João Bosco Botelho
Doutor Honoris Causa Universidade Paul Sabatier-Toulouse 3
A História da Medicina possibilita discutir as práticas de curas, em especial, as oriundas nas estruturas de ensino sob apoio do poder político dominante, consolidadas nos quatro cantos do mundo, como os instrumentos mais competente para tratar a dor fora de controle e empurrar os limites da morte.
Essa característica fundamental foi o alicerce do convencimento que estruturou a Medicina como a melhor opção para substituir todas os ofícios de curas, em especial, os que mantiveram aderências às ideias e crenças religiosas.
É possível teorizar que a utilidade social das práticas de curas e seus agentes – empurrar os medos da morte – tenha consolidado nas mentalidades certa condição sócio genética como o principal instrumento de luta contra a dor e a morte fora de controle, buscando os meios para viver cada vez mais e melhor, dos tempos ágrafos à atualidade.
Desse modo, as práticas de curas compõem parte significativa da organização social do planeta desde os tempos muito distantes.
Nos grupos de caçadores-coletores Homo sapiens, presentes pelo menos no norte da África, há 300.000 anos, no sítio Jebel Irhoud, os sepultamentos rituais já estavam presentes. Os estudos dos fósseis por meio da arqueologia e paleopatologia oferecem comprovações de as práticas e curas terem sido mais frequentes entre os Homo sapiens, a partir de 10.000 anos.
É possível pressupor que entre diferentes grupos de caçadores-coletores existiam membros talvez mais femininos, na medida em que a gravidez, os cuidados com as crias e a lactação forçavam menor mobilidade, permanecendo mais próximos dos incapacitados oferecendo alimentos, fazendo pensar arqueologia do curador.
Surpreendem os muitos sepultamentos rituais, uns com o morto em posição fetal e a cabeça voltada ao Oeste; outros, enterrados junto aos instrumentos de caça e fartos pedaços de carne, forçando o pressuposto de crença no renascimento após a morte.
Ao contrário, possivelmente os inimigos, amontoados na cova comum. Esse contraponto entrelaçado expos o extraordinário sentimento de maior significância: só as pessoas amadas ou as de importância na sobrevivência do grupo mereceriam renascer, portanto o custo coletivo de adicionar nacos generosos de carne junto ao morto só acontecia aos escolhidos.
Após a sedentarismo, os conhecimentos historicamente acumulados nos primeiros registros, produzidos nas civilizações-culturas no Oriente próximo, desenvolvidas nas margens dos rios Nilo, Indo, Tigre e Eufrates, é possível identificar histórias das práticas de curas em três tipos de relações entre os curadores e doentes:
1. Práticas de curas empíricas:
Homens e mulheres que acreditavam ser portadores de dom capaz de mudar o rumo natural de doenças e, especialmente, inspirando confiança nos doentes e familiares suficiente para impor pressupostos de a cura ser possível. É possível entendê-las representando heranças ancestrais de saberes historicamente acumulados, interrelacionados à natureza circundante, em especial, o uso dos vegetais, das observações nas mudanças nos corpos, repetidas no passar dos anos, da importância do Sol na sobrevivência de tudo e todos, na decomposição dos corpos após a morte e, em especial, do empenho para identificar o diferente no corpo, seja agudamente, após o trauma, ou evoluindo lentamente, o anormal, a doença visível ou palpada abaixo da pele. Importante característica dessas práticas que poderiam resultar em cura ou fracasso, foi a associação às vontades dos deuses e das deusas protetores ou causadores de doenças do panteão do grupo social. A partir dos primeiros registros, são claramente identificadas nas sociedades-culturas que floresceram, nas margens de rios piscosos e terras férteis: Mesopotâmia, Egito, Índia e Israel.
2. Práticas de curas pressupondo intervenção divina:
Predominaram as convicções ligando curadores aos pressupostos poderes divinos de curar, capazes sarar todas as doenças, exclusivamente atadas aos incontáveis deuses e deusas protetores nos quatro cantos do mundo.
3. Medicina oficial:
Muito mais recente na História. No Ocidente, é possível entender fortes indícios do início, no século IV a.C., na Grécia, ilha de Kos, sob a liderança de Hipócrates. Os médicos, em especial, Políbio, como agentes dessa Medicina oficial, pela primeira vez, com a absoluta originalidade, teorizou a saúde e a doença como consequência, respectivamente, do equilíbrio e do desequilíbrio de “humores”. Ao afastar as divindades do processo determinante de doenças e curas, iniciou o conflito de competência entre as práticas voltadas à compreensão das doenças dissociadas das crenças e ideias religiosas. Desde então, os processos teóricos foram elaborados adaptados aos avanços da tecnologia que possibilitaram diminuir a abstração e aumentar a materialidade da doença.




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