{"id":319,"date":"2012-03-18T15:15:21","date_gmt":"2012-03-18T19:15:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=319"},"modified":"2016-03-06T09:46:26","modified_gmt":"2016-03-06T13:46:26","slug":"praticas-medicas-no-brasil-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=319","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas no Brasil colonial"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas no Brasil colonial<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A presen\u00e7a da Medicina portuguesa, no s\u00e9culo 17, no Brasil-col\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Medicina, em Portugal, come\u00e7ou a ser ensinada no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, fundado por D. Afonso Henriques, em torno de 1130, pouco depois da autonomia do Condado Portucalense, formando a na\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o dos conventos e abadias para a posse do conhecimento e como n\u00facleos do aprendizado foi uma constante durante grande parte da Idade M\u00e9dia. Entre as raz\u00f5es principais desse fato, destaca-se a guarda, pela Igreja, dos instrumentos de ensino, os manuscritos das tradu\u00e7\u00f5es dos textos gregos e certas condi\u00e7\u00f5es que essas institui\u00e7\u00f5es preenchiam, capazes de estimular o estudo em poucas pessoas, que dispunham do sustento garantido.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o Conc\u00edlio de Tours, no ano de 813, j\u00e1 recomendava a mudan\u00e7a da homilia do latim para a l\u00edngua vulgar. Essa pr\u00e1tica foi aumentando, gradualmente, e contribuiu para o processo de transmiss\u00e3o do saber acumulado em todas as \u00e1reas do conhecimento, possibilitando maior acesso \u00e0s fontes gregas e romanas. O processo cumulativo de informa\u00e7\u00f5es em documentos escritos contribuiu para vulgarizar, mesmo em pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o, muitos livros, que marcaram o pensamento ocidental para firmar o cristianismo como principal religi\u00e3o do Ocidente.<\/p>\n<p>Algumas cidades, sob forte influ\u00eancia crist\u00e3, como Toledo depois da sua reconquista do dom\u00ednio mu\u00e7ulmano, em 1085, notabilizaram-se pelo importante corpo de tradutores, que, aproveitando a experi\u00eancia deixada pelos \u00e1rabes, traduziram para a l\u00edngua vulgar muitos livros gregos e latinos. Foi nesse per\u00edodo que a Medicina crist\u00e3 tomou conhecimento das obras de Galeno, Avicena, Razes e Albucassis.<\/p>\n<p>As c\u00f3pias dos documentos traduzidos por letrados e reescritos pelos escribas eram guardadas nas abadias e mosteiros, constru\u00eddos ao longo da Idade M\u00e9dia, na Europa, para abrigar as diferentes ordens religiosas que se iam formando. Essas institui\u00e7\u00f5es religiosas, edificadas nos moldes arquitet\u00f4nicos de diferentes \u00e9pocas, tinham, quase sempre, na sua estrutura f\u00edsica, al\u00e9m das suas famosas bibliotecas, certos espa\u00e7os destinados ao abrigo de doentes, da pr\u00f3pria sede e viajantes necessitados.<\/p>\n<p>As primitivas enfermarias foram diferenciando-se e, com o tempo, passaram a funcionar como pequenos hospitais, dirigidos por quem mais conhecia as propriedades medicinais das ervas e tinha habilidades suficientes para prestar socorro imediato \u00e0s necessidades prim\u00e1rias da sa\u00fade. Freq\u00fcentemente, n\u00e3o eram m\u00e9dicos, e, na maioria das vezes, tratava-se de curadores populares admitidos nas ordens religiosas. O fortalecimento desse aspecto da vida mon\u00e1stica deu-se \u00e0 medida que as ordens religiosas tomaram parte importante no cumprimento das suas obriga\u00e7\u00f5es no socorro aos seus pr\u00f3prios membros e aos peregrinos necessitados.<\/p>\n<p>As principais e mais conhecidas escolas de Medicina da Europa, no medievo, iniciaram as atividades dentro ou nas proximidades dos conventos e abadias.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica m\u00e9dica, exercida no hospital da abadia de Monte Cassino, tornou-se famosa, durante v\u00e1rios s\u00e9culos, pela compet\u00eancia dos monges m\u00e9dicos e pela biblioteca, que abrigava as principais obras de Hip\u00f3crates e Galeno e articulava, com muita compet\u00eancia, as Medicina-divina, Medicina-emp\u00edrica e Medicina-oficial.<\/p>\n<p>Especificamente, os beneditinos ficaram ligados \u00e0 Medicina por meio da Escola de Salerno, cidade no sul da It\u00e1lia, pr\u00f3xima de N\u00e1poles. \u00c9 prov\u00e1vel que esse centro de aglutina\u00e7\u00e3o da Medicina em Salerno j\u00e1 existisse, antes do ano 1000, num mosteiro que havia nas cercanias. Essa regi\u00e3o tinha mantido a forte influ\u00eancia do conhecimento grego e adicionou as informa\u00e7\u00f5es da Medicina \u00e1rabe, conquistadores da vizinha Sic\u00edlia.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar que tenha havido uma integra\u00e7\u00e3o de conhecimentos entre os m\u00e9dicos laicos e os monges que se dedicavam \u00e0 cura das enfermidades dentro dos conventos para o aparecimento das primeiras escolas de Medicina.<\/p>\n<p>Os religiosos desfrutavam de maior prote\u00e7\u00e3o dentro dos muros das institui\u00e7\u00f5es religiosas contra a f\u00faria popular, quando o tratamento n\u00e3o dava certo e o paciente morria. Os agentes da Medicina-emp\u00edrica que moravam nas cidades (aqui com sentido de comunidade urbana) tinham a vantagem de estar mais perto das mazelas da popula\u00e7\u00e3o e conhecer melhor os fatores causadores da doen\u00e7a. Essa troca de informa\u00e7\u00f5es entre religiosos e leigos provocou conflito real, suficiente para gerar a rea\u00e7\u00e3o da c\u00fapula da Igreja, que proibiu, no Conc\u00edlio de Reims, em 1131, posteriormente ratificado pelo Conc\u00edlio de Latr\u00e3o, em 1139, aos sacerdotes exercerem a Medicina fora dos limites das abadias.<\/p>\n<p>Alguns m\u00e9todos terap\u00eauticos utilizados eram muito agressivos e causavam grandes seq\u00fcelas ou a morte dos doentes, dando origem aos conflitos que acabavam com o linchamento do curador, em especial, do cirurgi\u00e3o-barbeiro. Nessas circunst\u00e2ncias, era muito mais seguro praticar a Medicina dentro dos conventos do que se expor \u00e0 vingan\u00e7a popular fora deles.<\/p>\n<p>Pode ter sido para manter a autoridade ou mesmo para melhor disciplinar os cl\u00e9rigos resistentes \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es conciliares anteriores ao Conc\u00edlio de Tours, em 1163, que as autoridades eclesi\u00e1sticas proibiram, definitivamente, aos religiosos realizarem sangrias e outros procedimentos invasivos, frequentemente determinantes da morte do paciente, com base na Bula \u201cA Igreja abomina o sangue (<em>Ecclesia abhorret a sanguine)<\/em>.<\/p>\n<p>A sangria, como terap\u00eautica reconhecida estruturada a partir da teoria dos Quatro Humores, oriunda da ilha de C\u00f3s, na Gr\u00e9cia antiga, era largamente utilizada pelas Medicina-oficial e Medicina-emp\u00edrica, na Idade M\u00e9dia, e, na maioria das vezes, determinava mais dano que vantagem ao doente. Apesar de as complica\u00e7\u00f5es serem igualmente graves para todos os agentes da cura que executavam a sangria, foi imposta particular persegui\u00e7\u00e3o aos m\u00e9dicos judeus, resultando na morte por linchamento de muitos deles, determinada pelo insucesso do tratamento. Importantes autores professos do cristianismo reconheceram tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a dos m\u00e9dicos judeus frente \u00e0 f\u00faria do povo.<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos 12 e 13, em virtude das ordens conciliares de Trento e Tours, come\u00e7ou o processo de afastamento dos agentes da Medicina-emp\u00edrica das abadias e a Medicina-oficial come\u00e7ou a ser ensinada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.<\/p>\n<p>Alguns religiosos que se destacaram no exerc\u00edcio da Medicina, na exclusividade das abadias e mosteiros portugueses, organizaram o primeiro esbo\u00e7o da escola de Medicina em Coimbra e, por essa raz\u00e3o, foram mandados por D. Sancho (1185-1211) para estudar em Paris e, quando voltaram, refor\u00e7aram o j\u00e1 existente modelo de ensino ligado ao poder eclesi\u00e1stico.<\/p>\n<p>O ensino da Medicina em terras portuguesas s\u00f3 foi consolidado mais de um s\u00e9culo depois, em 1290, no reinado de D. Diniz (1279-1325), ao fundar a Universidade dos Mestres e Escolares de Lisboa, autorizada a ensinar leis, artes e Medicina. Alguns meses depois, o Papa Nicolau IV (1288 -1292) reconheceu a nova universidade crist\u00e3 com a Bula \u201cDe statu regni Portugaliae quod super hoc factum est, ratum et gratum habemus\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 1493, o ensino em Portugal resumia-se a uma \u00fanica c\u00e1tedra com um lente, que lia os textos de Medicina. O mestre Jo\u00e3o, fundador da Congrega\u00e7\u00e3o dos C\u00f4negos Seculares de S\u00e3o Jo\u00e3o Evangelista, tornou-se o mais conhecido.<\/p>\n<p>Somente os membros do clero e os homens ricos dispunham de tempo livre e rendimentos suficientes para se dedicarem aos estudos. As rela\u00e7\u00f5es dos estudantes com a burguesia nunca foram amenas. Ao contr\u00e1rio, existiram v\u00e1rios atritos, que foram levados a s\u00e9rio pela Igreja e pelo Estado. A mesma Bula que autorizou o funcionamento da Universidade portuguesa, recomendou facilidade para o aluguel das casas aos estudantes, sendo o seu pre\u00e7o avaliado por dois cl\u00e9rigos especialmente designados para esse fim.<\/p>\n<p>Entre os laicos de melhor posi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica, que podiam pagar o aluguel e o sustento, estavam os filhos dos comerciantes judeus. Com as facilidades que desfrutavam, por n\u00e3o serem obrigados \u00e0 obedi\u00eancia \u00e0s regras conciliares, distinguiram-se como grandes curadores, alguns com o reconhecimento da corte. Foi o caso do Mestre Nasim, ao receber carta de exclusividade concedida pelo rei Dom Duarte, em 1434, para tratar das doen\u00e7as dos olhos. Essa aparente contradi\u00e7\u00e3o, por um lado os judeus eram perseguidos e alguns m\u00e9dicos judeus privilegiados,\u00a0 parece ter sido norteada pela compet\u00eancia da cura. Como esses m\u00e9dicos n\u00e3o mantinham obedi\u00eancia \u00e0s restri\u00e7\u00f5es das Bulas papais, \u00e9 poss\u00edvel que obtivessem melhor resultados se comparados aos dos m\u00e9dicos crist\u00e3os e ainda mais em rela\u00e7\u00e3o aos cirurgi\u00f5es-barbeiros.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil avaliar com precis\u00e3o como se passava, realmente, o ensino da Medicina em Portugal daquele tempo e quais foram os crit\u00e9rios para que os alunos obtivessem a autoriza\u00e7\u00e3o real para exercer a profiss\u00e3o. \u00c9 prov\u00e1vel que o candidato n\u00e3o enfrentasse grandes dificuldades e era suficiente dispor de tempo e dinheiro. Por outro lado, se algum curador da Medicina-emp\u00edrica conseguia obter bons resultados terap\u00eauticos no tratamento de algum cortes\u00e3o importante ou financista influente, tornava-se mais f\u00e1cil obter a licen\u00e7a para medicar.<\/p>\n<p>Somente em 1493, no reinado de D. Jo\u00e3o II, foi introduzida a segunda cadeira no curso de Medicina. Seguindo as prescri\u00e7\u00f5es can\u00f4nicas, ficaram conhecidas como Prima, ministrada nas primeiras horas da manh\u00e3, com a leitura das obras de Galeno, e a V\u00e9spera, ap\u00f3s o almo\u00e7o, para os ensinamentos de Hip\u00f3crates, quando eram lidas, sem discuss\u00e3o, as recomenda\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, prescritas pela Escola de C\u00f3s e elaboradas a partir dos anos 400 a. C. Os livros, conhecidos como \u201cCorpo Hipocr\u00e1tico\u201d, eram compostos de v\u00e1rios manuscritos, provavelmente traduzidos por m\u00e9dicos \u00e1rabes e judeus, que continham recomenda\u00e7\u00f5es importantes de normas para a sa\u00fade p\u00fablica, voltadas para a realidade da Gr\u00e9cia antiga.<\/p>\n<p>A leitura dos manuscritos da experi\u00eancia m\u00e9dica grega dos tempos hipocr\u00e1ticos deve ter sido muito conflituosa para os primeiros estudantes portugueses. A mensagem recebida estava muito distante da realidade vivida. Os textos gregos, oferecendo uma interpreta\u00e7\u00e3o j\u00f4nica da sa\u00fade, onde a rela\u00e7\u00e3o do homem com a natureza era preponderante, chocavam-se de modo frontal com a Medicina de Coimbra, que valorizava a cristianiza\u00e7\u00e3o da Medicina, com o predom\u00ednio do pouco cuidado com a higiene p\u00fablica, al\u00e9m da proibi\u00e7\u00e3o do contato com o sangue, interdi\u00e7\u00e3o dos estudos anat\u00f4micos nos cad\u00e1veres e fort\u00edssima presen\u00e7a da autoridade eclesi\u00e1stica. Grande parte dos rem\u00e9dios, advindos da experi\u00eancia grega, eram obtidos no Oriente e comercializados por comerciantes judeus e \u00e1rabes, que acabaram dominando grande parte da farmacop\u00e9ia europ\u00e9ia central medieval.<\/p>\n<p>Esse fato contribuiu para que, durante a Idade M\u00e9dia, muitas cidades medievais tivessem botic\u00e1rios hebreus e florescesse a publica\u00e7\u00e3o de farmacologia, como o livro da \u201cExplica\u00e7\u00e3o da Droga Medicinal\u201d, de Abu Imran Musa, e o \u201cCompendium Aromatium\u201d, do m\u00e9dico Saladino di Ascoli.<\/p>\n<p>A necessidade de sobreviver \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-religiosas fez com que esses letrados se adaptassem \u00e0s mudan\u00e7as ocorridas durante e ap\u00f3s as lutas pelo poder entre crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os. Foi o que aconteceu com o m\u00e9dico Yehuda Halevi, que trabalhava na cidade espanhola de Toledo, na fase crist\u00e3. Com a decis\u00e3o do Conc\u00edlio de B\u00e9ziers, em 1246, proibindo a pr\u00e1tica da Medicina pelos judeus, ele se dirigiu para C\u00f3rdoba, onde continuou as atividades. A situa\u00e7\u00e3o vivida por Yehuda deve ter sido semelhante a de outros curadores, que sofreram as ang\u00fastias da intoler\u00e2ncia religiosa contra os judeus e \u00e1rabes.<\/p>\n<p>O ensino da Medicina em Portugal atravessou tr\u00eas s\u00e9culos sem grandes mudan\u00e7as e pouco atendeu \u00e0s necessidades sociais geradas pelas guerras e epidemias. Os in\u00fameros conflitos entre os doentes e os m\u00e9dicos foram agravados pela inefici\u00eancia dos tratamentos recomendados para fazer frente aos freq\u00fcentes surtos de doen\u00e7as infecto-contagiosas. As f\u00f3rmulas prescritas variavam de excremento de rato ao p\u00f3 de m\u00famia. As queixas da popula\u00e7\u00e3o aumentaram muito, a ponto de, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, terem organizado manifesta\u00e7\u00f5es de protestos contra os m\u00e9dicos. A principal den\u00fancia era o abandono dos pacientes depois de receberem o pagamento pelos servi\u00e7os prestados.<\/p>\n<p>O distanciamento entre a Medicina-oficial e as necessidades de sa\u00fade do povo geraram, em 1472, uma manifesta\u00e7\u00e3o popular junto \u00e0 corte, para garantir o direito de trabalho dos agentes da Medicina-emp\u00edrica. O rei n\u00e3o cedeu e continuou vigorando a ordem real para o f\u00edsico-mor examinar todos os que pretendiam exercer a Medicina-oficial. As medidas tomadas pela Coroa portuguesa, com o objetivo de fiscalizar a pr\u00e1tica da Medicina, estavam contidas dentro do mesmo contexto centralizador da assist\u00eancia hospitalar.<\/p>\n<p>N\u00e3o dispondo de m\u00e9dicos formados em n\u00famero suficiente para assumir as necessidades da popula\u00e7\u00e3o, foi montado um complicado jogo de apar\u00eancias, para aplacar a f\u00faria popular diante dos tratamentos que levavam \u00e0 morte, com dois pesos e duas medidas, de acordo com os interesses imediatos. As atitudes tomadas pela administra\u00e7\u00e3o real, para cercear a liberdade de a\u00e7\u00e3o dos agentes da Medicina-emp\u00edrica revelaram-se competentes, com bons resultados e elogiado pelos doentes e familiares. Ao mesmo tempo em que os aceitavam com reservas, os representantes do rei perseguiam os mais desastrados, os que geravam maus resultados, aplicando-lhes puni\u00e7\u00f5es, desestimulando outros com id\u00e9ias semelhantes e incentivando a autoridade dos alunos da universidade.<\/p>\n<p>As pequenas altera\u00e7\u00f5es feitas em 1537, no reinado de D. Jo\u00e3o III, ao introduzir novas C\u00e1tedras, inclusive abrindo certo espa\u00e7o ao estudo da anatomia humana, n\u00e3o produziram efeitos significativos ao serem comparados aos da Reforma Pombalina, de 1772, quando foi concretizada a primeira revis\u00e3o dos m\u00e9todos utilizados desde a cria\u00e7\u00e3o da Universidade dos Mestres e Escolares.<\/p>\n<p>Foi Ribeiro Sanches, ministro de D. Jos\u00e9 I (1714-1777), o autor do projeto que introduziu o \u201cNovo M\u00e9todo para Aprender e Estudar a Medicina\u201d, que consolidou a obrigatoriedade das aulas de anatomia humana com a constru\u00e7\u00e3o do Teatro Anat\u00f4mico e do hospital destinado tamb\u00e9m ao ensino.<\/p>\n<p>O novo horizonte proporcionado por Ribeiro Sanches, crist\u00e3o-novo, com s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o cultural, foi o resultado da compara\u00e7\u00e3o dos conhecimentos que ele adquiriu em universidades europ\u00e9ias, inclusive a de Portugal. Era evidente o grande descompasso da Medicina-oficial portuguesa. Enquanto a Universidade de Paris, em pleno Renascimento, havia desvendado a anatomia humana e ensaiava \u00a0entender os mist\u00e9rios da micrologia nos trabalhos de Marcelo Malpighi (1628-1694), trazendo as diferen\u00e7as entre a macroestrutura e a microestrutura, utilizando as lentes de aumento, a Universidade de Coimbra ainda resistia ao estudo da anatomia em obedi\u00eancia \u00e0 ordem do Conc\u00edlio de Tours, de 1163, que proibiu o contato com o sangue humano, por meio da Bula \u201cA Igreja abomina o sangue\u201d.<\/p>\n<p>Esses representantes da Medicina-oficial portuguesa acompanharam os viajantes aportados nas terras do Brasil, entre os s\u00e9culos 16 e 17, ainda carregados das limita\u00e7\u00f5es impostas pelas bulas conciliares, sem conhecer a anatomia, acostumados \u00e0 passividade frente ao avan\u00e7o da doen\u00e7a, sempre atribuindo a dor e a morte como vontade divina e usu\u00e1rios intransigentes das cataplasmas, sangrias, vomit\u00f3rios e purgat\u00f3rios para equilibrar os humores, em acordo com os textos de Hip\u00f3crates e Galeno.<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos 16 e 18, foram poucos os m\u00e9dicos formados em Coimbra que se dirigiram \u00e0s Col\u00f4nias para trabalhar. O maior n\u00famero dos curadores que se aven\u00adtu\u00adra\u00adram al\u00e9m-mar foram os representantes da Medicina-emp\u00edrica e da Medicina-divina, compostos de judeus, \u00e1rabes, padres, alguns benzedeiras e parteiras perseguidos pela implac\u00e1vel Inquisi\u00e7\u00e3o portuguesa. Essa situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria modificada, a partir de 22 de janeiro de 1808, com a chegada, \u00e0 Bahia, da frota que conduziu D. Jo\u00e3o e a Corte, todos fugidos do ex\u00e9rcito napole\u00f4nico.<\/p>\n<p>Parece ter havido a presen\u00e7a judia na forma\u00e7\u00e3o de intelectualidade portuguesa, no s\u00e9culo 16, particularmente na Medicina-oficial. Os judeus fugidos dos rigores da intoler\u00e2ncia de todos os matizes, nos reinos crist\u00e3os da Europa medieval, ajudaram a empurrar esses especialistas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s novas terras descobertas, ao Brasil inclusive. Al\u00e9m de m\u00e9dicos, cirurgi\u00f5es e botic\u00e1rios, eles povoaram as cidades brasileiras como art\u00edfices, lavradores, soldados e criadores de gado, facilmente identificados como crist\u00e3os-novos.<\/p>\n<p>Outros curadores da Medicina-emp\u00edrica, como parteiras, benzedores, erveiros, sangradores, cirugi\u00f5es-barbeiros, mesmo professando o cristianismo, foram considerados incursos em crimes de feiti\u00e7aria e condenados em processos conduzidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o, a partir de den\u00fancias assentadas na disputa dos espa\u00e7os entre as Medicinas-oficial, Medicina-emp\u00edrica e Medicina-divina, deslocando os fugidos ao Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1tica m\u00e9dica colonial<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>As persegui\u00e7\u00f5es aos m\u00e9dicos que ousavam enfrentar o dom\u00ednio do clero n\u00e3o ficaram restritas \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa na Metr\u00f3pole. Em 1729, foi queimado vivo em Lisboa o m\u00e9dico crist\u00e3o-novo Jo\u00e3o Thomaz de Castro, brasileiro, natural do Rio de Janeiro, com trinta e um anos de idade, por ser considerado convicto, ficto, falso, simulado, confidente, diminuto e impenitente.<\/p>\n<p>No Brasil-col\u00f4nia, no s\u00e9culo 18, as queixas da incompet\u00eancia dos profissionais diplomados em Portugal eram permanentes e duras. O desembargador Brochado repetia que eles curavam por ignor\u00e2ncia e matavam por experi\u00eancia. O frei Caetano Brand\u00e3o, bispo do Gr\u00e3o Par\u00e1, era mais veemente ao negar a utilidade dos m\u00e9dicos de Coimbra: \u201cMelhor tratar-se uma pessoa com um tapuia do sert\u00e3o, que observa com mais desembara\u00e7ado instinto de que com um m\u00e9dico desses vindos de Lisboa\u201d.<\/p>\n<p>A Metr\u00f3pole administrava a sa\u00fade dos s\u00faditos das col\u00f4nias da \u00c1frica, \u00c1sia e do Brasil por meio da Fisicatura-Mor, cujo primeiro estatuto data de 1260. A reforma administrativa da segunda metade do s\u00e9culo 18, durante o governo de D. Maria I, transformou a velha estrutura na Junta do Protomedicado. \u00c9 prov\u00e1vel que a inten\u00e7\u00e3o tenha sido fazer frente \u00e0s novas necessidades coloniais, sem, contudo, modificar a centraliza\u00e7\u00e3o anterior. A sede continuou em Lisboa com o f\u00edsico-mor controlando os delegados nas col\u00f4nias. Essa Junta passou a fiscalizar a pr\u00e1tica da Medicina desde a concess\u00e3o da licen\u00e7a para exercer a Medicina-oficial at\u00e9 o controle de pre\u00e7os dos rem\u00e9dios. O desempenho dessa administra\u00e7\u00e3o nunca foi competente. A principal causa do fracasso em administrar a sa\u00fade da Col\u00f4nia foi o fato de s\u00f3 haver representantes nas grandes cidades coloniais. Mesmo que as obriga\u00e7\u00f5es ficassem restritas aos centros urbanos, ainda assim seria incapaz de exercer as obriga\u00e7\u00f5es pelo grande n\u00famero de itens a cumprir como entidade fiscalizadora, dispondo somente de um funcion\u00e1rio em cada sede.<\/p>\n<p>A Junta exigia que o candidato a m\u00e9dico fosse examinado em Lisboa para ter o diploma reconhecido. Essa foi uma das dificuldades burocr\u00e1ticas impostas pela Junta do Protomedicado ao exerc\u00edcio da Medicina nas col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos formados em Coimbra eram em n\u00famero insuficiente para suprir as necessidades da Metr\u00f3pole; poucos se dispunham a trabalhar nas col\u00f4nias al\u00e9m-mar.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser negligenciado o imagin\u00e1rio seiscentista, que descrevia povos antrop\u00f3fagos e incr\u00edveis animais bic\u00e9falos antrop\u00f3fagos. Outros empecilhos se somaram a esses, como a pr\u00f3pria dist\u00e2ncia da Metr\u00f3pole e a dificuldade de transporte, que podem ter contribu\u00eddo para limitar a vinda de m\u00e9dicos t\u00e3o reclamados.<\/p>\n<p>Com a gradativa certeza da necessidade de o colonizador adotar a Medicina-emp\u00edrica apreendida dos povos ind\u00edgenas, a \u00fanica dispon\u00edvel, para curar as doen\u00e7as dos europeus, os poucos cirurgi\u00f5es barbeiros, benzedores, erveiros, sangradores, beatas e parteiras, tamb\u00e9m preencheram os vazios das novas necessidades<\/p>\n<p>Quando interessava \u00e0 administra\u00e7\u00e3o colonial aproveitar os saberes de algum curador popular, ele era valorizado publicamente pela corte, que buscava nele a solu\u00e7\u00e3o para as enfermidades que n\u00e3o eram curadas nem pela Medicina-emp\u00edrica dos \u00edndios e, muito menos, pelos curadores portugueses.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio D. Jo\u00e3o VI (1767-1826) reconheceu a habilidade do soldado Ant\u00f4nio Rodrigues, que curava com o simples toque das m\u00e3os, concedendo-lhe pens\u00e3o anual de quarenta mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>A reprodu\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio europeu medieval em torno da bruxaria se fortaleceu entre os curadores de todos os matizes rec\u00e9m chegados que\u00a0 utilizavam, nos ritos terap\u00eauticos, a intermedia\u00e7\u00e3o de bruxas, dem\u00f4nios e duendes, que supostamente provocavam a cura dos amigos e faziam adoecer, at\u00e9 a morte, os inimigos. \u00c9 conhecido o exemplo da curadora, na Bahia, do s\u00e9culo 16, a Maria-arde-lhe-o-rabo, que adquiriu fama por curar muitas doen\u00e7as causadas pelos dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o desassistida, que j\u00e1 povoava as principais cidades no Brasil-col\u00f4nia, s\u00f3 utilizava as alternativas oferecidas pela Medicina-emp\u00edrica, originadas do conhecimento historicamente acumulado dos ind\u00edgenas, africanos e europeus, para explicar o aparecimento e a cura das doen\u00e7as, dando como resultado um rico mosaico de atitudes simb\u00f3licas frente \u00e0s dificuldades, que permaneciam vivas entre a popula\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>A ang\u00fastia pessoal vivida pelo doente, v\u00edtima das doen\u00e7as tropicais desconhecidas, amedrontado frente \u00e0 dor sem controle e \u00e0 morte precoce, gerou novas respostas culturais processadas na complexa mistura entre o \u00edndio, o branco e o escravo africano. Naquele momento, o conhecimento ind\u00edgena tinha sido empurrado para o sert\u00e3o, fugindo da destrui\u00e7\u00e3o, e os recursos oferecidos pela Medicina-oficial causavam mais preju\u00edzos que vantagens.<\/p>\n<p>Para tudo havia uma ladainha salvadora rezada com f\u00e9 junto ao Santo da prefer\u00eancia, fazendo com que o rezador de sucesso se destacasse entre os agentes da cura. Entre as mais conhecidas se destacaram as para curar a bicheira. espinhela ca\u00edda, solu\u00e7o, o engasgo pela espinha de peixe<em> <\/em>e<em> <\/em>o mau-olhado,<\/p>\n<p>O mau-olhado \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte no mundo dos conflitos sociais gerados pelas doen\u00e7as e est\u00e1 relacionado aos muitos aspectos culturais que se perdem no tempo, Na mitologia grega, a mortal Medusa, com a cabe\u00e7a coberta de serpentes e os olhos com brilho excepcional e penetrante, transformava em pedra quem ousasse fix\u00e1-la. A origem, provavelmente, \u00e9 pr\u00e9-grega, tendo sofrido adapta\u00e7\u00f5es ao longo do tempo, at\u00e9 chegar \u00e0 conhecida concep\u00e7\u00e3o helen\u00edstica.<\/p>\n<p>Essa mesma sociedade tamb\u00e9m reconhecia a excepcionalidade dos efeitos causados \u00e0 sa\u00fade pelo mau-olhado, que somente poucos representantes da Medicina-divina, com poderes especiais, poderiam tratar. As pessoas que tinham nascido envelopadas, isto \u00e9, envoltas na membrana amni\u00f3tica possu\u00edam poderes especiais e eram as mais indicadas para tratar esse mal.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a no mau-olhado parece ser universal. Est\u00e1 presente at\u00e9 hoje em muitas sociedades, significando sempre a mesma coisa: o malef\u00edcio intencional causado pelo olhar carregado de inveja e malqueren\u00e7a. Quem \u00e9 atingido pelo mau-olhado sente imediatamente, ou algumas horas depois, apatia generalizada, dores no corpo e na cabe\u00e7a, altera\u00e7\u00f5es na digest\u00e3o, inapet\u00eancia , irrita\u00e7\u00e3o e des\u00e2nimo. Quando o alvo \u00e9 crian\u00e7a, os efeitos s\u00e3o naturalmente mais graves com sonol\u00eancia profunda, olhos encovados e moleiras afundadas.<\/p>\n<p>Exatamente como no Brasil-col\u00f4nia e, ainda hoje, em outras regi\u00f5es do mundo, o mau-olhado \u00e9 reconhecido como uma das doen\u00e7as que deve ser tratada pelos curadores das Medicina-emp\u00edrica e divina.<\/p>\n<p>A inviolabilidade do corpo feminino, introduzido de modo marcante, segundo as regras da castidade preconizadas por S\u00e3o Paulo, constituiu outro elemento complicador nas rela\u00e7\u00f5es entre os curadores oficiais e as doentes. A interdi\u00e7\u00e3o de palpar as partes \u00edntimas da mulher europ\u00e9ia doente, notadamente os seios, o abdome e o \u00f3rg\u00e3o genital, causava extraordin\u00e1ria dificuldade de colocar em pr\u00e1tica os ensinamentos hipocr\u00e1ticos aprendidos na Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p>Como existia grande escassez de mulheres brancas, na Col\u00f4nia, os maridos n\u00e3o se arriscavam a deix\u00e1-las sentir o contato das m\u00e3os de outros homens, mesmo sendo m\u00e9dicos. N\u00e3o raras vezes, eram os pr\u00f3prios maridos que palpavam as partes sugeridas pelo m\u00e9dico na alcova da doente. Esse problema nunca era enfrentado pelo benzedor, um dos agentes da Medicina-divina e da Medicina-emp\u00edrica, porque n\u00e3o existia o contato direto com o corpo do doente, evitando o conflito gerado pela intimidade da rela\u00e7\u00e3o, interdito pela vigil\u00e2ncia social e religiosa.<\/p>\n<p>Nas ruas do Rio de Janeiro e de Salvador, na segunda metade do s\u00e9culo 17, era comum, nos an\u00fancios pregados nas portas, a caracteriza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o m\u00e9dica, feita em linguagem capaz de proporcionar o conhecimento pr\u00e9vio dos tipos de instrumentos utilizados pelos seus agentes na cura das doen\u00e7as, como o an\u00fancio oferecendo o tratamento por meio das chupadas das sanguessugas.<\/p>\n<p>Compreendia toda a intencionalidade dos cirurgi\u00f5es-barbeiros, que exerciam tamb\u00e9m o of\u00edcio de cortar os cabelos e barbas. O aparecimento dos cirurgi\u00f5es-barbeiros \u00e9 confuso, em torno do s\u00e9culo 11, n\u00e3o existindo, antes dessa data, qualquer refer\u00eancia a eles. \u00c9 interessante notar que o surgimento dos sangradores como curadores separados dos m\u00e9dicos \u00e9 coincidente com a decis\u00e3o do Conc\u00edlio de Tours (1163), que proibiu o contato com o sangue por meio da Bula \u201cA Igreja abomina o sangue\u201d.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel que tenha sido um rearranjo social para superar a interdi\u00e7\u00e3o e continuar executando as orienta\u00e7\u00f5es de Hip\u00f3crates e Galeno, em torno da Teoria dos Quatro Humores, a base essencial de toda a estrutura te\u00f3rica da Medicina exercida no medievo.<\/p>\n<p>Existem cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas no Antigo Testamento, que consideram o sangue como elemento sagrado ligado \u00e0 vida e no Novo Testamento, ligando-o ao sacrif\u00edcio de Jesus Cristo para salvar os homens.<\/p>\n<p>Dessa forma, o cirurgi\u00e3o-barbeiro pode ter surgido para ocupar o espa\u00e7o deixado pelos m\u00e9dicos que n\u00e3o mais queriam misturar-se com os que exerciam essa pr\u00e1tica combatida pela Igreja.<\/p>\n<p>Estava criado um impasse. Apesar de o manuseio do sangue humano, naquela \u00e9poca, n\u00e3o ser aceito pela hierarquia eclesi\u00e1stica, existiam manuscritos atribu\u00eddos a Hip\u00f3crates e a Galeno, respeitados pela Igreja, e amplamente divulgados entre os curadores, que recomendavam a retirada de determinada quantidade de sangue para curar todas as doen\u00e7as. Esse fato foi prop\u00edcio para a reprodu\u00e7\u00e3o dos curadores que faziam sangrias.<\/p>\n<p>Alguns cirurgi\u00f5es-barbeiros ficaram famosos e descreveram t\u00e9cnicas cir\u00fargicas de amputa\u00e7\u00e3o e desarticula\u00e7\u00e3o dos membros, imobiliza\u00e7\u00e3o das fraturas e outros procedimentos cruentos com sucesso. Um dos mais famosos, Ambroise Par\u00e9 (1510-1590) inicialmente como cirurgi\u00e3o-barbeiro e, por fim, como primeiro cirurgi\u00e3o, servindo quatro reis de Fran\u00e7a: Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III.<\/p>\n<p>Entre as mais famosas afirma\u00e7\u00f5es de Par\u00e9, figuram duas com destaque: as feridas por arma de fogo n\u00e3o eram envenenadas por si mesmas e a absoluta necessidade de ligadura dos vasos sangrantes durante qualquer cirurgia. Esses dois preceitos, que hoje parecem insignificantes, representaram grande avan\u00e7o na obten\u00e7\u00e3o de melhores resultados nas feridas de guerra.<\/p>\n<p>Com as observa\u00e7\u00f5es feitas nos campos de batalha dos reis de Fran\u00e7a, Par\u00e9 afirmou e comprovou que o ferimento determinado pelo corpo estranho met\u00e1lico deveria ser tratado como todos os outros e, nas amputa\u00e7\u00f5es dos membros gangrenados ou dilacerados, os vasos sang\u00fc\u00edneos de grosso calibre deveriam ser ligados com fios e n\u00e3o mais comprimidos com esterco de boi.<\/p>\n<p>Ambroise Par\u00e9 deixou importante contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica para a consolida\u00e7\u00e3o da cirurgia como parte da Medicina, al\u00e9m do livro \u201cObras Completas\u201d, composto por vinte e seis volumes, que foram usados, pelo menos, nos dois s\u00e9culos seguintes como normas absolutas dos procedimentos cir\u00fargicos.<\/p>\n<p>O cirurgi\u00e3o-barbeiro era considerado inferior ao m\u00e9dico porque o tratamento das feridas de qualquer natureza era compreendido como arte mec\u00e2nica, ao contr\u00e1rio da do cl\u00ednico, tida como arte liberal. Essa situa\u00e7\u00e3o perdurou at\u00e9 o decreto de Lu\u00eds XIV, de 23 de abril de 1723, que consagrou, definitivamente, a separa\u00ad\u00e7\u00e3o dos barbeiros dos cirurgi\u00f5es, quando esses \u00faltimos passaram a ser considerados mestres em arte e foram admitidos na Universidade de Paris, em condi\u00e7\u00f5es iguais \u00e0s dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Os agentes da Medicina-emp\u00edrica que se intitulavam cirurgi\u00f5es-barbeiros, na Fran\u00e7a, eram numerosos e desfrutavam da boa aceita\u00e7\u00e3o popular. O decreto real que iniciou a extin\u00e7\u00e3o, respeitou o direito de escolha dos que n\u00e3o concordaram em prestar exames, para obterem a condi\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico, agente da Medicina-oficial.<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o entre cirurgi\u00f5es e barbeiros, efetivada em Paris, em 1723, teve repercuss\u00e3o no Brasil-col\u00f4nia, com a chegada, nas d\u00e9cadas seguintes, dos poucos cirurgi\u00f5es diplomados em Coimbra, que come\u00e7aram a substituir, gradualmente, os antigos cirurgi\u00f5es-barbeiros e os padres-sangradores, uma esp\u00e9cie de subproduto entre os religiosos que praticavam a Medicina-emp\u00edrica.<\/p>\n<p>Os religiosos que praticavam a sangria, principalmente jesu\u00edtas, tiveram grande participa\u00e7\u00e3o na difus\u00e3o dessa forma de tratamento, oriundo da teoria dos Quatro Humores, descrito por Pol\u00edbio, o genro de Hip\u00f3crates, na Escola de C\u00f3s, no s\u00e9culo 4 a.C.<\/p>\n<p>Se, durante a sangria, algumas vezes executada nas ruas, o cirurgi\u00e3o-barbeiro, por imper\u00edcia, cortava algum vaso sang\u00fc\u00edneo mais importante, causando hemorragia incontrol\u00e1vel, a solu\u00e7\u00e3o era dada pela compress\u00e3o local com esterco de jumento, que o sangrador sempre tinha na sua bolsa de utens\u00edlios. Essa terap\u00eautica em nada diferia de algumas recomenda\u00e7\u00f5es herdadas das pr\u00e1ticas populares, dos agentes da Medicina-emp\u00edrica que atravessaram inc\u00f3lumes a Idade M\u00e9dia, utilizando excrementos humanos e de ratos, urina de rato e de burro, ossos e carne de sapo.<\/p>\n<p>A coloca\u00e7\u00e3o de sanguessugas tinha, na pr\u00e1tica, o mesmo significado da sangria. Eram postas v\u00e1rias delas em contato com a pele do paciente e deixadas durante determinado per\u00edodo de tempo. O n\u00famero variava com o tipo e a gravidade da doen\u00e7a. A quantidade de sangue que elas sugavam era desprez\u00edvel, quando comparada com a retirada pela sangria atrav\u00e9s da abertura de uma veia perif\u00e9rica, que tirava, no m\u00ednimo, um copo de 200 ml de sangue com a ajuda do torniquete.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o claros os registros de quando as sanguessugas foram usadas com o objetivo de provocar sangria como forma de tratamento. Sabe-se que esses pequenos animais eram empregados na Roma antiga, provavelmente depois da conquista da G\u00e1lia, onde este recurso terap\u00eautico era muito difundido entre os povos aut\u00f3ctones. Contudo, antes do s\u00e9culo 15, os dados s\u00e3o escassos. Na Alta Idade M\u00e9dia, o uso das sanguessugas era recomendado pelos mais conhecidos m\u00e9dicos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>As qualidades atribu\u00eddas \u00e0 chupada desses hirud\u00edneos alcan\u00e7aram o s\u00e9culo 19, quando a Fran\u00e7a importou, em 1833, mais de quarenta milh\u00f5es de sanguessugas para fins medicinais e a Austr\u00e1lia ofereceu para o mercado londrino mais de um milh\u00e3o delas.<\/p>\n<p>A sangria pela aplica\u00e7\u00e3o das bichas como forma de tratamento, objetivando a retirada gradativa de certa quantidade de sangue, era feita em todos os doentes, ricos e pobres; s\u00f3 variava a origem do animal sangrador e a forma como era colocado no corpo do doente, isso correndo por conta da fama do curador. As boticas de todo o Brasil tinham sanguessugas da Espanha, It\u00e1lia, Noruega, R\u00fassia, Su\u00e9cia, T\u00fanis, Portugal para os que podiam pagar caro e as de pre\u00e7o mais modesto, vindas dos p\u00e2ntanos brasileiros do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Para\u00edba.<\/p>\n<p>Durante os vinte e tr\u00eas dias de febre e convuls\u00e3o que antecederam a morte da Princesa Paula Mariana, filha do primeiro imperador do Brasil, foi submetida \u00e0 chupada de quarenta sanguessugas, onze vesicat\u00f3rios, oito cataplasmas e sete clisteres, prescritos pelos dez m\u00e9dicos da corte, que se revezavam \u00e0 cabeceira real.<\/p>\n<p>O mesmo tormento sofrido por um homem comum, presenciado pelo viajante ingl\u00eas Lindley, que esteve no Brasil, no in\u00edcio do s\u00e9culo 18, quando presenciou o doente ser sangrado vinte e uma vezes em nove dias para curar uma dor de est\u00f4mago, como instrumento legal, para curar muitas doen\u00e7as, como varia\u00e7\u00f5es dos preceitos hipocr\u00e1ticos e gal\u00eanicos e provocar a sangria.<\/p>\n<p>As autoriza\u00e7\u00f5es para que os cirurgi\u00f5es-barbeiros pudessem trabalhar no Brasil, suprindo a falta de m\u00e9dicos, reclamada pelos colonos, continuaram sendo dadas pelo Protomedicado de Lisboa, como a emitida, em 13 de janeiro de 1787, e apresentada \u00e0s autoridades coloniais, no Rio de Janeiro, por Joaquim da Silva Ramalho. Com os pap\u00e9is reconhecidos, os m\u00e9dicos diplomados em Coimbra, agentes da Medicina-oficial, eles podiam sangrar, sarjar, amputar e colocar bichas.<\/p>\n<p>A obstetr\u00edcia era exercida quase exclusivamente pelas parteiras e comadres conhecedoras dos mist\u00e9rios da gesta\u00e7\u00e3o. Eram identificadas pela grande cruz branca sobre a porta da casa. Antes de come\u00e7ar o acompanhamento do trabalho de parto, era colocada a espada desembainhada e entoada a ladainha, evocando a ajuda do Anjo Gabriel.<em> <\/em><\/p>\n<p>Os conhecimentos das comadres eram suficientes para saber que o parto seria bom se a crian\u00e7a nascesse de cabe\u00e7a para baixo com os olhos voltados para as costas da m\u00e3e. O bom parto significava sempre o nascimento de uma crian\u00e7a chorona com pouco ferimento no per\u00edneo da m\u00e3e. Se a crian\u00e7a nascesse envelopada pela membrana amni\u00f3tica, teria muita sorte e fortuna ao longo da vida. A comadre era uma personagem de certa idade, com conhecimento emp\u00edrico dos segredos do parto, dos rem\u00e9dios caseiros e das rezas. N\u00e3o raras vezes, quando o parto complicava, era chamado o m\u00e9dico mais pr\u00f3ximo, que raramente resolvia as dificuldades.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica no Brasil-col\u00f4nia, como c\u00f3pia das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias na Metr\u00f3pole, era catastr\u00f3fica. As autoridades reais n\u00e3o tinham registros das doen\u00e7as infecciosas e sequer qualquer planejamento para garantir o programa m\u00ednimo de preven\u00e7\u00e3o. A alta mortalidade infantil pouco significava. Ao contr\u00e1rio, o morto de poucos anos iria juntar-se ao grande ex\u00e9rcito dos anjos de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Processo de substitui\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de curas do paj\u00e9 pelas do colonizador.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A estrutura da Medicina, no Brasil-col\u00f4nia, ficou encurralada: por um lado, o m\u00e9dico formado em Coimbra representando a Medicina-oficial e o e o cirurgi\u00e3o-barbeiro, a Medicina-emp\u00edrica; do outro lado, o paj\u00e9, dono de incalcul\u00e1vel saber historicamente acumulado, respeitado e temido pelo seu poder de curar e fazer morrer.<\/p>\n<p>Os relatos do m\u00e9dico holand\u00eas Guilherme Piso, desembarcado em Pernambuco em 1637, sob as ordens de Maur\u00edcio de Nassau, avaliaram com precis\u00e3o a import\u00e2ncia do paj\u00e9.<\/p>\n<p>A desastrosa experi\u00eancia hospitalar da cristandade da alta Idade Medieval, em nada parecida a da Gr\u00e9cia hipocr\u00e1tica. A Europa medieval ficou marcada pela caridade crist\u00e3, em grandes albergues, acolhendo os desvalidos e os leprosos, enfim, v\u00edtimas de todas as doen\u00e7as, sempre tratados pelas ordens religiosas, que se dirigiam em multid\u00f5es desorganizadas e famintas aos santu\u00e1rios crist\u00e3os de cura, notadamente o de Compostela, na Espanha.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o desse hospital, que mais se assemelhava com dep\u00f3sito de doentes recusados pela fam\u00edlia e, na maior parte, andarilhos, para o modelo das Santas Casas foi lento. Somente no s\u00e9culo 16, pressionado pela enorme quantidade de doentes que perambulavam nas ruas de Lisboa, a realeza iniciou o processo de organiza\u00e7\u00e3o em torno da caridade, como marco fundamental do aproveitamento social dos imemoriais elos da solidariedade em torno de um territ\u00f3rio protegido \u2013 o hospital \u2013 com garantia de alimento sem esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o do albergue dos s\u00e9culos 12 e 13, como o lugar onde todos os doentes poderiam receber a caridade crist\u00e3, para o hospital, no modelo das Santas Casas, representou o primeiro esbo\u00e7o do poder real em amenizar as elevadas tens\u00f5es sociais, entre os miser\u00e1veis e doentes cr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>A primeira Santa Casa de Lisboa, fundada em 1498, certamente<em> <\/em>tamb\u00e9m representou um instrumento para exercer melhor o controle da Medicina-oficial, Medicina-divina e Medicina-emp\u00edrica, quando a grande mortalidade provocada pela peste negra poderia desestabilizar o poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagero articular sobre esse fato, a constru\u00e7\u00e3o do hospital com o dinheiro das esmolas, como um dos marcos que, verdadeiramente, chamou a aten\u00e7\u00e3o das autoridades do reino portugu\u00eas para a perspectiva da caridade, agora sob dois aspectos: em primeiro, aumentar e centralizar a arrecada\u00e7\u00e3o das doa\u00e7\u00f5es; em segundo, diminuir as tens\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>As enfermarias pavilhonadas das Santas Casas, dirigidas pelas religiosas das Ordens d\u2019Assun\u00e7\u00e3o e do Esp\u00edrito Santo, com os seus h\u00e1bitos brancos, em clara associa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ao sagrado e sob a \u00e9gide do ap\u00f3stolo Marcos, reproduziram a pr\u00e1tica<em> <\/em>curativa quatrocentista portuguesa,<em> <\/em>fortemente ligada ao imagin\u00e1rio crist\u00e3o da caridade,<em> <\/em>nascida<em> <\/em>da<em> <\/em>obedi\u00eancia<em> <\/em>aos preceitos b\u00edblicos e dos interesses do Estado portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Quando D.<em> <\/em>Jo\u00e3o<em> <\/em>e<em> <\/em>a<em> <\/em>sua<em> <\/em>corte<em> <\/em>de<em> <\/em>quinze<em> <\/em>mil desempregados chegaram ao Brasil, depois da fuga das tropas do general Junot, encontraram uma situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica na<em> <\/em>assist\u00eancia m\u00e9dica.<em> <\/em>A Col\u00f4nia n\u00e3o tinha m\u00e9dicos nem hospitais.<em> <\/em>\u00c9 prov\u00e1vel<em> <\/em>que a sensa\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima do p\u00e2nico tenha tomado conta dos portugueses temerosos das febres tropicais.<\/p>\n<p>O pequeno n\u00famero de m\u00e9dicos diplomados, isto \u00e9, agentes da Medicina-oficial, que trabalhava no Brasil,<em> <\/em>j\u00e1 tinha sido motivo de reclama\u00e7\u00e3o veemente do vice-rei<em> <\/em>Lu\u00eds de Vasconcelos, em 1789, denunciando que s\u00f3 havia quatro deles,<em> <\/em>insuficientes<em> <\/em>em<em> <\/em>quantidade<em> <\/em>e qualidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Ensino da Medicina no Brasil-col\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o arrastou-se por mais de um s\u00e9culo<em> <\/em>e j\u00e1 era do conhecimento da<em> <\/em>Metr\u00f3pole. Imediatamente ap\u00f3s a chegada do rei, sentiu-se a<em> <\/em>necessidade imperiosa<em> <\/em>da cria\u00e7\u00e3o de estrutura de ensino capaz<em> <\/em>de<em> <\/em>fazer frente \u00e0 absoluta<em> <\/em>falta de m\u00e9dicos<em> <\/em>para<em> <\/em>atender<em> <\/em>os<em> <\/em>rec\u00e9m-chegados. A pronta resposta do Pr\u00edncipe<em> <\/em>Regente, futuro D. Jo\u00e3o VI, ocasionou<em> <\/em>a<em> <\/em>cria\u00e7\u00e3o, pela Carta R\u00e9gia de 18 de<em> <\/em>fevereiro<em> <\/em>de 1808,<em> <\/em>da Escola de Cirurgia da Bahia,<em> <\/em>que<em> <\/em>come\u00e7ou<em> <\/em>funcionando nas depend\u00eancias do Hospital Militar.<\/p>\n<p>Esse hospital iniciou as<em> <\/em>atividades em<em> <\/em>4 de<em> <\/em>outubro de 1799, nas antigas depend\u00eancias do Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas, por<em> <\/em>ordem<em> <\/em>de Dom<em> <\/em>Fernando Jos\u00e9, governador da Capitania, depois<em> <\/em>das<em> <\/em>den\u00fancias das p\u00e9ssimas<em> <\/em>condi\u00e7\u00f5es<em> <\/em>da Santa<em> <\/em>Casa<em> <\/em>de<em> <\/em>Miseric\u00f3rdia de<em> <\/em>Salvador.<em> <\/em><\/p>\n<p>Fato semelhante ocorreu no Rio de Janeiro, motivado por igual necessidade em outros setores da administra\u00e7\u00e3o colonial. Poucos meses depois da chegada da corte ao Rio de Janeiro, aumentou muito a press\u00e3o para reestruturar, com maior autonomia, v\u00e1rias reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para que pudessem suprir as dificuldades impostas pelo distanciamento metropolitano. Assim, passaram a funcionar, no Brasil, algumas reparti\u00e7\u00f5es que s\u00f3 existiam anteriormente em Portugal, como a Junta de Com\u00e9rcio, Junta da Agricultura, F\u00e1brica e Navega\u00e7\u00e3o do Brasil, a Real F\u00e1brica de P\u00f3lvora e tamb\u00e9m a Escola Anat\u00f4mica e Cir\u00fargica.<\/p>\n<p>Em 1768, o<em> <\/em>vice-rei<em> <\/em>Dom<em> <\/em>Ant\u00f4nio<em> <\/em>Rolim de Moura Tavares,<em> <\/em>Conde de Azambuja, fundou, nas antigas depend\u00eancias desativadas<em> <\/em>do<em> <\/em>Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas, no<em> <\/em>Morro<em> <\/em>do<em> <\/em>Castelo, o Hospital Real Militar e de Ultramar, onde,<em> <\/em>inicialmente,<em> <\/em>foram dadas as primeiras aulas de Medicina na cidade do Rio de Janeiro.<em> <\/em><\/p>\n<p>Apesar<em> <\/em>da valoriza\u00e7\u00e3o dos hospitais militares<em> <\/em>para<em> <\/em>a instala\u00e7\u00e3o<em> <\/em>dos primeiros n\u00facleos de ensino da Medicina, o<em> <\/em>Brasil s\u00f3 teve o seu corpo de sa\u00fade no Ex\u00e9rcito em 1849.<em> <\/em>Entretanto, desde muito<em> <\/em>cedo, na experi\u00eancia colonial, os<em> <\/em>m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es-barbeiros que atendiam os militares feridos,<em> <\/em>estavam<em> <\/em>organizados como<em> <\/em>agregados \u00e0s tropas e, mesmo sem patente, tinham<em> <\/em>remunera\u00e7\u00e3o regular, o<em> <\/em>que,<em> <\/em>certamente,<em> <\/em>contribuiu para a<em> <\/em>organiza\u00e7\u00e3o<em> <\/em>precoce dos hospitais militares.<em> <\/em><\/p>\n<p>Foi<em> <\/em>inaugurado, desse<em> <\/em>modo, com<em> <\/em>o<em> <\/em>rei<em> <\/em>utilizando<em> <\/em>os m\u00e9dicos<em> <\/em>rec\u00e9m-chegados<em> <\/em>e<em> <\/em>os hospitais<em> <\/em>militares, o<em> <\/em>ensino da Medicina no Brasil.<em> <\/em>Tudo feito rapidamente para formar as bases da assist\u00eancia<em> <\/em>m\u00e9dica<em> <\/em>para D.<em> <\/em>Jo\u00e3o, D.<em> <\/em>Maria I, D. Carlota<em> <\/em>Joaquina<em> <\/em>e seus sete filhos, acrescidos dos quinze mil refugiados que<em> <\/em>vieram nas trinta e seis embarca\u00e7\u00f5es escoltadas pelos navios ingleses. Seguiram-se as nomea\u00e7\u00f5es dos cortes\u00f5es para os<em> <\/em>cargos de dire\u00e7\u00e3o das academias m\u00e9dico-cir\u00fargicas do Rio de Janeiro e de Salvador.<em> <\/em>Para a primeira,<em> <\/em>foi<em> <\/em>o<em> <\/em>cirurgi\u00e3o-mor<em> <\/em>Jos\u00e9<em> <\/em>Corr\u00eaa Pican\u00e7o, futuro bar\u00e3o de Goiana,<em> <\/em>e para a segunda, Manoel Vieira<em> <\/em>da Silva, bar\u00e3o de Alvaizete.<em> <\/em><\/p>\n<p>Para conseguir a matr\u00edcula no curso,<em> <\/em>n\u00e3o era<em> <\/em>necess\u00e1rio muito<em> <\/em>dote<em> <\/em>intelectual, bastava que o candidato soubesse<em> <\/em>ler<em> <\/em>e escrever.<em> <\/em>O per\u00edodo de aprendizado durava cinco anos e,<em> <\/em>at\u00e9 1832,<em> <\/em>as aulas<em> <\/em>eram<em> <\/em>ministradas<em> <\/em>por<em> <\/em>apenas<em> <\/em>seis<em> <\/em>lentes<em> <\/em>e<em> <\/em>dois substitutos.<em> <\/em>O diploma recebido n\u00e3o oferecia os mesmos direitos do de Coimbra. Esse reconhecimento parcial pelas autoridades portuguesas gerou v\u00e1rios atritos entre os estudantes e o f\u00edsico-mor.<em> <\/em>A<em> <\/em>tens\u00e3o ficou<em> <\/em>em<em> <\/em>n\u00edvel cr\u00edtico depois das<em> <\/em>manifesta\u00e7\u00f5es<em> <\/em>violentas<em> <\/em>de ambas<em> <\/em>as<em> <\/em>partes, for\u00e7ando<em> <\/em>o imperador D. Pedro<em> <\/em>I a<em> <\/em>assinar, em 1826, o decreto que dava \u00e0s escolas de Medicina do Rio de<em> <\/em>Janeiro e da Bahia a autoridade para diplomar os seus alunos.<em> <\/em><\/p>\n<p>O decreto<em> <\/em>imperial, de 9 de setembro de<em> <\/em>1826, concretizou<em> <\/em>a<em> <\/em>reforma<em> <\/em>das Academias M\u00e9dico-Cir\u00fargicas, transformando-as nas Faculdades de Medicina.<em> <\/em>O acontecimento ficou gravado no quadro a \u00f3leo do pintor Manoel Ara\u00fajo Porto<em> <\/em>Alegre, em exposi\u00e7\u00e3o permanente<em> <\/em>na<em> <\/em>Universidade<em> <\/em>Federal<em> <\/em>do Rio de Janeiro, retratando o imperador D.<em> <\/em>Pedro I entregando o<em> <\/em>pergaminho ao professor Vicente Navarro de Andrade, Bar\u00e3o de Inhomerin.<em> <\/em><\/p>\n<p>Com o crescimento das atividades escolares e maior liberdade administrativa, cresceu a<em> <\/em>press\u00e3o por<em> <\/em>melhores condi\u00e7\u00f5es de ensino.<em> <\/em>Os alunos passaram<em> <\/em>a<em> <\/em>reclamar por<em> <\/em>melhor<em> <\/em>material<em> <\/em>did\u00e1tico,<em> <\/em>depois que ficou constatada a inexist\u00eancia de livros editados em<em> <\/em>portugu\u00eas. Para<em> <\/em>sanar<em> <\/em>a dificuldade, passou<em> <\/em>a<em> <\/em>ser exigido o conhecimento<em> <\/em>de<em> <\/em>ingl\u00eas<em> <\/em>e franc\u00eas<em> <\/em>pelos<em> <\/em>novos alunos.<em> <\/em>Esse estatuto ficou<em> <\/em>conhecido<em> <\/em>como<em> <\/em>bom ser\u00e1, porque al\u00e9m de exigir que os candidatos soubessem ler e escrever, acrescentava:<em> Bom ser\u00e1 que entendam as l\u00ednguas francesa e inglesa. <\/em><\/p>\n<p>O curso passou<em> <\/em>a ter seis anos e, pouco a pouco, os professores e alunos adotaram livros e procedimentos usados pela Universidade<em> <\/em>de Paris, considerada o centro<em> <\/em>cultural por excel\u00eancia.<em> <\/em><\/p>\n<p>As diferen\u00e7as no modo de vida e padr\u00e3o de controle<em> <\/em>da sa\u00fade<em> <\/em>p\u00fablica<em> <\/em>entre a Fran\u00e7a e o Brasil, na segunda metade do s\u00e9culo<em> 19<\/em>,<em> <\/em>eram gritantes. Logo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, foram tomadas<em> <\/em>medidas sanit\u00e1rias pelos m\u00e9dicos<em> <\/em>revolucion\u00e1rios, que modificaram completamente<em> <\/em>a<em> <\/em>incid\u00eancia das doen\u00e7as infecciosas. Nessa mesma \u00e9poca, em que o incipiente ensino m\u00e9dico brasileiro adotava os<em> <\/em>m\u00e9todos da universidade francesa, j\u00e1 ajustada \u00e0 realidade p\u00f3s-revolucion\u00e1ria, as principais cidades<em> <\/em>da Fran\u00e7a, tinham pol\u00edtica de sa\u00fade definida.<\/p>\n<p>Afora as grandes diferen\u00e7as peculiares<em> <\/em>a<em> <\/em>cada<em> <\/em>sociedade, a Fran\u00e7a j\u00e1<em> <\/em>tinha<em> <\/em>estruturado o ensino m\u00e9dico gratuito,<em> <\/em>voltado \u00e0s<em> <\/em>pr\u00f3prias necessidades, que<em> <\/em>eram<em> <\/em>muito<em> <\/em>diferentes das brasileiras.<em> <\/em>Por exemplo, Paris<em> <\/em>j\u00e1<em> <\/em>tinha cerca de oitocentos<em> <\/em>quil\u00f4metros<em> <\/em>de esgotos<em> <\/em>funcionando<em> <\/em>em galerias subterr\u00e2neas.<em> <\/em>A preocupa\u00e7\u00e3o<em> <\/em>das<em> <\/em>autoridades<em> <\/em>francesas, naquele<em> <\/em>tempo, era como poderiam<em> <\/em>evitar que os dejetos fossem lan\u00e7ados diretamente<em> <\/em>no Sena. No<em> <\/em>Brasil, n\u00e3o havia nem o projeto<em> <\/em>para<em> <\/em>diminuir<em> <\/em>a preval\u00eancia<em> <\/em>de<em> <\/em>in\u00fameras doen\u00e7as infecciosas e nenhuma cidade dispunha de rede sanit\u00e1ria adequada.<em> <\/em><\/p>\n<p>A an\u00e1lise da grade curricular da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, depois da reforma de 1832, assinada pela Reg\u00eancia Trina (Br\u00e1ulio Muniz, Costa Carvalho e Lima e Silva), mostra que n\u00e3o havia qualquer refer\u00eancia ao estudo das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e das doen\u00e7as infecciosas. A aten\u00e7\u00e3o era projetada para as doen\u00e7as mais comuns na Europa e na elite brasileira, sendo a s\u00edfilis a maior delas.<\/p>\n<p>O tema central das teses apresentadas pelos<em> <\/em>primeiros alunos<em> <\/em>diplomados pode servir como<em> <\/em>indicador dessa realidade, refletindo<em> <\/em>o<em> <\/em>desajuste do ensino da<em> <\/em>Medicina<em> <\/em>com<em> <\/em>a realidade social:<\/p>\n<p><em>&#8211; Influ\u00eancia das religi\u00f5es e, particularmente, da religi\u00e3o crist\u00e3 sobre a sa\u00fade p\u00fablica e privada<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Breves considera\u00e7\u00f5es sobre o casamento;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Medicina e ci\u00eancia filos\u00f3fica<\/em>.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro, ainda fortemente atado aos res\u00edduos da<em> <\/em>estrutura<em> <\/em>colonial,<em> <\/em>e sem condi\u00e7\u00e3o para<em> <\/em>atender<em> <\/em>\u00e0s<em> <\/em>novas necessidades que acompanharam as transforma\u00e7\u00f5es sociais, plantou a semente do ensino particular no oitavo artigo do novo regulamento, de<em> <\/em>1833, das Faculdades de Medicina, sancionado<em> <\/em>como<em> <\/em>lei<em> <\/em>pela C\u00e2mara<em> <\/em>dos Deputados:<em> <\/em><\/p>\n<p><em>O ensino da Medicina fica livre; qualquer pessoa, nacional ou estrangeira, poder\u00e1 estabelecer cursos particulares sobre os diversos ramos das ci\u00eancias e acess\u00f3rias e lecionar \u00e0 sua vontade, sem oposi\u00e7\u00e3o alguma da parte das Faculdades<\/em>.<\/p>\n<p>Esse<em> <\/em>importante item da regulamenta\u00e7\u00e3o<em> <\/em>do<em> <\/em>ensino m\u00e9dico permaneceu at\u00e9 o final do Imp\u00e9rio,<em> <\/em>quando os diplomas ainda traziam<em> <\/em>impresso<em> podeis exercer e ensinar livremente a Medicina<\/em>, tendo contribu\u00eddo para o aparecimento posterior do professor livre-docente.<\/p>\n<p>A necessidade<em> <\/em>sentida<em> <\/em>para<em> <\/em>superar as graves defici\u00eancias<em> <\/em>do<em> <\/em>ensino<em> <\/em>estava assentada em<em> <\/em>dois<em> <\/em>aspectos: o gritante distanciamento da realidade social e a<em> <\/em>impossibilidade de os formandos atenderem \u00e0s exig\u00eancias dos grupos privilegiados em ascens\u00e3o,<em> <\/em>que<em> <\/em>recebia as not\u00edcias dos avan\u00e7os da Medicina<em> <\/em>editadas<em> <\/em>nas revistas parisienses.<em> <\/em><\/p>\n<p>O primeiro aspecto e o mais grave n\u00e3o obteve<em> <\/em>resposta,<em> <\/em>porque<em> <\/em>estava<em> <\/em>assentado<em> <\/em>nas necessidades<em> <\/em>da maior parte da popula\u00e7\u00e3o, desorganizada nas suas aspira\u00e7\u00f5es<em> <\/em>sociais.<em> <\/em>Restava a este estrato da sociedade procurar salvaguardar a sa\u00fade nos agentes da Medicina-emp\u00edrica.<em> <\/em>Contudo, o segundo aspecto da<em> <\/em>mesma<em> <\/em>quest\u00e3o gerou imediata<em> <\/em>resposta<em> <\/em>dentro<em> <\/em>e<em> <\/em>fora<em> <\/em>da estrutura<em> <\/em>do ensino. Foram organizados v\u00e1rios cursos de<em> <\/em>especializa\u00e7\u00e3o<em> <\/em>dados por ilustres m\u00e9dicos que n\u00e3o<em> <\/em>faziam<em> <\/em>parte<em> <\/em>do<em> <\/em>quadro docente, principalmente<em> <\/em>relacionados \u00e0s doen\u00e7as<em> <\/em>comuns dos ricos.<em> <\/em>Os cursos eram fartamente divulgados<em> <\/em>na imprensa<em> <\/em>leiga, de<em> <\/em>tal<em> <\/em>modo<em> <\/em>que<em> <\/em>toda<em> <\/em>a<em> <\/em>popula\u00e7\u00e3o<em> <\/em>tomava conhecimento deles e desestimulava os que pretendiam viajar<em> <\/em>para a Europa na procura de melhor assist\u00eancia m\u00e9dica.<em> <\/em><\/p>\n<p>O acesso aos cursos de Medicina tornou-se mais dif\u00edcil aos pretendentes situados fora de certo padr\u00e3o socioecon\u00f4mico. Passaram a ser exigidos os conhecimentos de ingl\u00eas, franc\u00eas, portugu\u00eas, latim, filosofia, aritm\u00e9tica e geometria. As barreiras aumentavam porque as tarefas do aprendizado ocupavam todo o dia, n\u00e3o sobrando tempo para o aluno ganhar o seu pr\u00f3prio sustento. N\u00e3o eram muitas as fam\u00edlias que podiam manter o filho durante seis anos somente estudando. Se for considerado que s\u00f3 havia duas faculdades de Medicina, em Salvador e no Rio de Janeiro, recebendo alunos de todo o pa\u00eds, a despesa com a manuten\u00e7\u00e3o aumentava muito, incluindo os custos de moradia. Apenas os filhos dos grandes propriet\u00e1rios de terras, comerciantes ou nobres podiam estudar Medicina, porque eles tinham a exclusiva garantia do sustento sem o trabalho pessoal.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, a abertura do ensino aos professores sem v\u00ednculo com a faculdade foi concretizada sem resist\u00eancia<em> <\/em>de<em> <\/em>ambas as partes.<em> <\/em>De um lado, interessava<em> <\/em>\u00e0<em> <\/em>administra\u00e7\u00e3o compensar as defici\u00eancias escolares do aprendizado e, de outro, o corpo discente podia arcar com as<em> <\/em>despesas. S\u00f3 a matr\u00edcula desses cursos<em> <\/em>custava vinte mil r\u00e9is e eram oferecidos nos<em> <\/em>jornais<em> <\/em>de maior circula\u00e7\u00e3o.<em> <\/em>As aulas particulares passaram a fazer<em> <\/em>parte da<em> <\/em>forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, dadas principalmente pelos<em> <\/em>estudantes que ocuparam a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.<em> <\/em><\/p>\n<p>Em<em> <\/em>1834, a<em> <\/em>Faculdade<em> <\/em>de Medicina do<em> <\/em>Rio<em> <\/em>de<em> <\/em>Janeiro diplomava os sete primeiros m\u00e9dicos da sua hist\u00f3ria, seis<em> <\/em>s\u00e9culos depois da Universidade de Paris.<em> <\/em><\/p>\n<p>A conviv\u00eancia entre alunos e professores n\u00e3o foi sempre pac\u00edfica.<em> <\/em>Os<em> <\/em>atritos<em> <\/em>come\u00e7aram<em> <\/em>com as<em> <\/em>den\u00fancias<em> <\/em>feitas<em> <\/em>pelos Mordomos<em> <\/em>da Santa Casa do Rio de Janeiro, no que diz<em> <\/em>respeito<em> <\/em>\u00e0 desordem feita pelos estudantes.<em> <\/em>Depois de algumas negocia\u00e7\u00f5es, os estudantes<em> <\/em>foram<em> <\/em>aceitos<em> <\/em>acompanhados de professores, somente nas enfermarias masculinas. Os Irm\u00e3os da Miseric\u00f3rdia<em> <\/em>n\u00e3o concordaram em expor a intimidade das pacientes aos alunos.<\/p>\n<p>Os atritos<em> <\/em>repetiram-se<em> <\/em>nos anos seguintes e geraram um<em> <\/em>regulamento muito<em> <\/em>severo,<em> <\/em>em 1835,<em> <\/em>interditando<em> <\/em>os alunos de andarem em grupos pela<em> <\/em>cidade. A<em> <\/em>rea\u00e7\u00e3o foi<em> <\/em>imediata.<em> <\/em>Os<em> <\/em>estudantes,<em> <\/em>junto com<em> <\/em>a<em> <\/em>imprensa, conseguiram abrandar a dureza,<em> <\/em>limitando as medidas disciplinares ao<em> <\/em>interior das salas de aula.<em> <\/em>No entanto, foi mantida a puni\u00e7\u00e3o de tr\u00eas<em> <\/em>meses de<em> <\/em>pris\u00e3o para quem cometesse<em> <\/em>ofensa injuriosa contra<em> <\/em>qualquer professor.<\/p>\n<p>O clima<em> <\/em>permaneceu<em> <\/em>tenso e<em> <\/em>as<em> <\/em>amea\u00e7as<em> <\/em>continuaram acesas<em> <\/em>entre as partes.<em> <\/em>A congrega\u00e7\u00e3o endureceu na<em> <\/em>cobran\u00e7a<em> <\/em>das obriga\u00e7\u00f5es<em> <\/em>escolares,<em> <\/em>introduzindo uma prova escrita eliminat\u00f3ria.<em> <\/em>Este<em> <\/em>novo<em> <\/em>fato<em> <\/em>motivou, em 1871, a<em> <\/em>rebeli\u00e3o<em> <\/em>dos estudantes, pois<em> <\/em>estavam faltando professores,<em> <\/em>livros e laborat\u00f3rios<em> <\/em>adequados<em> <\/em>ao ensino.<em> <\/em>Novas<em> <\/em>confus\u00f5es<em> <\/em>surgiram<em> <\/em>na conviv\u00eancia universit\u00e1ria com a volta da presen\u00e7a obrigat\u00f3ria<em> <\/em>\u00e0s salas de<em> <\/em>aula. Muitos alunos foram reprovados pela<em> <\/em>aus\u00eancia<em> <\/em>e reagiram destruindo completamente os poucos laborat\u00f3rios em 1879.<\/p>\n<p>Apesar de ter havido produ\u00e7\u00e3o de textos m\u00e9dica, eram insuficientes para as necessidades dos alunos que continuavam estudando nos livros dos autores franceses, ingleses e alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Enquanto o corpo<em> <\/em>universit\u00e1rio<em> <\/em>no<em> <\/em>Rio de<em> <\/em>Janeiro continuava<em> <\/em>ajustando-se, nem sempre pacificamente, as<em> <\/em>publica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas<em> <\/em>continuavam trazendo, de forma contundente,<em> <\/em>a<em> <\/em>discuss\u00e3o maior<em> <\/em>das fases de conflito<em> <\/em>de compet\u00eancia da Medicina com a religi\u00e3o, enquanto pr\u00e1ticas de cura.<\/p>\n<p>A<em> <\/em>mesma<em> <\/em>situa\u00e7\u00e3o foi sentida de diferentes formas em v\u00e1rias<em> <\/em>cidades<em> <\/em>brasileiras, de tal modo<em> <\/em>que gerou<em> <\/em>respostas semelhantes<em> <\/em>no<em> <\/em>seu<em> <\/em>conjunto:<em> <\/em>a<em> <\/em>persegui\u00e7\u00e3o<em> <\/em>sistem\u00e1tica<em> <\/em>aos agentes da Medicina-emp\u00edrica por parte dos poucos estudantes de Medicina.<\/p>\n<p>Em<em> <\/em>algumas<em> <\/em>ocasi\u00f5es,<em> <\/em>o<em> <\/em>discurso da Medicina-oficial<em> <\/em>tornava-se<em> <\/em>claro<em> <\/em>na<em> <\/em>disputa<em> <\/em>do<em> <\/em>espa\u00e7o, que acreditava ser exclusivamente<em> <\/em>seu;<em> <\/em>em outras, reconhecia o<em> <\/em>conflito<em> <\/em>de compet\u00eancia e<em> <\/em>investia<em> <\/em>abertamente contra<em> <\/em>os curadores populares, mesmo sem poder<em> <\/em>assumir<em> <\/em>completamente a responsabilidade de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>Processo de substitui\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 pelo m\u00e9dico<\/strong><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O processo de substitui\u00e7\u00e3o iniciado pelo colonizador contra a popula\u00e7\u00e3o nativa foi feito, simultaneamente, por meio da destrui\u00e7\u00e3o do universo m\u00edtico aut\u00f3ctone, da morte na ponta da espada e pelas novas doen\u00e7as trazidas pelo europeu. O \u00edndio n\u00e3o conhecia e n\u00e3o estava preparado para lutar com nenhuma delas e por esta raz\u00e3o foi rapidamente batido na pr\u00f3pria terra.<\/p>\n<p>O principal inimigo das rela\u00e7\u00f5es m\u00edticas dos povos aut\u00f3ctones foi o poder da Igreja. Sem d\u00favida, as autoridades eclesi\u00e1sticas entenderam, precocemente, que era necess\u00e1rio e a qualquer pre\u00e7o a substitui\u00e7\u00e3o cultural da \u00e2ncora<em> <\/em>de autoridade \u00be o paj\u00e9 \u00be respons\u00e1vel pela sustenta\u00e7\u00e3o dos instrumentos da coes\u00e3o social das sociedades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O respaldo legal dessa perversa atitude colonial estava contido na bula <em>Romanus Pontifex<\/em>, de 8 de janeiro de 1454, na qual o Papa Nicolau V fixou as normas da coloniza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 em todos os territ\u00f3rios conquistados.<\/p>\n<p>No Brasil, os primeiros que sofreram esta a\u00e7\u00e3o conjugada foram os tupis, chamados pelos brancos de tupinamb\u00e1s. O grupo \u00e9tnico tupinamb\u00e1 era formado por v\u00e1rias tribos pertencentes ao mesmo tronco ling\u00fc\u00edstico e tinham algumas caracter\u00edsticas socioculturais comuns. Inclu\u00edam o Tamoio, Tomimin, Tupiniquim, Caet\u00e9, Tabajara, Potiguara e Guajajara e ocupavam a extensa faixa litor\u00e2nea bem caracterizada. Os grupos ind\u00edgenas que formaram a grande fam\u00edlia Tupinamb\u00e1 foram os primeiros que sofreram o contato com o europeu e participaram das pioneiras expedi\u00e7\u00f5es ao sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Desses povos que os portugueses encontraram no litoral brasileiro nos anos que se seguiram \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o, poucos grupos consegui\u00adram sobreviver, em n\u00famero reduzido e completamente descul\u00adturados. Existem estimativas, algumas desencontradas, da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena brasileira existente em 1500, todavia os dados populacionais do in\u00edcio do s\u00e9culo s\u00e3o bastante significativos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O articulado processo de substitui\u00e7\u00e3o cultural estava atrelado, com la\u00e7os finos, \u00e0 compreens\u00e3o da l\u00edngua falada pelos povos \u00e1grafos do litoral brasileiro. Sem d\u00favida<em> <\/em>que a ancoragem ling\u00fc\u00edstica possibilitou, num primeiro momento, compreender os<em> <\/em>mundos m\u00edticos, em seguida, desmoralizar e, finalmente, substituir. Contudo, ocorreu lentamente, em virtude<em> <\/em>das dificuldades de compreens\u00e3o das muitas l\u00ednguas e tamb\u00e9m pelo limitado n\u00famero de europeus que se arriscavam ao contato direto com os ind;igenas.<\/p>\n<p>A partir dessa leitura,<em> <\/em>\u00e9 mais f\u00e1cil compreender por que somente no in\u00edcio do s\u00e9culo 18 estava consolidada a marcha do processo de substitui\u00e7\u00e3o. Nesse conjunto complexo de rela\u00e7\u00f5es entre o elemento colonizador e o \u00edndio, ficou claro a import\u00e2ncia do paj\u00e9 como principal alicerce de muitos grupos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Considerando o fato da presen\u00e7a de poucos m\u00e9dicos europeus, at\u00e9 o s\u00e9culo 18, e que o elemento colonizador registrou o medo coletivo das desconhecidas doen\u00e7as tropicais, o paj\u00e9, sabedor dos mist\u00e9rios da sobreviv\u00eancia, exerceu papel importante nas primeiras aproxima\u00e7\u00f5es do colonizador em terras brasileiras. Tornou-se evidente, logo nos momentos iniciais, que o paj\u00e9 oferecia tratamentos mais eficazes, se comprados aos do cirurgi\u00e3o\u2011barbeiro medieval.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o colonial, os europeus constataram que as solu\u00e7\u00f5es dadas pelos paj\u00e9s eram muito mais eficazes e simples do que as sangrias, os purgativos e os vomit\u00f3rios dos cirurg\u00f5es\u2011barbeiros.<\/p>\n<p>Os motivos da aten\u00e7\u00e3o colonial ao paj\u00e9 podem ser agrupados em quatro fatores:<\/p>\n<p>&#8211; Os aspectos ex\u00f3ticos e eficazes do tratamento do paj\u00e9 nas feridas de guerra;<\/p>\n<p>&#8211; O aproveitamento dos m\u00e9todos aprendidos para tratar as pr\u00f3prias doen\u00e7as, j\u00e1 que n\u00e3o tinham qualquer outra alternativa dispon\u00edvel;<\/p>\n<p>&#8211; A associa\u00e7\u00e3o feita entre as fun\u00e7\u00f5es do paj\u00e9 e a do m\u00e9dico europeu;<\/p>\n<p>&#8211; A certeza pol\u00edtica de que o poder concentrado no paj\u00e9 deveria ser destru\u00eddo, a qualquer custo, para que a domina\u00e7\u00e3o e a substitui\u00e7\u00e3o cultural fossem efetivadas.<\/p>\n<p>De modo geral, o europeu se interessou em conhecer as raz\u00f5es pelas quais os \u00edndios tinham tanta sa\u00fade e n\u00e3o sofriam das mazelas conhecidas e temidas na Europa. Esse fato se mostrou claro na invas\u00e3o holandesa. O m\u00e9dico holand\u00eas Guilherme Piso, vindo na comitiva do Conde Maur\u00edcio de Nassau, que n\u00e3o nutria rancores e preconceitos como os portugueses registrou a sabedoria dos paj\u00e9s:<\/p>\n<p><em>De sorte que daqui se pode ver a uniformidade com que os povos, embora ignorantes e de nenhuma letra, exercem a Medicina conosco. Conservam t\u00e3o arraigados os preceitos de cura transmitidos tradicionalmente de m\u00e3o em m\u00e3o, que h\u00e3o de sofrer antes a morte do que abandonar as suas opini\u00f5es nesta mat\u00e9ria. <\/em><\/p>\n<p>Quanto ao \u00faltimo fator, os registros s\u00e3o bastante mais expl\u00edcitos e precoces. A inten\u00e7\u00e3o colonial de substituir os valores do paj\u00e9 est\u00e1 clara, desde o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A leitura das fontes prim\u00e1rias mostra que a sa\u00fade dos tupis, apesar de ter despertado grande interesse no conquistador, n\u00e3o foi o assunto sobre que eles mais escreveram. Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel tirar algumas informa\u00e7\u00f5es de como se passava a compreens\u00e3o da doen\u00e7a entre eles, com a ajuda<em> <\/em>das narrativas feitas pelos cronistas e viajantes que relataram sobre a guerra, a antropofagia, a religi\u00e3o, os mitos e o papel social do paj\u00e9. O valor hist\u00f3rico das narrativas sofreu diferentes influ\u00eancias que variaram com a \u00e9poca em que foi assinalada a observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto ao valor das fontes, parece existir certa diferencia\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fidelidade dos eventos. Apesar das dificuldades conceituais que envolvem at\u00e9 hoje a palavra sa\u00fade a partir dos primeiros relatos, \u00e9 poss\u00edvel buscar, nos conhecimentos da sociedade tupinamb\u00e1, alguns aspectos importantes para compreender me\u00adlhor<em> <\/em>como esses grupos entendiam e tratavam as doen\u00e7as.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Esses documentos do colonizador que nos deram not\u00edcias da vida dos tupinamb\u00e1s foram feitos na chegada dos portugueses:<\/p>\n<p>&#8211; A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manoel, datada de 1.<sup>0<\/sup> de maio de 1500, escrita de Porto Seguro;<\/p>\n<p>&#8211; A carta do bacharel mestre Jo\u00e3o ao rei D. Manoel com a mesma data. Nesse documento, o cirurgi\u00e3o do rei, que estava doente com \u00falcera na perna, tratou, unicamente, de justificar por que tinha feito pouco. O primeiro m\u00e9dico a pisar as terras brasileiras somente descreveu a sua pr\u00f3pria doen\u00e7a e se limitou a montar o astrol\u00e1bio na praia e determinou a latitude de 17 graus austrais. A sua habilidade de cirurgi\u00e3o\u2011barbeiro da corte portuguesa n\u00e3o teve qualquer utilidade nos poucos dias que a esquadra passou em Porto Seguro;<\/p>\n<p>&#8211; O relato da viagem de ida e volta da frota de Pedro \u00c1lvares Cabral feito por um piloto an\u00f4nimo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Nos quatro s\u00e9culos que se seguiram a esses relatos, muita desgra\u00e7a e destrui\u00e7\u00e3o atingiram as sociedades tupinamb\u00e1s. Elas foram extintas com tamanha viol\u00eancia e rapidez que<em> <\/em>\u00e9 dif\u00edcil avaliar com exatid\u00e3o a grandeza do genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel fazer estimativa aproximada da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena da Am\u00e9rica nos primeiros dec\u00eanios de coloniza\u00e7\u00e3o. A Escola de Berkeley,<em> <\/em>uma das pioneiras nesse estudo, apresenta n\u00fameros impressionantes do desastre demogr\u00e1fico dos povos americanos durante os s\u00e9culos 16 e 17.<\/p>\n<p>\u00c9 reconhecido que determinado grupo social pode ser extinto, principalmente por meio de dois mecanismos: pela assimila\u00e7\u00e3o inconseq\u00fcente dos seus membros dos novos valores da sociedade dominante e pela morte dos seus membros.<\/p>\n<p>Na estrat\u00e9gia do processo de substitui\u00e7\u00e3o cultural, promovida pelo elemento colonizador, a destrui\u00e7\u00e3o moral e f\u00edsica do paj\u00e9 assumiu o car\u00e1ter priorit\u00e1rio na conquista. O paj\u00e9, nas sociedades ind\u00edgenas, era muit\u00edssimo mais do que um simples curador e, por isso mesmo, era respeitado e temido, como bem assinalaram os cronistas. Ele tamb\u00e9m detinha o conhecimento historicamente acumulado, passado entre as gera\u00e7\u00f5es, sustent\u00e1culo da<em> <\/em>coes\u00e3o social, capaz de interpretar a hora adequada da nova guerra, preservar o equil\u00edbrio populacional, a hora do plantio e da colheita, as migra\u00e7\u00f5es e as expedi\u00e7\u00f5es de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma pequena avalia\u00e7\u00e3o do que aconteceu aos \u00edndios, na costa sudeste brasilei\u00adra, pode ser sentida a partir dos estudos setoriais de alguns grupos que foram acompanhados, no s\u00e9culo 20. Os padres dominicanos calcularam a popula\u00e7\u00e3o Kayap entre seis e oito mil pessoas em 1903. Em 1918, estavam reduzidos a quinhentos; em 1929, apenas 27.<em> <\/em><\/p>\n<p>Em poucos anos, os tupinamb\u00e1s passaram de uma gente parda, vistosa, ba\u00e7a e bem disposta, provavelmente com milh\u00f5es de pessoas saud\u00e1veis desfrutando de um universo sociocultural pr\u00f3prio e vigoroso, para algumas centenas de caribocas perdidos,<em> <\/em>doentes e sem mem\u00f3ria que sobrevivem na esteia de uma sociedade que continuam sem compreender.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pair, paj\u00e9 ou xam\u00e3?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 interessante o rumo europeu que tomou a nomina\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 na literatura especializada. Recentemente, foi introduzida a palavra xam\u00e3 como sin\u00f4nimo de paj\u00e9. Em realidade, esse termo est\u00e1 associado \u00e0s pr\u00e1ticas religiosas asi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O voc\u00e1bulo xam\u00e3 teria a sua raiz etimol\u00f3gica do s\u00e2nscrito <em>ramanas<\/em> = asceta com o sufixo <em>ismo<\/em> e de <em>xaman<\/em> = esconjurador,<em> <\/em>exorcista,<em> <\/em>tamb\u00e9m usado pelos tungues,<em> <\/em>povo da Sib\u00e9ria Ocidental,<em> <\/em>al\u00e9m de referir a poss\u00edvel associa\u00e7\u00e3o do xamanismo com o budismo a partir da semelhan\u00e7a entre as palavras s\u00e2nscrita, <em>ramana<\/em>;<em> <\/em>em pali,<em> xa\u2011man<\/em> e em chin\u00eas, <em>ximan<\/em>.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel identificar<em> <\/em>certa confus\u00e3o na literatura entre as figuras sociais do paj\u00e9 e a do xam\u00e3.<em> <\/em>Essa situa\u00e7\u00e3o pode ter sido resultante da introdu\u00e7\u00e3o da palavra xam\u00e3 nos trabalhos publicados sobre os \u00edndios, das Am\u00e9ricas, por alguns antrop\u00f3logos e etn\u00f3logos europeus. \u00c9 interessante ressaltar que essa identifica\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 com o xam\u00e3 asi\u00e1tico \u00e9<em> <\/em>encontrada com maior assiduidade nos escritos do nosso s\u00e9culo. Os cronistas e viajantes do per\u00edodo colonial s\u00f3 utilizaram a palavra paj\u00e9.<\/p>\n<p>Todos os que estudaram as fun\u00e7\u00f5es sociais do paj\u00e9 confirmam que a maior parte do seu poder m\u00e9dico-m\u00edtico est\u00e1 assentado na sua capacidade de comunica\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito dos mortos. Este fato, certamente, contribuiu para alimentar a associa\u00e7\u00e3o com o xam\u00e3 asi\u00e1tico. Ambos, para concretizar as suas pr\u00e1ticas estabelecem estreita intimidade com os mortos<em> <\/em><\/p>\n<p>Parece que a rela\u00e7\u00e3o de intimidade que os \u00edndios pareciam ter com os esp\u00edritos n\u00e3o era exclusivo do paj\u00e9. Nesse sentido, outros membros do grupo eram capazes de estabelecer certo tipo de liga\u00e7\u00e3o com os mortos, por\u00e9m<em> <\/em>somente os paj\u00e9s eram detentores do poder da intimidade com os esp\u00edritos mais importantes e capazes de modificar os acontecimentos.<em> <\/em><\/p>\n<p>Entre os paj\u00e9s existiam alguns que eram mais poderosos,<em> <\/em>sendo capazes de se comunicar com esp\u00edritos e determinar maior n\u00famero de previs\u00f5es e de curas. Talvez aqui ocorra algo parecido com a hierarquiza\u00e7\u00e3o do sagrado. A partir desse escalonamento em fun\u00e7\u00e3o da compet\u00eancia, fica mais f\u00e1cil estabelecer o valor simb\u00f3lico de cada elemento que comp\u00f5e o conjunto social.<\/p>\n<p>Mesmo com toda a desestrutura\u00e7\u00e3o cultural sofrida pelos diferentes<em> <\/em>grupos ind\u00edgenas,<em> <\/em>\u00e9 poss\u00edvel verificar que, nos grupos ind\u00edgenas mais resistentes \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, restam vest\u00edgios da tradi\u00e7\u00e3o oral dos mitos cosmog\u00f4nicos mais antigos, ainda que com sinais do sincretismo crist\u00e3o,<em> <\/em>pois os paj\u00e9s continuam exercendo a sua complexa fun\u00e7\u00e3o no equil\u00edbrio social.<em> <\/em><\/p>\n<p>A linguagem dos padres salesianos que trabalharam no Alto Rio Negro, no Amazonas, at\u00e9 os anos 1970, quase quinhentos anos desde o in\u00edcio do processo de substitui\u00e7\u00e3o cultural, ao abordar <em>a origem das doen\u00e7as,<\/em> continua distante do majestoso universo da pajelan\u00e7a e oferece, sob a linguagem crist\u00e3, uma id\u00e9ia da dimens\u00e3o da trag\u00e9dia dos povos ind\u00edgenas:<\/p>\n<p><em>Seus conhecimentos neste setor ficaram prejudicados pela magia e supersti\u00e7\u00e3o. Embora a natureza que o rodeia lhe seja pr\u00f3diga, o ind\u00edgena quase n\u00e3o usa rem\u00e9dios caseiros, pelo conceito que faz das doen\u00e7as, sob a influ\u00eancia do xam\u00e3 ou paj\u00e9.<\/em><\/p>\n<p>Longe das corredeiras do Alto Rio Negro, outros antrop\u00f3logos que analisaram parte do mundo cosmog\u00f4nico dos Yawalapti do Alto Xingu na rela\u00e7\u00e3o entre os \u00edndios e os esp\u00edritos,<em> <\/em>concluiu que n\u00e3o<em> <\/em>\u00e9 poss\u00edvel estabelecer relacionamento entre o conceito de doen\u00e7a dos brancos com o deles:<\/p>\n<p><em>Duas figuras da sociedade humana mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o especial com os apapalutapa: os xam\u00e3s e os feiticeiros&#8230; <\/em><\/p>\n<p>De modo semelhante, o registro da transforma\u00e7\u00e3o que resultou no desaparecimento dos paj\u00e9s entre os Tapirap\u00e9 desde a sua primeira visita ao grupo, em 1935, e as \u00faltimas not\u00edcias recebidas, em 1963, evidenciaram a riqueza cultural da pajelan\u00e7a:<\/p>\n<p><em>O que eu, em 1935, consegui averiguar acerca do xam\u00e3 tapirap mostrava\u2011o, principalmente, como defensor da comunidade contra os maus esp\u00edri\u00adtos. Digno de destaque o fato de que ele, representante duma tribo t\u00e3o avessa \u00e0s a\u00e7\u00f5es b\u00e9licas na terra, tornava\u2011se t\u00e3o combativo nas viagens ao c\u00e9u&#8230; Al\u00e9m disso, o xam\u00e3 tinha de saber sonhar para, em sonho, poder empreender as grandes excurs\u00f5es \u00e0s regi\u00f5es terrestres e celestes a fim de localizar aglomera\u00e7\u00f5es de ca\u00e7a, conhecer outros fatos interessantes para a vida da comunidade e trazer esp\u00edritos de crian\u00e7as. O mais espetacular dessas viagens era a que se realizava anualmente at\u00e9 a casa do Trov\u00e3o, na \u00e9poca em que violentas tempestades com chuvas amea\u00e7avam as novas planta\u00e7\u00f5es&#8230; As \u00faltimas informa\u00e7\u00f5es sobre os Tapirap me foram dadas em 1963&#8230; Nem praticavam mais atos xam\u00e2nicos nem intoxica\u00e7\u00e3o pelo fumo, para cair em transe. Chamavam de bobagem a cerim\u00f4nia do Trov\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p>Em<em> <\/em>1986, as principais ag\u00eancias de not\u00edcias divulgaram com ampla publicidade a pajelan\u00e7a feita pelos caciques Raoni e Sepain no pesquisador Augusto Ruschi. Esse acontecimento n\u00e3o teria tido a mesma dimens\u00e3o sem o apoio expl\u00edcito de autoridades p\u00fablicas. Foi essa interfer\u00eancia de car\u00e1ter pol\u00edtico que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o dos correspondentes internacionais. O jornal <em>Liberation<\/em> na sua edi\u00e7\u00e3o de 28 de janeiro, do mesmo ano, estampou em reportagem de p\u00e1gina inteira:<\/p>\n<p><em>Augusto Ruschi, 70, ornit\u00f3logo, de renome mundial, parece estar condenado. <\/em><em>A origem da sua doen\u00e7a \u00e9 incur\u00e1vel, mordida de um sapo \u00e9 a causa. Para salvar o naturalista, o presidente brasileiro apela aos paj\u00e9s, que far\u00e3o o milagre. <\/em><\/p>\n<p>O ornit\u00f3logo j\u00e1 estava, \u00e0quela \u00e9poca, gravemente enfermo com cirrose hep\u00e1tica e insufici\u00eancia renal. Ele pr\u00f3prio explicava que a sua doen\u00e7a teria come\u00e7ado, dez anos antes, nas suas andan\u00e7as amaz\u00f4nicas, quando teria sido inoculado com o veneno do sapo dendropata.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de pessoas, em todo o mundo, viram as imagens pela televis\u00e3o, do cacique, no papel de paj\u00e9, soprando a fuma\u00e7a de tabaco e fazendo gestos invocativos aos esp\u00edritos dos mortos para ajudar na cura do grande naturalista. A pajelan\u00e7a durou alguns dias e n\u00e3o conseguiu mudar o curso da doen\u00e7a e o inesquec\u00edvel Ruschi morreu, algumas semanas depois, num centro de tratamento intensivo em Vit\u00f3ria do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>As sociedades cient\u00edficas divulgaram notas explicativas assegurado que o sapo do g\u00eanero <em>Dendropates<\/em> n\u00e3o \u00e9 capaz de provocar qualquer tipo de les\u00e3o hep\u00e1tica. Por outro lado, esses animais possuem gl\u00e2ndulas subcut\u00e2neas que secretam alcal\u00f3ides e causam somente pequenas queimaduras na pele quando permanecem em contato.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio em torno do sofrimento do grande cientista, que durou alguns dias, ficou publicamente exposto que a pajelan\u00e7a vista por milh\u00f5es de pessoas, nos muitos canais de televis\u00e3o, representou uma reconstru\u00e7\u00e3o do antigo poder do paj\u00e9.<\/p>\n<p>Essa reconstru\u00e7\u00e3o adotou a substitui\u00e7\u00e3o do termo paj\u00e9 como sin\u00f4nimo de chamam. Esse equ\u00edvoco, igualando o paj\u00e9 ao chamam, tem sido a regra. As fontes prim\u00e1rias identificaram o paj\u00e9:<\/p>\n<p><em>\u00c9 o m\u00e9dico, o conselheiro da tribo, o padre, o feiticeiro, o deposit\u00e1rio autorizado da ci\u00eancia tradicional. Paj\u00e9 n\u00e3o \u00e9 qualquer. S\u00e3o os fortes do cora\u00e7\u00e3o, os que sabem superar as provas de inicia\u00e7\u00e3o, que t\u00eam o f\u00f4lego necess\u00e1rio para ser paj\u00e9. <\/em><\/p>\n<p>Os estudos lingu\u00edsticos identificaram algumas palavras que est\u00e3o diretamente ligadas ao que o elemento colonizador entendeu o paj\u00e9: <em>Pagi, Pay, Payni, Pai, Pa, Piaec, Piach, Pantch. <\/em>Todas s\u00e3o formadas etnologicamente estruturadas a partir da ra\u00edz pa\u2011y ou aquele que diz fim ou profeta.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rias express\u00f5es de origem tupi para designar esse extraordin\u00e1rio personagem que exercia, durante os primeiros s\u00e9culos da coloniza\u00e7\u00e3o, entre os tupinamb\u00e1s, tamanha import\u00e2ncia entre os grupos ind\u00edgenas, inclusive o dom\u00ednio das pr\u00e1ticas das curas.De modo muito especial, o relevante destaque do paj\u00e9 n\u00e3o se restringia \u00e0 cura das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia que ele desfrutava chamou imediatamente a aten\u00e7\u00e3o do colonizador, porque, apesar de n\u00e3o ser o chefe maior, ele era primeiramente temido pelos seus poderes de provocar e bem ou o mal. Dessa maneira, o grupo obedecia-lhe e respeitava-o, sendo as suas ordens acatadas. Certamente, essa import\u00e2ncia social, com os anos,<em> <\/em>passou a ser a principal raz\u00e3o pela qual as hierarquias eclesi\u00e1stica e leiga<em> <\/em>identificaram o paj\u00e9 como um dos mais importantes pilares<em> <\/em>a serem destru\u00eddos, como a base do processo de substitui\u00e7\u00e3o cultural. Por outro lado, o conjunto<em> <\/em>europeu rec\u00e9m-chegado passava a avaliar a sociedade tribal com os mesmos olhos e ide\u00e1rio de onde estava vindo.<\/p>\n<p>As palavras do grande jesu\u00edta Anchieta, o conflito de compet\u00eancia entre os poderes da Igreja e do paj\u00e9 est\u00e1 absolutamente expl\u00edcito:<\/p>\n<p><em>J\u00e1 n\u00e3o ousas agora servir\u2011te de teus artif\u00edcios, perverso feiticeiro, entre povos que seguem a doutrina de Cristo: j\u00e1 n\u00e3o podes com m\u00e3os mentirosas esfregar membros doentes, nem com l\u00e1bios imundos chupar as partes do corpo que os frios terr\u00edveis enregelaram, nem as v\u00edsceras que ardem de febre, nem as lentas podagras nem os l\u00e1bios inchados. <\/em><\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas m\u00e9dicas coloniais, unindo as rela\u00e7\u00f5es-m\u00e9dico-m\u00edticas e o dom terap\u00eautico dos santos crist\u00e3os, assumiram grande destaque na estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o do colonizador.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia social do paj\u00e9 tupinamb\u00e1, estruturada na suposta possibilidade de ele poder se comunicar com os esp\u00edritos, interpretada como manifesta\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio por v\u00e1rios viajantes, durante os s\u00e9culos 16 e 18, e por esse motivo deveria ser duramente reprimida: Gabriel Soares de Souza, Claude d&#8217;Abbeville, Frei Vicente do Salvador, Andr\u00e9 Thevet, Maur\u00edcio de Heriarte e o jesu\u00edta Jo\u00e3o Daniel.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o existem muitos registros de como era a forma\u00e7\u00e3o do paj\u00e9. As descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o insuficientes para que se possa avaliar com maior seguran\u00e7a o processo que culminava na consolida\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es do paj\u00e9 com o seu grupo social. \u00c9 poss\u00edvel que a ascens\u00e3o do iniciante se desse de v\u00e1rios modos, entretanto pelos relatos dos cronistas que tratam do assunto, os paj\u00e9s tinham, antes de mais nada, que mostrar compet\u00eancia no desempenho das suas fun\u00e7\u00f5es m\u00e9dico\u2011m\u00edticas, ter \u00eaxito no tratamento de determinadas doen\u00e7as, fazer previs\u00e3o do tempo e das colheitas, antever acontecimentos importantes relacionados com as guerras.<\/p>\n<p>Como a figura do paj\u00e9 era de grande import\u00e2ncia na sociedade tupinamb\u00e1, os europeus, al\u00e9m de terem percebido este fato, muito rapida\u00admente tiveram a certeza da absoluta necessidade de destru\u00ed\u2011lo. Esta certeza \u00e9 da maior import\u00e2ncia porque sobre ela se fundamentou parte do processo de substitui\u00e7\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es em torno da sa\u00fade e das doen\u00e7as dos \u00edndios pelas dos colonizadores.<\/p>\n<p>Era o poder concentrado nas m\u00e3os do paj\u00e9 que intermediava as for\u00e7as da natureza com o conjunto social ind\u00edgena. Para os crist\u00e3os era imposs\u00edvel conviver com essa realidade, porque se chocava com tudo quanto carregavam da ordem feudal e, principalmente, da hierarquia eclesi\u00e1stica. Dessa forma, a maior parte da vigil\u00e2ncia de dissuas\u00e3o colonial esteve voltada para a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica e moral do paj\u00e9 e de todos os s\u00edmbolos ligados \u00e0 pajelan\u00e7a. Existem v\u00e1rias comprova\u00e7\u00f5es que mostram o quanto a cruz e a espada atuaram, conjuntamente, na substitui\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias dos povos ind\u00edgenas. A maior parte delas, mesmo reconhecendo a utilidade social, faz absoluta quest\u00e3o de assinalar o inadmiss\u00edvel poder concentrado no paj\u00e9 como o pior dos males da organiza\u00e7\u00e3o social<em> <\/em>aut\u00f3ctone.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que, na comunica\u00e7\u00e3o empregada pelo conquistador para ocupar os novos espa\u00e7os, o papel instrumental das mem\u00f3rias obteve grande import\u00e2ncia nas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as na nova ordem que se instalava. Al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que estavam atuantes entre as culturas do branco e do \u00edndio na luta pela conquista<em> <\/em>do espa\u00e7o, existiu tamb\u00e9m a intera\u00e7\u00e3o da utilidade que os novos conhecimentos estavam tendo para os elementos dos dois grupos oponentes.<\/p>\n<p>Considerar somente<em> <\/em>as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as, por si mesmas, \u00e9 insuficiente para determinar mudan\u00e7as significativas no conjunto social. Por outro lado, se estiverem associadas \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es sociais das aspira\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, as transforma\u00e7\u00f5es e substitui\u00e7\u00f5es ser\u00e3o duradouras e, em muitos casos, irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>De igual modo, n\u00e3o h\u00e1 como negar que, se os paj\u00e9s n\u00e3o tivessem sustentado tanta compet\u00eancia para identificar e resolver os problemas sociais dos respectivos grupos, ao longo de milhares de anos,<em> <\/em>n\u00e3o teriam desfrutado do imenso prest\u00edgio identificado pelos viajantes.<\/p>\n<p>Assim, os saberes dos paj\u00e9s n\u00e3o ficavam restritos \u00e0 cura das doen\u00e7as, mas principalmente ao extraordin\u00e1rio saber historicamente acumulado da natureza circundante.<\/p>\n<p>O emprego da palavra <em>cara\u00edba<\/em> como sin\u00f4nimo de paj\u00e9, entre os colonizadores, traduz modifica\u00e7\u00f5es ling\u00fc\u00edsticas, na trama entre os saberes dos \u00edndios e dos brancos, nascidas a partir de algumas caracter\u00edsticas da vida dos homens e mulheres portadores do dom e, por outro lado, tem import\u00e2ncia na an\u00e1lise das fases ora em conflito, ora em coopera\u00e7\u00e3o entre a Medicina e a religi\u00e3o, no per\u00edodo colonial brasileiro, onde ambas lutam na demonstra\u00e7\u00e3o da maior compet\u00eancia para empurrar os limites da vida e evitar a morte prematura.<\/p>\n<p>A atitude<em> <\/em>das m\u00e3es<em> <\/em>em fugir com os filhos para a floresta com medo do batismo,<em> <\/em>que causava sofrimento,<em> <\/em>pode ter sido<em> <\/em>o resultado do trabalho do paj\u00e9,<em> <\/em>fomentando a resist\u00eancia, ao chamar aten\u00e7\u00e3o do grupo para<em> <\/em>a liga\u00e7\u00e3o<em> <\/em>que<em> <\/em>existia entre a morte dos menores e<em> <\/em>a<em> <\/em>chegada<em> <\/em>do branco.<\/p>\n<p>Dessa forma, as palavras que designam o poder m\u00e1gico do paj\u00e9 est\u00e3o relacionadas com mist\u00e9rio envolvendo pessoas e coisas. Sob essa perspectiva, o termo <em>mair<\/em> est\u00e1 relacionado com as primitivas designa\u00e7\u00f5es que os tupinamb\u00e1s deram aos brancos.<\/p>\n<p>Os primeiros viajantes tamb\u00e9m deixaram clara essa m\u00faltipla leitura dos termos <em>mair<\/em>, <em>cara\u00edba<\/em> e <em>paj\u00e9<\/em>. Independente da designa\u00e7\u00e3o recebida, esses elementos humanos muito especiais para os silv\u00edcolas eram dotados, sem d\u00favida, do dom de curar e empurrar os limites da vida e, dessa forma, tornaram-se o alvo principal do ataque da nova ordem pol\u00edtico-religiosa.<\/p>\n<p>O modo recluso de viver dos paj\u00e9s, associado com alguma coisa misteriosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a entre os outros membros da tribo, inclusive o tipo da habita\u00e7\u00e3o, descrita em v\u00e1rios autores, em per\u00edodos diferentes do processo colonial, de algum modo fortaleceu a proposi\u00e7\u00e3o \u00e9tnico\u2011cultural de colonizador para destruir o universo m\u00e9dico\u2011m\u00edtico dos povos aut\u00f3ctones.<\/p>\n<p>O<em> <\/em>padre curador, int\u00e9rprete e agente da nova ordem,<em> <\/em>traduziu o mesmo fato<em> <\/em>sob<em> <\/em>a<em> <\/em>\u00f3tica colonial e iniciou<em> <\/em>a deturpada associa\u00e7\u00e3o de <em>cara\u00edba<\/em> com crist\u00e3o, j\u00e1 que os ind\u00edgenas estavam chamando <em>cara\u00edba<\/em> aos pequenos<em> <\/em>\u00edndios mortos depois de receberem os sacramentos crist\u00e3os. Talvez esse fato tenha resultado nas m\u00faltiplas associa\u00e7\u00f5es ling\u00fc\u00edsticas em torno da identifica\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 que persistiram, pelo menos, at\u00e9 a invas\u00e3o holandesa.<\/p>\n<p>Essa leitura torcida,<em> <\/em>dando<em> <\/em>\u00e0<em> <\/em>palavra <em>cara\u00edba <\/em>o sentido de crist\u00e3o, continuou sendo reproduzida como coisa sagrada e<em> <\/em>coisa<em> <\/em>santa,<em> <\/em>na edi\u00e7\u00e3o de 1859<em> <\/em>da<em> Chrestomathia da L\u00edngua Braz\u00edlica<\/em>.<em> <\/em>\u00c9 significativa<em> <\/em>a<em> <\/em>antinomia da intencionalidade do silv\u00edcola,<em> <\/em>que sentiu a morte dos seus<em> <\/em>filhos<em> <\/em>depois<em> <\/em>de receberem<em> <\/em>o<em> <\/em>batismo.<\/p>\n<p>Contudo, no curso do processo colonial, quando<em> <\/em>os<em> <\/em>silv\u00edcolas perceberam que, como<em> <\/em>eles, o<em> <\/em>europeu tamb\u00e9m adoecia e morria, conclu\u00edram que n\u00e3o tinham nada de sagrado e<em> <\/em>passaram<em> <\/em>a<em> <\/em>associ\u00e1-lo com outro ser m\u00edtico \u00be<em> <\/em>mair \u00be<em> <\/em>pouco respeitado.<em> <\/em><\/p>\n<p>Os s\u00e9culos passaram e a principal estrat\u00e9gia colonizadora \u00be a desmoraliza\u00e7\u00e3o do paj\u00e9 frente ao padre curador \u00be, representante da Medicina-divina crist\u00e3, continua ressoando forte, como ondas centr\u00edfugas na superf\u00edcie de um lago chegando tardiamente \u00e0 margem, depois de lan\u00e7ada a primeira pedra, ainda no papado de Greg\u00f3rio I. Apesar disso a resist\u00eancia cultural foi mantida em pequenos grupos que moravam longe da costa, ou que fugiram em dire\u00e7\u00e3o ao sert\u00e3o e, por essas raz\u00f5es, tiveram o contato retardado com os brancos.<\/p>\n<p>A<em> <\/em>conquista crist\u00e3 do Rio Negro, no Amazonas j\u00e1 esteve sob<em> <\/em>a \u00e9gide dos franciscanos, jesu\u00edtas, carmelitas,<em> <\/em>merced\u00e1rios e capuchinos. A<em> <\/em>Prelazia<em> <\/em>do Rio Negro,<em> <\/em>sob a<em> <\/em>atual<em> <\/em>responsabilidade<em> <\/em>da Ordem Salesiana, em 1965, comemorou cinq\u00fcenta anos de atividades<em> <\/em>mission\u00e1rias, quando exp\u00f4s a for\u00e7a hist\u00f3rica do paj\u00e9:<\/p>\n<p><em>Na realidade o paj\u00e9 interv\u00e9m na vida dos indiv\u00edduos desde o nascimento at\u00e9 a morte. Donde se deduz toda a import\u00e2ncia social do paj\u00e9, e o respeito e temor que o envolvem da parte de todos os \u00edndios, n\u00e3o s\u00f3 da pr\u00f3pria tribo, como das outras tribos tamb\u00e9m. Talvez o maior sacrif\u00edcio que a catequese cat\u00f3lica imp\u00f5e aos ind\u00edgenas crist\u00e3os seja a ren\u00fancia na cren\u00e7a no poder do paj\u00e9. Em alguns casos s\u00f3 o consegue parcialmente<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>LEITURA COMPLEMENTAR <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ANCHIETA, Jos\u00e9 de. <em>De Gestis Mendi De Saa<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola. 1986.<\/p>\n<p>BEOZZO, Jos\u00e9 Oscar. <em>Leis e regimentos das Miss\u00f5es<\/em>: <em>pol\u00edtica Indigenista no Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola. 1993.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. Epidemias: a humanidade contra o medo da dor e da morte.\u00a0 Manaus. Valer. 2009.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Hist\u00f3ria da Medicina: da abstra\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade<\/em>. 2a. ed. Manaus. Valer. 2011.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Medicina e religi\u00e3o<\/em>: conflito de compet\u00eancia. 2\u00aa Ed. Manaus. Valer. 2006.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Os limites da cura<\/em>. S\u00e3o Paulo. Plexus. 1998.<\/p>\n<p>CARDIM, Fern\u00e3o. <em>Tratados da Terra e Gente do Brasil<\/em>. Belo Horizonte: Itatiaia. 1980.<\/p>\n<p>GOMES, Ordival<em> <\/em>Cassiano. <em>Hist\u00f3ria da medicina no Brasil no s\u00e9culo XVI<\/em>.<em> <\/em>Rio de Janeiro: Aurora. 1974.<em> <\/em><\/p>\n<p>MARTINS, Edilson. <em>Nossos \u00edndios, nossos mortos<\/em>. <em>S\u00e3o Paulo<\/em>: <em>C\u00edrculo do Livro<\/em>. <em>1978<\/em>.<\/p>\n<p>METRAUX, A. <em>A religi\u00e3o dos tupinamb\u00e1s<\/em>. S\u00e3o Paulo: Nacional.<em> <\/em>1977.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 &nbsp; Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas no Brasil colonial &nbsp; \u00a0 Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho \u00a0 A presen\u00e7a da Medicina portuguesa, no s\u00e9culo 17, no Brasil-col\u00f4nia &nbsp; A Medicina, em Portugal, come\u00e7ou a ser ensinada no Mosteiro de Santa Cruz, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=319\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-319","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=319"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2236,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/319\/revisions\/2236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}