CARNAVAL: FESTA DE RICOS E POBRES

Dr. HC.  João Bosco Botelho

            É possível que a festa correspondente ao atual carnaval tenha começado entre as muitas que comemoravam os frutos da mãe-terra e os favores recebidos das forças da Natureza. As mascaras dos demônios tutelares e dos animais das florestas eram utilizadas como forma de aproximação com os deuses protetores.

            A associação das festividades romanas das saturnais com o deus Baco foi concretizada, no medievo, possivelmente relacionada à leitura de Teodósio Macróbio, autor do século 4, e estudado como fonte de informação nos dez séculos seguintes.

            Com a consolidação do cristianismo, no Ocidente, o poder eclesiástico intensificou as medidas repressivas para anular as influências grego-romanas remanescentes nas populações. Uma das alternativas adotadas foi associar as festas da saturnália aos loucos.

            Mesmo com toda a repressão da Igreja, as festas populares medievais que mantinham alguma relação com simbolismos da loucura continuaram sendo realizadas. Parece que estas comemorações foram intensificadas, a partir de 1466, com a medida do Duque da Borgonha em conceder certa quantia em dinheiro para que se realizassem com pompas.

            Nesses dias de relaxamento das tensões sociais, as pessoas se sentiam autorizadas para representar a desordem e a contestação. Pode-se reconstruir, nos registros disponíveis das festas medievais, que os ornamentos e máscaras utilizadas desafiavam os interditos e exaltavam esta ou aquela brincadeira proibida. É certo que as mascaras expressavam simbologia mais ampla. Ao que parece e, como ainda hoje, detém certos significados de protestos sociais.

            Os documentos das festas carnavalescas no Brasil, no século 17, mostram que apesar das proibições, eram realizadas nos quatro dias anteriores à Quarta Feira de Cinzas, com o nome ENTRUDO.

            O processo de mudança do carnaval no Brasil intensificou-se, na primeira metade do século 19, quando ficou caracterizado como festa dirigida e orientada pelas elites. Era mais divertimento dos brancos e ricos. Se algum grupo de negros tentasse fazer o próprio carnaval, era violentamente reprimido pelas forças de segurança, a partir do pressuposto da violência que poderiam acarretar.

            Entre as transformações urbanas ocorridas no Brasil, a partir dos anos 1950, o carnaval também mudou: tornou-se festa popular dos pobres. As escolas de samba foram fortalecidas e as camadas mais pobres passaram a participar ativamente na organização dos desfiles: milhares de desempregados se transfiguravam, durante quatro dias, em atores e expectadores dos mecanismos de afrouxamento das tensões socais.

            No Amazonas, o curso não foi muito diferente. O fortalecimento das festas de rua, antes, mais entre os ricos, está relacionado à formação do operariado do distrito industrial. O carnaval tornou-se importante para milhares de trabalhadores moradores nas periferias urbanas de Manaus, submetidos às fortes tensões da sobrevivência.

            Os atuais estudos facilitam a compreensão de que as festas romanas e o carnaval não parecem ter sido, em nenhuma época, a celebração do louco ou da loucura. Ao contrario – como festa ponta-cabeça – participa da superação pessoal e coletiva do controle das tensões sociais de pobres e ricos.

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MÁ PRÁTICA MÉDICA

Dr. HC. João Bosco Botelho

 

Uma das primeiras estruturas laicas a reconhecer e legislar a prática médica atribuindo claramente deveres e direitos aos médicos e julgadores, além de estabelecer o valor do pagamento pelos serviços e penalidades pela má prática médica, foi o rei Hammurabi (1728-1686 a.C), da Babilônia, autor do código de Hammurabi.

Foram os membros da expedição arqueológica francesa de Morgan, nas escavações da acrópole da capital elamita de Susa, quem encontraram o diorito negro contendo o código, hoje, no Museu de Louvre, em Paris.

O Código de Hammurabi permite entender certos critérios, sempre em torno dos bons resultados, das leis que regiam a ação médica, na Babilônia, governada pelo rei Hammurabi. Se pensarmos que as leis também exercem função de evitar conflitos, os artigos penalizando ou premiando o médico, por estarem na mesma coluna daquela regulamentando as profissões dos barbeiros, pedreiros e barqueiros, é possível pressupor um elo comum: se tratavam de categorias envolvidas em conflitos inquietantes à administração. Dessa forma, somente a ação do julgador, ligado ao poder dominador, estaria suficientemente organizado para julgar os conflitos geradores de conflitos sociais.

Torna-se necessário para a compreensão da importância das práticas médicas e julgadoras naquela região e conhecer a divisão dos diferentes extratos sociais. O primeiro e mais importante grupo que compunha a sociedade babilônica, rigidamente hierarquizada, os awilum, homens e mulheres livres, funcionários da administração pública e pagos pelo rei, julgadores, escribas, sacerdotes, comerciantes, camponeses e grande parte dos soldados. O segundo grupo compreendia os muskenum. Apesar de os registros históricos serem escassos e não se sabe exatamente o papel social desempenhado por eles, é possível pressupor que exercessem papeis intermediários entre os awilum e os escravos.

A regulamentação da ação médica contida no código de Hamurabi cita a inequívoca relação da ética do médico ligada aos bons resultados, onde o julgador é o árbitro absoluto.

  • 215: Se um médico fez em um awilum uma incisão difícil com uma faca de bronza e curou o awilum ou se abriu a nakkaptum (supercílio) de um awilum com uma faca de bronze e curou o olho do awilum: ele tomará dez sicios de prata.
  • 218: Se um médico fez em um awilum uma incisão difícil com um faca de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum com uma faca de bronze e o destruiu o olho do awilum: eles cortarão a sua mão.
  • 219: Se um médico fez uma incisão difícil com uma faca de bronze no escravo de um muskenum e causou a sua morte: ele deverá retribuir um escravo como o escravo morto.
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