{"id":595,"date":"2012-07-31T01:28:00","date_gmt":"2012-07-31T05:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=595"},"modified":"2016-03-06T09:31:40","modified_gmt":"2016-03-06T13:31:40","slug":"defesa-imunologica-do-corpo-organizacao-social-e-doencas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=595","title":{"rendered":"DEFESA IMUNOL\u00d3GICA DO CORPO, ORGANIZA\u00c7\u00c3O SOCIAL E DOEN\u00c7AS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0H\u00e1 muito tempo, desde os primeiros registros, tanto nos escritos religiosos quanto nos laicos, sabe-se da estreita rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e doen\u00e7a e o modo como as sociedades se organizaram. Hoje, basta comparar o tipo de doen\u00e7a, no mesmo per\u00edodo, nos pa\u00edses industrializados e nos subdesenvolvidos, para a certeza da import\u00e2ncia da sa\u00fade como indicador social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois da publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos do pesquisador Susumi Tonegawa, o ganhador do Nobel da Medicina de 1987, esclarecendo algumas d\u00favidas de como ocorre a varia\u00e7\u00e3o dos amino\u00e1cidos dos anticorpos produzidos pelos linf\u00f3citos B. Tonegawa demonstrou que quando o linf\u00f3cito B se desenvolve, segmentos do seu material gen\u00e9tico s\u00e3o selecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milh\u00f5es de sequ\u00eancias variadas de amino\u00e1cidos, capazes de efetuar com mais compet\u00eancia a defesa do corpo humano contra as agress\u00f5es micro e macrosc\u00f3picas vindas do meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como consequ\u00eancia imediata dessas pesquisas, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que pelo menos parte da estrutura gen\u00e9tica do homem \u00e9 m\u00f3vel e capaz de desenvolver durante a vida uma infinidade de combina\u00e7\u00f5es g\u00eanicas adaptativas. Para que este mecanismo biol\u00f3gico ocorra na sua plenitude, \u00e9 indispens\u00e1vel que o corpo disponha da mais importante fonte de energia \u2011 o alimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deste modo, se dissolveram como castelo de areia \u00e0 chuva, por meio da demonstra\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, os pressupostos \u00e9tnicos racistas alimentados pelos interesses dos diferentes matizes ideol\u00f3gicos. Isso significa que as crian\u00e7as subnutridas dos pa\u00edses pobres n\u00e3o poder\u00e3o competir, em igualdades de condi\u00e7\u00f5es, com outras dos pa\u00edses industrializados, onde a oferta de alimentos, indispens\u00e1vel para a matura\u00e7\u00e3o do genoma, \u00e9 feita em n\u00edveis cal\u00f3ricos adequados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 indiscut\u00edvel que estamos nos afastando r\u00e1pido, nos \u00faltimos anos, da medicina cartesiana classificat\u00f3ria, representante do conhecimento contido num espa\u00e7o herm\u00e9tico e inquestion\u00e1vel, para colocar a doen\u00e7a no contexto mais abrangente e complexo das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os conceitos positivos da imobilidade da sa\u00fade e da doen\u00e7a foram substitu\u00eddos pela convic\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do equil\u00edbrio din\u00e2mico entre ambas, onde ter a doen\u00e7a n\u00e3o significa, necessariamente, estar doente. Essa tend\u00eancia est\u00e1 nitidamente clara a partir do s\u00e9culo 19 quando o m\u00e9dico abandona o conceito restritivo da sa\u00fade e adota o da normalidade, provavelmente motivado pela\u00a0 melhor compreens\u00e3o da fisiologia experimental, em plena efervesc\u00eancia, nos trabalhos de Claude Bernard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esse primeiro momento, ficou impregnado da necessidade de explicar como tudo funcionava nos corpos. Como o mecanicismo dominava os meios acad\u00eamicos, a m\u00e1quina foi escolhida como o modelo ideal. O corpo humano passou como num passo de m\u00e1gica a ser comparado a um grande rel\u00f3gio, onde as doen\u00e7as eram somente desajustes na engrenagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entretanto, essa constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica restritiva n\u00e3o encontra suporte na Hist\u00f3ria. A certeza da import\u00e2ncia do sociocultural produzindo doen\u00e7a j\u00e1 estava presente nos livros laicos e sagrados escritos, h\u00e1 milhares de anos, nas culturas que se desenvolveram na Mesopot\u00e2mia, Egito e \u00cdndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Naquelas \u00e9pocas, os legisladores laicos e religiosos utilizaram os poderes dispon\u00edveis e interferiram nos h\u00e1bitos coletivos das popula\u00e7\u00f5es, para evitar a doen\u00e7a. Assim conseguiram determinar, ao longo dos s\u00e9culos que se seguiram, modifica\u00e7\u00f5es na cadeia epidemiol\u00f3gica de muitas doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O exemplo de f\u00e1cil verifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o c\u00e2ncer do colo uterino, com baix\u00edssima preval\u00eancia, entre as judias. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 dada pela cirurgia da fimose feita, obrigatoriamente, nos homens judeus no s\u00e9timo dia ap\u00f3s o nascimento. Com isto, o prep\u00facio fica livre e facilita a higieniza\u00e7\u00e3o impedindo que o v\u00edrus Epstein\u2011Baar, relacionado com a etiologia do c\u00e2ncer do colo uterino, e aloje no esmegma (secre\u00e7\u00e3o espessa, caseosa, malcheirosa, formada por c\u00e9lulas epiteliais descamadas, que se encontra, sobretudo, em torno da genit\u00e1lia externa) da gl\u00e2nde masculina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O c\u00e2ncer do p\u00eanis \u00e9 o outro lado da mesma quest\u00e3o: acomete homens com fimose. O Nordeste brasileiro, como todas as outras regi\u00f5es do mundo subdesenvolvido, onde o homem enfrenta enormes dificuldades de sobreviv\u00eancia, ainda apresenta uma das maiores preval\u00eancias do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0H\u00e1 muito tempo, desde os primeiros registros, tanto nos escritos religiosos quanto nos laicos, sabe-se da estreita rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e doen\u00e7a e o modo como as sociedades se organizaram. 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