{"id":678,"date":"2012-10-27T14:22:24","date_gmt":"2012-10-27T18:22:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=678"},"modified":"2016-03-06T09:26:12","modified_gmt":"2016-03-06T13:26:12","slug":"renascimento-como-resistencia-a-morte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=678","title":{"rendered":"RENASCIMENTO COMO RESIST\u00caNCIA \u00c0 MORTE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A necessidade incontrol\u00e1vel de dar sentido \u00e0 vida, diferente da dos outros animais, e de minimizar a morte, expressa com transpar\u00eancia na Hist\u00f3ria, contribuiu para materializar, como opostos, sa\u00fade e doen\u00e7a; prazer e dor. Sa\u00fade e prazer, sin\u00f4nimos de vida, ficaram ligados ao bem, bom, belo; doen\u00e7a e dor, compreendidas como mal, ruim, feio, antecipavam o falecer temido, a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A puls\u00e3o inata para desvendar a forma vis\u00edvel, em especial o corpo, dotado com propriedades sens\u00edveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor e da morteo, pode ser considerada como a primeira verdade material. \u00c9 verdadeira em si mesma, porque d\u00e1 forma ao viver, num movimento calidosc\u00f3pio, composto na carnalidade da pele quente, realidade dos sentidos, da respira\u00e7\u00e3o e do ritmo card\u00edaco. Atinge e entrela\u00e7a o ser no mundo! .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando a morte adv\u00e9m, como ant\u00edtese da vida, emudece a mem\u00f3ria, descolora a pele, resfriando-a e tornando-a insens\u00edvel \u00e0 dor, o pior dos tormentos. O movimento respirat\u00f3rio e o cora\u00e7\u00e3o param. O corpo desfigurado pelo rigor cadav\u00e9rico enche de sentido a vida dos que choram. \u00c9 quando o vivo se apercebe da pr\u00f3pria exist\u00eancia e rejeita a morte refletida na do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser-tempo (homens e mulheres vis\u00edveis e mensur\u00e1veis), para reafirmar a vida e rejeitar a morte temida, serve-se da fic\u00e7\u00e3o para compor a possibilidade de o corpo morto do outro poder renascer entres os seres-n\u00e3o-tempo (almas e esp\u00edritos n\u00e3o vis\u00edveis, n\u00e3o mensur\u00e1veis). Essa incr\u00edvel constru\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia humana prolonga a vida depois da morte, fortalece a cren\u00e7a de um renascimento, premiado ou castigado, nos moldes da vida vivida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a dial\u00e9tica fundamental entre a vida e a morte, atando com uma ligadura indissol\u00favel o ser-tempo e o ser-n\u00e3o-tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez nunca ser\u00e1 poss\u00edvel saber como a linguagem edificou esse pilar estrutural das rela\u00e7\u00f5es sociais: a cren\u00e7a no renascimento que aprimora e prolonga os sentidos, marcando a separa\u00e7\u00e3o do ser-tempo (homem vivo) \u00a0do ser-n\u00e3o-tempo (homem morto) dos outros animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imagin\u00e1vel renascimento dos homens e mulheres, empurrando os limites da vida, tem acompanhado as culturas, possivelmente, muito antes dos registros da linguagem escrita, entre ricos e pobres, numa dimens\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podem ser atribu\u00eddas somente ao ordenamento social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 poss\u00edvel estabelecer rela\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da vida ap\u00f3s a morte com a ideia arcaica de renascer a partir dos ossos descarnados (Gn 2, 21-24 ). Datando da pr\u00e9-hist\u00f3ria, com registros confi\u00e1veis, a pr\u00e1tica da exuma\u00e7\u00e3o ritual seguida da pintura dos ossos com ocra de cor vermelha, em associa\u00e7\u00e3o ao sangue, como o maior s\u00edmbolo da vida, sem o qual o renascimento seria imposs\u00edvel, e a rearruma\u00e7\u00e3o em sepulturas rituais. O professor Leroi-Gourhan, j\u00e1 falecido, da Sorbonne, no seu livro \u00a0&#8220;As religi\u00f5es da pr\u00e9-hist\u00f3ria&#8221;, editado em 1964, afirmou: &#8220;J\u00e1 muito se disse sobre o papel dos corantes e sobretudo do ocre, no paleol\u00edtico superior: mat\u00e9ria-prima das pinturas parietais, considera-se tamb\u00e9m que serviu para colorir as sepulturas e os corpos dos vivos, simbolizando de um modo geral o sangue e, consequentemente, a vida, particularmente a do morto&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica dif\u00edcil atribuir a cren\u00e7a no renascimento ap\u00f3s a morte somente \u00e0s culturas. Desse modo, \u00e9 valido tamb\u00e9m teorizar sobre a possibilidade de existir uma mem\u00f3ria-s\u00f3cio-gen\u00e9tica, que modula geneticamente certos aspectos da vida social, de modo semelhante a qualquer outro aspecto do corpo, como o da cor dos cabelos e dos olhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof. Dr. HC Jo\u00e3o Bosco Botelho A necessidade incontrol\u00e1vel de dar sentido \u00e0 vida, diferente da dos outros animais, e de minimizar a morte, expressa com transpar\u00eancia na Hist\u00f3ria, contribuiu para materializar, como opostos, sa\u00fade e doen\u00e7a; prazer e dor. &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=678\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-678","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=678"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/678\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2110,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/678\/revisions\/2110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}