João Bosco Botelho
Doutor Honoris Causa Universidade Paul Sabatier-Toulouse 3
Fica impossível separar a história da medicina do conjunto dos saberes, desde os tempos ágrafos, das crenças e ideias religiosas que englobam as concepções míticas em torno da cura ou esperança de cura, como o permanente fio condutor para vencer a dor e empurrar os limites da vida1[1].
Sob essa perspectiva, a própria história da medicina é um instrumento também para desvendar os efeitos pessoais e coletivos da dor ou, simplesmente, da ameaça dolorosa2[2]. Assim, os recursos e as variantes simbólicas para enfrentar a dor e buscar o prazer, em qualquer cultura, tanto no espaço sagrado quanto no profano das relações sociais, também compõe a história da medicina3[3].
De igual modo, não há como separar a contínua e ancestral luta contra a dorpresente nas ideias e crenças religiosas, já que em determinados momentos, não se sabe onde começa a medicina e termina a religião4[4].
Sob outra leitura, essa condição sócio genética de luta contra a dor e a permanente busca do prazer que possibilitou a sobrevivência e a reprodução da espécie humana.
A saúde significa não-dor e o contrário também é verdadeiro: a doença está associada à dor ou à ameaça dolorosa e à morte prematura. Logo, o normal pode ser compreendido como um parâmetro da saúde onde o indivíduo vive sem dor ou sem a ameaça dolorosa e, assim, está livre a morte prematura5[5]. Essa sensação de segurança pessoal e coletiva frente à morte inevitável constitui um dos principais alicerces da organização social, já que simplifica a imensa diversidade biológica do organismo humano em torno da fuga da dor, a busca do prazer e do controle da morte.
A linguagem6[6], estruturada pelo gene FOXP2, tem sido o principal instrumento para unir o social ao genético7[7] e consolidar a característica comportamental humana: fugir da dor e das ameaças dolorosas e buscar o prazer na certeza da posse da terra ou de qualquer imagem metafórica dessa garantia assegurando o alimento e a água, construção do núcleo familiar protetivo, expressões da sexualidade e da liberdade de ir e vir8[8].
A própria linguagem, em si mesma, está geneticamente moldada para dar realidade à expressão da dor e do prazer, concretizando a compreensão do normal e da doença. É por meio da linguagem que o normal e o patológico se expõem pessoal e coletivamente. Por essas razões, os instrumentos biológicos da linguagem interagem e codificam a cooperação, a territorialidade e a sexualidade para vencer a dor e empurrar os limites da vida. O patológico como sinônimo de doença, sempre real para quem sente, é verbalizado em torno da dor ou do medo da morte.
A eliminação da dor e a substituição pelo prazer interligando a cooperação, a sexualidade e a territorialidade, tornou-se o principal determinismo genético, por si mesmo, garantindo a sobrevivência da espécie.
O reducionismo cientificista tem projetado a medicina, aquela oriunda das escolas médicas, como a única responsável por esse processo de luta contra a dor. Contudo, repetindo, em muitos momentos, não é possível distinguir onde começa essa medicina e os conhecimentos historicamente acumulados e terminam as ideias e crenças religiosas.
Os historiadores9[9] que desvendam os períodos ágrafos se esforçam para elaborar estruturas teóricas capazes de explicar como os nossos antepassados distantes entendiam e modelavam a saúde e a doença, a vida e a morte, durante os milhares de anos que antecederam o aparecimento da escrita10[10].
Os estudos dos fósseis, por meio da paleopatologia11[11] e os recursos da arqueologia, constituem alternativas capazes de oferecer, com alguma precisão, muitos aspectos importantes para continuar elucidando incontáveis dúvidas.
Entre os instrumentos de estudo dos períodos pré-históricospodem ser destacados as pinturas rupestres, vestígios do uso do fogo nas paredes das cavernas, as sepulturas rituais, os fragmentos ósseos pintados com ocra vermelha, ferramentas e utensílios de caça e pesca12[12]. Apesar de não ser muito, em certos casos, é suficiente para formar elos consistentes com o nosso passado distante.
Não há como duvidar que a rica memória dos tempos ágrafos, articulada em milhares de anos, tenha contribuído fortemente para moldar o pensamento e as ações em torno dos significantes simbólicos da vida e da morte, da saúde e da doença, enfim, do próprio modo com que as culturas foram fixadas nas mentalidades, das civilizações que desenvolveram a escrita, há pouco mais de cinco mil anos.
A partir dos primeiros registros escritos, inicialmente, produzidos nas civilizações que se desenvolveram nas margens dos grandes rios13[13] Nilo, Indo, Tigre e Eufrates, é possível ver sinais que identificam três tipos de medicinas14[14]:
- Empírica: nasceu como fruto da milenar relação dos homens e das mulheres com a natureza circundante, em especial, dos saberes empíricos em torno do uso dos vegetais e minerais, mudanças nos corpos com o passar dos anos vividos, a observação dos movimentos dos astros, a importância do Sol na sobrevivência de tudo e todos, a decomposição dos corpos após a morte e a impressionante vontade coletiva para empurrar os limites da vida. Historicamente, tem sido utilizada por todos, sejam poderosos ou excluídos. Os mistérios e as práticas dessa complexa relação foram repassados oralmente, no início, e depois da escrita, os registros alcançaramgeração em geração;
- Divina: permeando a vontade de rejeitar a morte e a busca de soluções para impedir o avanço das doenças, desde os tempos imemoriais, estão incontáveis divindades taumaturgas, cridas como detentoras de poderes sobre-humanos da vida e da morte, da saúde e da doença, que podem curar ou determinar doenças fora dos limites humanos;
- Oficial: muito mais recente na história e o aparecimento está diretamente relacionado à estruturação social e religiosa, portanto, já perceptível nas primeiras civilizações escravistas. Geralmente, interage as anteriores e é a única autorizada pelo poder dominante para curar, de acordo com as regras da dominação muito específicas que incluem à obediência ao deus dominante. O conhecimento gerado, tanto no passado quanto no presente, tem sido transmitido em escolas mantidas pela mesma autoridade. Os agentes curadores desfrutam de pouca liberdade de inovação e são obrigados à obediência das normas ditadas pelo conhecimento reconhecido. As atitudes inovadoras, em busca de novas alternativas, obrigatoriamente, devem passar pelo crivo da comunidade fiscalizadora.
O confronto entre os agentes curadores, representantes das três medicinas,reflete o processo histórico, inserido nas mentalidades e nas culturas, com o objetivo de ampliaros limites da vidae evitar a dor coletiva15[15] ou dor pessoal16[16].
Os principais agentes curadores são:
- Dos curadores empíricos: durante muitos milhares de anos, os especialistas da cura, provavelmente, como nos dias atuais,membros destacados nas respectivas sociedades, que dominavam o uso empírico de plantas e procedimentos específicos para aliviar a dor. Só recente, esses homens e mulheres especiais receberam nominações de muitas naturezas, massagistas, benzedeiras, parteiras, pastores protestantes, pajé, médium kardecista17[17], harmonizadores do IVI (Invitation à la Vie)18[18], umbandistas, mãe e pai de santo, padres e freiras carismáticas, entre outros;
- Das divindades taumaturgas: incontáveis deuses e deusas desde o período ágrafo até a antigüidade escravista politeísta e o Deus único, no judaísmo e no islã. Especificamente, no cristianismo, além do Deus-Pai, Jesus Cristo,o Espírito Santo, a Virgem Maria, os santos e as santas protetores são evocados no processo de cura;
- Do curador oficial: médico;
As influências e os poderes desses curadores e das entidades divinas taumaturgas têm variado, sem dúvida, de acordo com o social de cada grupo humano, a natureza circundante e com o elo de confiança entre o curador e o paciente.
Sem que seja feito juízo de valor, a História de medicina evidencia que as três medicinas e os respectivos representantes, em instâncias nem sempre tão distintas,são capazes de gerar respostas concretas no alívio do sofrimento.
As questões sociais em torno da doença e os transtornos causados pelo desconforto e pela dor não devem ter sido, no passado distante, muito diferentes da atualidade. Na realidade, é possível distinguir três circunstâncias envolvidas no processo:
– A busca de tratamento da pessoa aflita com o seu estado, essencialmente, motivada pela dor e pelo medo da morte;
– A preocupação coletiva pela terapêutica quando a sociedade também se entende ameaçada;
– A busca do recurso curador, nas três medicinas, de preferência, portador do reconhecimento social.
Pelo menos um dos componentes acima pode estar presente na relação motivadora de trocas entre doente e curador. Por outro lado, mesmo que seja só um desses componentes, tem que estruturar o convencimento – o elo de confiança entre o curador e o doente – tal como nos tempos muito anteriores, próximo à própria arqueologia da cura.
Dessa forma, cabe efetivar a busca dos elementos que antecederam a compreensão da doença e interligar ao processo da cura. Contudo, para que seja possível organizar esse pensamento num período determinado, anterior à essa relação curador-doente, é necessário traçaros parâmetros a partir da consciência da dor e do prazer, como a estrutura mental formadora da arqueologia da cura. Isto é, a dor é a motivação maior para que o ato cooperativo seja instalado e se interponha com força e convencimento suficientes, utilizando todos os recursos disponíveis, para reverter o desconforto doloroso e instalar o prazer19[19].
De modo claro, esse desafio humano maior – lutar contra a dor e buscar o prazer – reflete um impressionante repetir coletivo, nos quatro cantos do planeta, em todos os tempos, que traduz, em última análise, a vontade humana para ampliar os limites da vida, por meio dos recursos das três medicinas: a empírica, a divina e a oficial.
Dessa forma, tanto a medicina-oficial quanto as medicinas empírica e divina, nas respectivas áreas de atuação, em um ou outro caso, lançando mão ou recusando os deuses curadores, utilizam as suas próprias ideias de cura como instrumento de convencimento, arregimentação e catequese20[20].
As práticas refletem, na maior parte das vezes, aspectos que podem interferir na ordem e na desordem sociais ao promoverem alternativas para diminuir as tensões geradas, individual ou coletivamente, pelo medo da dor e da morte prematura21[21].
[1] Relações médico-míticas. www.historiadamedicina.med.br. Acesso 19 jan. 2019 “A própria data de comemoração do dia do médico na atualidade, 18 de outubro, corresponde na mitologia grega o dia no qual o deus médico Asclépio, filho de Apolo, era celebrado na Grécia Antiga, há 2.500 anos. A morte de Asclépio, determinada por Zeus, divindade suprema da maioria dos povos indo-europeus, resultante da terceira geração divina da mitologia grega, por temer que a ordem natural do mundo fosse alternada pelos poderes de Asclépio, capaz de ressuscitar os mortos, fulminou-o com o raio dos Ciclopes, seres monstruosos com um só olho no meio da testa, representados por: Bronte, o trovão; Esteropes, o relâmpago; Arges o raio
[2] Novas abordagens teóricas da saúde e da doença. www.historiadamedicina.med.br. Acesso 19 jan. 2019: “Para que se possa reutilizar o conhecimento sociocultural historicamente acumulado na luta atávica contra a doença e a morte, é imperativo reestruturar o aprendizado do médico. Novas saberes precisam ser consolidadas para possibilitar ao aluno de medicina situar historicamente os pontos importantes da saúde pública. Assim, será mais fácil fornecer durante o aprendizado acadêmico os subsídios teóricos das soluções para os problemas que corroem a saúde de milhões de brasileiros e fazem morrer por ano outras tantas crianças com menos de um ano de idade.
[3] GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. Morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras. 1989. p. 157: “Mesmo que o historiador não possa deixar de se referir, explícita ou implicitamente, a séries de fenômenos comparáveis, a sua estratégia cognoscitiva assim como os seus códigos expressivos permanecem intrinsicamente individualizantes (mesmo que o indivíduo seja talvez um grupo social ou uma sociedade inteira. Nesse sentido, o historiador é comparável ao médico, que utiliza os quadros nosográficos para analisar o mal específico de cada doente. E, como o do médico, o conhecimento histórico é indireto, indiciário, conjectural”.
LE GOFF, Jacques & SOURNIA, Jean-Charles. Les maladies ont une histoire. In: L’Histoire. Paris: Seuil. 1985. p. 7: “A doença não pertence somente à história superficial do progresso científico e tecnológico, mas à história profunda dos saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, às instituições, às representações, às mentalidades. Depois da Idade Média, o jogo da doença e da saúde se joga cada vez menos nas casas do doente e cada vez mais no hotel da doença, o hospital. É uma história do sofrimento”.
[4] BOTELHO, João Bosco. Arqueologia do prazer. Manaus: Metro Cúbico. 1992. p. 119: “A sedução exercida pelo poder taumaturgo dos STs (nota do autor: seres tempo, físicos, mensuráveis) e SNTs (nota do autor: seres não tempo, mágicos, não mensuráveis) que possuem o Dom, tem sido uma das constantes da rede social. Esses homens, mulheres e divindades com dotes especiais mostram-se, desde tempo distantes, capazes de curar certas doenças e ressuscitar alguns mortos. A partir dessas características, eles também têm sido competentes para moldar a ordem dos povos.
______. medicina e religião: conflito de competência. 2 ed. Manaus: Valer. 2005. p. 368: “O ato de curar traz, na sua essência, o poder (ou a sensação de vencer o maior dos obstáculos à vida – a morte, fazendo a aproximação íntima entre o crente e a divindade, já que aquele que cura é capaz de reproduzir o poder supremo, que justifica a própria divindade como ser sobrenatural e transcendente”.
[5] ______. Os limites da cura. São Paulo: Scortecci-Plexus. 1998. p. 37: “A doença e a dor, por serem categorias abstratas e não existindo só em si mesmas, recebem nomes e classificações do homem. Esse mesmo homem, que as teme quando sente a possibilidade da DP (nota do autor, doença pessoal) sem controle ou a proximidade da morte prematura, interliga-as aos sistemas cognitivos dos saberes e símbolos míticos e empíricos, oriundos de tempos muito distantes, para ativar os circuitos biológicos, que se projetam no social, tão vivos e verdadeiros como a cor dos olhos, dos cabelos e da pele, com poderes suficientes para mudar os comportamentos pessoal e coletivo, com o objetivo de moldar a sociedade”.
[6] ______. O Deus genético. Manaus: Editora da Universidade do Amazona. 2000. p. 54-5: “Um dos principais alicerces da ponte entre o passado muito antigo, contido no cérebro primitivo, oriundo da filogenia comum, e o cérebro atual, resultante do processo evolutivo, é a insubstituível polaridade entre a dor e o prazer. Deste modo, a linguagem é o principal instrumento de comunicação para que o ser possa instrumentar a fuga da dor ou a aproximação do prazer. Até hoje, não foi possível separar a linguagem emocional (choro, riso, gestos, postura corporal, mímica do prazer e da dor, o olhar, etc.), com origem, predominantemente, límbica, da linguagem voluntária, cuidada no vocabulário, armazenado no neocórtex”.
[7] ______. O ato de escrever e as memórias sócio genéticas. www.historiadamedicina.med.br. Acesso 29 jan. 2019. “As maneiras de articular as palavras, formando as frases e as ideias ficcionais são infinitas. Cada ser humano possui, como produto da interação genético‑social, a própria marca na linguagem utilizada. Apesar de a gramática ser finita, a língua gerada por ela é incomensurável. O produto final das linguagens oral e escrita é, consequente, um dos vetores que modulam os componentes extrínsecos (a natureza, o social e a História) e os intrínsecos (os padrões genéticos herdados na reprodução sexuada)”.
[8] ______. Arqueologia do prazer. Manaus: Metro Cúbico. 1993. p.15: “O estudo das mentalidades, em diferentes períodos, mostra um impressionante repetir coletivo atrás dos anseios fundamentais, ditados por lembranças arcaicas, denominadas, neste ensaio, MEMÓRIA SÓCIO GENÉTICA (MSG), mais forte do que todos os poderes até hoje constituídos. A MSG entrelaça, em sintonia fina, o pensamento e o conhecimento. Explode de coerência e ternura compulsiva, quando a boca do mamífero acopla, suave, no mamilo túrgido de leite e acalenta, por instantes, o estertoroso despertar da vida. É transparente o contínuo frenesi para sentir, intensamente, o conforto físico e emocional (aqui compreendido como a liberdade de ir e vir, de falar, de explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio), irresoluto para a maior parte da humanidade. Todos fogem da dor e procuram o prazer. Conforto e desconforto são as chaves mestras acionadoras da MSG. As relações interpessoais, com ou sem ajuda da técnica, resultando prazerosas, são acatadas pela maioria. Sempre que a ordem insiste em limitá-las, ocorre a resistência com o objetivo de transpor os obstáculos.
______. O ato de escrever e as memórias-sócio-genéticas. In: BIANCHETTI, Lucídio (org.). Trama & Texto: leitura crítica e escrita criativa. São Paulo. v. 1. 1997. p. 31: “As maneiras de articular as palavras, formando as frases e as ideias ficcionais são infinitas. Cada ser humano possui, como produto da interação genético‑social, a própria marca na linguagem utilizada. Apesar de a gramática ser finita, a língua gerada por ela é incomensurável. O produto final das linguagens oral e escrita é, consequente, um dos vetores que modulam os componentes extrínsecos (a natureza, o social e a História) e os intrínsecos (os padrões genéticos herdados na reprodução sexuada). O estudo das mentalidades, em diferentes períodos, mostra um histérico repetir coletivo, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala filogenética, atrás dos anseios fundamentais, ditados por uma categoria nominada neste ensaio de memória sócio genética (MSG). É traduzida na vida de relação, desde os tempos imemoriais na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto físico e emocional (aqui compreendido como a liberdade de ir e vir, de falar, de explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio) nunca resolvidos para a maior parte da humanidade. Todos fogem da dor e procuram o prazer. A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentido no corpo, são as chaves acionadoras da MSG. Todas as relações pessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da técnica, que resultem prazerosas são acatadas, sem esforço, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limitá‑las, ocorre resistência. A rebeldia contra o sexo limitado e seus símbolos, em todas as variáveis, o alimento escasso e a incrível sedução pelas drogas proibidas são partes importantes do mesmo universo.
[9] Leroi-Gourhan, um dos mais respeitados historiadores da pré-história, estabeleceu limites da temporalidade no aparecimento de ideias religiosas nos nossos ancestrais mais distantes e associou esse marco ao sepultamento ritual. O autor assegura que antes do homo sapiens, isto é, em torno de 30 a 40.000 anos não existe consistência nas provas. Ver:
LEROI-GOURHAN, André. As religiões da pré-história. Lisboa: Ed. 70. 1964. p. 127.
______. Las hipoteses de la prehistoria. In: PUECH, Henri-Charles (dir.) Las religiones en los pueblos sin tradicion escrita. v. 11. Siglo Veintiuno Editores. Madri: 1982. p. 1-33.
O núcleo familiar e as interrelações com a solidariedade grupal foram analisadas por: MASSET, Claude. Préhistoire de la famille. In: BURGUIÈRE, André et al. Histoire de la famille. Paris: Arnand Colin Éditeur. 1986. p. 79-98.
Continua despertando enorme interesse os mistérios que envolvem as atividades de caça na pré-história e as ligações com os animais abatidos, inclusive a similitude simbólica do sangue com a ocra vermelha. Ver:
EYMARD, Michèle. Hommes ou femmes: Qui sont les chasseurs de la préhistoire? L’Histoire, n. 90, jun., 1986, p. 82-3.
PERLÈS, Catherine. Les chasseurs de rennes de la préhistoire. L’histoire, n. 97, fev., 1987. p. 77-80.
O aparecimento das ideias e crenças religiosas no processo de desenvolvimento do homem atual parece estar ligado às expressões de sentimentos e ações encontrados nos sítios arqueológicos que envolvem: os ritos funerários, exumações seguidas de pinturas com ocra vermelha dos ossos, adereços, alimentos e instrumentos de caça que acompanhavam os mortos. Ver:
MORIN, Edgar. Les premières morts inhumaines; Les rites funéraires du paléolithique: mythe ou réalité? Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 6-7.
VANDERMEERSCH, Bernard. Les premières sépultues. Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 10-4.
BINANT, Pascale. Les pratiques funéraires au Paléolithique supérieur et au mésolithique (3.000 à 10.000 ans avant notre ère). Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 15-8.
LE MORT, Françoise. Actions intentionnelles sur les os humains. Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 28-32.
LECLERC, Jean & Masset, Calude. Les tombes collectives. Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 60-3.
GUILAINE, Jean. La relation habita/sépulture en Préhistoire. Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 64-7.
CLOTTES, Jean. Le mobilier dans les sépulture néolitiques et chalcolithiques. Histoire et Archeologie. n. 66, sep. 1982, p. 68-77.
[10] BOTELHO, João Bosco. Evolucionismo como escolha. www.historiadamedicina.med.br (Acesso 22 jan. 2019): “É desnecessário repetir a resistência às novas ideias evolucionistas darwinianas, contudo a ruptura com o imobilismo do Gênese bíblico estava claramente iniciada. Darwin trouxe à baila as variáveis da seleção natural frente à capacidade de sobrevivência do animal, ligadas às fontes de alimentos, em ambiente específico, como o ponto fundamental das transformações biológicas. Na dependência da comida disponível, os mais adaptados ao meio viverão e os outros, menos aptos, serão eliminados pela seleção natural”.
[11] Entre os muitos dados que podem ser analisados, com segurança, pela paleopatologia a partir dos ossos e dentes, destacam-se: as anomalias congênitas, doenças endócrinas, alterações metabólicas, inflamações, infecções, traumas, tumores, doenças dentárias e violentos traumatismos mortais. Ver: AGUIRRE, Emiliano. Paleopatología y medicina prehistórica. In: ENTRALGO, Laín. Historia Universal de la medicina. v. 1. Madri: Salvat. 1981. p. 7-17.
[12] BOTELHO, João Bosco. Alguns registros da pré-história. In: ______. História da medicina: da abstração à materialidade. 3. ed. Manaus: Valer. 2013. p. 99-114.
[13] SOURNIA, Jean-Charles. Histoire de la Médecine. Paris: La Découverte/Poche. 1997. p. 22-23.
BOTELHO, João Bosco. A medicina no Egito. In: ______. História da medicina: da abstração à materialidade. 3. ed. Manaus: Valer. 2013. p. 129-38.8
______. A medicina na Índia. In: Idem. p. 121-28.
______. A medicina na Mesopotâmia. In: Idem. p. 115-20.
[14] ______. Os limites da cura. São Paulo: Plexus 1997. p. 25-6.
[15] BOTELHO, João Bosco. Medicina e religião: conflito de competência. 2 ed. Manaus: Valer. 2005. p. 52: “Entre os gregos dos tempos homéricos, especificamente na estrutura dos livros Ilíada e Odisseia, o tratamento está em íntima simbiose entre as medicinas divina, empírica e a oficial, de tão modo consistente que não há possibilidade de separá-las. A palavra phármakon, no grego arcaico, significava agente mágico, porque era capaz de restituir a ordem natural. São encontrados dois grupos de três palavras, respectivamente, relacionadas com a complexa mistura entre a dor física e a dor moral, as suas origens e os sentimentos físicos e psíquicos resultantes do desconforto:
1o Grupo:
– Penthos: desgosto, pesar, inquietação;
– Kèdos: dor corporal;
– Achos: emoção súbita e violenta, transtorno de sentimento que pode levar ao abatimento;
2o Grupo:
– Odunè: relacionada com a dor do parto, podendo ser seguida dos adjetivos: oxus = aguda; pikros = cortante;
– Algos: sofrimento geral, voltado à natureza humana;
– Pèma: apesar de certa afinidade com algos, expõe melhor a dor coletiva em determinado tempo: período mau, flagelo coletivo, sofrimento.
Nos escritos hipocráticos, mais ou menos dois séculos após os de Homero, as palavras mais usadas para designar a dor foram: algèma, odunè, algos e ponos. A primeira e a quarta de naturezas mais recentes de que as duas outras, foram atualizadas nas formas verbais, respectivamente, algeo e poneo (sofrimento).
Na concepção socrática, a dor e o prazer-recompensa não poderiam estar presentes simultaneamente na mesma pessoa e, de certa forma, ao mesmo tempo em que a sensação substitui a outra, a ausência de dor poderia ser interpretada como expressão do prazer-recompensa. Platão, com genialidade, aborda e valoriza o sofrimento doloroso e estabelece, no Górgias, que a autenticidade da medicina-oficial como arte está diretamente relacionada com a capacidade de curar a dor. Com essa abordagem que inclui a sistematização de teoria geral para explicar a saúde e a doença, fixando claros parâmetros de valorização da medicina-oficial como instrumento para evitar ou retirar a dor, os estudos para entender o fenômeno doloroso iniciaram o longo caminho”.
[16] ______. A arqueologia do prazer. Manaus: Metro Cúbico. 1993. p. 35: “A paixão dos marxismos pós-Marx, fruto da leitura das orelhas dos livros de ciência política, ao enveredar pela mesma trilha dogmática, contribuiu para agravar a crise de subjetividade que acelerou a derrubada do Muro de Berlim. Alcançou os limites da insanidade, quando afirmou ser o amor materno pela cria simples manifestação burguesa. Os anseios dos homens e das mulheres, presentes nas MSGs (Nota do autor: memórias socio genéticas), para reforçar o conforto, é um dos fatores que provocam o movimento social. Quando as ideias são desarmônicas com o anelo, nem mesmo os mais brutais meios de repressão conseguem mantê-las acreditadas. A História recente evidencia com transparência um desses momentos marcantes da resistência: o desmoronamento da ordem socialista, no Leste da Europa. Aqueles povos demonstraram que a insatisfação com os limites da ideia não é solucionada pel8a oferta do trabalho, da moradia e da comida. O impulso atávico para buscar o conforto está além, muito além, da fome contida”.
[17] BOTELHO, João Bosco. Os doutores fritz. www.historiadamedicina.med.br (Acesso 25 jan. 2019)
[18] http://www.invitation-a-la-vie.org/ (Acesso 25 jan. 2019).
[19] BOTELHO, João Bosco. Arqueologia do prazer. Manaus: Metro Cúbico. 1993. p.11-46.
______. Os limites da cura. São Paulo: Plexus. 1998. p. 29-38.
______. O deus genético. Manaus: Ed. Universidade do Amazonas. 2000. p. 147-74.
[20] ______. Medicina e religião: conflito de competência. 2 ed. Manaus: Valer. 2005. p. 293.
[21] ______. História da medicina: da abstração à materialidade. 3 ed. Manaus: Valer. p. 53-4.




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