PAJÉ, CARAÍBA E XAMÃ

Dr. HC. João Bosco Botelho

É interessante a abordagem de Metraux ao diferenciar as competências dos pajés curar a doença ou fazer a previsão do tempo ou da colheita, gerando diversas identificações: “Uns tantos dentre eles, todavia, adquiriram certa reputação, que os colocava acima da confraria e lhes dava uma situação superior, recebendo nome de pajé-ouassou ou caraíba, palavra que os antigos autores traduzem por santidade ou homem sagrado”.

            Achamos importante levantar algumas indagações lembrando que existe, entre os médicos, existe nítida estratificação pela  competência demonstrada pela resolução de doenças pouco comuns, que podem afetar a segurança pessoal ou coletiva. Todos são médicos, porém para caracterizar essa separação, os doentes usam palavras complementares: competente, preparado, estudioso e muitas outras.

            Sob esse enfoque, o “Dicionário Histórico”, de Antônio Geraldo da Cunha, ajuda a reforçar o pressuposto ao descrever caraíba: “A cronologia das acepções foi estabelecida com base na documentação histórica adiante descrita. Com efeito, Anchieta informa que o termo indígena caraíba traduz-se por ”coisa santa e sobrenatural”, esclarecendo ainda que os índios adotaram para designar os portugueses. Cardim asseverava, por seu turno, que o termo era aplicado aos feiticeiros indígenas, dando ao vocabulário, todavia,  uma conotação pejorativa, pois entre os indígenas, caraíba designava o guia espiritual, espécie de pajé que presidia os seus cultos religiosos, Frei  Vicente do Salvador apresenta uma bem fundamentada explicação da origem dos significados assumidos pelo vocabulário caraíba, isto é, homem branco, cristão”.

            Em algumas situações, de certo modo como em algumas relações entre médicos e doentes, nos relatos dos cronistas, não é fácil separar o fantástico do real.

            Lery participa da mesma idéia de que o pajé era diferente do caraíba: ”Se acontece cair doente algum deles logo mostra a um amigo uma parte do corpo em que sente mal e esta é imediatamente chupada pelo companheiro ou por algum pajé, embusteiro de gênero diverso dos caraíbas a que me referi no capítulo em que tratei da religião e que corresponde aos nossos barbeiros e médicos. E tais pajés lhe fazem crer não somente que os curam mais ainda que lhes prolongam a vida”.

No capítulo citado, Lery descreve assim os caraíbas: “Os selvagens admitem certos  falsos profetas chamados caraíbas que andam de aldeia em aldeia como os tiradores de ladainhas e fazem crer não somente que se comunicam com os espírito e assim dão força a quem lhes apraz, para vencer e suplantar os inimigos na guerra, mas ainda persuadem terem a virtude de fazer com que cresçam e engrossem as raízes e frutos da terra do Brasil”.

            Por outro lado, nas notas do capítulo VII, no livro “Religião dos Tupinambás”, Estevão Pinto discorda dessa separação feita por Lery: “Lery quis fazer crer que o pajé não passava de uma criatura de gênero diverso do caraíba. Foi um erro desse calvinista. Todo caraíba era pajé, embora nem todo pajé era caraíba”.

            Marcgrave, como Estevão Pinto, percebeu o mesmo sentido para as palavras pajé e caraíba: “E tem feiticeiro, os quais dificilmente usam, doutra maneira que médicos, e a estes são sujeitos pelo grande desejo de ver a saúde ser recuperada… Os demais feiticeiros chamam pajé, caraíba, porém é para eles o poder deles de concluir os milagres, razão pela qual os lusitanos, porque muitas coisas faziam, que excediam a inteligência deles, chamavam de caraíbas e assim também hoje na verdade e chamam todos os Europeus”.

            Desse modo, essas contradições também podem confirmam algumas dificuldades para apreender os significantes simbólicos, Bo século 16, das muitas línguas dos índios.

Publicado em ARTIGOS | Comentários desativados em PAJÉ, CARAÍBA E XAMÃ

TRÁGICA COMPREENSÃO COLONIAL DO PAJÉ

Dr. HC. João Bosco Botelho

            Desde os primeiros tempos do processo colonial, o pajé despertou especial vigilância do colonizador, sempre inserida numa trágica e deliberada compreensão.

            Existem várias palavras que estruturam significados semelhantes desse personagem especial: pagi, pay, payni, paié, paé, piaecé, piaché, pantché podem ser entendidas messe contexto complexo. Parecem estar etimologicamente atadas à expressão pa-yé, aquele que diz o fim ou profeta. Sradeli reconheceu o pajé como sinônimo de paié: ‘‘É o médico, o conselheiro da tribo, o padre, o feiticeiro, o depositário autorizado da ciência tradicional. Pajé não é qualquer. Só os fortes do coração, os que sabem superar as provas de iniciação, que têm o fôlego necessário para ser pajé”.

            A trágica e agressiva compreensão social do pajé pode ser compreendida a partir da descrição feita por Gabriel Soares de Souza, que esteve no Brasil, no final do século 16: ” Entre esse gentil tupinambá, há grandes feiticeiros, que tem este nome entre eles, por lhe, meterem em cabeça mil mentiras… A estes feiticeiros chamam os tupinambás pajés”.

            Não existem registros precisos, nas fontes primárias do século 16, de como os pajés eram formados. É possível  que a ascensão do iniciante se desse de vários modos. Entretanto, pelos relatos dos cronistas, os pajés precisavam mostrar competência no desempenho das múltiplas funções: êxito no tratamento das doenças, previsões do tempo e das colheitas, antever acontecimentos importantes relacionados com as guerras.

            O pajé começava a acumular respeito no seio da comunidade a partir do momento em que se concretizava uma previsão esperada, como revelou Yvez d’Evreux: ”A revelação do feiticeiro dependia de algum acidente ou caso fortuito: como, por exemplo, se anunciando as chuvas, estas caiam imediatamente depois. Se, ainda, tendo soprado algum doente, por ventura, recuperava a saúde, isto constituía um meio de ser logo respeitado e tido como feiticeiro de muita experiência”.

Algumas vezes a iniciação se efetivava através de ritual específico, como no presenciado por Hans Staden, durante o qual os tupinambás elevavam algumas mulheres na dignidade dos pajés: ”Primeiramente vão os selvagens a uma choça, tomam uma após outra todas as mulheres da habitação e incensam-nas. Depois deve cada uma gritar, saltar e correr em roda até ficar tão exausta que cai ao solo como morta. Então diz o feiticeiro: Vede. Agora está morta. Logo a porei viva de novo. Quando voltar a si está apta a predizer coisas futuras…”

            O colonizador percebeu precocemente a relevância do pajé nas sociedades e estruturaram rapidamente a certeza da absoluta necessidade de destruí-lo. Este fato é da maior relevância porque amparou parte importante do processo de substituição dos valores socioculturais dos índios pelos do colonizador.

            Existem registros relevantes demostrando ações coordenadas atuando para enfraquecer o pajé. Um dos mais significativos é do capuchinho Claude d’Abbeville, no livro “História dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas”, publicado em Paris, em 1914: “Perdeu muita importância o ofício do pajé depois que chegamos ao país, tanto mais quanto em nossa companhia havia um jovem que sabia fazer  peloticas com as mãos e muitas prestidigitações… Logo que os maranhenses viram as peloticas daquele rapaz, puseram-se a admirá-lo e chamá-lo de pajé-açu. Mostrou-lhes então o senhor de Rasilly que tudo se devia a certa habilidade, comparando-o com os pajés, demonstrou que estes não passaram de pelotiqueiros e embusteiros. resultou disso muitos abandonarem as suas crenças e finalmente até crianças zombavam dos pajés”.

            Outro comentário de grande é do jesuíta José de Anchieta, ainda mais agressivo: ”Já não ousas agora servir de teus artifícios, perversos feiticeiros, entre povos que seguem a doutrina de cristo: já não podes com mãos mentirosas esfregar membros doentes, nen, com lábios imundos, chupar as partes do corpo que os frios terríveis enregelam, nem as vísceras que ardem de febre nem as lentas podagras nem os braços inchados… Se te prender algum dia a mão dos guardas, gemerás em vingadoura fogueira ou pagará em sujo cárcere o merecido castigo”.

            Parece claro que na comunicação cristã empregada na conquista e ocupação dos novos territórios, a substituição do poder do pajé estava na primeira linha do ataque.

Este fato é por si só, é suficiente para comprovar a importância social do pajé nas sociedades indígenas, motivando o conquistador para destruí-lo, como essencial para assentar a nova ordem cristã.

Publicado em ARTIGOS | Comentários desativados em TRÁGICA COMPREENSÃO COLONIAL DO PAJÉ