{"id":321,"date":"2012-03-18T15:15:53","date_gmt":"2012-03-18T19:15:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=321"},"modified":"2016-03-06T09:46:19","modified_gmt":"2016-03-06T13:46:19","slug":"praticas-medicas-no-periodo-greco-romano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=321","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas no per\u00edodo greco-romano"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas no per\u00edodo greco-romano<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de as praticas m\u00e9dicas, na Gr\u00e9cia e Roma antigas, mostrarem alguns aspectos de continuidade, em muitos outros guardas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que sofreram ajustes importantes aos movimentos sociais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Dessa forma, os dois ser\u00e3o considerados separadamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gr\u00e9cia <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o grega antiga tem as suas ra\u00edzes nas invas\u00f5es da pen\u00ednsula it\u00e1lica pelos indo-europeus, no segundo mil\u00eanio a. C. No s\u00e9culo 8 a. C., chegam a essa regi\u00e3o os regos, cartagineses e etruscos, povos mais adiantados em rela\u00e7\u00e3o aos primeiros invasores.<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos 8 e 6 a. C. v\u00e1rias cidades s\u00e3o organizadas, contudo Atenas e Esparta se destacam com melhor organiza\u00e7\u00e3o social. Por essa raz\u00e3o, o confronto armado entre elas, a guerra do Peloponeso, no s\u00e9culo 5 a. C., tornou-se inevit\u00e1vel e contribuiu para enfraquec\u00ea-las.<\/p>\n<p>Em 359 a. C., Filipe da Maced\u00f4nia, com 23 anos de idade, frente a um numeroso ex\u00e9rcito organizado, conquistou todas as cidades gregas. Com a base grega consolidada, seu filho Alexandre, o Grande, iniciou a anexa\u00e7\u00e3o militar do imenso Imp\u00e9rio persa.<\/p>\n<p>De modo geral \u00e9 poss\u00edvel estabelecer quatro per\u00edodos na Medicina grega antiga:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Primeiro per\u00edodo ou mitol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais abundante entre os s\u00e9culos 10 e 7 a. C. e foi caracterizado pela ess\u00eancia mitol\u00f3gica, na qual os numerosos deuses do pante\u00e3o grego s\u00e3o os respons\u00e1veis pela sa\u00fade e pela doen\u00e7a dos homens e das mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Segundo per\u00edodo ou filos\u00f3fico<\/strong><\/p>\n<p>Inicialmente, liderado pelos fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos, teve o marco fixado no s\u00e9culo 6 a.C., quando foi iniciada a dissocia\u00e7\u00e3o entre a Medicina e as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas.<\/p>\n<p><strong>Terceiro per\u00edodo ou hipocr\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desenvolveu-se em torno de Hip\u00f3crates e dos seus seguidores, no s\u00e9culo 4 a. C., na ilha de C\u00f3s, quando foi descrita a primeira teoria geral \u00be teoria dos Quatro Humores \u00be para explicar a sa\u00fade e a doen\u00e7a, representando a consolida\u00e7\u00e3o da ruptura da Medicina com os deuses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quarto per\u00edodo ou p\u00f3s-hipocr\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est\u00e1 relacionado com o surgimento das correntes m\u00e9dico-filos\u00f3ficas, em Alexandria, logo ap\u00f3s a morte de Hip\u00f3crates, no ano 377 a. C., que defendiam o dogmatismo e o empirismo.<\/p>\n<p><strong>Primeiro per\u00edodo ou mitol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A maior caracter\u00edstica do pante\u00e3o grego, dessa fase, \u00e9 o car\u00e1ter humano dos seus deuses, isto \u00e9, al\u00e9m de antropom\u00f3rficas, as divindades eram materializadas como as mais bonitas, mais fortes, mais apaixonadas, mais viris do que os humanos, sempre encarregados de proteger tudo e todos em setores espec\u00edficos da visa social.<\/p>\n<p>Entre as centenas de deidades, os relacionados com a sa\u00fade e a doen\u00e7a recebiam especial defer\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Afrodite: deusa da beleza e do amor, desfrutava de imensa import\u00e2ncia na solu\u00e7\u00e3o dos problemas sexuais;<\/p>\n<p>&#8211; Hera: mulher de Zeus, protegia as mulheres gr\u00e1vidas das complica\u00e7\u00f5es do parto;<\/p>\n<p>&#8211; Panac\u00e9a: deusa de todas as curas;<\/p>\n<p>&#8211; Hermes: filho de Zeus e de Hera, era o mensageiro e o int\u00e9rprete dos deuses;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e9racles: adepto da hidroterapia, utilizava plantas Medicinais com efeitos sedativos;<\/p>\n<p>&#8211; Ascl\u00e9pio: os primeiros registros desse importante deus grego datam de 1260 a. C., na Tess\u00e1lia. Filho do poderoso Apolo com a bela e mortal Coronis, foi educado pelo centauro Quir\u00e3o, o mestre do saber m\u00e9dico. Em conseq\u00fc\u00eancia do seu extraordin\u00e1rio poder de ressuscitar os mortos, Ascl\u00e9pio foi elevado a suprema posi\u00e7\u00e3o de deus da Medicina. Contudo, Zeus, outro influente deus grego, enciumado com o destaque de Ascl\u00e9pio e receoso que a ordem mortal do mundo fosse afetada pelas ressuscita\u00e7\u00f5es, decretou a sua morte com os raios dos C\u00edclopes. A cobra enrolada num bast\u00e3o se tornou a s\u00edmbolo do deus da Medicina grega. A tradi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica grega identifica a fam\u00edlia de Ascl\u00e9pio constitu\u00edda de dois filhos: Macaon, o mestre da cirurgia, e Podal\u00edrio, o inigual\u00e1vel cl\u00ednico; e duas filhas: H\u00edgia, aquela que assegura a preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as, e Panaceia, o s\u00edmbolo do rem\u00e9dio para todas as doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A Medicina hom\u00e9rica, isto \u00e9, as descri\u00e7\u00f5es de conte\u00fado m\u00e9dico na Il\u00edada e na Odiss\u00e9ia, tamb\u00e9m est\u00e3o contidas nesse per\u00edodo e podem ser agrupadas em quatro princ\u00edpios que interligam o poder dos deuses taumaturgos \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 doen\u00e7a:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Primeiro princ\u00edpio: as doen\u00e7as s\u00e3o resultantes da puni\u00e7\u00e3o divina e representam a c\u00f3lera dos deuses<\/p>\n<p>Essa era a tradi\u00e7\u00e3o predominante nas culturas escravistas, incluindo os povos mesopot\u00e2micos, indianos e eg\u00edpcios antigos.<\/p>\n<p>Nos c\u00e2nticos hom\u00e9ricos, na <em>Il\u00edada<\/em>, os soldados gregos foram v\u00edtimas da a\u00e7\u00e3o da flecha maligna do poderoso Zeus. Por outro lado, algumas patologias como a epilepsia e os dist\u00farbios do comportamento eram consideradas como doen\u00e7as sagradas. Nessa \u00e9poca, no mundo grego, n\u00e3o havia uma palavra que designasse com clareza a id\u00e9ia de alma ou esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Tanto na <em>Il\u00edada<\/em> quanto na <em>Odiss\u00e9ia<\/em>, Homero descreveu com precis\u00e3o muitas estruturas anat\u00f4micas, que inclu\u00edam ossos, partes moles, v\u00edsceras e \u00f3rg\u00e3os. Sem d\u00favida, para que tivesse ocorrido esse detalhamento seria necess\u00e1rio que o autor tivesse conhecimento da anatomia, embutido numa complexa rela\u00e7\u00e3o com os saberes historicamente acumulados.<\/p>\n<p>Esse fato leva ao claro pressuposto de que, de certa forma, a abordagem anat\u00f4mica do corpo humano, de modo l\u00facido, disseminada entre a parcela letrada da sociedade. Como exemplos, podemos citar:<\/p>\n<p>&#8211; Ossos = <em>ost\u00e9a leuk\u00e1<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Medula espinhal = <em>myel\u00f3s<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e9rtebra = <em>astr\u00e1galoi<\/em> e <em>sphond\u00fdlioi<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Por\u00e7\u00e3o anterior do t\u00f3rax = <em>st\u00e9rnon<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Ombro = <em>\u00f5mos<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3o = <em>khe\u00edr<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Articula\u00e7\u00e3o coxo-femural = <em>iskh\u00edon<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Pele = <em>pous<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Encef\u00e1lo = <em>enk\u00e9phalos<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Olho = <em>ophthalm\u00f3s<\/em>.<\/p>\n<p>Por outro lado, inclu\u00edam erros como os de citar, indistintamente, os tend\u00f5es da m\u00e3o, vis\u00edveis sob a pele, como tend\u00f5es e nervos.<\/p>\n<p>As feridas traum\u00e1ticas, oriunda dos esportes ou da guerra, eram igualmente consideradas, quase sempre interpretadas por tr\u00eas possibilidades:<\/p>\n<p>&#8211; Tipo da les\u00e3o: superficial ou profunda; causada por ferro ou pedra;<\/p>\n<p>&#8211; Gravidade: mortais e n\u00e3o mortais;<\/p>\n<p>&#8211; Localiza\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica.<\/p>\n<p>Essa extraordin\u00e1ria an\u00e1lise cr\u00edtica, mais uma vez, demonstrando a liga\u00e7\u00e3o entre a Medicina-divina e a Medicina-emp\u00edrica, concebe a origem das doen\u00e7as em tr\u00eas segmentos:<\/p>\n<p>&#8211; Traum\u00e1tica: todas as determinadas pelo trauma de qualquer natureza;<\/p>\n<p>&#8211; Divina: sempre punitiva, como a peste do Canto I, da <em>Il\u00edada<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Ambiental: causada por causas externas n\u00e3o traum\u00e1ticas, como frio ou calor.<\/p>\n<p>Os tratamentos estavam contidos em tr\u00eas alternativas:<\/p>\n<p>&#8211; Cir\u00fargico: com \u00eanfase quase exclusivo \u00e0s feridas da guerra;<\/p>\n<p>&#8211; Medicamentoso: a palavra <em>ph\u00e1rmakon<\/em> que significava rem\u00e9dio ou veneno;<\/p>\n<p>&#8211; Diet\u00e9tico: valorizando as pr\u00e1ticas de higiene, a gin\u00e1stica e a alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo princ\u00edpio: os segredos e o meios da cura s\u00e3o da exclusivos dos deuses:<\/p>\n<p>Nos Cantos III e IV, da <em>Il\u00edada<\/em>, Homero descreve Aquiles, disc\u00edpulo de Ascl\u00e9pio, curando com a imposta\u00e7\u00e3o das m\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Terceiro princ\u00edpio: os homens disp\u00f5em de conhecimento anat\u00f4mico para estudar e curar certos ferimentos:<\/p>\n<p>De certa forma, em v\u00e1rias passagens da Il\u00edada, ocorre clara fronteira de certas feridas que podem ser curadas pelos homens e outras que s\u00e3o saradas pelos deuses. Na primeira refer\u00eancia, nos Cantos XIII e XXII, os guerreiros se tratam entre si; na Segunda, quando o ferido \u00e9 um personagens mais poderosos, como o rei Menelau, a cura \u00e9 realizada por Machaon, filho de Ascl\u00e9pio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quarto princ\u00edpio: as plantas e os cuidados de higiene podem colaborar na cura.<\/p>\n<p>Esse tipo de tratamento \u00e9 exclusivo dos ferimentos superficiais. O medicamento conhecido como <em>pharmaka<\/em> \u00e9 aplicado sobre as feridas. De maneira genial os gregos entenderam que t\u00e3o importante quanto a tratamento m\u00e9dico eram os cuidados com a higiene pessoal e coletiva. Nesse sentido, foram intensificadas as constru\u00e7\u00f5es de abastamento de \u00e1gua pot\u00e1vel e instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Esse rico contexto que interligava as tr\u00eas Medicinas divina, emp\u00edrica e oficial era amparado pela exist\u00eancia de templos ricamente decorados, onde os sacerdotes tamb\u00e9m dedicavam-se \u00e0 cura divina e a adivinha\u00e7\u00e3o. Um dos mais famosos e respeitados foi o santu\u00e1rio de Delfos, no qual as sacerdotisas eram int\u00e9rpretes das enigm\u00e1ticas mensagens dos deuses protetores e vingadores.<\/p>\n<p>Essas consultas divinas da saber da sa\u00fade e da doen\u00e7a, da vida e da morte do povo, dirigidas em torno de ritos especiais, pressupunham dois aspectos norteadores:<\/p>\n<p>&#8211; Indissolubilidade entre as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas e a terap\u00eautica: a doen\u00e7a era uma puni\u00e7\u00e3o divina e, dessa forma, s\u00f3 o representante da divindade, o sacerdote, poderia apaziguar a f\u00faria do deus vingador;<\/p>\n<p>&#8211; Intera\u00e7\u00e3o entre a Medicina-divina e a Medicina-emp\u00edrica: os registros apontam para a certeza de que os sacerdotes eram profundos conhecedores das plantas Medicinais, regras de higiene, dietas adequadas e da gin\u00e1stica terap\u00eautica.<\/p>\n<p>&#8211; A presen\u00e7a constante, nos templo gregos, de Ascl\u00e9pio acompanhado dos seus filhos Machaon e Pdal\u00edrio e das suas filhas H\u00edgia e Panac\u00e9ia, representam a extraordin\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o entre as Medicinas divina, emp\u00edrica e oficial, onde a preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as, a sa\u00fade perfeita e o tratamento do trauma deveriam estar protegidos pelo deus da Medicina grega. A maior parte dos santu\u00e1rios que se notabilizaram na pr\u00e1tica da Medicina-divina eram dedicados ao culto de Ascl\u00e9pio, espalhados nas principais cidades gregas, recebiam as d\u00e1divas dos doentes que registravam as curas.<\/p>\n<p>A diversidade do pante\u00e3o grego, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia ao esclarecimento do quanto era forte a papel dos deuses taumaturgos. A data atual de comemora\u00e7\u00e3o do dia do m\u00e9dico &#8211; 18 de outubro &#8211; corresponde, \u00e0 \u00e9poca em que era celebrada a festa do filho de Apolo, Ascl\u00e9pio, o deus da Medicina grega.<\/p>\n<p>O estudo da representa\u00e7\u00e3o social de Ascl\u00e9pio no pante\u00e3o grego \u00e9 identificada na rebeldia \u00e0 ordem divina. O deus grego da Medicina causou medo aos outros deuses do Olimpo na medida em que ele curava as doen\u00e7as e evitava a morte.<\/p>\n<p>Ascl\u00e9pio conquistou uma fama inimagin\u00e1vel. Nos templos a ele dedicados, esse deus era capaz de curar os doentes durante o sono. Tinha a deli\u00adcadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirur\u00adgi\u00e3o. Todos os doentes que n\u00e3o obtinham cura em outros or\u00e1culos procuravam os servi\u00e7os m\u00e9dicos de Ascl\u00e9pio.<\/p>\n<p>Ascl\u00e9pio foi educado pelo centauro Quir\u00e3o, o ex\u00edmio conhecedor das plantas medicinais, mais cirurgi\u00e3o do que m\u00e9dico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por essa raz\u00e3o foi ful\u00adminado por Zeus com os raios dos C\u00edclopes. Zeus matou o filho de Apolo porque temia que a ordem natural das coisas fosse subverti\u00adda pelas curas e pela ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio da morte de Ascl\u00e9pio, motivada pelo ci\u00fame de Zeus, retrata o marco da resist\u00eancia dos homens e das mulheres contra os deuses.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi dito, o deus da Medicina grega deixou duas filhas (H\u00edgia e Panac\u00e9ia) e dois filhos (Machaon e Podal\u00edrio ). As duas mulheres se notabilizaram pelos conhecimentos emp\u00edricos ligados \u00e0 higiene e \u00e0s plantas Medicinais. Os dois homens ficaram de tal modo famosos como m\u00e9dicos guerreiros praticando a cirurgia, na guerra de Tr\u00f3ia, que foram citados nominalmente por Homero (Il\u00edada, 830). A maior parte das esculturas e dos afrescos retratando Ascl\u00e9pio cont\u00eam uma serpente enrolada em um bast\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os fil\u00f3sofos gregos e a Medicina <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>Pr\u00e9-socr\u00e1ticos<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Uma das primeiras caracter\u00edstica do pensamento pr\u00e9-socr\u00e1tico foi a determina\u00e7\u00e3o de desvendar a origem de tudo. Esse primeiro momento \u00e9 chamado per\u00edodo cosmol\u00f3gico porque os fil\u00f3sofos estavam empenhados em explicar o cosmo e a sua realidade \u00faltima a <em>fisis<\/em>.<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 traduzida pelas propostas dos fil\u00f3sofos em torno da busca do elemento comum formador de tudo e de todos.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><strong>Tales<\/strong><\/h2>\n<p>Tales nasceu em Mileto, importante cidade da J\u00f4nia, na \u00c1sia Menor. Os seus principais representantes propuseram diferentes elementos como representa\u00e7\u00e3o desse elo formador comum.<\/p>\n<p>Reconhecido como fil\u00f3sofo da natureza foi o primeiro dos pensadores gregos a receber o nome de s\u00e1bio e, de modo claro, a declarar, como os eg\u00edpcios, quase dois mil anos antes, a alma como entidade imortal. Entre as principais observa\u00e7\u00f5es, assinalou a associa\u00e7\u00e3o do Sol e da Lua com os eclipses e os equin\u00f3cios. \u00c9 o autor da m\u00e1xima conhece-te a ti mesmo.<\/p>\n<p>A \u00e1gua foi compreendida como o elemento fundamental da ess\u00eancia de tudo e de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 certo ter ocorrido certa influ\u00eancia do conhecimento eg\u00edpcio sobre o grego. Al\u00e9m dos registros da ida de alguns fil\u00f3sofos ao Egito, a presen\u00e7a de papiros com escrita hieroglifa, encontrado em cidade grega, refor\u00e7a essa afirmativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Anaximandro<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nasceu em Mileto e prop\u00f4s o ilimitado como o elemento mais importante, sem precisar se se tratava do ar, \u00e1gua ou outra coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Anax\u00edmenes<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nasceu em Mileto e foi disc\u00edpulo e sucessor de Anaximandro. Ele afirmou ser o ar o elemento fundamental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pit\u00e1goras<\/strong><\/p>\n<p>Pit\u00e1goras casceu na ilha de Samos e exerceu as suas atividades em Crotona, no sul da It\u00e1lia, no ano 530 a. C. As linhas mestres do pensamento desse fil\u00f3sofo foram transcritas por Filolau, um dos membro dessa comunidade que adotava os preceitos comuns de maneira dogm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os seguidores de Pit\u00e1goras viviam em comunidade e guardavam segredo sobre suas atividades. Tamb\u00e9m adotavam a temperan\u00e7a e o vegetarianismo, embora, sem que haja uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, houvesse o tabu de comer lentilhas.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a pr\u00e1tica vegetariana fosse decorr\u00eancia da metempsicose ou teoria da transmigra\u00e7\u00e3o da alma. Segundo essa proposta, ap\u00f3s a morte a alma passa para outros seres vivos. Dessa forma, os pitag\u00f3ricos abstinham-se de carne porque poderiam abater um animal que fosse a morada da alma do amigo morto.<\/p>\n<p>A maior parte das id\u00e9ias desenvolveu-se na investiga\u00e7\u00e3o das propriedades dos n\u00fameros, j\u00e1 que os pitag\u00f3ricos acreditavam serem os n\u00fameros a origem e a forma do mundo. Para eles, a matem\u00e1tica constitua a base moral para a conduta e os n\u00fameros, os fundamentos da filosofia e da vida. O princ\u00edpio harm\u00f4nico dor n\u00fameros que governava o universo \u00be o macrocosmo \u00be refletia-se no microcosmo, o corpo humano.<\/p>\n<p>Na cidade de Crotona, na It\u00e1lia Meridional, onde floresceu o pensamento pitag\u00f3rico, era tamb\u00e9m famosa por abrigar escola m\u00e9dica liderada por Alcmeon, contempor\u00e2neo de Pit\u00e1goras.<\/p>\n<p>No seu livro <em>On nature<\/em> (<em>Sobre a natureza<\/em>), Alcmeon descreveu com maestria:<\/p>\n<p>&#8211; Os nervos \u00f3pticos;<\/p>\n<p>&#8211; A trompa de Eust\u00e1quio, que comunica a orelha m\u00e9dia com a fossas nasal;<\/p>\n<p>&#8211; O c\u00e9rebro a fonte do intelecto e dos sentidos;<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas fatores principais que afetavam a vis\u00e3o: a luz externa, o fogo interno e o l\u00edquido contido no olho;<\/p>\n<p>&#8211; Distinguiu as veias das art\u00e9rias;<\/p>\n<p>&#8211; Descreveu os dist\u00farbios funcionais do c\u00e9rebro;<\/p>\n<p>&#8211; Prop\u00f4s explica\u00e7\u00e3o para o sono e a morte sendo o sono causado pelo refluxo sang\u00fc\u00edneo do c\u00e9rebro para as veias e, quando ocorresse altera\u00e7\u00e3o nesse sistema, a morte seria inevit\u00e1vel;<\/p>\n<p>&#8211; Ampliou a concep\u00e7\u00e3o de Emp\u00e9docles e acrescentou outros elementos para explicar a sa\u00fade e doen\u00e7a. Assim, a boa e a m\u00e1 sa\u00fade dependiam de uma combina\u00e7\u00e3o de elementos opostos como quente e frio, molhado e seco, doce e azedo, e assim por diante;<\/p>\n<p>&#8211; A doen\u00e7a era causada pela perturba\u00e7\u00e3o desse equil\u00edbrio, isto \u00e9, a m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o , a dieta irregular ou inadequada e fatores externos como o clima e a altitude.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>X\u00e9nofane<\/strong><\/p>\n<p>Nasceu em Colofon e desenvolveu as suas atividades em El\u00e9ia. Defendeu teses contr\u00e1rias as de Tales e Pit\u00e1goras:<\/p>\n<p>&#8211; Os elementos fundamentais s\u00e3o quatro ;<\/p>\n<p>&#8211; Os mundos s\u00e3o ilimitados e n\u00e3o diferentes uns dos outros;<\/p>\n<p>&#8211; A subst\u00e2ncia de deus \u00e9 esf\u00e9rica e em nada se parece com a dos homens;<\/p>\n<p>&#8211; Deus \u00e9 inteiramente intelectual, consciente e eterno.<\/p>\n<p>Em di\u00e1logo de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Emp\u00e9clodes que declarou ser imposs\u00edvel encontrar um s\u00e1bio, respondeu: Realmente, \u00e9 necess\u00e1rio ser s\u00e1bio para reconhecer o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Parm\u00eanides<\/strong><\/p>\n<p>Filho de fam\u00edlia ilustre e rica, nasceu em El\u00e9ia e foi aluno de X\u00e9nofane. Foi o primeiro a afirmar a forma esf\u00e9rica da Terra e que estava situada no centro do mundo. Admitiu dois elementos fundamentais: o fogo e a terra. O primeiro agindo como demiurgo, e o segundo como mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Zen\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Zen\u00e3o foi contempor\u00e2neo de Pit\u00e1goras e de Dem\u00f3crito. Tamb\u00e9m nasceu em El\u00e9ia e disc\u00edpulo de Xen\u00f3fane ou de Parm\u00eanides. Os historiadores o atribuem como o fundador da dial\u00e9tica, assim como Emp\u00e9docles foi o da ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Uma das suas m\u00e1ximas, diz: Se aquilo que existe n\u00e3o possui grandeza (volume), n\u00e3o existe. Se existe, \u00e9 necess\u00e1rio que cada exist\u00eancia tenha uma certa grandeza (volume), uma certa espessura e que mantenha uma certa dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Melissos<\/strong><\/p>\n<p>Nasceu em Samos e viveu na \u00e9poca de Zen\u00e3o e de Emp\u00e9docles e freq\u00fcentou as confer\u00eancias de Her\u00e1clito. Esse s\u00e1bio grego defendia a teoria de ser tudo infinito e que nada se poderia falar dos deuses porque eles escapavam ao conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Her\u00e1clito<\/strong><\/p>\n<p>Her\u00e1clito de \u00c9feso era de descend\u00eancia rica e nobre. Dos seus escritos restaram v\u00e1rios fragmentos originais que revelaram seu pensamento peculiar. Aparentemente n\u00e3o fundou nem pertenceu a nenhuma escola. A estrutura central da compreens\u00e3o do mundo desse extraordin\u00e1rio fil\u00f3sofo est\u00e1 contida no logos, como o verdadeiro constituinte das coisas e o portador da verdade absoluta, universal e eterna, independentemente do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Entre as suas m\u00e1ximas, destacam-se:<\/p>\n<p>&#8211; Todas as coisas s\u00e3o constitu\u00eddas a partir do fogo e se dissolvem em si mesmas;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo acontece de acordo com o destino de cada um;<\/p>\n<p>&#8211; O fogo \u00e9 um elemento e todas as coisas s\u00e3o mudadas pelo fogo e nascem a partir da condensa\u00e7\u00e3o e da rarefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>i. Emp\u00e9docles<\/p>\n<p>Nasceu em Agrigento, em torno do ano 500 a. C., entre muitas obras, escreveu um poema, Da natureza, composto em dois livros com mais ou menos dois mil versos e um texto de Medicina em prosa.<\/p>\n<p>Defendia a teoria na qual o mundo seria constitu\u00eddo de quatro elementos inalter\u00e1veis que em partes iguais formavam tudo e todos \u00be terra , ar , fogo e \u00e1gua.<\/p>\n<p>Associou a teoria dos quatro elementos para compreender a anatomia humana, desvendando o cora\u00e7\u00e3o como o centro de sistema circulat\u00f3rio: o sangue fluindo incessantemente, enquanto o pneuma, ou sopro de vida, era distribu\u00eddo pelo corpo, atrav\u00e9s dos vasos sang\u00fc\u00edneos. Ao valorizar o ar, ele acrescentou que a respira\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringia aos pulm\u00f5es, mas tamb\u00e9m ocorria pelos poros.<\/p>\n<p>Produziu incont\u00e1veis associa\u00e7\u00f5es entre a proporcionalidade entre os quatro elementos fundamentais \u00be terra , ar , fogo e \u00e1gua \u00be compondo condi\u00e7\u00f5es percept\u00edveis como o calor, frio, umidade e secura, para explicar a origem das partes que comp\u00f5em o corpo humano e as ma forma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas inclusive.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leucipo e Dem\u00f3crito<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista de similitude do pensamento \u00e9 dif\u00edcil separar esses dois pensadores gregos.<\/p>\n<p>Ambos contempor\u00e2neos de S\u00f3crates, n\u00e3o sabe-se ao certo as cidade nas quais nasceram Leucipo e Dem\u00f3crito. Alguns afirmam ter sido em El\u00e9ia, outros em Abdera e Mileto.<\/p>\n<p>Ambos admitiam:<\/p>\n<p>&#8211; Todas as coisas s\u00e3o ilimitadas e se transformariam umas nas outras;<\/p>\n<p>&#8211; Os \u00e1tomos s\u00e3o ilimitados em n\u00famero e o vazio ilimitado em tamanho;<\/p>\n<p>&#8211; O cheio e o vazio, respectivamente, denominados de ser (pleno de vida) e n\u00e3o-ser (sem vida) s\u00e3o formados de elementos \u00be \u00e1tomos;<\/p>\n<p>&#8211; O movimento \u00e9 eterno;<\/p>\n<p>&#8211; As coisas seriam revestidas com membrana protetora formada de \u00e1tomos recurvados;<\/p>\n<p>&#8211; Os corpos at\u00f4micos s\u00e3o dotados de movimento aleat\u00f3rio e se movimentam continuamente;<\/p>\n<p>&#8211; A alma \u00e9 formada de fogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Per\u00edodo plat\u00f4nico-aristot\u00e9lico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Plat\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Plat\u00e3o nasceu em Atenas, no ano de 428\/427 a.C., no demo de Colitos. Segundo Di\u00f3genes La\u00e9rcio, o seu pai, Ar\u00edston, descendia de Codro. A sua m\u00e3e, Perict\u00edone, irm\u00e3 de C\u00e1rmides e prima de Cr\u00edtias, o tirano, descendia de Dr\u00f3pides que, ainda segundo Di\u00f3genes La\u00e9rcio, seria irm\u00e3o de S\u00f3lon. O fil\u00f3sofo tinha dois irm\u00e3os mais velhos, Adimanto e Glauco, e uma irm\u00e3, Potone, que foi a m\u00e3e de Esp\u00eausipo. O pai, Ar\u00edston, deve ter morrido cedo, pois a m\u00e3e voltou a casar com Pirilampo, com quem teve um filho chamado Ant\u00edfon.<\/p>\n<p>Quando Plat\u00e3o morreu, s\u00f3 restava da fam\u00edlia uma crian\u00e7a chamada Adimanto, neto do seu irm\u00e3o. O grande pensador grego fez dele o seu herdeiro e as fontes registram Adimanto como membro da Academia, no tempo de Xen\u00f3crates.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia antiga, era costume escolher o mesmo nome do av\u00f4 para o primeiro filho, desta forma \u00e9 prov\u00e1vel que Plat\u00e3o tivesse o nome de Ar\u00edstocles, como o av\u00f4. Existem d\u00favidas das raz\u00f5es pelas quais prevaleceu o nome Plat\u00e3o, ali\u00e1s comum naquela \u00e9poca. Di\u00f3genes La\u00e9rcio conta que esse nome lhe foi dado pelo seu professor de gin\u00e1stica por causa da sua estatura, contudo n\u00e3o existe consenso entre os historiadores sobre essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Plat\u00e3o possu\u00eda propriedade pr\u00f3ximo de Kefissia, no Cefiso, onde o fil\u00f3sofo, certamente, aprendeu a amar a vida no campo, talvez pela exig\u00eancia da melhor educa\u00e7\u00e3o, deve ter passado a maior parte da inf\u00e2ncia na cidade.<\/p>\n<p>Como parte desse aprendizado esmerado, como convinha \u00e0 crian\u00e7a de alta estirpe, aprendeu primeiro a honrar os deuses e a observar os ritos da religi\u00e3o. Plat\u00e3o guardaria durante toda a vida esse respeito pela religi\u00e3o e iria torn\u00e1-lo claro no livro <em>Leis<\/em>. Al\u00e9m da gin\u00e1stica e da m\u00fasica, que constitu\u00edam a outra base da educa\u00e7\u00e3o ateniense, tamb\u00e9m estudou desenho e pintura. Nessa fase, comp\u00f4s trag\u00e9dias, poemas l\u00edricos e ditirambos.<\/p>\n<p>O estudo da filosofia foi orientado por Cr\u00e1tilo, um dos disc\u00edpulos de Her\u00e1clito. Com vinte anos de idade teve o primeiro encontrou com S\u00f3crates.<\/p>\n<p>Desajeitado e trajando vestes descuidadas, o reverso dos sofistas, S\u00f3crates come\u00e7ou a falar nas pra\u00e7as. A profundidade dos discursos sempre procurando verdades e valores mais s\u00f3lidos fez com que, pouco a pouco, aumentasse o n\u00famero de disc\u00edpulos e de admiradores.<\/p>\n<p>Uma das maiores determina\u00e7\u00f5es de S\u00f3crates era a busca dos conhecimentos verdadeiros e universais, identificados por ele na virtude. Com a arma da ironia, levava o seu interlocutor a descobrir dialeticamente a falta de base de suas opini\u00f5es e, em conseq\u00fc\u00eancia, a pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia fundamental. Continuando o di\u00e1logo, conduzia o interlocutor, pelo m\u00e9todo da indu\u00e7\u00e3o, a passar do particular para o geral, fazendo nascer \u00be mai\u00eautica \u00be o conhecimento verdadeiro por meio das defini\u00e7\u00f5es do saber racional, universal e imut\u00e1vel ou seja a ess\u00eancia da realidade.<\/p>\n<p>S\u00f3crates negava o valor da autoridade e da tradi\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio de verdade e optou pela reflex\u00e3o livre e convic\u00e7\u00e3o racional. Argumentava sobre a certeza objetiva da pr\u00f3pria raz\u00e3o, fundamentalmente, como a capacidade humana de se conhecer \u00be conhece-te a ti mesmo. Pretendia organizar de modo racional e \u00e9tico a vida pessoal e coletiva identificando o conhecimento \u00e0 virtude, posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m adotada por Plat\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 importante ressaltar que S\u00f3crates n\u00e3o ensinou o que \u00e9 o bem \u00be conte\u00fado \u00be, mas ressaltou o caminho do bem \u00be m\u00e9todo. Essa postura socr\u00e1tica, inclusive a dura cr\u00edtica \u00e0s apar\u00eancias, se por um lado prepararam o g\u00eanio de Plat\u00e3o, por outro foi tragicamente mal entendido por outros disc\u00edpulos, para quem a censura aberta \u00e0 autoridade e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o representava na pr\u00e1tica a completa perda das cren\u00e7as religiosas e h\u00e1bitos morais que, em \u00faltima an\u00e1lise, serviam como suportes para os restringir os impulsos humanos destitu\u00eddos de honra e virtude.<\/p>\n<p>Sob essa terr\u00edvel den\u00fancia, S\u00f3crates foi acusado de perverter os jovens e de ser ateu. Condenado \u00e0 morte, pagou com a vida a sua extraordin\u00e1ria busca da verdade.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia de S\u00f3crates sobre Plat\u00e3o foi t\u00e3o grande que, sobretudo nas suas primeiras obras, \u00e9 dif\u00edcil distinguir quem de fato, est\u00e1 falando: se o mestre ou o disc\u00edpulo. Em muitos escritos plat\u00f4nicos, S\u00f3crates \u00e9 apresentada como o tipo ideal do fil\u00f3sofo e o m\u00e1rtir do seu pensamento e da busca da verdade e do bem.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o nunca aceitou a injusti\u00e7a da condena\u00e7\u00e3o e em v\u00e1rios livros renasce S\u00f3crates com as mais belas palavras sobre a verdadeira piedade e sobre a reta educa\u00e7\u00e3o da juventude. Na parte final do Fedro, 118, onde relata de maneira emocionante a morte do insuper\u00e1vel mestre, Plat\u00e3o define S\u00f3crates: o homem&#8230; que, entre todos os de seu tempo, era o melhor, o mais s\u00e1bio e o mais justo.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que a Hist\u00f3ria continua reverenciando S\u00f3crates e n\u00e3o se lembra dos nomes dos seus algozes.<\/p>\n<p>Depois da morte do seu mestre, Plat\u00e3o retirou-se para M\u00e9gara, junto de Euclides e de Terps\u00edon, tamb\u00e9m disc\u00edpulos de S\u00f3crates. Parece que, algum tempo depois, retornou \u00e0 Atenas e junto aos seus irm\u00e3os, se engajou nas campanhas militares de 395 a 394 a. C, na guerra de Corinto. N\u00e3o deixou registros dessa fase, mas preconizou os exerc\u00edcios militares para desenvolver o vigor.<\/p>\n<p>Como era comum, naquela \u00e9poca, a grandeza do saber estava relacionado ao conhecimento de outros povos e lugares. Em torno do ano 390 a.C., foi ao Egito levando uma carga de azeite para pagar a viagem. A civiliza\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia, com pouca varia\u00e7\u00e3o, h\u00e1 milhares de anos, influenciou o pensamento de Plat\u00e3o quanto ao pressuposto de ser prefer\u00edvel que os governantes mantenham o equil\u00edbrio social em torno de antigas id\u00e9ias do que for\u00e7ar a obedi\u00eancia coletiva \u00e0s novas ordens.<\/p>\n<p>Do Egito, dirigiu-se para Cirene, onde freq\u00fcentou a escola do matem\u00e1tico Teodoro, que seria um dos personagens do seu livro Teeteto. De Cirene, viajou para a It\u00e1lia, onde conheceu os pitag\u00f3ricos Filolau, \u00c1rquitas e Timeu. N\u00e3o existe consenso se elas tenham tido alguma influ\u00eancia na reconhecida cren\u00e7a plat\u00f4nica da transmigra\u00e7\u00e3o e eternidade das almas.<\/p>\n<p>Quando retornou \u00e0 Atenas, no ano 388 a. C., com quarenta anos de idade, a guerra estava pr\u00f3xima do fim por meio da paz de Ant\u00e1lquidas. Contudo, o antigo esplendor ateniense passava por per\u00edodo pol\u00edtico conturbado. Esse ambiente, pleno de decad\u00eancia dos valores, onde, de certa forma, predominava o subjetivismo gnosiol\u00f3gico e \u00e9tico, que se ergue imponente a figura de S\u00f3crates, de quem Plat\u00e3o recebeu a maior influ\u00eancia filos\u00f3fica e foi amigo e fiel ouvinte durante cerca de oito anos, at\u00e9 \u00e0 morte do Mestre.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o come\u00e7ou a ensinar, mas diverso do mestre S\u00f3crates, para reunir os seus disc\u00edpulos, comprou um pequeno terreno nas proximidades do gin\u00e1sio de Academo, perto de Colona, terra natal de S\u00f3focles.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe certo o ano em que Plat\u00e3o morreu, fixado em 347 ou 346 a.C. A Academia sobreviveu at\u00e9 o ano 529 d. C., quando Justiniano determinou a sua extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra do Plat\u00e3o conta com 28 di\u00e1logos considerados aut\u00eanticos. Antes de viajar, comp\u00f4s di\u00e1logos centrados na figura de S\u00f3crates, em que procura definir no\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; Mentira: <em>H\u00edpias menor<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Dever: <em>Cr\u00edton<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Natureza humana: <em>Alcib\u00edades<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Sabedoria: <em>C\u00e1rmides<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Coragem: <em>Laques<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Amizade: <em>L\u00edsis<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Piedade: <em>Eut\u00edfron<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; Ret\u00f3rica: <em>G\u00f3rgias e Prot\u00e1goras<\/em>.<\/p>\n<p>Entre 387 e 361 a.C., escreveu os seguintes livros com os enfoques sobre:<\/p>\n<p><em>&#8211; Menexeno<\/em> e <em>M\u00e9non<\/em>: a virtude;<\/p>\n<p><em>&#8211; Eutidemo<\/em>: a er\u00edstica ou argumento sofista;<\/p>\n<p><em>&#8211; Cr\u00e1tilo<\/em>: a justeza dos nomes;<\/p>\n<p><em>&#8211; O Banquete<\/em>: o amor;<\/p>\n<p><em>&#8211; F\u00e9don<\/em> e <em>A Rep\u00fablica<\/em>: a justi\u00e7a:<\/p>\n<p><em>&#8211; Fedro<\/em> e <em>Teeteto<\/em>: a ci\u00eancia;<\/p>\n<p><em>&#8211; Parm\u00eanides<\/em>.<\/p>\n<p>Os di\u00e1logos da maturidade s\u00e3o sobre:<\/p>\n<p><em>&#8211; O Sofista<\/em>: o ser;<\/p>\n<p><em>&#8211; O Pol\u00edtico<\/em> e <em>Timeu<\/em>: a natureza;<\/p>\n<p><em>&#8211; Cr\u00edtias<\/em>: a Atl\u00e2ntida;<\/p>\n<p><em>&#8211; Filebo<\/em>: o prazer;<\/p>\n<p><em>&#8211; As leis<\/em>: organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Como as obras de Plat\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e3o intimamente relacionadas com a Medicina grega, nunca \u00e9 demais ressaltar alguns poucos aspectos da filosofia plat\u00f4nica:<\/p>\n<p>&#8211; O dialogo constitui o momento inaugural da filosofia;<\/p>\n<p>&#8211; O amor (Philia) est\u00e1 relacionado ao desejo, ou seja, falta de saber (Sophia);<\/p>\n<p>&#8211; O mundo intelig\u00edvel \u00e9 distinto do mundo sens\u00edvel, descrito de modo extraordin\u00e1rio no mito da caverna, no livro A rep\u00fablica;<\/p>\n<p>&#8211; A vida verdadeira corresponde ao que a opini\u00e3o comum acredita ser a morte, ou seja, o estado no qual a alma renasce a cada vez que se separa da pris\u00e3o do corpo;<\/p>\n<p>&#8211; O amor e a matem\u00e1tica s\u00e3o as duas vias que levam a verdade;<\/p>\n<p>&#8211; A dial\u00e9tica \u00e9 ao mesmo tempo o caminho que conduz as id\u00e9ias e a ci\u00eancia da articula\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias;<\/p>\n<p>&#8211; A teoria das id\u00e9ias permite identificar o erro, a ilus\u00e3o e a mentira;<\/p>\n<p>&#8211; A pol\u00edtica \u00e9 essencial na organiza\u00e7\u00e3o social;<\/p>\n<p>&#8211; O homem feliz \u00e9 aquele que vive conforme a sua natureza, mesmo que seja um escravo.<\/p>\n<p>A estrutura te\u00f3rica da Medicina grega antiga foi concebida em torno da distin\u00e7\u00e3o entre o real e o imagin\u00e1rio. Sob essa \u00e9gide, a anamnese, fazendo o paciente recordar o passado, \u00e9 a porte que conduz a pr\u00e1tica m\u00e9dica ao diagn\u00f3stico, isto \u00e9, a identifica\u00e7\u00e3o do real e do imagin\u00e1rio no doente. Assim, \u00e9 importante o pequeno coment\u00e1rio sob O mito da caverna, a alegoria plat\u00f4nica que serve para explicar a evolu\u00e7\u00e3o do processo de conhecimento e a diferencia\u00e7\u00e3o entre o real e o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Segundo esse g\u00eanio grego, a maioria dos seres humanos se encontra como prisioneiros de uma caverna, permanecendo de costas para a abertura luminosa e de frente para a parede escura do fundo. Devido a uma luz que entra na caverna, o prisioneiro contempla na parede do fundo as proje\u00e7\u00f5es dos seres que comp\u00f5em a realidade. Acostumado a ver somente essas proje\u00e7\u00f5es, assume a ilus\u00e3o do que v\u00ea \u00be as sombras do real \u00be como se fosse a verdadeira realidade. Se escapasse da caverna e alcan\u00e7asse o mundo luminoso da realidade, ficaria livre da ilus\u00e3o. Mas, estando acostumado \u00e0s sombras e \u00e0s ilus\u00f5es, teria de habituar os olhos\u00a0\u00e0 vis\u00e3o do real: primeiro olharia as estrelas da noite, depois as imagens das coisas refletidas nas \u00e1guas tranq\u00fcilas, at\u00e9 que pudessem encarar diretamente o Sol e enxergar a fonte de toda luminosidade.<\/p>\n<p>Possivelmente, a passagem de Plat\u00e3o pelo Egito foi a respons\u00e1vel pelo resgate da lenda do deus eg\u00edpcio Thot, protetor dos escribas, inventor dos n\u00fameros e dos c\u00e1lculos para criticar a substitui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria oral j\u00e1 em curso naquele tempo na Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>A diviniza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, na Gr\u00e9cia, fez-se por meio da deusa Mnemosine, que lembrava aos homens os seus her\u00f3is e feitos al\u00e9m de presidir a poesia l\u00edrica. A mem\u00f3ria estava distribu\u00edda em fun\u00e7\u00f5es especificas pelo poeta, resgatando o passado com os cantores, e pelo adivinho, prevendo o futuro. Estava intimamente associado com a vida e colocava-se como o contr\u00e1rio do esquecimento, aqui entendido como o sin\u00f4nimo da morte desmemoriada. Desse modo, a mem\u00f3ria tamb\u00e9m apareceu como um dom aos iniciados nas doutrinas \u00f3rficas e pitag\u00f3ricas, ligadas \u00e0 cren\u00e7a da metempsicose, na qual a lembran\u00e7a das vidas anteriores, um dos pontos angulares do orfismo, vencia o esquecimento decorrente da morte e fazia renascer (reencarnar) com o conhecimento acumulado da vida anterior com o objetivo de buscar a perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico, at\u00e9 hoje, edifica a sua rela\u00e7\u00e3o com o paciente sobre a anamnese ou reminisc\u00eancia, buscando, nas informa\u00e7\u00f5es prestada pela mem\u00f3ria do doente, os fatos que podem ajudar a esclarecer o diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais d\u00favida que uma parte dos saberes m\u00e9dicos presentes na cultura grega, representa o produto sincr\u00e9tico do conhecimento dos povos, de regi\u00f5es pr\u00f3ximas, que antecederam a forma\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>De acordo com a mitologia grega, a Medicina come\u00e7ou com Apolo, filha de Zeus com Leto. Apolo \u00e9 reconhecido na literatura com dezenas de qualifica\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de deus \u2013curador. Foi tamb\u00e9m identificado como Aplous, aquele que fala de verdade. O seu poder era transmitido a \u00e1gua dos banhos que purificava a alma, e por isso, era considerado o deus que lavava e libertava o mal. De modo geral, o her\u00f3i grego estava quase sempre associado \u00e0 arte de curar. Grande n\u00famero de deuses e personagens da mitologia grega tinham, entre seus atributos, o dom de curar doen\u00e7as e feridas de guerra.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o sistematizou e descreveu a necessidade da nova postura do medico no Pol\u00edtico, quando firmou, no di\u00e1logo entre S\u00f3crates, o Jovem e o Estrangeiro, a semelhan\u00e7a entre a postura do pol\u00edtico e do m\u00e9dico ao admitir que ambos, baseados no conhecimento, devem, intervir sempre que necess\u00e1rio para promover melhoras na sociedade:<\/p>\n<p><em>Estrangeiro: \u00c9 interessante. Dizem, com efeito, que se algu\u00e9m conhece leis melhores que as existentes n\u00e3o tem o direito de d\u00e1-las \u00e0 sua pr\u00f3pria cidade sen\u00e3o com o consentimento de cada cidad\u00e3o; de outro modo n\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3crates, o Jovem: Muito bem! N\u00e3o estar\u00e3o eles certos?.<\/em><\/p>\n<p><em>Estrangeiro: Talvez. Em todo caso se algu\u00e9m dispensa esse consentimento e imp\u00f5e a reforma pela for\u00e7a, que nome se Dara a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos procedentes.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3crates, o Jovem: Que queres dizer?<\/em><\/p>\n<p><em>Estrangeiro: Suponhamos um m\u00e9dico que n\u00e3o procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, imp\u00f5e uma crian\u00e7a, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, n\u00e3o importando os preceitos escritos. Que nome se dar\u00e1 a essa viol\u00eancia? Seria por acaso o de viola\u00e7\u00e3o da arte e erro pernicioso? E a v\u00edtima dessa coer\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobra perniciosas ineptas por parte de m\u00e9dicos que as puseram.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3crates, o Jovem: Dizes a pura verdade.<\/em><\/p>\n<p><em>Estrangeiro: Ora, como chamar\u00edamos aquele que peca contra a arte pol\u00edtica? N\u00e3o o qualificar\u00edamos de odioso, mau e injusto?<\/em><\/p>\n<p>Esse di\u00e1logo refletiu uma explos\u00e3o coletiva de consci\u00eancia, como as que seguem as rupturas com o conhecimento acumulado, a ponto de refletir precisamente a nova posi\u00e7\u00e3o social assumida pelo m\u00e9dico, capaz de poder interferir politicamente para modificar o conjunto social. Assim, a Medicina passou a ser associada com a justi\u00e7a, estando os seus agentes num estrato diferenciado da sociedade, em conseq\u00fc\u00eancia do conhecimento que eles acumulam e, por essa raz\u00e3o, autorizados a influenciar as pessoas na dire\u00e7\u00e3o de uma vida melhor. Ao contr\u00e1rio, se o m\u00e9dico n\u00e3o utilizasse a sua capacidade de persuas\u00e3o, de acordo com os preceitos aceitos pela sociedade grega, estaria incorrendo em falsidade ideol\u00f3gica capaz de prejudicar outros homens.<\/p>\n<p>O papel do pol\u00edtico assumido pelo m\u00e9dico, na polis grega, a partir dessa consci\u00eancia cr\u00edtica da necessidade de modificar a dor hist\u00f3rica, foi sentida por v\u00e1rios autores. Essa prem\u00eancia de ampliar o espa\u00e7o social dos agentes da sa\u00fade foi deslocada pela nova organiza\u00e7\u00e3o social imposta pela urbaniza\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos sociais, quando a maior aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas passou a exigir outras medidas para superar as novas dificuldades que foram aparecendo, a linguagem um papel extraordin\u00e1rio como fator de convencimento. Portanto, a an\u00e1lise plat\u00f4nica interpretou o movimento das mentalidades na polis.<\/p>\n<p>A nova situa\u00e7\u00e3o de conflito entre m\u00e9dicos e fil\u00f3sofos foi apreendida de modo definitiva em Plat\u00e3o. Ele adotou o modelo m\u00e9dico dos tempos hom\u00e9ricos e considerou o deus Ascl\u00e9pio o verdadeiro pol\u00edtico da sa\u00fade, porque teria sido ele o inventor da Medicina fazendo a releitura e recolocando o conflito da Medicina com a religi\u00e3o em evid\u00eancia, ao mesmo tempo em que retirava a filosofia dessa \u00e1rea de atrito.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente coerente com a compreens\u00e3o social plat\u00f4nica, ao dividir a sociedade em dominadores e dominados, senhores e escravo, tudo pela vontade dos deuses. Se a sociedade era estratificada, obrigatoriamente as especialidades sociais que a serviam teriam que ser do mesmo modo. Assim, ele incorporou na sua filosofia as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas diferenciadas entre os senhores e escravos, ricos que podem ficar doentes e pobres que n\u00e3o t\u00eam tempo para adoecer, existente mais de um mil\u00eanio antes da polis grega e que foram legisladas por Hammurabi.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o ao ligar-se mais fortemente \u00e0 Medicina em G\u00f3rgias, deixou bem claro o papel que o agente da cura pode desempenhar na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico paciente, na depend\u00eancia da sua compreens\u00e3o da dor hist\u00f3rica, quando o doente o procura para refazer a sa\u00fade comprometida. Isso porque, quando um elemento enfermo vai ao encontro de um m\u00e9dico buscando ajuda, ele o faz movido pela necessidade de interromper o seu desconforto e atra\u00eddo pela complexa malha de confian\u00e7a que o liga historicamente ao poder do conhecimento do m\u00e9dico. Esse, por sua vez, pode agir com os curadores dos escravos, assumindo uma posi\u00e7\u00e3o tir\u00e2nica frente a fragilidade do doente, ou como os que tratavam os homens livres que, al\u00e9m de buscarem a origem das doen\u00e7as, ensinavam ao paciente a melhor maneira de trat\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o platonismo exerceu decisiva import\u00e2ncia sobre o atual pensamento acidental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade e a doen\u00e7a. Foi gra\u00e7as \u00e0 dicotomia corpo-alma do platonismo e do aristotelismo, que foi perdida grande parte do avan\u00e7o proporcionado pela dessacraliza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a &#8211; primeiro corte da Medicina iniciada na Escola de C\u00f3s. Acabou predominando no pensamento coletivo a grande tradi\u00e7\u00e3o herdada das sociedades \u00e1grafas e dos tempos hom\u00e9ricos, que valorizava a origem divina das doen\u00e7as e poder da divindade para curar.<\/p>\n<p>Considerando a import\u00e2ncia do conjunto filos\u00f3fico plat\u00f4nico na hist\u00f3ria da Medicina, n\u00e3o \u00e9 demais relembrar um pouco de alguns temas abordados nas suas principais obras:<\/p>\n<h2>&#8211; Pol\u00edtica<\/h2>\n<p>As obras nas quais Plat\u00e3o trata especificamente do problema da pol\u00edtica, <em>s\u00e3o A Rep\u00fablica<\/em>, <em>O Pol\u00edtico<\/em> e <em>As Leis<\/em>.<\/p>\n<p>Em <em>A Rep\u00fablica<\/em>, um das obras fundamentais de Plat\u00e3o, trata do Estado ideal, do reino do esp\u00edrito, da raz\u00e3o e dos fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p>No pensamento plat\u00f4nico o Estado est\u00e1 inserido na pr\u00f3pria natureza humana por que cada homem precisa do aux\u00edlio material e moral dos outros. Dessa variedade de necessidades humanas origina-se a divis\u00e3o do trabalho e, por conseq\u00fc\u00eancia, a distin\u00e7\u00e3o em castas, que representam o desenvolvimento social e a sistematiza\u00e7\u00e3o est\u00e1vel do trabalho.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia do Estado seria uma sociedade de indiv\u00edduos desiguais. Uma das caracter\u00edsticas dessa da divis\u00e3o de trabalho estaria representada pela institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o inserida na certeza de os trabalhos servis serem incompat\u00edveis com a condi\u00e7\u00e3o do homem livre.<\/p>\n<p>Dessa forma, o Estado ideal deveria ser dividido em estamentos sociais: dos fil\u00f3sofos, dos guerreiros e dos produtores, as quais corresponderiam, respectivamente, \u00e0s almas: racional, irasc\u00edvel e concupisc\u00edvel no organismo humano.<\/p>\n<p>A dos fil\u00f3sofos estaria predisposta a dirigir a Rep\u00fablica por que eles:<\/p>\n<p>&#8211; Contemplam o mundo das id\u00e9ias;<\/p>\n<p>&#8211; Conhecem a realidade das coisas;<\/p>\n<p>&#8211; Ordem ideal do mundo;<\/p>\n<p>&#8211; Ordem da sociedade humana.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es, estariam preparados para orientar racionalmente o homem e a sociedade. A atividade pol\u00edtica constituiria um dever para o fil\u00f3sofo, n\u00e3o, por\u00e9m, o fim absoluto, pois essa meta seria, unicamente, a contempla\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias.<\/p>\n<p>A dos guerreiros caberia a defesa interna e externa do Estado de acordo com a ordem estabelecida pelos fil\u00f3sofos, dos quais receberiam a educa\u00e7\u00e3o. Os guerreiros representam a for\u00e7a a servi\u00e7o do direito.<\/p>\n<p>Os produtores &#8211; agricultores e artes\u00e3os &#8211; submetidos \u00e0s duas anteriores, cabendo a eles a conserva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Estado. Na r\u00edgida hierarquia dos n\u00edveis sociais idealizados por Plat\u00e3o, a dos produtores ocuparia o n\u00edvel mais inferior, certamente influenciado pelo desprezo com que os cidad\u00e3os gregos antigos em geral enfocavam o trabalho material.<\/p>\n<p>Se a natureza do Estado seria essencialmente a de um organismo \u00e9tico, a sua finalidade primordial seria pedag\u00f3gica. Assim, o processo educativo deveria estar sob a responsabilidade do Estado. Sob essa \u00e9gide, uma das principais fun\u00e7\u00f5es do Estado, antes de tudo, seria educar os cidad\u00e3os para a virtude, e, secundariamente, promover os bens materiais.<\/p>\n<p>A obra plat\u00f4nica, de modo geral, desvaloriza o militarismo, o com\u00e9rcio, a domina\u00e7\u00e3o e a riqueza, e, por outro lado, valoriza a grandeza moral. O verdadeiro pol\u00edtico n\u00e3o seria o homem pr\u00e1tico e emp\u00edrico, mas o s\u00e1bio que realiza tanto as obras exteriores quanto a espiritualiza\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o do estamento superior, dos fil\u00f3sofos, incluiria a m\u00fasica, gin\u00e1stica, a Medicina, a poesia, o teatro e a hist\u00f3ria, entre outros temas. Por essa raz\u00e3o a Medicina como <em>paid\u00e9ia<\/em>, isto \u00e9, como processo de conhecimento, \u00e9 um instrumentos para que os cidad\u00e3os e o Estado possa alcan\u00e7ar a boa sa\u00fade f\u00edsica e espiritual.<\/p>\n<p>A primeira etapa desse processo de conhecimento \u00e9 dominada pelas impress\u00f5es ou sensa\u00e7\u00f5es advindas dos sentidos. Essas impress\u00f5es sens\u00edveis s\u00e3o respons\u00e1veis pela opini\u00e3o que temos da realidade. A opini\u00e3o (<em>doxa<\/em>, em grego) representa o saber que temos sem t\u00ea-lo procurado metodicamente.<\/p>\n<p>Entretanto, o conhecimento para ser autentico deve ultrapassar a esfera das impress\u00f5es sensoriais \u00be o plano da opini\u00e3o \u00be e penetrar na esfera racional da sabedoria \u00be o mundo das id\u00e9ias. Para atingir esse mundo, o homem n\u00e3o pode ter apenas amor ao saber ou filosofia.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo proposto por Plat\u00e3o para atingir o conhecimento aut\u00eantico &#8211; episteme &#8211; \u00e9 a dial\u00e9tica. Consiste na contraposi\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o com a cr\u00edtica que dela \u00e9 poss\u00edvel articular ou seja, a afirma\u00e7\u00e3o de uma tese seguida da discuss\u00e3o e\/ou nega\u00e7\u00e3o dessa tese, com o objetivo de purific\u00e1-la dos erros e equ\u00edvocos.<\/p>\n<p>Dessa forma o pensamento plat\u00f4nico elabora diferen\u00e7a fundamental entre conhecimento e opini\u00e3o. Quem possui saber tem conhecimento de alguma coisa, isto \u00e9, de algo que existe, pois o inexistente n\u00e3o \u00e9 nada. Assim, os saberes seriam infal\u00edveis, j\u00e1 que \u00e9 logicamente imposs\u00edvel que se equivoque.<\/p>\n<p>Outra estrutura te\u00f3rica plat\u00f4nica \u00e9 a fundamente diferen\u00e7a entre conhecimento e opini\u00e3o. O primeiro, \u00e9 representado pelo saber essencial, e o segundo, estaria voltado aquilo que carece de ess\u00eancia. Portanto, a opini\u00e3o pode ser tanto do que \u00e9 quanto do que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Para compreender essa extraordin\u00e1ria id\u00e9ia plat\u00f4nica \u00e9 necess\u00e1rio, antes, saber que o platonismo admite a coisas particulares sempre contendo caracter\u00edsticas em oposi\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 belo \u00e9, tamb\u00e9m, sob certo aspecto, \u00e9 feio; o que \u00e9 justo, pode ser injusto, e assim por diante. Todos os determinantes sens\u00edveis, segundo Plat\u00e3o, possuem esse car\u00e1ter contradit\u00f3rio como objeto de opini\u00e3o, mas n\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Somente quando sa\u00edmos do mundo sens\u00edvel e atingimos o mundo racional das id\u00e9ias \u00e9 que alcan\u00e7amos tamb\u00e9m o dom\u00ednio do ser absoluto, eterno e imut\u00e1vel. Nesse mundo das id\u00e9ias s\u00f3 poderemos penetrar, segundo Plat\u00e3o, por meio do conhecimento racional, cient\u00edfico ou filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>Dessa forma, o platonismo sustenta que a opini\u00e3o se forma do mundo apresentado pelos sentidos, enquanto o conhecimento \u00e9 de um mundo eterno. A opini\u00e3o trata de coisas belas determinadas e o conhecimento ocupa-se da beleza em si. Sob a perspectiva plat\u00f4nica, a plena beleza em toda a plenitude s\u00f3 pode ser encontrada no mundo das id\u00e9ias. Nesse dimens\u00e3o &#8211; mundo das id\u00e9ias &#8211; \u00e9 onde moram os seres\u00a0totais e perfeitos: a justi\u00e7a, a bondade, a coragem e a sabedoria.<\/p>\n<p>Fora desse mundo das id\u00e9ias, tudo o que captamos atrav\u00e9s dos nossos sentidos\u00a0possui apenas uma parte do ser ideal. O mundo sens\u00edvel, portanto, \u00e9 um mundo de seres incompletos e imperfeitos.<\/p>\n<p>Sob certa perspectiva, a teoria das id\u00e9ias de Plat\u00e3o representa a tentativa de conciliar as duas grandes tend\u00eancias anteriores da filosofia grega:<\/p>\n<p>&#8211; Concep\u00e7\u00e3o do ser eterno e imut\u00e1vel de Parm\u00eanides;<\/p>\n<p>&#8211; Concep\u00e7\u00e3o do ser plural e m\u00f3vel de Her\u00e1clito.<\/p>\n<p>Contudo, para Plat\u00e3o, o ser eterno e universal habita o mundo da luz racional, da ess\u00eancia e da realidade pura. E os seres individuais e mut\u00e1veis moram no mundo das sombras e sensa\u00e7\u00f5es, das apar\u00eancias e ilus\u00f5es.<\/p>\n<h2>&#8211; A moral<\/h2>\n<p>Segundo a estrutura te\u00f3rica plat\u00f4nica a natureza do homem \u00e9 racional e, em conseq\u00fc\u00eancia, \u00e9 a raz\u00e3o a guia para alcan\u00e7ar a felicidade e a virtude. Todavia, a natureza racional humana \u00e9 obstaculizada pelo corpo na medida em que o intelecto se confronta com os sentidos e a vontade no impulso. Dessa forma, em \u00faltima inst\u00e2ncia, na vida, seria imposs\u00edvel conciliar a natureza racional humana com o corpo sens\u00edvel. A supress\u00e3o da sensibilidade s\u00e9 seria poss\u00edvel na morte quando a alma se separaria do corpo. Sob essa perspectiva o agir moral e racionalmente seria filosofar, que por sua vez, representaria suprimir o sens\u00edvel prevalecendo o esp\u00edrito, o intelig\u00edvel, a id\u00e9ia. Desse conjunto, Plat\u00e3o estruturou as quatro virtudes naturais:<\/p>\n<p>&#8211; Prud\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; Fortaleza;<\/p>\n<p>&#8211; Temperan\u00e7a;<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Quanto ao problema do destino das almas depois da morte, Plat\u00e3o concebeu:<\/p>\n<p>&#8211; As que cometeram pecados inexpi\u00e1veis, portanto condenadas eternamente;<\/p>\n<p>&#8211; As que cometeram pecados expi\u00e1veis;<\/p>\n<p>&#8211; As que viveram conforme a justi\u00e7a, como as dos fil\u00f3sofos, libertados da vida temporal para sempre.<\/p>\n<p>As duas \u00faltimas categorias renasceriam novamente, por meio da reencarna\u00e7\u00e3o, para receber a pena ou o pr\u00eamio merecidos.<\/p>\n<h2>&#8211; A religi\u00e3o e a arte<\/h2>\n<p>A id\u00e9ia do bem seria o ponto central da religi\u00e3o plat\u00f4nica, sendo o culto \u00e0 ci\u00eancia o ponto essencial. Dependentes do bem, a virtude ligada \u00e0 ci\u00eancia e todas as outras id\u00e9ias estariam todas subordinadas ao Deus supremo.<\/p>\n<p>Por entender que o bem espiritual e \u00e9tico, recusava aceit\u00e1-lo objeto da religi\u00e3o. Talvez por essa raz\u00e3o, Plat\u00e3o hostiliza o antropomorfismo, particularmente, o da mitopoiese hom\u00e9rica.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao valor est\u00e9tico o conjunto do pensamento plat\u00f4nico n\u00e3o valorizou o g\u00eanio art\u00edstico grego. Essa postura estaria assentada no pressuposto de ser a arte\u00a0seria semelhante \u00e0 opini\u00e3o, por:<\/p>\n<p>&#8211; Ser c\u00f3pia de parte do mundo emp\u00edrico, portanto muito diversa da ci\u00eancia ligada \u00e0 ess\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; Atuar sobre o sentimento, pode atrair tanto para o verdadeiro quanto para o falso, para o bem e para o mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Arist\u00f3teles<\/strong><\/p>\n<h2>Arist\u00f3teles, filho de Nic\u00f4maco, m\u00e9dico de Amintas, rei da Maced\u00f4nia, nasceu no ano 384 a.C., em Estagira, col\u00f4nia grega da Tr\u00e1cia, no litoral setentrional do mar Egeu. Aos dezoito anos, em 367, foi para Atenas e ingressou na Academia plat\u00f4nica, onde permaneceu durante vinte anos, at\u00e9 \u00e0 morte de Plat\u00e3o, quando instalou-se em Asso, na E\u00f3lida, e depois, em Lesbos.<\/h2>\n<p>Em 343, foi chamado \u00e0 corte de Filipe da Maced\u00f4nia, para dirigir a educa\u00e7\u00e3o do seu filho, o jovem de treze anos, que passaria \u00e0 Hist\u00f3ria como Alexandre, o Grande. De volta \u00e0 Atenas, em 335, treze anos depois da morte de Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles instalou, perto do templo de Apolo L\u00edcio, a sua escola denominada Liceu, em conseq\u00fc\u00eancia dessa aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a morte de Alexandre, em 323, o grande imp\u00e9rio perdeu a for\u00e7a pol\u00edtica e foram acesas as aspira\u00e7\u00f5es de independ\u00eancia nas col\u00f4nias. Em Atenas, Dem\u00f3stenes liderou o processo de separa\u00e7\u00e3o. Como o passado de Arist\u00f3teles o ligada aos maced\u00f4nios, para evitar a condena\u00e7\u00e3o retirou-se, voluntariamente para Eub\u00e9ia. No ver\u00e3o do ano seguinte, Arist\u00f3teles faleceu, com sessenta anos de idade.<\/p>\n<p>Ao longo da vida escreveu sobre l\u00f3gica, fen\u00f4menos naturais, metaf\u00edsica, \u00e9tica, vida animal, pol\u00edtica, ret\u00f3rica, po\u00e9tica, <strong>filosofia, teologia, f\u00edsica, astronomia, biologia, psicologia, pol\u00edtica e literatura.<\/strong><\/p>\n<p>As principais obras de Arist\u00f3teles, s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; L\u00f3gica:<\/p>\n<p><em>&#8211; Categorias;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Da interpreta\u00e7\u00e3o;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Primeira Anal\u00edtica;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Segunda Anal\u00edtica;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; T\u00f3picos;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Refuta\u00e7\u00f5es dos sofistas<\/em>.<\/p>\n<p>De um modo geral, Arist\u00f3teles procurou entender o conhecimento a partir das antinomias acumuladas pelos predecessores:<\/p>\n<p>&#8211; Unidade e multiplicidade;<\/p>\n<p>&#8211; Percep\u00e7\u00e3o intelectual e percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel;<\/p>\n<p>&#8211; Identidade e mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa extraordin\u00e1ria produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Arist\u00f3teles elaborada de modo sistem\u00e1tico e pedag\u00f3gico esteve relacionada com a hist\u00f3ria da Medicina, durante mais de vinte s\u00e9culos. De modo sucinto, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer alguns eixos:<\/p>\n<p>&#8211; Ci\u00eancia e filosofia<\/p>\n<p>De certa forma diversa de Plat\u00e3o que valorizou o dualismo, isto \u00e9, o mundo da intelig\u00eancia separado do mundo das coisas sens\u00edveis, para obter coer\u00eancia entre o conceito e seu objeto, o realismo de Arist\u00f3teles procurou estabelecer a mesma coer\u00eancia sem abandonar o mundo sens\u00edvel: a partir da experi\u00eancia, insere o dualismo entre o intelig\u00edvel e o sens\u00edvel. Dessa forma, pretendia resgatar a unidade do homem consigo mesmo e com o mundo.<\/p>\n<p>Em determinado momento, Arist\u00f3teles censurou a Plat\u00e3o por ter seguido um caminho ilus\u00f3rio, que retirava a natureza do alcance da ci\u00eancia. Para isso Arist\u00f3teles sustentou que o ser existe, diversamente, na intelig\u00eancia e nas coisas, mas o intelecto ativo, que \u00e9 atributo da primeira, capta nas \u00faltimas, o que elas t\u00eam de intelig\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00f3gica<\/p>\n<p>Nos primeiros s\u00e9culos do cristianismo, as obras de Arist\u00f3teles sobre L\u00f3gica, foram reunidos sob a denomina\u00e7\u00e3o <em>\u00d3rganon<\/em>. No livro <em>T\u00f3picos<\/em> classifica os diferentes modos de atribui\u00e7\u00e3o do predicado ao sujeito. No <em>Primeira Anal\u00edtica<\/em>, consolida a teoria do Silogismo, com o prop\u00f3sito de demonstrar a formalidade do racioc\u00ednio, independente de representar a verdade objetiva.<\/p>\n<p>Sob a leitura do silogismo aristot\u00e9lico se B \u00e9 A (proposi\u00e7\u00e3o maior), se C \u00e9 B (proposi\u00e7\u00e3o menor), logo C \u00e9 A (conclus\u00e3o).<\/p>\n<p>&#8211; Metaf\u00edsica<\/p>\n<p>Destaca-se na metaf\u00edsica aristot\u00e9lica as dez categorias do ser:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Ess\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; Qualidade;<\/p>\n<p>&#8211; Quantidade;<\/p>\n<p>&#8211; Rela\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Lugar;<\/p>\n<p>&#8211; Tempo;<\/p>\n<p>&#8211; Situa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Ter;<\/p>\n<p>&#8211; A\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas categorias seriam as ess\u00eancias do ser, onde poderia ocorrer a concilia\u00e7\u00e3o a unidade e pluralidade. Por outro lado, o ser un\u00edvoco, isto \u00e9, aquele que na admitida pluralidade comportaria seres absolutamente id\u00eanticos, existiria separado do mundo sens\u00edvel: seria a pura ess\u00eancia, aquela que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel atribuir nenhuma outra categoria al\u00e9m da pr\u00f3pria ess\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Filosofia da natureza<\/p>\n<p>Sempre atento em compreender a multiplicidade do ser, Arist\u00f3teles sustentou que a mudan\u00e7a percept\u00edvel n\u00e3o contrariava o princ\u00edpio de identidade, j\u00e1 que representava apenas a atualiza\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia nelas contidas. Sob esse embasamento, desenvolveu categorias para explicar essa posi\u00e7\u00e3o: a subst\u00e2ncia, o acidente e a as quatro causas.<\/p>\n<p>&#8211; A subst\u00e2ncia \u00e9 o que existe por si ou o elemento est\u00e1vel das coisas;<\/p>\n<p>&#8211; O acidente \u00e9 o que s\u00f3 existe no outro, como determina\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria e mutante.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia da combina\u00e7\u00e3o dois princ\u00edpios, a subst\u00e2ncia se manifesta atrav\u00e9s dos acidentes, isto \u00e9, o agir segue o ser.<\/p>\n<p>Por outro lado, os seres s\u00e3o dependentes de quatro causas com as respectivas determinantes:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Material potencialidade<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Formal especificidade<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Eficiente exist\u00eancia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Final inten\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9tica e pol\u00edtica<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles foi o primeiro fil\u00f3sofo a distinguir a \u00e9tica da pol\u00edtica:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9tica: a a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e moral do indiv\u00edduo;<\/p>\n<p>&#8211; Pol\u00edtica: os la\u00e7os do indiv\u00edduo com a comunidade.<\/p>\n<p>Dotado de <em>logos<\/em> = palavra, como instrumento da linguagem, o homem estaria fadado a ser parte fundamental i estrutural da p\u00f3lis = cidade. Sob essa perspectiva, a cidade, como organiza\u00e7\u00e3o social regida pelo homem dotado da linguagem, seria conseq\u00fc\u00eancia do destino natural e precederia a pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Dos instrumentos de organiza\u00e7\u00e3o social coletiva que o homem concebeu a p\u00f3lis \u00e9 a mais adequada, superando em fun\u00e7\u00e3o e plasticidade a fam\u00edlia e a tribo. Para administrar a p\u00f3lis, os regimes pol\u00edticos seriam os respons\u00e1veis pelas solu\u00e7\u00f5es oferecidas aos conflitos entre os componentes da comunidade. Haveria tr\u00eas formas boas regimes e as respectivas deformidades:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Monarquia tirania<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Aristocracia oligarquia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"227\">Polit\u00e9ia demagogia<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O dif\u00edcil equil\u00edbrio entre rela\u00e7\u00e3o unidade-pluralidade seria obtido por meio das leis que atuariam como processos complementares na obten\u00e7\u00e3o da conc\u00f3rdia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Po\u00e9tica<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles distinguiu as artes oriundas da imita\u00e7\u00e3o enaltecendo o dinamismo criador do homem que, ao contemplar a vis\u00edvel, \u00e9 captar a id\u00e9ia contida na natureza.<\/p>\n<p>No livro <em>Po\u00e9tica<\/em>, atribuiu grande import\u00e2ncia \u00e0 trag\u00e9dia, como espet\u00e1culo que recria a vida, imitando n\u00e3o os homens, mas uma a\u00e7\u00e3o e a vida. Se competente, a trag\u00e9dia seria suficientemente competente para exercer profundo efeito modificador sobre o espectador, determinando a purifica\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es = <em>k\u00e1tharsis<\/em>.<\/p>\n<p>&#8211; F\u00edsica e ci\u00eancias naturais<\/p>\n<p>A maior parte da compreens\u00e3o aristot\u00e9lica da F\u00edsica foi a realidade sens\u00edvel, na qual a id\u00e9ia \u00e9 inteiramente envolvida pela mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>O f\u00edsico deveria possuir acurado esp\u00edrito de observa\u00e7\u00e3o. A realidade natural, em seus aspectos mais gerais, \u00e9 aut\u00f4noma contrapondo-se \u00e0 espontaneidade acidental que exprime os efeitos inesperados que as coisas produzem no homem.<\/p>\n<p>A natureza \u00e9 auto-cria\u00e7\u00e3o sob o permanente efeito do movimento, o qual apresenta-se quanto ao aspecto quantitativo (aumento e diminui\u00e7\u00e3o) e espacial (locomo\u00e7\u00e3o e transla\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A f\u00edsica aristot\u00e9lica compreendeu os seres org\u00e2nicos apresentando aspectos diversos entre si, por\u00e9m todos constitu\u00eddos de mat\u00e9ria (o corpo) e de forma (o princ\u00edpio do movimento). A import\u00e2ncia do movimento sobre tudo e todos moldou as signific\u00e2ncias opostas da din\u00e2mica e da est\u00e1tica:<\/p>\n<p>&#8211; Din\u00e2mica: o corpo inanimado n\u00e3o pode permanecer em movimento sem a a\u00e7\u00e3o constante de uma for\u00e7a, constitu\u00edda pela a\u00e7\u00e3o e pela pot\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1tica: constitu\u00edda pela mat\u00e9ria e pela forma.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o hierarquizada da f\u00edsica de Arist\u00f3teles concebeu diferen\u00e7as fundamentais entre os seres vivos. Os animais superiores seriam dotados:<\/p>\n<p>&#8211; Mat\u00e9ria;<\/p>\n<p>&#8211; Forma;<\/p>\n<p>&#8211; Movimento;<\/p>\n<p>&#8211; Sensibilidade;<\/p>\n<p>&#8211; Potencialidade receptiva.<\/p>\n<p>Os animais apresentariam propriedades sensitivas e motoras., enquanto as plantas possuiriam apenas propriedades nutritivas. O homem ocuparia o v\u00e9rtice da pir\u00e2mide, aliando a todas essas propriedades uma potencialidade receptiva em grau elevado.<\/p>\n<p>Como seq\u00fc\u00eancia imediata, a anatomia aristot\u00e9lica ressaltou a import\u00e2ncia da distribui\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria nas fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, ao mesmo tempo em que vaticinou, nos seres mais desenvolvidos, a correla\u00e7\u00e3o entre os estados ps\u00edquicos e os processos fisiol\u00f3gicos.<\/p>\n<h2>&#8211; Medicina<\/h2>\n<p>A partir da observa\u00e7\u00e3o de animais e disseca\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas Arist\u00f3teles escreveu sobre v\u00e1rios temas m\u00e9dicos:<\/p>\n<p><em>&#8211; Corpus aristotelicum<\/em>: a maior parte dedicada ao estudo dos seres vivos;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a alma<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Parva naturalia<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a sensa\u00e7\u00e3o e o sentido<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a adivinha\u00e7\u00e3o pelo sono<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a mem\u00f3ria e a reminisc\u00eancia<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre o sono<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a dura\u00e7\u00e3o e a brevidade da vida<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a vida e a morte<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a respira\u00e7\u00e3o<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a hist\u00f3ria dos animais<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre as partes dos animais<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre o movimento dos animais<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre o andar dos animais<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre a gera\u00e7\u00e3o dos animais<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre o esp\u00edrito<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Sobre as plantas<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Hist\u00f3ria das plantas<\/em>.<\/p>\n<p>Do mesmo modo como os livros de Plat\u00e3o, os de Arist\u00f3teles influenciaram de modo marcante os rumos da hist\u00f3ria da Medicina, notadamente, durante toda a Idade Media. Dessa forma, \u00e9 conveniente relembrar alguns poucos e resumidos pontos da estrutura te\u00f3rica que moldou o pensamento m\u00e9dico ocidental, durante vinte s\u00e9culos:<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de vida: todas as subst\u00e2ncias pertencentes ao mundo f\u00edsico t\u00eam movimento, mas h\u00e1 entre elas grandes diferen\u00e7as, que as dividem em duas ordens distintas:<\/p>\n<p>&#8211; Inertes ou n\u00e3o vivas: s\u00f3 deslocam-se quando impulsionadas por algum agente extr\u00ednseco;<\/p>\n<p>&#8211; M\u00f3veis ou vivas: possuem o princ\u00edpio intr\u00ednseco do movimento espont\u00e2neo, para seu pr\u00f3prio bem ou seu pr\u00f3prio fim.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o entre viventes e n\u00e3o viventes n\u00e3o prov\u00e9m da mat\u00e9ria constitutiva, id\u00eantica em ambos os seres, tanto um quanto o outro \u00e9 composto dos quatro elementos (ar, \u00e1gua, terra e fogo), mas de sua forma que cont\u00e9m ou n\u00e3o o princ\u00edpio intr\u00ednseco do movimento.<\/p>\n<p>Essa capacidade vital do movimento n\u00e3o consiste somente no deslocamento local, presente nos seres vivos superiores, mas essencialmente na capacidade de auto-modifica\u00e7\u00e3o para reparar as perdas sofridas.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio da vida seria a alma, compreendida n\u00e3o somente como ato da mat\u00e9ria em ordem ao conjunto dos elementos corp\u00f3reos, mas em ordem ao conjunto de \u00f3rg\u00e3os: ato primeiro do corpo f\u00edsico org\u00e2nico, que tem vida em pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Considerava a natureza da vida essencialmente ligada ao calor, mas n\u00e3o o que prov\u00e9m do elemento fogo, mas outro de categoria superior, que procede do Sol ou dos astros:<\/p>\n<p>&#8211; Seres vivos<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles distingue v\u00e1rios graus de perfei\u00e7\u00e3o na escala dos seres vivos. S\u00e3o distintos, mas cada grau superior inclui naturalmente os inferiores, de certo modo, semelhante \u00e0s figuras geom\u00e9tricas: o quadril\u00e1tero inclui o tri\u00e2ngulo, porque pode dividir-se em dois tri\u00e2ngulos iguais, mas o tri\u00e2ngulo pode existir sem o quadril\u00e1tero:<\/p>\n<p>&#8211; Plantas: t\u00eam alma vegetativa ou nutritiva, destinadas a exercer as fun\u00e7\u00f5es de assimila\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o t\u00eam sensibilidade e movimento local;<\/p>\n<p>&#8211; Animais imperfeitos, que t\u00eam alma sensitiva, mas n\u00e3o t\u00eam o movimento progressivo;<\/p>\n<p>&#8211; Animais perfeitos, que t\u00eam alma sensitiva, e al\u00e9m disso, apetite, fantasia, mem\u00f3ria e faculdade locomotiva para transladar-se de um lugar a outro;<\/p>\n<p>&#8211; O homem marca o grau m\u00e1ximo na hierarquia dos seres vivos e sintetiza a perfei\u00e7\u00e3o dos seres anteriores; distingue-se e os supera pela alma, que \u00e9 uma forma dotada de entendimento e vontade, capaz de ci\u00eancia e delibera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto a intera\u00e7\u00e3o corpo-alma, \u00e9 poss\u00edvel distinguir tr\u00eas etapas do pensamento aristot\u00e9lico:<\/p>\n<p>&#8211; Primeira ou plat\u00f4nica: Arist\u00f3teles considera a alma e o corpo como duas subst\u00e2ncias distintas e at\u00e9 opostas, unidas n\u00e3o s\u00f3 acidental e violentamente como constituindo uma unidade apenas temporal; a alma preexistiria ao corpo e retornaria, depois da morte, ao seu estado primitivo;<\/p>\n<p>&#8211; Segunda ou transi\u00e7\u00e3o: a alma ainda que distinta do corpo, est\u00e1 unida a ele acidentalmente, mas o corpo concebe-se como um instrumento da alma. O corpo \u00e9 por e para a alma. A alma age no corpo e pelo corpo, ao qual governa como a uma cidade bem governada. N\u00e3o h\u00e1 ainda uni\u00e3o substancial, mas a uni\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o aparece como violenta, mas como comunh\u00e3o de atividades, se bem que a alma conserva certa independ\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; Helim\u00f3rfica: a alma seria ato do corpo, com o qual se une como a forma com a mat\u00e9ria. Alma e corpo, ainda que distintos, constituiriam um s\u00f3 e \u00fanico composto substancial, do qual brotam todas as opera\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do ser vivo. As a\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam ser atribu\u00eddas, separadamente, nem ao corpo, nem \u00e0 alma, mas ao sujeito substancial que resulta da uni\u00e3o de ambos, e que tem um ato \u00fanico de exist\u00eancia:<\/p>\n<p>Nessa sistem\u00e1tica do pensamento aristot\u00e9lico, \u00e9 poss\u00edvel assinalar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fase helim\u00f3rfica:<\/p>\n<p>&#8211; Assim como o olho compreende a pupila e a vista, assim a alma e o corpo formam juntamente o ser vivo;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 o corpo o ato da alma, mas a alma o ato de um certo corpo&#8230; n\u00e3o pode ser nem um corpo, nem num corpo; porque ela n\u00e3o \u00e9 um corpo, mas alguma coisa do corpo, e por causa disto ela est\u00e1 num corpo;<\/p>\n<p>&#8211; A alma \u00e9 a forma de um corpo natural que tem a vida em pot\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o ato primeiro de um corpo natural que tem a vida em pot\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o ato de um corpo natural org\u00e2nico;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 aquilo pelo qual vivemos, sentimos e pensamos;<\/p>\n<p>-Com a aplica\u00e7\u00e3o da teoria helim\u00f3rfica \u00e0 biologia, a uni\u00e3o da alma com o corpo apareceria como ato natural, excluindo do pensamento filos\u00f3fico grego:<\/p>\n<p>&#8211; O conceito materialista dos pitag\u00f3ricos que concebiam a alma como a harmonia resultante dos elementos do corpo;<\/p>\n<p>&#8211; A teoria plat\u00f4nica da preexist\u00eancia e da transmigra\u00e7\u00e3o por que o corpo n\u00e3o \u00e9 o c\u00e1rcere da alma, mas ambos s\u00e3o dois princ\u00edpios distintos de cuja uni\u00e3o resulta um s\u00f3 ser substancial e natural;<\/p>\n<p>&#8211; Divis\u00e3o plat\u00f4nica da alma em tr\u00eas partes diferentes.<\/p>\n<p>&#8211; Pot\u00eancias da alma<\/p>\n<p>A alma \u00e9 una, mas realiza m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es e essa raz\u00e3o tem cinco classes de pot\u00eancia ou princ\u00edpios distintos acidentais se diversificam em fun\u00e7\u00e3o de seus atos e dos seus objetivos:<\/p>\n<p>&#8211; Vegetativa;<\/p>\n<p>&#8211; Sensitiva;<\/p>\n<p>&#8211; Intelectiva;<\/p>\n<p>&#8211; Apetitiva;<\/p>\n<p>&#8211; Locomotiva.<\/p>\n<p>As tr\u00eas primeiras seriam opera\u00e7\u00f5es imanentes, ao passo que as duas \u00faltimas responderiam \u00e0 finalidade extr\u00ednseca dos seres, pois o fim dos seres vivos implica o apetite e a faculdade de mover-se para a consecu\u00e7\u00e3o do objeto apetecido.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles inclui tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es presentes na classe inferior de vida, exclusivamente, voltadas \u00e0 vida vegetativa: nutri\u00e7\u00e3o, crescimento e gera\u00e7\u00e3o. As duas primeiras tendem \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo, e a segunda a da esp\u00e9cie:<\/p>\n<p>A sensibilidade marca um grau mais alto na hierarquia dos seres vivos. Os animais acrescentam \u00e0s plantas a faculdade de conhecer outros seres distintos deles mesmos. A essa qualidade est\u00e3o acopladas duas outras faculdades: conhecimento sensitivo e pot\u00eancia locomotiva:<\/p>\n<p>A maior parte da teoria aristot\u00e9lica do conhecimento foi concebida junto ao mundo real. Dessa forma, Arist\u00f3teles n\u00e3o duvidou da exist\u00eancia de exist\u00eancia do mundo exterior e objetivo e nem da faculdade do homem para conhec\u00ea-lo. A explica\u00e7\u00e3o do saber, tal como o percebe a experi\u00eancia, desenvolve-se em fun\u00e7\u00e3o dos dois conceitos fundamentais: ato e pot\u00eancia. A combina\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea do ato e da pot\u00eancia resultariam na a\u00e7\u00e3o cognoscitiva do sujeito sobre o objeto.<\/p>\n<p>Contudo, entre sujeito e objeto deve haver proporcionalidade, pois somente o semelhante seria competente para conhecer o semelhante. Os inferiores n\u00e3o poderiam supor sobre os superiores, mas os superiores, portadores de sentidos, implicam sobre todos os inferiores. Dessa combina\u00e7\u00e3o entre a a\u00e7\u00e3o do objeto com a receptividade dos \u00f3rg\u00e3os sens\u00edveis resultaria a sensa\u00e7\u00e3o como express\u00e3o de ordem vital.<\/p>\n<p>A genialidade de Arist\u00f3teles tamb\u00e9m moldou a diferen\u00e7a entre os sentidos externos e internos, que n\u00e3o se basearia s\u00f3 na exterioridade e interioridade dos \u00f3rg\u00e3os, mas no modo como seriam afetados pelos objetos.<\/p>\n<p>Os sentidos externos s\u00e3o cinco: vis\u00e3o, olfa\u00e7\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, gusta\u00e7\u00e3o e tato. Todos necessitariam da presen\u00e7a dos objetos sens\u00edveis, isto \u00e9, sem a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria poss\u00edvel a sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os sentidos internos: sentido comum, imagina\u00e7\u00e3o, estimativa e mem\u00f3ria, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o precisam da a\u00e7\u00e3o. S\u00e3o capazes de conservar as sensa\u00e7\u00f5es e de reproduzir as experimentadas anteriormente.<\/p>\n<p>Os sentidos n\u00e3o chegam a perceber as ess\u00eancias das coisas, nem mesmo a sua forma substancial, somente percebem as formas acidentais externas. Podem ser distinguidos em duas classes:<\/p>\n<p>&#8211; Sens\u00edveis pr\u00f3prios: correspondem aos objetos pr\u00f3prios e particulares de cada um dos sentidos externos. A especificidade de cada sentido seria afetada por determinada classe de sens\u00edveis e n\u00e3o poderia perceber os outros. Assim, o olho n\u00e3o pode ouvir, nem o ouvido ver:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"189\">vis\u00e3o cor<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"189\">audi\u00e7\u00e3o som<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"189\">olfa\u00e7\u00e3o cheiro<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"189\">gusta\u00e7\u00e3o sabor<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"189\">tato calor e frio<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Sens\u00edveis comuns: s\u00e3o aqueles cuja percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusiva de nenhum sentido espec\u00edfico, mas s\u00e3o apreendidos, indistintamente, por todos ou v\u00e1rios. N\u00e3o constituem objetos independentes entre si, mas s\u00e3o modalidades dos sens\u00edveis pr\u00f3prios. Por essa raz\u00e3o n\u00e3o servem para especificar nenhum sentido em particular. S\u00e3o representados:<\/p>\n<p>&#8211; Magnitude;<\/p>\n<p>&#8211; Figura;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00famero;<\/p>\n<p>&#8211; Unidade;<\/p>\n<p>&#8211; Pluralidade;<\/p>\n<p>&#8211; Movimento;<\/p>\n<p>&#8211; Repouso.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles distinguiu nos animais outros quatro sentidos internos, caracterizados por realizarem as fun\u00e7\u00f5es na aus\u00eancia dos objetos na medida em que as sensa\u00e7\u00f5es deixam vest\u00edgios na sensibilidade. Os animais t\u00eam a capacidade de reproduzi-los, combin\u00e1-los, associ\u00e1-los e compar\u00e1-los entre si, conforme as exig\u00eancias das necessidades pr\u00e1ticas:<\/p>\n<p>&#8211; Sentido comum: presente em todos os animais, sendo esp\u00e9cie de faculdade centralizadora da rede de percep\u00e7\u00f5es sens\u00edveis dispersas;<\/p>\n<p>&#8211; Imagina\u00e7\u00e3o: \u00e9 sentido interno superior ao sentido comum, que somente possuem os animais mais perfeitos;<\/p>\n<p>&#8211; Estimativa: os animais percebem nos objetos n\u00e3o somente o que \u00e9 agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel a cada sentido particular, mas tamb\u00e9m o que \u00e9 \u00fatil ou nocivo ao sujeito;<\/p>\n<p>&#8211; Mem\u00f3ria: conserva\u00e7\u00e3o das imagens do passado.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel distinguir algumas posi\u00e7\u00f5es de Arist\u00f3teles quanto \u00e0 imortalidade:<\/p>\n<p><em>&#8211; Eudemo<\/em>: como Plat\u00e3o, cr\u00ea na preexist\u00eancia e imortalidade pessoal da alma;<\/p>\n<p><em>&#8211; De generatione animalium<\/em>: a alma n\u00e3o procederia por via de gera\u00e7\u00e3o, mas viria de fora, o que faz supor que tamb\u00e9m sobreviver\u00e1 ao fim do corpo;<\/p>\n<p><em>&#8211; Metaf\u00edsica<\/em>; restringe a imortalidade somente \u00e0 parte intelectiva da alma;<\/p>\n<p><em>&#8211; De anima<\/em>: a imortalidade ficaria reservada somente ao entendimento ativo, enquanto que o passivo corrompe-se com o corpo;<\/p>\n<p><em>&#8211; \u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>: real\u00e7a a d\u00favida sobre a imortalidade Podemos desejar coisas imposs\u00edveis, por exemplo, a imortalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Per\u00edodo hipocr\u00e1tico <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Hip\u00f3crates , segundo Sorano de \u00c9feso, nasceu na ilha de C\u00f3s, em 460 a. C. Filho do m\u00e9dico H\u00e9raclides, aprendeu os segredos da pr\u00e1tica m\u00e9dica com o pai e nas viagens \u00e0 Tess\u00e1ria, Tr\u00e1cia, L\u00edbia e o Egito.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo admir\u00e1vel da Medicina grega, do qual Hip\u00f3crates foi o mais importante representante, compreendeu cinco centros de cultura m\u00e9dica que receberam os respectivos nomes da cidade onde funcionaram: C\u00f3s, fundada por Hip\u00f3crates, em 440 a. C., Rhodes, Cnido, Crotona e Agrigento<\/p>\n<p>Devido a import\u00e2ncia fundamental na hist\u00f3ria da Medicina, a Escola de C\u00f3s acabou absorvendo a denomina\u00e7\u00e3o de Medicina hipocr\u00e1tica em men\u00e7\u00e3o honrosa a Hip\u00f3crates.<\/p>\n<p>O sucesso da Escola M\u00e9dica de C\u00f3s, onde Hip\u00f3crates e seus seguidores estruturaram as bases da Medicina-oficial grega, respons\u00e1vel pela primeira teoria para explicar a sa\u00fade e a doen\u00e7a \u00be a teoria dos Quatro Humores \u00be que rpresenta o primeiro corte epistemol\u00f3gico da Medicina, foi cristianizado no medievo e traduzido para o franc\u00eas no s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Medicina hipocr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>A totalidade das obras publicadas pelos m\u00e9dicos da Escola de C\u00f3s \u00e9 respons\u00e1vel pela primeiro corte epistemol\u00f3gico na hist\u00f3ria da Medicina, quando as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas iniciaram o processo de separa\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas. A cura deixou de ser um atributo exclusivo dos deuses protetores ou vingadores para ser explicada pela Medicina-oficial, onde era poss\u00edvel e prefer\u00edvel que o homem agisse sobre o outro homem doente, para alcan\u00e7ar a melhoria da sa\u00fade.<\/p>\n<p>A estrutura te\u00f3rica da Medicina hipocr\u00e1tica est\u00e1 contida no pensamento filos\u00f3fico grego pr\u00e9-socr\u00e1tico, notadamente, na teoria dos Quatro Elementos de Emp\u00e9docles (\u00e1gua, terra, ar e fogo). Posteriormente, foi inclu\u00eddo no mundo das id\u00e9ias plat\u00f4nico-aristot\u00e9lico.<\/p>\n<p>Se for considerado o fato de que, at\u00e9 o s\u00e9culo 3 a. C., na Gr\u00e9cia, qualquer pessoa poderia exercer a Medicina, o not\u00e1vel avan\u00e7o proporcionado pelos escritos da Escola de C\u00f3s, sistematizando os saberes historicamente acumulados e iniciando o processo de ruptura com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas inclusive, \u00e9 fundamental conhecer algumas id\u00e9ias centrais que moldaram a Medicina, no Ocidente, durante vinte s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer quatro conceitos fundamentais na Medicina hipocr\u00e1tica:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 fundamental conhecer o corpo humano e o ambiente: s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entender a sa\u00fade e a doen\u00e7a se o homem for estudado em conjunto com o ambiente onde vive;<\/p>\n<p>&#8211; A doen\u00e7a \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia de agress\u00e3o ao equil\u00edbrio do corpo: as causas e as conseq\u00fc\u00eancias das doen\u00e7a devem ser entendidas em conjunto com as rea\u00e7\u00f5es naturais do corpo frente \u00e0 agress\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; A sa\u00fade \u00e9 obtida por meio do equil\u00edbrio entre os Quatro Humores (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra) que correspondem aos Quatro Elementos de Emp\u00e9docles (\u00e1gua, terra, ar e fogo):<\/p>\n<p>&#8211; Sangue: elaborado no cora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Fleuma, na hip\u00f3fise;<\/p>\n<p>&#8211; Bile amarela, no f\u00edgado;<\/p>\n<p>&#8211; Bile negra, nas pequenas veias.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a \u00e9 o resultado do desequil\u00edbrio dos Quatro Humores que poderia ocorrer seja por causas internas, pr\u00f3prias do doente, seja por vetores externos, ao ambiente ou modo de vida do paciente, seja pela conjun\u00e7\u00e3o dos dois fatores. Sob esse pressuposto te\u00f3rico, praticar a sangria era uma das formas de obter o equil\u00edbrio dos humores.<\/p>\n<p>Os escritos hipocr\u00e1ticos consideravam como fatores internos:<\/p>\n<p>&#8211; Idade:<\/p>\n<p>&#8211; Inf\u00e2ncia, predominaria o sangue quente;<\/p>\n<p>&#8211; Adolesc\u00eancia, com maior concentra\u00e7\u00e3o da b\u00edlis amarela, ocorreria maior ard\u00eancia nas paix\u00f5es;<\/p>\n<p>&#8211; Idade adulta, a maior quantidade de b\u00edlis negra favoreceria a intelig\u00eancia;<\/p>\n<p>&#8211; Velhice, existiria a preponder\u00e2ncia do fleuma;<\/p>\n<p>&#8211; Fatores cong\u00eanitos;<\/p>\n<p>&#8211; Condi\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas.<\/p>\n<p>&#8211; As esta\u00e7\u00f5es: quando ocorreriam predomin\u00e2ncia de certos humores:<\/p>\n<p>-Inverno: o fleuma, o humor frio e \u00famido;<\/p>\n<p>&#8211; Primavera: o sangue, humor quente e \u00famido;<\/p>\n<p>&#8211; Ver\u00e3o: o sangue, humor seco e quente;<\/p>\n<p>&#8211; Outono: bile negra, humor seco e frio.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c1guas: poderiam provocar as doen\u00e7as em fun\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Quantidade;<\/p>\n<p>&#8211; Qualidade.<\/p>\n<p>&#8211; Ar: considerado o mais importante instrumento da fun\u00e7\u00e3o vital, poderia ser determinante de patologias se introduzido no corpo em quantidades:<\/p>\n<p>&#8211; Excessivas;<\/p>\n<p>&#8211; Reduzidas;<\/p>\n<p>&#8211; Muito denso.<\/p>\n<p>-Ventos: as doen\u00e7as seriam facultadas quando estivessem:<\/p>\n<p>&#8211; Seco;<\/p>\n<p>&#8211; \u00damido;<\/p>\n<p>&#8211; Quente;<\/p>\n<p>&#8211; Frio.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a foi entendida, na Escola de C\u00f3s, como um processo resultante de tr\u00eas fases sucessivas e interrelacionadas:<\/p>\n<p>&#8211; Incuba\u00e7\u00e3o: em conseq\u00fc\u00eancia dos fatores intr\u00ednsecos ou extr\u00ednsecos ou ambos atuando sobre o corpo seria iniciado o processo da altera\u00e7\u00e3o dos humores, nem sempre verific\u00e1vel no exame cl\u00ednico;<\/p>\n<p>&#8211; Cr\u00edtica: os humores estariam plenamente desequilibrados e a doen\u00e7a seria manifesta;<\/p>\n<p>&#8211; Resolu\u00e7\u00e3o: os mecanismos naturais e\/ou aqueles provocados pelo m\u00e9dico para eliminar o excesso dos humores seriam os respons\u00e1veis pela cura ou pela organiza\u00e7\u00e3o localizada da doen\u00e7a, por exemplo, o abcesso e o empiema.<\/p>\n<p>Ao lado desse conjunto te\u00f3rico, sempre atado \u00e0 teoria dos Quatro Humores, os m\u00e9dicos hipocr\u00e1ticos trataram de compor normas para obter o adequado exame cl\u00ednico, que deveria compreender quatro etapas:<\/p>\n<p>&#8211; Reconhecimento dos antecedentes do doente que poderiam estar relacionados ao estado m\u00f3rbido;<\/p>\n<p>&#8211; An\u00e1lise dos sinais e sintomas apresentados, cujos mais importantes s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Febre;<\/p>\n<p>&#8211; Dispn\u00e9ia;<\/p>\n<p>&#8211; Queixas digestivas;<\/p>\n<p>&#8211; Altera\u00e7\u00f5es nas elimina\u00e7\u00f5es de secre\u00e7\u00e3o, fezes e urina.<\/p>\n<p>&#8211; Identifica\u00e7\u00e3o dos sinais locais, como os conseq\u00fcentes dos traumatismos;<\/p>\n<p>&#8211; Exame cl\u00ednico geral, compreendendo:<\/p>\n<p>&#8211; Cabe\u00e7a e pesco\u00e7o;<\/p>\n<p>&#8211; Posi\u00e7\u00e3o assumida pelo doente frente a dor e o desconforto determinados pela patologia;<\/p>\n<p>&#8211; Ritmo da respira\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Aspecto das ferida e \u00falceras;<\/p>\n<p>&#8211; Suor;<\/p>\n<p>&#8211; Palpa\u00e7\u00e3o dos hipoc\u00f4ndrios;<\/p>\n<p>&#8211; Qualidade e quantidade do sono;<\/p>\n<p>&#8211; Aspecto e quantidade da urina;<\/p>\n<p>&#8211; Apar\u00eancia das secre\u00e7\u00f5es e do pus;<\/p>\n<p>&#8211; Resultados do trauma externo e interno;<\/p>\n<p>&#8211; Doen\u00e7as ginecol\u00f3gicas e das mamas.<\/p>\n<p>As propostas terap\u00eauticas, tamb\u00e9m idealizados em torno da teoria dos Quatro Humores, comportavam orienta\u00e7\u00f5es diferentes \u00e0s doen\u00e7as agudas e cr\u00f4nicas, e nasceram como conseq\u00fc\u00eancia natural dessa fiel organiza\u00e7\u00e3o do exame cl\u00ednico. Ofereciam cinco vertentes que poderiam ou n\u00e3o ser utilizadas simultaneamente:<\/p>\n<p>&#8211; Regime alimentar: plena de regras na quantidade e qualidade dos alimentos;<\/p>\n<p>&#8211; F\u00e1rmacos: compreendiam rem\u00e9dios tanto de origem mineral quanto de vegetais;<\/p>\n<p>&#8211; Cirurgia: muitas procedimentos cir\u00fargicos foram descritos com muita precis\u00e3o, entre outros, para a excis\u00e3o de tumores, abcessos, f\u00edstulas anais e hemorr\u00f3idas. Do mesmo modo, v\u00e1rios livros trataram com min\u00facias os tipos de instrumentos cir\u00fargicos e curativos mais adequados.<\/p>\n<p>&#8211; Psicol\u00f3gico: sob certa an\u00e1lise, esse aspecto terap\u00eautico manteve liga\u00e7\u00e3o com as id\u00e9ias e cren\u00e7as religiosas, notadamente, o culto de Ascl\u00e9pio, na medida em que era pr\u00e1tica comum, no templo de Epidauro, localizado ao lado da Escola de C\u00f3s, os doentes acreditarem poder ser curados durante sono, gra\u00e7as a visita desse deus da Medicina grega sob a forma da serpente;<\/p>\n<p>&#8211; Atitudes realizadas sobre o doente para apressar o equil\u00edbrio dos humores: sangrias, vomit\u00f3rios, cataplasmas, diur\u00e9ticos, diarr\u00eaicos e sudorese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Medicina e a mitologia grega<\/strong><\/p>\n<p><em>Os gregos que parecem ter sido os primeiros a fazer da Medicina a profiss\u00e3o mais ilustre e completa, escreveram na conformidade deste conceito que fora Apolo o inventor dela o que n\u00e3o deixa de Ter aparente raz\u00e3o. Eles entendiam Apolo como o Sol (com o seu calor benigno e temperados, vivificador das plantas e do homem) ou como o homem, que possuidor de um esp\u00edrito divino e melhor que todos os demais do seu tempo. Apolo tamb\u00e9m foi o primeiro que ensinou e praticou o uso das ervas. Como Ov\u00eddio deu a entender na sua obra Metamorfoses:<\/em><\/p>\n<p><em>A Medicina um dia eu inventei; <\/em><\/p>\n<p><em>Com ela, a toda gente aux\u00edlio dei;<\/em><\/p>\n<p><em>Das ervas o poder a mim se prende;<\/em><\/p>\n<p><em>De mim, pois, a sa\u00fade s\u00f3 depende.<\/em><\/p>\n<p><em>Na verdade, a origem da Medicina ser\u00e1 sempre divina e celeste <\/em>(Ambroise Par\u00e9, 1582).<\/p>\n<p>Esse trecho retirado do livro <em>Ouvres Completes<\/em>, de Ambroise Par\u00e9 (1510-1590), o mais famoso cirurgi\u00e3o-barbeiro de todos os tempos e um dos respons\u00e1veis pela incorpora\u00e7\u00e3o da cirurgia como especialidade na Medicina, mostra como a mitologia grega influenciou a pr\u00e1tica m\u00e9dica no Ocidente durante mais de vinte s\u00e9culos depois da sua elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es da Medicina com a compreens\u00e3o m\u00edtica da realidade se perderam no tempo. \u00c9 imposs\u00edvel separar as id\u00e9ias m\u00edticas do entendimento do homem sobre a sa\u00fade e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse fato se deve tamb\u00e9m porque a mitologia \u00e9 uma forma de conhecimento numa sociedade que ainda n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de explicar racionalmente a realidade circundante. A mitologia nasce de uma rela\u00e7\u00e3o com o mundo da natureza emp\u00edrica, mas acima do meramente emp\u00edrico.<\/p>\n<p>Das primitivas rela\u00e7\u00f5es do homem com o animal, posteriormente substitu\u00eddas pelas rela\u00e7\u00f5es com a terra, surgiu empiricamente o uso das plantas na busca da sa\u00fade.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o racional do vegetal, indispens\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia do homem, se processou em complexa compreens\u00e3o m\u00edtica, que foi marcada pelas explica\u00e7\u00f5es que se sucederam nos mil\u00eanios da origem primeira e do destino final do ser humano. Elas evolu\u00edram da epop\u00e9ia de Gilgamesh, dos babil\u00f4nios, \u00e0 teoria do <em>Big Bang<\/em>, dos modernos astrof\u00edsicos, passando pela g\u00eanese judaico-crist\u00e3 e pela <em>Yeb\u00e1 bel\u00f3<\/em> da lenda desana da cria\u00e7\u00e3o do Sol.<\/p>\n<p>Apesar da melhor compreens\u00e3o que temos hoje da transforma\u00e7\u00e3o do pensamento m\u00edtico, a dificuldade de interpreta\u00e7\u00e3o aumenta na propor\u00e7\u00e3o que recuamos no tempo. Al\u00e9m de existirem poucos registros dispon\u00edveis, a interpreta\u00e7\u00e3o deles sofre grandes varia\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n<p>Entretanto, parece ser a partir do s\u00e9culo 6 a.C., na Gr\u00e9cia, que chegou o material historiogr\u00e1fico suficiente para tra\u00e7ar, com alguma seguran\u00e7a, um perfil da Medicina da mitologia.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que o acervo cultural e m\u00e9dico dos povos mesopot\u00e2micos e dos vales do Indo e do Nilo tenham influenciado a forma\u00e7\u00e3o do universo m\u00e9dico m\u00edtico grego. Os registros hist\u00f3ricos que se ocupam da Medicina na mitologia grega s\u00e3o, provavelmente, o produto das complexas rela\u00e7\u00f5es do homem que antecedeu a forma\u00e7\u00e3o do pensamento grego. \u00c9 poss\u00edvel estabelecer paralelismo entre muitos aspectos das rela\u00e7\u00f5es-m\u00e9dico-m\u00edticas das civiliza\u00e7\u00f5es babil\u00f4nica, eg\u00edpcia e indiana com as da Gr\u00e9cia dos cinco primeiros s\u00e9culos antes de Cristo.<\/p>\n<p>De acordo com a mitologia grega a Medicina come\u00e7ou com Apolo, filho da uni\u00e3o de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo foi considerado como o deus protetor dos guerrilheiros, posteriormente, foi identificado como <em>Aplous <\/em>ou aquele que fala verdade. Ele agia purificando a alma, por meio das lavagens e aspers\u00f5es, e do corpo, com rem\u00e9dios curativos. Era considerado o deus que lavava e libertava o mal.<\/p>\n<p>Um dos seus filho Ascl\u00e9pio, teria sido educado pelo centauro Quiron para ser m\u00e9dico . A escolha do centauro m\u00edtico para dirigir a educa\u00e7\u00e3o de Ascl\u00e9pio foi feita porque ele dominava o completo conhecimento da m\u00fasica, magia, adivinha\u00e7\u00f5es , astronomia e da Medicina. O centauro, al\u00e9m destas habilidades, tinha incompar\u00e1vel destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.<\/p>\n<p>Ainda segundo o discurso mitol\u00f3gico grego o centauro Quiron foi o primeiro que Plantou, na Tess\u00e1lia, as plantas medicinais e, a primeira delas, foi a denominada <em>Gentiana centaurium<\/em>.<\/p>\n<p>O centauro Quiron, al\u00e9m de ter educado Ascl\u00e9pio na Medicina, foi o orientador principal da educa\u00e7\u00e3o de Jason na arte de vencer os mais incr\u00edveis obst\u00e1culos e de Dion\u00edsio, o deus da vegeta\u00e7\u00e3o e do vinho, conhecedor dos mist\u00e9rios da religi\u00e3o, do \u00eaxtase e da embriaguez.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio tentar explicar porque o Centauro Quiron foi o preceptor de Ascl\u00e9pio, Jason e Dion\u00edsio. \u00c9 prov\u00e1vel que tenha existido raz\u00e3o no pensamento m\u00edtico grego para justificar a liga\u00e7\u00e3o entre as qualidades necess\u00e1rias para exercer a pr\u00e1tica m\u00e9dica, encontradas em Ascl\u00e9pio, com a epop\u00e9ia \u00e9pica do Velo de Ouro, de Jason, e com o conhecimento dos mist\u00e9rios da religi\u00e3o e da vegeta\u00e7\u00e3o de Dion\u00edsio.<\/p>\n<p>Apesar de tratarem-se de pontos aparentemente discrepantes e sem qualquer rela\u00e7\u00e3o entre eles, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer o elo coerente a partir da compreens\u00e3o de como era a pr\u00e1tica m\u00e9dica naquela \u00e9poca. O entendimento fica mais f\u00e1cil se retirarmos da ci\u00eancia m\u00e9dica atual os seus dois cortes, a histopatologia e a gen\u00e9tica. Dessa forma, sem esses conhecimentos, a a\u00e7\u00e3o m\u00e9dica fica desprovida dos seus principais suportes racionais e as dificuldades com o objetivo de sua pr\u00e1tica ficam quase intranspon\u00edveis.<\/p>\n<p>Para o exerc\u00edcio da pr\u00e1tica m\u00e9dica sem o apoio da histopatologia e da gen\u00e9tica torna-se necess\u00e1rio possuir a determina\u00e7\u00e3o de Jason em vender incr\u00edveis obst\u00e1culos e o conhecimento da vegeta\u00e7\u00e3o e da religi\u00e3o de Dion\u00edsio. \u00c9 poss\u00edvel tenha sido essa a base da rela\u00e7\u00e3o do centauro Quiron, com Ascl\u00e9pio, Jason e Dion\u00edso.<\/p>\n<p>Para os gregos daquela \u00e9poca predominou a id\u00e9ia de que Ascl\u00e9pio deificava a Medicina na mitologia. Ele era celebrado em grandes festas p\u00fablicas no dia 18 de outubro, data em que at\u00e9 hoje se comemora o dia do m\u00e9dico no Ocidente.<\/p>\n<p>Ascl\u00e9pio conquistou uma fama inimagin\u00e1vel tinha delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressivo do cirurgi\u00e3o. Todos os doentes que n\u00e3o obtinham cura em outros lugares, procuravam os servi\u00e7os m\u00e9dicos desse deus. Mais cirurgi\u00e3o do que m\u00e9dico, ele criou as tiras as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e, imediatamente, foi morto por Zeus, com os raios dos C\u00edclopes. Zeus matou Ascl\u00e9pio por temer que a ordem do mundo fosse transtornada.<\/p>\n<p>Ascl\u00e9pio deixou duas filhas, H\u00edgia e Panac\u00e9ia, a primeira celebrada como a deusa da Medicina e a Segunda, curava todos os doentes com os segredos das plantas medicinais. Al\u00e9m delas, teve dois filhos, Machaon e Podal\u00edrio, m\u00e9dicos guerreiros, que se destacaram na guerra de Tr\u00f3ia. Panac\u00e9ias continuou a linhagem de m\u00e9dicos que come\u00e7ou com Apolo, fazendo do seu filho Hipocoonte um m\u00e9dico famoso e ancestral de Hip\u00f3crates.<\/p>\n<p>Existem muitas comprova\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas das d\u00e1divas de agradecimentos dos doentes \u00e0 Ascl\u00e9pio. No hospital de Epidauro, na ilha de C\u00f3s, na Gr\u00e9cia, foram encontradas v\u00e1rias esculturas com o nome do doente a descri\u00e7\u00e3o da doente e da cura obtida. Esses objetos art\u00edsticos simbolizando Ascl\u00e9pio e Hip\u00f3crates, produzidas entre os s\u00e9culos 6 e 2 a.C., cont\u00e9m uma serpente enrolada num bast\u00e3o.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a serpente e a Medicina j\u00e1 estava presente na civiliza\u00e7\u00e3o babil\u00f4nica, dez s\u00e9culos antes da forma\u00e7\u00e3o da polis grega. Existe no Museu do Louvre, em Paris, um vaso de cer\u00e2mica encontrado na regi\u00e3o de Lagash, representando o deus da cura babil\u00f4nico \u2013 Ningishzida \u2013 segurando um bast\u00e3o com duas serpentes entrela\u00e7adas nele. Esse simbolismo da serpente \u00e9 freq\u00fcentemente ligado \u00e0 transcend\u00eancia da morte. Existem duas explica\u00e7\u00f5es principais para a rela\u00e7\u00e3o da Medicina com a serpente:<\/p>\n<p>&#8211; A serpente pode viver em cima e embaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos e em estreita vincula\u00e7\u00e3o com o ancestral pensamento da localiza\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea do outro mundo;<\/p>\n<p>&#8211; A capacidade da serpente de mudar a sua pele de tempos em tempos, encenando o renascimento. Essa \u00faltima interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 relatada no <em>Rig Veda<\/em> (1.79,1), no qual os Adityas s\u00e3o descritos como os descendentes das serpentes e ao perderem a pele velha, eles venceram a morte e adquiriram a imortalidade.<\/p>\n<p>Seja qual for a raz\u00e3o que levou o homem no passado a estabelecer um elo da serpente com a Medicina, provavelmente estava relacionada com as complexas rela\u00e7\u00f5es que o homem estabeleceu com a morte, onde o m\u00e9dico simbolizava o s\u00edmbolo vivo da luta do homem pela sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise \u00e9 prov\u00e1vel que todas as teogonias e teofanias que o homem elaborou em conson\u00e2ncia os processos de transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3cio econ\u00f4mica tenham sido um caminho na busca da sua origem primeira e do destino final, tendo a Medicina desempenhado uma parcela importante neste conjunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Roma <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Segundo a tradi\u00e7\u00e3o Roma foi fundada, em 753a. C., nas margens do rio Tibre e governada por reis, at\u00e9 o ano 509 a. C., quando foi instalada a rep\u00fablica.. Durante o s\u00e9culo 3 a. C., os dom\u00ednios romanos alcan\u00e7am a pen\u00ednsula it\u00e1lica No ano 45 a. C., J\u00falio C\u00e9sar, imp\u00f5e a ditadura e avan\u00e7a na conquista de novos territ\u00f3rios. O apogeu dos dom\u00ednio ocorreu, no s\u00e9culo 2 d. C., quando o poder romano atingiu a Europa, \u00c1sia e \u00c1frica.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a terceira guerra p\u00fanica, os romanos consolidaram o vasto imp\u00e9rio no Mediterr\u00e2neo. Nos anos seguintes, muitos romanos resistiram ao avan\u00e7o da Medicina grega hipocr\u00e1tica. Nesse sentido, o historiador romano Marco P\u00f3rcio Cat\u00e3o, no s\u00e9culo 2 d.C., exp\u00f5e com clareza o descontentamento: \u201cOs gregos decidiram matar todos os b\u00e1rbaros com a Medicina e a ainda cobram por isto\u201d. e em carta a seu filho \u00e9 incisivo: \u201cPro\u00edbo-te de recorrer aos m\u00e9dicos\u201d<em>. <\/em><\/p>\n<p>O esp\u00edrito legislador romano n\u00e3o deixou de abordar as atividades m\u00e9dicas. Com a regulamenta\u00e7\u00e3o romana, os m\u00e9dicos passaram a constituir uma categoria profissional definida, tanto entre os homens livres como entre os escravos. As obriga\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico eram estipuladas pelo Estado que pagava os seus servi\u00e7os profissionais. Sob o imp\u00e9rio de Adriano, no s\u00e9culo 2 d.C., os m\u00e9dicos eram dispensados do servi\u00e7o militar e quase todas as cidades romanas dispunham de m\u00e9dico oficial.<\/p>\n<p>Em torno do s\u00e9culo 4 d.C., a profiss\u00e3o m\u00e9dica foi severamente fiscalizada e institu\u00eddo rigoroso exame para todos que quisessem exercer a profiss\u00e3o. O imp\u00e9rio romano subvencionava os estudantes de Medicina, mas em troca erram obrigados a prestar assist\u00eancia aos pobres. Os m\u00e9dicos foram proibidos de praticar o aborto e negar o atendimento a qualquer doente, sob risco de castigo corporal e multa.<\/p>\n<p>Como nas culturas, dos dois mil\u00eanios a. C., existia grande difus\u00e3o da melhor condu\u00e7\u00e3o do parto, entre as popula\u00e7\u00f5es fora do c\u00edrculo do poder inclusive, como demonstra a escultura em terracota encontrada na periferia da Roma imperial.<\/p>\n<p>No Imp\u00e9rio de Diocleciano, no ano de 300 d.C., um \u00e9dito do Imperador impunha como condi\u00e7\u00e3o para entrar na escola de Medicina, a apresenta\u00e7\u00e3o de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade de origem.<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es foi refor\u00e7ada e C\u00edcero falava dos m\u00e9dicos verdadeiros, o que corresponderia aos cl\u00ednicos gerais de hoje. Em seus versos, C\u00edcero registrou:<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em>Cascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os c\u00edlios que irritam os olhos, Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos e Hermes goza de fama de ser o Podal\u00edrio das h\u00e9rnias\u201d<em>.<\/em><\/p>\n<p>Os registros apontam para a exist\u00eancia de muitas especialidades na Medicina romana. Esse fato talvez tenha sido resultante n\u00e3o s\u00f3 dos progressos t\u00e9cnicos, mas principalmente de certas especialidades serem mais lucrativas para quem as exercia. Alguns m\u00e9dicos especialistas romanos, como Stert\u00ednio, conseguiu acumular consider\u00e1vel fortuna. Provavelmente, em conseq\u00fc\u00eancia de abusos nos lucros obtidos por alguns m\u00e9dicos, no ano 368 d.C., Valentiano proibiu que os m\u00e9dicos empregados do Imp\u00e9rio recebessem dinheiro dos doentes pobres.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida alguma o Imp\u00e9rio Romano preocupou-se com a pr\u00e1tica m\u00e9dica e procurou, atrav\u00e9s de normas jur\u00eddicas, constituir o servi\u00e7o m\u00e9dico p\u00fablico. Por\u00e9m, esse in\u00edcio teve a sua estrutura formada a partir da assist\u00eancia m\u00e9dica aos legion\u00e1rios, durante ap\u00f3s as batalhas, com a constru\u00e7\u00e3o de hospitais militares em diferentes regi\u00f5es do imenso Imp\u00e9rio Romano. O mais famoso deles foi o de Vindonissa, em Windish, na atual Sui\u00e7a, com sessenta quartos e capacidades para 480 doentes distribu\u00eddos em enfermarias.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o dos administradores romanos com a sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 inquestion\u00e1vel. A lei das Doze T\u00e1buas que remonta aos prim\u00f3rdios da Rep\u00fablica, estabeleceu normas para o sepultamento e queima dos cad\u00e1veres fora dos muros da cidade e a constru\u00e7\u00e3o dos esgotos, como o Esgoto M\u00e1ximo, em Roma, que s\u00f3 seria revisto no s\u00e9culo 11 e ainda \u00e9 utilizado na parte antiga da cidade.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, pelos menos nas casas abastadas, o cuidado com a higiene do corpo fazia parte do cotidiano, demonstrado na exist\u00eancia de termas amplas e arejadas.<\/p>\n<p>As autoridades p\u00fablicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene p\u00fablica. Os grandes arquitetos romanos, como Vitr\u00favio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a constru\u00e7\u00e3o das casas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos cuidados com a organiza\u00e7\u00e3o das cidades, foram constru\u00eddos centenas de banhos p\u00fablicos para est\u00edmulo da higiene pessoal. Estas termas, algumas recuperadas pelos trabalhos arqueol\u00f3gicos, como o de Diocleciano, em Roma, podiam obrigar em diferentes piscinas e salas de gin\u00e1sticas centenas de pessoas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>De certa forma, o ide\u00e1rio da beleza grega segue trajet\u00f3ria semelhante em Roma. Os cuidados para manter o corpo esbelto por meio da dieta e dos exerc\u00edcios f\u00edsicos eram prescritos pelos m\u00e9dicos e pelos professores de gin\u00e1stica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No s\u00e9culo 2 a. C., ap\u00f3s a diminui\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia pol\u00edtica da Gr\u00e9cia, v\u00e1rios m\u00e9dicos gregos migram para Roma, como Asclep\u00edade e Sorano de \u00c9fesos. A Medicina considerada profiss\u00e3o pouco digna para o cidad\u00e3o romano, \u00e9 exercida por escravos e imigrantes. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 razo\u00e1vel supor que os tratamentos dent\u00e1rios que, obrigatoriamente, impunham trabalho manual para a confec\u00e7\u00e3o da pr\u00f3tese, tamb\u00e9m estivessem no rol dos of\u00edcios n\u00e3o recomendados.<\/p>\n<p>Por outro lado, existem inequ\u00edvocas comprova\u00e7\u00f5es de que a anatomia era ensinada tamb\u00e9m no meio dos grupos sociais fora do poder central romano, inclusive entre crist\u00e3os que habitavam as catacumbas romanas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 1 d.C., Celso divide as doen\u00e7as em tr\u00eas categorias quanto \u00e0s resposta ao tratamento:<\/p>\n<p>&#8211; Alimenta\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Rem\u00e9dio;<\/p>\n<p>&#8211; Cirurgia: as diversidades dos instrumentos cir\u00fargicos comprovam a exist\u00eancia de m\u00e9dicos que exerciam a cirurgia em v\u00e1rias \u00e1reas do corpo, contudo, sem penetrar nas cavidades.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos livros escritos, a Medicina romana pode ser melhor compreendida sob a perspectiva de dois per\u00edodos:<\/p>\n<p>A. Primeiro per\u00edodo<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos 1 e 2 d. C., no mundo romano, v\u00e1rios m\u00e9dicos que escreveram obras monumentais que marcaram os avan\u00e7os das novas abordagens da sa\u00fade e da doen\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Diasc\u00f3rides, farmacologia: os livros desse extraordin\u00e1rio m\u00e9dico atravessou mais de dez s\u00e9culos e serviu de base \u00e0 terap\u00eautica medieval e renacentista;<\/p>\n<p>&#8211; Areteo de Capad\u00f3cia, fisiopatologia e pneumologia;<\/p>\n<p>&#8211; Rufus de \u00c9feso, doen\u00e7as contagiosas como a lepra e a peste;<\/p>\n<p>&#8211; Soranos de \u00c9feso, pediatria, ginecologia e obstetr\u00edcia: somente no Renascimento foi que a monumental obra de Sorano foi resgatada da intoler\u00e2ncia clerical;<\/p>\n<p>&#8211; Celso, autor do tratado <em>De Re Medica<\/em>.<\/p>\n<p>B. Segundo per\u00edodo: caracterizado pelos trabalhos de Galeno.<\/p>\n<p>De modo geral, a Medicina romana pode ser dividida em tr\u00eas fases, contudo \u00e9 importante ressaltar que, em nenhuma \u00e9poca, houve dissocia\u00e7\u00e3o das Medicinas emp\u00edrica, divina e oficial. Em um ou outro per\u00edodo, pode ter ocorrido, em determinado segmento social, a predomin\u00e2ncia de alguma corrente m\u00e9dica:<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-divinat\u00f3ria:<\/p>\n<p>Com forte influ\u00eancia etrusca, desde a funda\u00e7\u00e3o de Roma at\u00e9 o s\u00e9culo 3 a. C., a pr\u00e1tica m\u00e9dica estava assentada, como a babil\u00f4nica, na an\u00e1lise das v\u00edsceras de animais, notadamente, do f\u00edgado de carneiro. A partir do ano 295 a. C., o culto de Ascl\u00e9pio foi introduzido entre os romanos, sob o nome de Escul\u00e1pio;<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-oficial pr\u00e9-gal\u00eanica:<\/p>\n<p>A conquista romana das principais cidades gregas resultou na mudan\u00e7a das antigas concep\u00e7\u00f5es da sa\u00fade e da doen\u00e7a, antes exclusivamente voltada \u00e0 adivinha\u00e7\u00e3o. Parece que o m\u00e9dico Archagatus, de Esparta, em 219 a. C., foi o primeiro m\u00e9dico grego a se instalar em Roma. Sem d\u00favida, a definitiva conquista da Gr\u00e9cia, efetivada no ano 146 a. C., contribuiu para que um grande n\u00famero de m\u00e9dicos da Escola de Alexandria estabelecessem resid\u00eancia no territ\u00f3rio romano.<\/p>\n<p>Entre os m\u00e9dicos de maior produ\u00e7\u00e3o, destacou-se o extraordin\u00e1rio anatomista Her\u00f3filo, ainda hoje tido como o primeiro a executar, sistematicamente, a dissec\u00e7\u00e3o do corpo humano.<\/p>\n<p>Resultantes da dispers\u00e3o dos seguidores das antigas correntes filos\u00f3ficas gregas, alguns m\u00e9dicos organizaram grupos que se destacaram:<\/p>\n<p>&#8211; Atomistas: Liderados por Ascl\u00e9piade da Bitinia (124-70 d. C.), os atomistas rejeitavam formalmente o teoria do Quatro Humores. Consideravam o corpo formado por \u00e1tomos em cont\u00ednuo e perp\u00e9tuo movimento. Sob essa perspectiva, a febre, a inflama\u00e7\u00e3o e as dores seriam conseq\u00fcentes da altera\u00e7\u00e3o desses \u00e1tomos;<\/p>\n<p>&#8211; Metodistas: Derivados dos epicuristas, os metodistas floresceram em torno do ano 50 a. C., e n\u00e3o aceitavam as raz\u00f5es sagradas da sa\u00fade e da doen\u00e7a nem a teoria dos Quatro Humores. Consideravam a sa\u00fade como resultante do equil\u00edbrio entre as seguintes condi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; Tono ou capacidade de contra\u00e7\u00e3o dos s\u00f3lidos que comp\u00f5em o corpo;<\/p>\n<p>&#8211; Atonia ou o relaxamento dos mesmos s\u00f3lidos.<\/p>\n<p>&#8211; Pneumonistas: Fundada por Ath\u00e9neo de At\u00e1lia, floresceu entre 10 e 54 d. C., estava assentada no pensamento est\u00f3ico que defendia a doutrina do <em>pneuma<\/em>, segundo a qual tudo e todos seriam formados de ar em permanente movimento. Por outro lado, as doen\u00e7as apareceriam quando o <em>pneuma<\/em> se acumularia ;<\/p>\n<p>&#8211; Ecl\u00e9ticos: As patologias ocorreriam n\u00e3o s\u00f3 em conseq\u00fc\u00eancia do <em>pneuma <\/em>acumulado, mas tamb\u00e9m de outros fatores n\u00e3o conhecidos.<\/p>\n<p>&#8211; Medicina-oficial gal\u00eanica:<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Galeno (129-200d. C.), filho de conhecido arquiteto, em Roma, fez v\u00e1rias viagens, como era comum nessa \u00e9poca, entre jovens oriundos de fam\u00edlias abastadas. Na cidade de Alexandria, sob a dire\u00e7\u00e3o do famoso Her\u00f3filo, participou de varias sess\u00f5es de dissec\u00e7\u00e3o humana, que lhe forneceram os primeiros aprendizados de anatomia e fisiologia. Retornando \u00e0 P\u00e9rgamo, em 158, iniciou os seus trabalhos como m\u00e9dico dos gladiadores, onde adquiriu excelente habilidade de cirurgi\u00e3o. Poucos anos depois, chegou \u00e0 Roma, onde os seus consistentes conhecimento e forte temperamento, em pouco tempo, contribu\u00edram para ganhar fama e inimigos entre os m\u00e9dicos. Em 166, durante um epis\u00f3dio de peste, deixou Roma, fato que concorreu para os seus advers\u00e1rios acus\u00e1-lo de covardia. Galeno escreveu muitos livros, por\u00e9m s\u00f3 s\u00e3o conhecidos alguns que n\u00e3o foram perdidos no grande inc\u00eandio, no ano 192:<\/p>\n<p>&#8211; <em>Da melhor Medicina e Filosofia<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Dos elementos segundo Hip\u00f3crates<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Os ossos<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Da dissec\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; Dos dogmas de Hip\u00f3crates e Plat\u00e3o;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Dos lugares contaminados<\/em>;<\/p>\n<p><em>&#8211; A arte m\u00e9dica<\/em>.<\/p>\n<p>Apesar dos erros cometidos, como afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o interventricular, os seus estudos de anatomia e fisiologia de Galeno, seguramente, contribu\u00edram para o conhecimento do corpo humano.<\/p>\n<p>Corajosamente, em oposi\u00e7\u00e3o a Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles e os est\u00f3icos romanos, contestou ser o cora\u00e7\u00e3o o \u00f3rg\u00e3o de onde partiria os nervos e, enfrentando forte oposi\u00e7\u00e3o dos seus colegas, sustentou ser o cora\u00e7\u00e3o de onde saiam as art\u00e9rias e o f\u00edgado, as veias. Entre os seus ensinamentos, destacam-se:<\/p>\n<p>&#8211; O cirurgi\u00e3o deve conhecer a anatomia para evitar lesar os vasos e nervos;<\/p>\n<p>&#8211; O sangue seria formado no f\u00edgado;<\/p>\n<p>&#8211; Possivelmente influenciado pela dissec\u00e7\u00e3o de algum cad\u00e1ver portador de anomalia cong\u00eanita card\u00edaca, descreveu a comunica\u00e7\u00e3o inter-ventricular como parte da sua teoria da circula\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Talvez pela mesma raz\u00e3o, sustentou ser o \u00fatero bilobular, no qual a por\u00e7\u00e3o esquerda seria destinada para receber o feto feminino e a direita, o feto masculino;<\/p>\n<p>&#8211; Incorporou a sua teoria a dos Quatro Temperamentos:<\/p>\n<p>&#8211; sang\u00fc\u00edneo;<\/p>\n<p>&#8211; fleum\u00e1tico;<\/p>\n<p>&#8211; col\u00e9rico;<\/p>\n<p>&#8211; melanc\u00f3lico<\/p>\n<p>e aos Quatro Elementos de Emp\u00e9docles:<\/p>\n<p>&#8211; terra;<\/p>\n<p>&#8211; ar;<\/p>\n<p>&#8211; sangue;<\/p>\n<p>&#8211; fogo<\/p>\n<p>\u00e0 teoria dos Quatro Humores de Hip\u00f3crates:<\/p>\n<p>&#8211; sangue;<\/p>\n<p>&#8211; fleuma;<\/p>\n<p>&#8211; b\u00edlis preta;<\/p>\n<p>&#8211; b\u00edlis amarela.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos Quatro Temperamentos que, de certa forma, moldariam a vida social de cada pessoa, Galeno acreditava que a fisiologia humana era formada do:<\/p>\n<p><em>&#8211; Esp\u00edrito vital<\/em>, no cora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p><em>&#8211; Esp\u00edrito animal<\/em>, no c\u00e9rebro;<\/p>\n<p><em>&#8211; Esp\u00edrito natural<\/em>, nos \u00f3rg\u00e3os do ventre.<\/p>\n<p>Dessa forma, a sa\u00fade seria o produto do equil\u00edbrio dos esp\u00edritos vitais e esse equil\u00edbrio poderia ser rompido pelo frio, calor e trauma entre muitos outros.<\/p>\n<p>Provavelmente em conseq\u00fc\u00eancia da sua cren\u00e7a no monote\u00edsmo, contr\u00e1ria \u00e0 id\u00e9ia romana dominante, os escritos de Galeno atravessavam o medievo como instru\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas, influenciando de forma marcante as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Semelhante as outras povos da antig\u00fcidade, no Imp\u00e9rio romano, as pessoas que possu\u00edssem facilidade de express\u00e3o e certa habilidade poderiam praticar a Medicina, pelo menos, as pr\u00e1ticas mais conhecidas da Medicina-emp\u00edrica.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que os m\u00e9dicos renomados, em depend\u00eancia de pedidos ou elos de parentescos, aceitassem receber eventuais disc\u00edpulos em sistema de tutela. Por essa raz\u00e3o, sem a interfer\u00eancia consensual do poder pol\u00edtico, esse per\u00edodo de ensino variava de onze anos, defendido por Galeno, a seis meses, preconizado por Telassos.<\/p>\n<p>Possivelmente, pressionado pelos pedidos de pessoas influentes junto a poder administrador e pelo grande n\u00famero de pessoas vindas de outros pa\u00edses que praticavam a Medicina e obtinham bons resultados tamb\u00e9m nas faixas abastadas da popula\u00e7\u00e3o, em 46 a. C., J\u00falio C\u00e9sar concedeu o direito de cidad\u00e3o romano a todos os m\u00e9dicos estrangeiros.<\/p>\n<p>Essa aglutina\u00e7\u00e3o de pessoas praticando a Medicina, a maior parte formada de estrangeiros vinda das col\u00f4nias romanas, certamente, motivou a administra\u00e7\u00e3o central iniciar o processo de controle com o objetivo de retirar os curadores que provocavam mais erros do que acertos. Dessa forma, foram instaladas escolas de Medicina onde j\u00e1 existiam hist\u00f3ricos n\u00facleos do aprendizado m\u00e9dico: Atenas, Alexandria, Marselha, Lion e Saragosa. Os m\u00e9dicos oriundos dessas escolas, representantes da Medicina-oficial, recebiam o t\u00edtulo de <em>Medicus a Republica<\/em>.<\/p>\n<p>Novamente, talvez sob press\u00e3o coletiva, seja dos mais abastados, seja das parcelas da popula\u00e7\u00e3o que foram prejudicadas pelo mal atendimento, o Imperador Juliano, no s\u00e9culo 3, editou lei obrigando todos os m\u00e9dicos formados nas escolas prestarem exame de sufici\u00eancia perante banca de renomados profissionais.<\/p>\n<p>Esse conjunto de medidas, patrocinado pela maior fiscaliza\u00e7\u00e3o do poder administrativo, fortaleceu o processo de melhoria tanto nos cuidados da sa\u00fade pessoal quanto na coletiva:<\/p>\n<p>&#8211; Abastecimento residencial de \u00e1gua pot\u00e1vel;<\/p>\n<p>&#8211; Fontes p\u00fablicas de \u00e1gua pot\u00e1vel;<\/p>\n<p>&#8211; Drenagem e aterro dos p\u00e2ntanos;<\/p>\n<p>&#8211; Esgotos para as \u00e1guas usadas;<\/p>\n<p>&#8211; Esgotos sanit\u00e1rios;<\/p>\n<p>&#8211; Salas de banhos p\u00fablicos;<\/p>\n<p>&#8211; Cuidados de enfermagem.<\/p>\n<p>Existiam cinco categorias de m\u00e9dicos em Roma:<\/p>\n<p>&#8211; Liberal: o atendimento do doente era feto na <em>iatreia<\/em>, ou consult\u00f3rio m\u00e9dico, onde era poss\u00edvel fazer realizar desde a simples consulta at\u00e9 uma pequena cirurgia e a sangria inclusive. Esses m\u00e9dicos tamb\u00e9m faziam visitas domiciliares acompanhados dos assistentes, algumas vezes escravos. Quando n\u00e3o recebiam o pagamento combinado, recorriam \u00e0s cortes de justi\u00e7a para a devida reclama\u00e7\u00e3o. A exist\u00eancia de pinturas e instrumentos m\u00e9dicos comprovam a diversidade da Medicina-oficial, em torno de especialistas;<\/p>\n<p>&#8211; P\u00fablicos: eram remunerados pelo poder p\u00fablico e tinham o privil\u00e9gio de n\u00e3o pagarem impostos. Faziam os atendimentos m\u00e9dicos nos estabelecimentos p\u00fablicos em Roma e nas col\u00f4nias:<\/p>\n<p>&#8211; Corte: cuidava do Imperador e dos s\u00faditos mais influentes;<\/p>\n<p>&#8211; Populares: instalados nas cidades das col\u00f4nia em propor\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de habitantes. Entres outras fun\u00e7\u00f5es eram obrigados a dirigir o aprendizado de alunos para o atendimento dos pobres;<\/p>\n<p>&#8211; Militares: organizados no reinado de Augusto, quando ocorreram muitas campanhas militares, no Leste, eram conhecidos com v\u00e1rias designa\u00e7\u00f5es: <em>medicus cohortes<\/em>, <em>medicus castrensis<\/em>, <em>medicus duplicarus<\/em>, <em>medicus ordinarus<\/em> e <em>medicus veterinarus<\/em> (respons\u00e1veis pelos cuidados dos cavalos das tropas. Entre as fun\u00e7\u00f5es, destacam-se: exame dos recrutas, que eram classificados em: aptos (<em>vocatio militiae<\/em>) e inapto (<em>morbus<\/em>); aposentadoria (<em>honesta missia<\/em>) dos militares; higiene, alimenta\u00e7\u00e3o e controle da qualidade das \u00e1guas usadas pelas legi\u00f5es nos acampamentos e nos descolamentos; atendimento m\u00e9dico e cir\u00fargico nos campos de batalhas. O mais c\u00e9lebre m\u00e9dico militar romano, Diasc\u00f3ride, escreveu o insubstitu\u00edvel tratado <em>De materia medica<\/em>, que introduziu a farmacologia das plantas medicinais.<\/p>\n<p>&#8211; Tratamentos<\/p>\n<p>&#8211; Cl\u00ednicos: F\u00f3rmulas com muitos componentes: algumas eram preparadas com mais de sessenta itens, como a teriaga do m\u00e9dico Andromacus, o Jovem, da corte do Imperador Nero. Eram utilizadas para tratar dores de cabe\u00e7a, tonteiras, diminui\u00e7\u00e3o da acuidade visual, del\u00edrios, epilepsia, asma, hemoptise, puerp\u00e9rio, icter\u00edcia, metrorragia, febres e outras doen\u00e7as que n\u00e3o respondiam \u00e0 terap\u00eautica habitual. A exist\u00eancia de vidra\u00e7aria destinada aos rem\u00e9dios \u00e9 indicativo de que n\u00e3o s\u00f3 existia a freq\u00fc\u00eancia do uso de rem\u00e9dios como tamb\u00e9m o consumidor;<\/p>\n<p>&#8211; Hidroterapia: as \u00e1guas alcalinas, sulfurosas e salinas eram usadas no banho e na ingest\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Sangrias: como uma das mais fortes influ\u00eancias da Medicina grega e de Galeno, com a meta de equilibrar os humores, as sangrias eram indicadas de modo abusivo, para tratar todas as doen\u00e7as;<\/p>\n<p>&#8211; Hospitaliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Os romanos organizaram numerosos hospitais militares, distribu\u00eddos em v\u00e1rias col\u00f4nias do imp\u00e9rio, para receber os soldados feridos nos campos de batalhas. Eram constru\u00e7\u00f5es especiais dotadas de amplas enfermarias com amplas varandas e muito bem arejadas. Como uma das conseq\u00fc\u00eancias dessa centraliza\u00e7\u00e3o, houve grande progresso da pr\u00e1tica cir\u00fargica para tratar as feridas de guerra, que resultaram no aparecimento de muitos instrumentos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Incont\u00e1veis avan\u00e7os da anatomia romana foram escondidas nos mosteiros e abadias, na Idade M\u00e9dia, sob a guarda sigilosa das autoridades eclesi\u00e1sticas romanas, contribu\u00edndo para que estranhas concep\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas tenham florido na Medicina-oficial do medievo. Do mesmo modo, v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es pessoais foram feitas entre os fil\u00f3sofos gregos, como a de Pl\u00ednio, adotados pelo cristianismo, e obras m\u00e9dicas que se destacaram na Medicina romana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0Alguns aspectos da medicina no cristianismo primitivo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com os exegetas, as fontes crist\u00e3s que remontam \u00e0s origens do cristianismo n\u00e3o s\u00e3o abundantes. Apesar das controv\u00e9rsias, uma das correntes acredita que, em ordem cronol\u00f3gica, os registros mais significativos s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o, ano 68;<\/p>\n<p>&#8211; Ep\u00edstolas, primeira metade do s\u00e9culo 2;<\/p>\n<p>&#8211; Evangelhos, segunda metade do s\u00e9culo 2;<\/p>\n<p>&#8211; Ato dos ap\u00f3stolos, Segunda metade do s\u00e9culo 2.<\/p>\n<p>Os estudos das fontes hist\u00f3ricas n\u00e3o crist\u00e3s, principalmente das obras de Filon de Alexandria, Fl\u00e1vio Josefo e Justo de Tiber\u00edade, refor\u00e7am o pensamento de que as rela\u00e7\u00f5es entre a Medicina e o cristianismo primitivo se fizeram baseadas principalmente na heran\u00e7a cultural dos judeus e de outros povos escravos que viveram pr\u00f3ximos do centro de influ\u00eancia da nova religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por estas raz\u00f5es, \u00e9 muito razo\u00e1vel supor que a Medicina praticada pelos crist\u00e3os primitivos estivesse mais pr\u00f3xima das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas judaicas.<\/p>\n<p>A nova cren\u00e7a religiosa, o cristianismo, representou uma das principais manifesta\u00e7\u00f5es da crise social em curso. No seu in\u00edcio, traduziu contra a ordem vigente. Esse sentido est\u00e1 absolutamente claro no <em>Didaqu\u00e9 <\/em>(<em>Doutrina dos Doze Ap\u00f3stolos<\/em>) que exigia a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos e protestava contra a ordem vigente. Culminou com o tom inconcili\u00e1vel do Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o que condenava o poder de Roma e previa o seu fim pr\u00f3ximo (Ap.17,15-18 e 18,1-3).<\/p>\n<p>A religi\u00e3o crist\u00e3 no seu processo de forma\u00e7\u00e3o sincretizou o conceito da doen\u00e7a como castigo j\u00e1 existente h\u00e1 muitos s\u00e9culos antes do monote\u00edsmo. Como conseq\u00fc\u00eancia imediata, deve ter aparecido a figura do profeta, que era representado por um homem especial capaz de ressuscitar os mortos, curar algumas doen\u00e7as e de prever o futuro. N\u00e3o se pode afastar a possibilidade de que este personagem m\u00edtico tenha surgido a partir da a\u00e7\u00e3o dos sacerdotes que curavam e adivinhavam os acontecimentos De acordo com o discurso crist\u00e3o, Jesus foi tamb\u00e9m um profeta (Mt 16, 14; Lc 7, 16; Jo 4, 19 e 9, 17).<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica m\u00e9dica no cristianismo primitivo deve ter seguido os preceitos m\u00edticos do Velho Testamento at\u00e9 a sua ruptura com o juda\u00edsmo. Esta nova fase pode ter iniciado a partir da recusa dos judeus crist\u00e3os de se envolverem na guerra messi\u00e2nica contra os romanos no ano 66. A import\u00e2ncia deste acontecimento n\u00e3o passou desapercebido de Eus\u00e9bio (<em>Hist\u00f3ria eclesi\u00e1tica<\/em>, III, 5,3). As autoridades militares romanas evacuaram alguns para Pela, na Transjord\u00e2nia, outros se refugiaram nas cidades da S\u00edria, da \u00c1sia Menor e em Alexandria. O resultado final foi a desvincula\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os com o destino nacional de Israel e maior difus\u00e3o dos seus ensinamentos.<\/p>\n<p>At\u00e9 que fosse elaborada a estruturas te\u00f3rica da religi\u00e3o crist\u00e3, o Velho Testamento foi o seu suporte ideol\u00f3gico. A doen\u00e7a se apresentava como resultado do castigo divino pelas transgress\u00f5es morais cometidas ( Ex. 4, 6; Jo 16,12; Sl 39,11) ou como um mal que nas promessas escatol\u00f3gicas ser\u00e1 suprimido no novo mundo que Deus dar\u00e1 aos homens ( Is 35,5; 25,8; 65,19). Por\u00e9m, no juda\u00edsmo p\u00f3s ex\u00edlio aparece mais a a\u00e7\u00e3o dos dem\u00f4nios e esp\u00edritos mal\u00e9ficos como os grandes respons\u00e1veis pelo aparecimento das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>As aten\u00e7\u00f5es m\u00e9dico m\u00edticas do AT reproduzem as antigas praticada pelos povos polite\u00edstas. As doen\u00e7as, lepra, loucura, cegueira e paralisia, descritas como sendo de origem divina, s\u00e3o as mesmas e com o mesmo sentido, descritas nas sociedades que povoavam aquela regi\u00e3o antes do aparecimento do juda\u00edsmo.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que o AT n\u00e3o pro\u00edbe o recurso m\u00e9dico formal (2R 20,7 e Tb 11,8-11) e o emprego de certos rem\u00e9dios (Is 1,6; Jr 8,22 e Sb 7,20), contudo ao mesmo tempo afirma:<\/p>\n<p>Dt 32, 39 \u2013 <em>E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim n\u00e3o h\u00e1 outro deus! Sou eu que mato e fa\u00e7o viver, sou eu que firo e torno a curar (e da minha m\u00e3o ningu\u00e9m se livra). <\/em><\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o do cristianismo do juda\u00edsmo foi fundamental para a difus\u00e3o como a Nova Alian\u00e7a. Esse div\u00f3rcio ficou ligado na literatura eclesi\u00e1stica ao nome de S\u00e3o Paulo, que no Novo Testamento foi caracterizado como ap\u00f3stolo dos pag\u00e3os.<\/p>\n<p>Sem pormenorizar certas contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas dos evang\u00e9licos, Jesus apareceu, inicialmente, como Deus feito homem e como Messias, o Salvador, anunciado pelos profetas hebreus do Velho Testamento. A profecia rezava que a chegada do Messias redimiria o povo de Israel. Nada disto se materializou e a situa\u00e7\u00e3o dos judeus agravou-se durante e depois da revolta contra os romanos.<\/p>\n<p>Mesmo tendo nascido no meio da na\u00e7\u00e3o judaica, o cristianismo primitivo encontrou enorme resist\u00eancia do juda\u00edsmo. Esta oposi\u00e7\u00e3o aumentou na medida em que os crist\u00e3os assimilavam rapidamente os elementos das outras religi\u00f5es, inclusive alguns ritos e festas pag\u00e3s.<\/p>\n<p>Depois da Segunda e \u00faltima revolta dos judeus, sob a lideran\u00e7a de Bar-Kocheba, entre os anos 132-136, ocorreu o definitivo afastamento entre as duas religi\u00f5es, de certa forma ajudado pelas medidas administrativas e militares dos romanos. Por exemplo, no local do santu\u00e1rio do Deus de Israel, em Jerusal\u00e9m, os romanos ergueram o templo para J\u00fapiter.<\/p>\n<p>Para que a separa\u00e7\u00e3o entre o juda\u00edsmo e o cristianismo fosse efetivada, come\u00e7ou a elabora\u00e7\u00e3o, por este \u00faltimo, de um conjunto normativo as proibi\u00e7\u00f5es. Um dos primeiros ritos judaicos abolidos foi o da circuncis\u00e3o, de fundamental import\u00e2ncia para os hebreus j\u00e1 que a salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia ser alcan\u00e7ada com a obedi\u00eancia da alian\u00e7a feita entre Abra\u00e3o e Deus (Gn 17,9-14;21-24).<\/p>\n<p>Seguiu-se com o tom violento da Primeira Ep\u00edstola aos Tessalonicenses que afirma, pela primeira vez, a acusa\u00e7\u00e3o contra os judeus de terem crucificado Jesus (1 Ti, 2,15). Foi com base neste veredicto que os representantes da Igreja, ao longo de diferentes per\u00edodos, perseguiram os judeus,<\/p>\n<p>A base doutrin\u00e1ria crist\u00e3 contida nos Evang\u00e9licos, j\u00e1 elaborados nessa fase, espalhou-se por grande parte do Imp\u00e9rio Romano. De certa forma, muito diferente da abordagem vingativa e guerreira do AT, a mensagem crist\u00e3, nos primeiros s\u00e9culos, era dominada pelo contido em:<\/p>\n<p>2Co 11, 20 &#8211; <em>Se algu\u00e9m vos subjugar, se algu\u00e9m vos devorar, se algu\u00e9m se apoderar de v\u00f3s, se algu\u00e9m for arrogante, se algu\u00e9m vos bater na cara, suportai-o.<\/em><\/p>\n<p>Da Medicina praticada pela massa popular crist\u00e3 ou n\u00e3o, at\u00e9 o s\u00e9culo 5, restaram poucos registros. A maioria deles est\u00e1 nas rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-m\u00edticas do AT. Da exercida entre os detentores do poder econ\u00f4mico e militar, o conjunto de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 t\u00e3o grande que ficou conhecido na historiografia como Medicina romana. \u00c9 importante saber que esse conjunto de conhecimentos m\u00e9dicos, em Roma, foi exercida em benef\u00edcio de uma parcela muito pequena da popula\u00e7\u00e3o, representada pelos nobres, militares e ricos comerciantes.<\/p>\n<p>Por outro lado, no per\u00edodo compreendido entre os primeiros anos da era crist\u00e3 e as invas\u00f5es do Imp\u00e9rio Romano pelos b\u00e1rbaros, \u00e9 poss\u00edvel que a Medicina popular fosse composta por complexa rela\u00e7\u00e3o de fatores envolvendo diferentes aspectos que interligavam as Medicinas divina, emp\u00edrica e oficial.<\/p>\n<p>O sacerd\u00f3cio de Jesus inspirou o sentimento de ajuda ao enfermo como um dever religioso e perdeu grande parte das conquistas racionais introduzidas pela escola de C\u00f3s, entre os s\u00e9culos 5 e 3 a. C.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o do consolo aos moribundos e incur\u00e1veis, a valoriza\u00e7\u00e3o da dor como alternativa de tratamento. A ora\u00e7\u00e3o, os exorcismos e a extrema un\u00e7\u00e3o foram definitivamente adotadas;<\/p>\n<p>A doen\u00e7a como fruto do pecado foi fundamentado por Greg\u00f3rio de Nusa (? &#8211; 394) que reconstruiu algumas propostas te\u00f3ricas de Plat\u00e3o e Galeno, para elaborar os fundamentos da antropologia crist\u00e3 do pecado para explicar a cura das doen\u00e7as por meio do milagre.<\/p>\n<p>A partir desta fase, baseados no neoplatonismo, efervescente na \u00e9poca, Anast\u00e1cio (? &#8211; 373) e Greg\u00f3rio desenvolveram a explica\u00e7\u00e3o da origem da doen\u00e7a na hist\u00f3ria da humanidade e o seu valor na cria\u00e7\u00e3o do homem. Eles conclu\u00edram que Ad\u00e3o, foi o arqu\u00e9tipo ideal da esp\u00e9cie humana e que antes do pecado original n\u00e3o existia qualquer doen\u00e7a. Legitimaram, deste modo, a milenar associa\u00e7\u00e3o entre enfermidade e castigo divino;<\/p>\n<p>Fora desse forte la\u00e7o que se iniciava com as novas cren\u00e7as e id\u00e9ias religiosas, existe evid\u00eancias de aspectos da medicina greco-romana que se mantinham no cristianismo primitivo.<\/p>\n<p>O conflito da Medicina com o cristianismo se ligou ao <em>tekhn\u00e9 <\/em>do polite\u00edsmo grego. Alguns crist\u00e3os ortodoxos, como Taciano (110-175) e Tertuliano (? &#8211; depois de 220), chegaram a afirmar ser il\u00edcito o uso de rem\u00e9dios prescritos pela <em>tekhn\u00e9.<\/em> Taciano aceitava o uso das drogas nos pag\u00e3os, mas n\u00e3o nos crist\u00e3os: <em>A cura com rem\u00e9dios, em todas as suas formas, \u00e9 fruto do engano. se algu\u00e9m \u00e9 curado pela f\u00e9 na mat\u00e9ria, abandona o poder de Deus<\/em> (<em>Orat. ad Graecos<\/em>, 20).<\/p>\n<p>Existiu outra corrente com id\u00e9ias completamente opostas, conforme relatou Eus\u00e9bio (? &#8211; 340). Este grupo cultivava a filosofia aristot\u00e9lica, a geometria de Euclides, a ci\u00eancia natural e a Medicina de Galeno. Chegou a afirmar textualmente: <em>Galeno era venerado por alguns deles<\/em> ( <em>Hist. ecles. V<\/em>, 1).<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a ado\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia grega da <em>physis<\/em>, como sin\u00f4nimo de divino tenha sido determinante da san\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica desses estudiosos que tentaram enfrentar a c\u00fapula da hierarquia crist\u00e3 naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Esse tema foi reaberto por Or\u00edgenes (? &#8211; 253), que na sua pol\u00eamica contra Celso (Sec. II) questionou se era Ascl\u00e9pio, o deus da Medicina grega, ou Jesus quem curava as doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Apesar das controv\u00e9rsias entre as fontes hist\u00f3ricas n\u00e3o crist\u00e3s, existe uma tend\u00eancia para aceitar a possibilidade de que o cristianismo no seu processo de consolida\u00e7\u00e3o como religi\u00e3o, tentou conciliar a <em>tekhn\u00e9 <\/em>grega baseada na experi\u00eancia com a id\u00e9ia do Deus crist\u00e3o pessoal, criador e transcendente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>LEITURA COMPLEMENTAR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES.<em> Metaf\u00edsica (Livro I e Livro II); \u00c9tica a Nic\u00f4maco; Po\u00e9tica<\/em>. (Os Pensadores).<em> <\/em>S\u00e3o<em> <\/em>Paulo: Abril<em> <\/em>Cultural. 1984.<\/p>\n<p>AUG\u00c9, Mar, (dir.) <em>A constru\u00e7\u00e3o do mundo<\/em>. Lisboa: Ed. 70. 1974.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Medicina e religi\u00e3o<\/em>: conflito de compet\u00eancia. 2\u00aa Ed. Manaus. Valer. 2005.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Hist\u00f3ria da Medicina: da abstra\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade<\/em>. Manaus. Valer. 2004.<\/p>\n<p>Botelho, Jo\u00e3o Bosco. Epidemias: a humanidade contra o medo da dor e da morte.\u00a0 Manaus. Valer. 2008.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Arqueologia do prazer<\/em>. Manaus.Metro C\u00fabico. 1992.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>Os limites da cura<\/em>. S\u00e3o Paulo. Plexus. 1998.<\/p>\n<p>BOTELHO, Jo\u00e3o Bosco. <em>O Deus-gen\u00e9tico<\/em>. Manaus. EDUA. 2000.<\/p>\n<p>BRAND\u00c3O, Junito<em> <\/em>de<em> <\/em>Souza. <em>Mitologia grega<\/em>. 2. ed.<em> <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes. v. 1. 1986.<\/p>\n<p>CORNFORD, F. M.<em> Principium sapientiae<\/em>: <em>as origens do pensamento filos\u00f3fico grego<\/em>. 2. ed.<em> <\/em>Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o<em> <\/em>Calouste<em> <\/em>Gulbenkian. 1981.<\/p>\n<p>ENTRALGO, Pedro Lain. <em>Estudios de historia de la medicina y de antropolog\u00eda m\u00e9dica<\/em>.<em> <\/em>Madri: Escorial. 1943.<em> <\/em><\/p>\n<p>HIP\u00d3CRATES. <em>In:<\/em> <em>Tratados Hipocr\u00e1ticos<\/em>. Madri: Gredos. 1990.<\/p>\n<p>LYONS, Albert S.<em> <\/em>Petrucelli, R. Joseph.<em> Histoire ilustr\u00e9e de la m\u00e9decine<\/em>.<em> <\/em>Paris: Presses de la Renaissence. 1979.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Pr\u00e1ticas m\u00e9dicas no per\u00edodo greco-romano \u00a0 Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho \u00a0 Considera\u00e7\u00f5es gerais Apesar de as praticas m\u00e9dicas, na Gr\u00e9cia e Roma antigas, mostrarem alguns aspectos de continuidade, em muitos outros guardas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que sofreram ajustes &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=321\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=321"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":322,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/321\/revisions\/322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}