{"id":758,"date":"2013-03-16T14:45:43","date_gmt":"2013-03-16T18:45:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=758"},"modified":"2016-03-06T09:17:21","modified_gmt":"2016-03-06T13:17:21","slug":"doutores-fritz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=758","title":{"rendered":"DOUTORES FRITZ"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A antrop\u00f3loga Maria Andr\u00e9a Loyola ap\u00f3s pesquisa realizada em Nova Igua\u00e7u e Santa Rita (RJ), entre 1976 e 1979, estabeleceu importantes rela\u00e7\u00f5es entre a busca de sa\u00fade nos hospitais e ambulat\u00f3rios p\u00fabicos e a dos curadores por ela denominados &#8220;especialistas n\u00e3o reconhecidos&#8221; (rezadores, padres, freiras, pastores, benzedores, pais e m\u00e3es de santos) e por mim caracterizados &#8220;doutores fritz&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os resultados desse trabalho est\u00e3o publicados no livro &#8220;M\u00e9dicos e curandeiros: conflito social e sa\u00fade&#8221;, em 1982, onde a pesquisadora esclarece que a procura do tratamento fora das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas representa reconstru\u00e7\u00f5es pessoais e coletivas, para superar a absoluta aus\u00eancia do Estado, na aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica prim\u00e1ria, a pen\u00faria social, certeza do abandono e, especialmente, o descr\u00e9dito nos m\u00e9dicos e hospitais. Os &#8220;doutores fritz&#8221; possibilitam reinser\u00e7\u00f5es sociais por meio de outros sistemas de poderes locais relativamente aut\u00f4nomos que permitem aos suplicantes afirmarem as identidades e pensarem ser poss\u00edvel possuir lugares no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existem pontos que podem ser questionados tanto na elabora\u00e7\u00e3o quanto na reprodu\u00e7\u00e3o da liberdade com que os &#8220;especialistas n\u00e3o reconhecidos&#8221; ou &#8220;doutores fritz&#8221; se multiplicam e atuam nas igrejas ligadas \u00e0s muitas tend\u00eancias religiosas. O in\u00edcio da discuss\u00e3o pode ser a partir do pressuposto de alguns segmentos dos poderes pol\u00edticos usarem esses curadores como anteparo \u00e0s press\u00f5es coletivas frente \u00e0s dificuldades do atendimento m\u00e9dico no sistema p\u00fablico. Dito de outro modo, sem esses &#8220;especialistas n\u00e3o reconhecidos&#8221;, a insatisfa\u00e7\u00e3o popular cresceria gerando conflito e desgaste pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nos anos 1970, apareceu no Rio de Janeiro um &#8220;doutor fritz&#8221; autodenominado &#8220;sete da lira&#8221;. Esse personagem, durante alguns meses, sem ser importunado pelas autoridades sanit\u00e1rias, atendeu milhares de pessoas no sub\u00farbio de Campo Grande. Desgastado pelos incont\u00e1veis insucessos, esvaziado, restou o enorme patrim\u00f4nio econ\u00f4mico da &#8220;funda\u00e7\u00e3o que administrava os dons m\u00e1gicos do curador.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o \u00e9 adequado rejeitar ou criticar a priori os &#8220;doutores fritz&#8221;. \u00c9 importante que essa discuss\u00e3o tome maior corpo nas universidades, inclusive na Disciplina Hist\u00f3ria da Medicina, onde os pesquisadores sociais, como a antrop\u00f3loga Maria Andr\u00e9a Loyola, continuem as analises e divulguem os resultados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0No livro &#8220;Medicina e religi\u00e3o: conflito de compet\u00eancia&#8221;, 2a. edi\u00e7\u00e3o, que eu publiquei pela Editora Valer, em 2005, mantive a ideia de a import\u00e2ncia mais imediata do sagrado continuar sendo a coisa sagrada, onde o conjunto que encanta e reproduz possui um ou mais objetos de fixa\u00e7\u00e3o, do culto do corpo santo \u00e0s rel\u00edquias, das imagens \u00e0s oferendas nas encruzilhadas, gerando consci\u00eancia e resposta, ajudando os suplicantes acharem e ocuparem os lugares no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Historicamente, a maioria dos cultos de conjura\u00e7\u00e3o \u00e9 terap\u00eautica, para amenizar a dor da pobreza ou a c\u00f3lica menstrual. Essa forma de atuar na sa\u00fade e na doen\u00e7a, por ser m\u00e1gica, sem passar por m\u00e9dicos e hospitais desacreditados, \u00e9 a mais comum e toca fundamentalmente no cerne da exist\u00eancia humana na ambi\u00e7\u00e3o de recuperar a sa\u00fade e evitar a morte precoce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os inaceit\u00e1veis indicadores que continuam contribuindo para a reprodu\u00e7\u00e3o dos &#8220;doutores fritz&#8221; come\u00e7am no atual modelo de desenvolvimento, gerador dos enormes desn\u00edveis socioculturais e se consolidam na aus\u00eancia de uma pol\u00edtica voltada para a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria da sa\u00fade e da inf\u00e2ncia nos pa\u00edses onde os atendimentos m\u00e9dicos prim\u00e1rios s\u00e3o fr\u00e1geis ou inexistentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.Dr.HC Jo\u00e3o Bosco Botelho \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A antrop\u00f3loga Maria Andr\u00e9a Loyola ap\u00f3s pesquisa realizada em Nova Igua\u00e7u e Santa Rita (RJ), entre 1976 e 1979, estabeleceu importantes rela\u00e7\u00f5es entre a busca de sa\u00fade nos hospitais e ambulat\u00f3rios p\u00fabicos e a dos &hellip; <a href=\"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/?p=758\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-758","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historiadamedicina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=758"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":760,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/758\/revisions\/760"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.historiadamedicina.med.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}