{"id":575,"date":"2012-04-14T02:11:42","date_gmt":"2012-04-14T06:11:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=575"},"modified":"2016-03-06T09:32:07","modified_gmt":"2016-03-06T13:32:07","slug":"relacoes-medico-miticas-a-construcao-da-vida-apos-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=575","title":{"rendered":"RELA\u00c7\u00d5ES M\u00c9DICO-M\u00cdTICAS: A CONSTRU\u00c7\u00c3O DA VIDA AP\u00d3S A MORTE"},"content":{"rendered":"<div>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">O genial Rabelais, religioso e m\u00e9dico, escreveu <em>Gargantua<\/em> no s\u00e9culo 16. In\u00fameras associa\u00e7\u00f5es foram constru\u00eddas, nos s\u00e9culos seguintes, em torno dos personagens, em especial, Gargantua e seu filho Pantagruel.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o ser\u00e1 muito dif\u00edcil estabelecer mais uma rela\u00e7\u00e3o: a semelhan\u00e7a entre o processo de desenvolvimento da medicina com a cr\u00f4nica pantagruelina. Em ambas, o fant\u00e1stico e o imagin\u00e1rio, s\u00e3o mesclados nas a\u00e7\u00f5es das pessoas e os sonhos da vida eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-m\u00edticas transcenderam no tempo e chegaram\u00a0 a n\u00f3s vivificadas t\u00e3o intensamente que fica quase imposs\u00edvel dissoci\u00e1-la do cotidiano das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A pr\u00f3pria data de comemora\u00e7\u00e3o do dia do m\u00e9dico na atualidade, 18 de outubro, corresponde na mitologia grega o dia no qual o deus m\u00e9dico Ascl\u00e9pio, filho de Apolo, era celebrado na Gr\u00e9cia Antiga, h\u00e1 2.500 anos. A morte de Ascl\u00e9pio, determinada por Zeus, divindade suprema da maioria dos povos indo-europeus, resultante da terceira gera\u00e7\u00e3o divina da mitologia grega, por temer que a ordem natural do mundo fosse alternada pelos poderes de Ascl\u00e9pio, capaz de ressuscitar os mortos, fulminou-o com o raio dos Ciclopes, seres monstruosos com um s\u00f3 olho no meio da testa, representados por: Bronte, o trov\u00e3o; Esteropes, o rel\u00e2mpago; ,Arges o raio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apolo n\u00e3o tendo poderes suficientes para vingar-se de Zeus, matou os Ciclopes, dem\u00f4nios das tempestades, assassinos de Ascl\u00e9pio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O homem atual pertence possui \u00a0caracter\u00edsticas exclusivas entre todas as quatro mil\u00a0 duzentas\u00a0 e trinta e sete\u00a0 esp\u00e9cies de mam\u00edferos. \u00c9 b\u00edpede, sem pelos e transforma a natureza ao sabor da pr\u00f3pria vontade. Entretanto, conserva muitas particularidades fundamentais de todos os animais, mesmo quando est\u00e1 em uma esta\u00e7\u00e3o\u00a0 orbital, tem que comer e urinar.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<div style=\"text-align: left;\">\n<p>O homem se envaidece de possuir o maior c\u00e9rebro entre todas as esp\u00e9cies animais vivas, pesando pouco mais de mil e quatrocentos gramas no adulto jovem. Essa massa cinzenta \u00e9 uma estrutura especializada em receber e estocar informa\u00e7\u00f5es, emitindo instru\u00e7\u00f5es baseadas nelas. Sem d\u00favida, as buscas da origem primeira e do destino final devem entar essas fun\u00e7\u00f5es essenciais.<\/p>\n<p>No intervalo de tempo entre esses dois pontos da consci\u00eancia do tempo, o in\u00edcio\u00a0 e o fim da vida, o homem convive com a certeza da doen\u00e7a e da morte. Nas poucas dezens de anos que o homem consegue viver, gasta grande parte dormindo e na procura incessante do conforto, da sa\u00fade e da justificativa\u00a0 mais coerentes da imagin\u00e1vel vida ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>Depois\u00a0 de estabelecer, ao longo de milhares de anos, as rela\u00e7\u00f5es sa\u00fade-doen\u00e7a e vida-morte, o homem acumulou historicamente conhecimentos ojetivando o aumeto do tempo de vida: o renascimento ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7a\u00f5 na busca da imortalidade imposs\u00edvel \u00e9 t\u00e3o antiga quanto os registros paleoantropol\u00f3gicos que chegaram dos nossos ancestrais e se tornou respons\u00e1vel pelo aparecimento\u00a0 de uma especializa\u00e7\u00e3o social que originou a procura sistematizada do conforto f\u00edsico e da sa\u00fade, nessa vida e ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>O processo que culminou com o aparecimento\u00a0 do homem moderno foi lento: <strong>Australopitecos, <\/strong>\u00a02.500.000 anos; <strong>Homo habilis, <\/strong>1.000.000 de anos; <strong>Homo erectus,<\/strong> 500.00 anos, <strong>o Homo sapiens neanderthalensis, <\/strong>100.000 anos e <strong>Homo sapiens sapiens, <\/strong>50.000 anos.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">O cuidado com a sa\u00fade pode ter come\u00e7ado em qualquer ponto dessa escala geneol\u00f3gica e certamente se iniciou na procura do conforto f\u00edsico. A retirada de espinhos e parasitas da pele em forma individual ou coletivamente com a ajudade outros membros da comunidade pode ter sido a primeira forma de assist\u00eancia m\u00e9dica prestada nos nossos ancestrais. Essa assimila\u00e7\u00e3o da conduta social foi fundamental para o desenvolvimetno e sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 \u00e9 do conhecimetno dos zo\u00f3logos que os nossos parentes mais pr\u00f3ximos, os chimpanz\u00e9s, s\u00e3o capazes de se tratarem mutuamente lambendo pequenas feridas da pele, retirando parasitas e espinhos que penetram acidentalmente no corpo. N\u00e1o se trata de simples cata\u00e7\u00e3o. \u00c9 ind\u00edcio de verdadeira assist\u00eancia m\u00e9dica, porque envolve atividade consciente e dirigida a um determinado ponto onde est\u00e1 ocorrendo desconforto f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A partir do aparecimento da consci\u00eancia do tempo, reveladora da impot\u00eancia frente a ocorr\u00eancia das doen\u00e7as que levavam \u00e0 morte, multiplicaram-se as explica\u00e7\u00f5es m\u00edticas para explicar a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O ponto de converg\u00eancia desse caminho que moldou o pensamento criativo do homem foi o fant\u00e1stico n\u00famero de deuses e deusas com poderes de curar e ressuscitar os mortos registrados pela Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho O genial Rabelais, religioso e m\u00e9dico, escreveu Gargantua no s\u00e9culo 16. 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