p>\n<p>&#8211; Imobiliza\u00e7\u00e3o das fraturas e das luxa\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>O m\u00e9dico indiano utilizava grande variedade de instrumentos cir\u00fargicos:<\/p>\n<p>&#8211; F\u00f3rcepes;<\/p>\n<p>&#8211; Especulos;<\/p>\n<p>&#8211; Escalpelos;<\/p>\n<p>&#8211; Tesouras;<\/p>\n<p>&#8211; Serras;<\/p>\n<p>&#8211; Agulhas curvas e retas para sutura;<\/p>\n<p>&#8211; Caut\u00e9rios;<\/p>\n<p>&#8211; Seringas;<\/p>\n<p>&#8211; Drenos.<\/p>\n<p>De modo sistem\u00e1tico, as mudan\u00e7as uterinas na gravidez foram abordadas nos textos m\u00e9dicos hindus, particularmente, a circula\u00e7\u00e3o materno-fetal. Do mesmo modo, chamaram a aten\u00e7\u00e3o para a influ\u00eancia que o modo de vida materno poderia interferir na sa\u00fade do rec\u00e9m-nato: a mulher gr\u00e1vida violenta e mal humorada, poderia produzir um epil\u00e9tico; a ingest\u00e3o de bebidas alco\u00f3licas durante a gravidez, provocaria o nascimento de crian\u00e7as debilitadas; os excessos sexuais, causaria a homossexualidade.<\/p>\n<h2>As normas de higiene desempenhavam, pelo menos entre as camadas mais abastadas ou as pr\u00f3ximas do poder pol\u00edtico-militar, papel muito importante. De acordo com as leis de Manu, as prescri\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas eram rigorosas e as lavagens do corpo formaram parte dos ritos religiosos.<\/h2>\n<h2>Entre as recomenda\u00e7\u00f5es, destacam-se:<\/h2>\n<h2>&#8211; Higiene das m\u00e3os e da boca ap\u00f3s cada refei\u00e7\u00e3o;<\/h2>\n<h2>&#8211; Banhos completos do corpo ap\u00f3s contatos com coisas sujas ou pessoas que apresentassem sinais de doen\u00e7a;<\/h2>\n<h2>&#8211; Excrementos e \u00e1gua servida deveriam ser removidos, imediatamente, para fora de casa;<\/h2>\n<h2>&#8211; Maior higiene das mulheres nos per\u00edodos menstrual e perp\u00e9rio;<\/h2>\n<h2>&#8211; Lavagem dos olhos com \u00e1gua limpa;<\/h2>\n<h2>&#8211; Dieta mais vegetariana;<\/h2>\n<h2>&#8211; Crema\u00e7\u00e3o dos mortos;<\/h2>\n<h2>&#8211; Puni\u00e7\u00e3o severa do alcoolismo;<\/h2>\n<h2>Devido a import\u00e2ncia no conjunto normativo da \u00cdndia antiga, entre os s\u00e9culos 2 a. C e 2 d. C., as Leis de Manu, semelhante ao c\u00f3digo de Hammurabi, na Mesopot\u00e2mia, tamb\u00e9m ordenaram os procedimentos m\u00e9dicos, punindo os erros m\u00e9dicos e obrigando o pagamento dos servi\u00e7os profissionais.<\/h2>\n<p>O processo formador do m\u00e9dico consistia, em grande parte, memorizar e receitar as recomenda\u00e7\u00f5es prescritas nos textos v\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Parece l\u00f3gico supor que somente a parcela mais abastada da popula\u00e7\u00e3o, aquela que poderia aprender a ler, estaria apta a receber esse treinamento te\u00f3rico. Os exerc\u00edcios pr\u00e1ticos consistiam nas visitas aos enfermos, reconhecimento das plantas Medicinais, preparo dos medicamentos e a realiza\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas cir\u00fargicas em animais mortos, frutas e bolsas de couro. Quando o mestre considerava que o disc\u00edpulo estava preparado, apresentava-o ao governante, para receber a anu\u00eancia da administrac\u00e3o, como requisito indispens\u00e1vel, sem o qual o aprendiz n\u00e3o poderia ser considerado m\u00e9dico.<\/p>\n<p>O compromisso final do estudante assemelhava-se muito ao juramento hipocr\u00e1tico grego:<\/p>\n<p>\u201cDedica-te por inteiro a ajudar ao enfermo, mesmo a custo de tua pr\u00f3pria vida. Nunca agraves o enfermo, nem sequer com o pensamento. Esfor\u00e7a-te sempre em aperfei\u00e7oar teus conhecimentos. N\u00e3o trates as mulheres se n\u00e3o em presen\u00e7a de seus maridos. O m\u00e9dico observar\u00e1 todas as normas do bem trajar e da boa conduta.\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leitura complementar<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Medicina e religi\u00e3o<\/em>: conflito de compet\u00eancia. 2\u00aa Ed. Manaus. Valer. 2005.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Hist\u00f3ria da Medicina: da abstra\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade<\/em>. Manaus. 2a. Valer. 2010.<\/p>\n<p>Botelho, Jo\u00e3o Bosco. Epidemias: a humanidade contra o medo da dor e da morte. Manaus. Valer. 2008.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Arqueologia do prazer<\/em>. Manaus.Metro C\u00fabico. 1992.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Os limites da cura<\/em>. S\u00e3o Paulo. Plexus. 1998.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>O Deus-gen\u00e9tico<\/em>. Manaus. EDUA. 2000.<\/p>\n<p>BOTT\u00c9RO, Jean. La magie et la m\u00e9decine r\u00e8gnent \u00e0 Babylone. <em>In:<\/em> Les maladies ont une histoire. <em>L\u2019Histoire\/Seuil<\/em>. Paris. 1984.<\/p>\n<p>Bouzon, E. <em>O C\u00f3digo de Hammurabi<\/em>. 3. ed. Petr\u00f3polis: Vozes. 1980.<\/p>\n<p>Kramer, Samuel Noah. <em>L\u2019Histoire commence \u00e0 Sumer<\/em>. Paris Arthaud. 1986. Le Goff, Jacques &amp; Sournia, Jean-Charles. Les maladies ont une histoire. <em>L\u2019Histoire<\/em>. Paris: Seuil. 1985. Lyons, Albert S.<em> <\/em>Petrucelli, R. Joseph.<em> Histoire ilustr\u00e9e de la m\u00e9decine<\/em>.<em> <\/em>Paris: Presses de la Renaissence. 1979. Zaragoza, Juan R. La Medicina de los pueblos mesopot\u00e1micos. <em>In:<\/em> Entralgo, Pedro Lain. <em>Hist\u00f3ria Universal de la Medicina<\/em>. v. 1. Madri: Salvat. 1981.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas nas sociedades do antigo Oriente Pr\u00f3ximo: Egito, Mesopot\u00e2mia e \u00cdndia &nbsp; Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho &nbsp; Considera\u00e7\u00f5es gerais \u00a0 Com as mudan\u00e7as sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas provocadas pelo processo de sedentarismo, nos mil\u00eanios finais do Neol\u00edtico, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=317\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-317","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/317","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=317"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/317\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2237,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/317\/revisions\/2237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}