Prof. Dr. HC João Bosco Botelho
Acabamos de ver duas atitudes frente à morte: a primeira, a mais antiga, a mais comum, é a resignação familiar ao destino coletivo da espécie e pode se resumir nesta fórmula: “vamos todos morrer”. A Segunda, que aparece no século XII traduz a importância reconhecida em sua própria existência individual e pode se traduzir nesta outra fórmula: “a morte do próprio indivíduo”.
A partir do século XVIII, o homem das sociedades ocidentais, tem a tendência de dar à morte um sentido novo: exalta-a, dramatiza-a, que uma morte mais impressionante, mas, ao mesmo tempo, ele já está menos preocupado com sua própria morte é a morte “romântica”, é sobretudo a morte do outro.
O outro, cujo pesar e lembranças inspiram nos séculos XIX e XX o culto novo dos túmulos e dos cemitérios.
Se, durante pouco tempo, o século XVI, a morte se carregou de um sentido erótico, ela vai logo perder esse caráter ou pelo menos ele vai ficar sublimada e reduzida à beleza; a morte será admirável pela sua beleza. É a morte que chamamos de “romântica de Lamartine, na França, das irmãs Bronte” na Inglaterra, ou de Mark Twain nos Estados Unidos. Existe numerosos testemunhos literários sobre este fenômeno; eles descrevem a nova atitude das pessoas cercando o agonizante: elas gesticulam, choram, rezam.
A expressão de dor dos sobreviventes é devida a uma nova intolerância à separação.
Mas, não é só à cabeceira dos agonizantes ou à lembrança dos desparecidos que as pessoas se perturbam: a idéia mesma da morte comove.
Tal é a primeira grande mudança que aparece no final do século XVIII e que simboliza um dos aspectos do romantismo. A Segunda grande mudança é relativa à ligação entre o agonizante e sua família. Para exprimir as suas últimas vontades, o agonizante redigia um testamento. Do século XIII ao século XVIII, o testamento exprime o seu pensamento profundo, a sua fé. As cláusulas piedosas obrigavam os herdeiros a respeitar as vontades do desparecido. Estes testamentos mostravam uma grande desconfiança frente aos parentes; o agonizante temia não ser obedecido.
Mas, na Segunda metade do século XVIII, uma mudança importantíssima intervém na redação dos testamentos; essa mudança foi geral no Ocidente Cristão. As cláusulas piedosas somiem e o testamento só fica como ele é hoje: uma ato legalizado de distribuição de bens. É um evento muito importante na História das Mentalidade: o testamento é portanto, secularizado. Como podemos explicar esses fenômenos? Segundo o historiador francês Michel Vovelle, seria um dos sinais da descritianização da sociedade. Mas, há talvez, também uma outra explicação: o testador separou as suas vontades em relação a seus bens, das que a sua sensibilidade inspirou, sua piedade por exemplo; essas últimas, são, agora, comunidades oralmente aos próximos, à família.
Não se deve esquecer as grandes mudanças que aparecem na família no fim do século XVIII: as relações são agora baseadas no sentimento e na afeição, segundo os estudos do grande historiador que foi o Philippe Ariés.
Agora, o agonizante testemunha a seus próximos uma confiança que não tinha até o final do século XVII.
Na hora da morte, a atitude dos assistentes muda. Se o moribundo fica como o “papel principal”, os assistentes não são mais os “figurantes” de antigamente, passivos, refugiados na oração. A partir do século XIV, o luto é manifestado com ostentação. É uma volta às demonstrações excessivas e espontâneas como o início da Idade Média. O século XIX é época dos lutos histéricos.
Essa exageração do luto significa que os sobreviventes aceitam com mais dificuldades a morte do outro: a morte que dá medo, não é a do outro.
Esse sentimento está na origem do culto moderno dos túmulos e dos cemitérios. É muito desenvolvido na França e na Itália. Os túmulos viram o sinal aparente da presença do morto depois da sua morte; á uma resposta da afeição do sobrevivente e a repugnância nova a aceitar o desaparecimento do ser querido. Deseja-se agora, visitar os seus mortos. Para isso. Compra-se um pequeno terreno assegurando a perpetuidade, e vai se visitar o túmulo do mesmo jeito que vai-se visitar um parente vivo. Mesmo os anticlericais e os agnósticos vão visitar os túmulos de seus familiares. Os que não vão à igreja para a cerimônia fúnebre, vão sempre ao cemitério. Pouco a pouco se tomou o habito de florescer os túmulos. Assim, o cemitério virou de novo, na cidade um lugar importante. A presença de um cemitério aparece como necessária à cidade.
O culto dos mortos é também uma das expressões do patriotismo: o final das guerras é festejado na França como a festa dos soldados mortos. Cada aldeia, mesmo pequenina, possui seu monumento aos mortos das diferentes guerras.
Mas, durante o século XIX, esta semelhança das mentalidades se altera e diferenças importantes aparecem. América do Norte, a Inglaterra e uma parte da Europa do Noroeste se separa na França, da Itália e da Alemanha: as primeiras ficam no quadro tradicional; as segundas constroem para seus mortos monumentos cada vez mais complicados e figurativo.





Usuários hoje : 375
Usuários ontem : 336
Este mês : 2142
Este ano : 20624
Total de usuários : 225961
Visualizações hoje : 3200
Total de visualizações : 1251084
Quem esta online : 3