CONSTRUÇÕES DA ÉTICA NA PRÁTICA MÉDICA

Teorizando em torno da associação entre o ético-moral gerando o bem, o bom, o certo, antepondo-se ao vicio ligado ao mal, ao mau, ao pior,  é interessante assinalar um ensaio teórico para apreender a ética médica integrada à virtude. Na tese de doutorado, defendida em Paris, em 1955, intitulada “A ética médica”, o professor Derrien, firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do paciente, isto é, aos bons resultados das práticas médicas.

No entendimento desse conceituado professor, é possível entender a virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, ligada ao “bem”, ao “bom”, no qual o médico controla a dor e adia os limites da vida, sempre festejado pelo doente. Dessa forma, seria inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provocar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos bons resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na historicidade e na maior parte das atuais abordagens teóricas referenciais.

Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado atando a ética médica à boa prática, entendida pelo senso comum como aquela que oferece bons resultados às demandas da clientela por meio de ações que deveriam, obrigatoriamente, trazem melhorias à vida pessoal e coletiva.

A historicidade dos códigos de éticas da Medicina foi construída entendendo os médicos e outros curadores como especialistas sociais que devem saber controlar a dor e aumentar os limites da vida.

Heródoto, no seu extraordinário livro “História” descreveu um dia de festa, numa praça, na Mesopotâmia, quando doentes e curadores se encontravam, para buscar as curas das doenças nos exemplos de doentes que tiveram algo semelhante e se curaram fazendo ou bebendo isso ou aquilo. Ao cruzarem com alguém que apresentava sinais e sintomas de alguma doença que sabiam como curar, os curadores paravam para orientar, oferecer o tratamento.

A Medicina é muitíssimo mais recente em relações às milenares práticas de curas anteriores, sem ensinamento formal. Nas culturas que se organizaram e prosperaram, no segundo milênio a.C., os processos dos aprendizados, amparados pelos poderes dominantes, na formação do médico, como o principal agente da Medicina, estavam dentro dos templos mais importantes.

Essa Medicina é a única que construiu, desconstruiu e continua reconstruindo propostas teóricas para desvendar a origem das doenças nas dimensões cada vez menores da matéria. Historicamente, tem vencido as barreiras para diminuir a abstração e aumentar a materialidade das doenças.

 

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CÂNCER: A PARTITURA DESARMÔNICA DA VIDA

             O mundo continua, com justa razão, alerta contra o câncer como a mais importante doença da atualidade. A razão é contundente: a medicina não oferece, na maior parte dos casos, respostas convincentes.

            É importante assinalar que existem milhares de tipos de cânceres e não é privilégio dos humanos: pode ocorrer em qualquer animal e vegetal multicelular.

            É provável que os cânceres sejam provocados por múltiplos fatores internos e externos à célula.  Os determinantes internos seriam representados pelo código genético específicos para cada tipo de câncer, na estrutura do genoma (como o teclado de um piano) e os externos pelos incontáveis fatores físicos, químicos e biológicos que poderiam estimular a chave genética (atuando no teclado produzindo sons desafinados) resultando nos cânceres.

            A construção metafórica seria assim: cada ser humano teria o seu próprio teclado de informações genéticas produzindo partituras harmoniosas em equilíbrio dinâmico com a vida social. Em determinado momento, o  teclado ao ser tocado de forma incorreta, por influência de um ou mais fatores extrínsecos, forneceria um som estranho à partitura, na organização da vida, dando como resultado o câncer.

            O aparecimento do câncer deve acontecer muito mais vezes do que supomos. É pouco provável que milhões de combinações moleculares efetuadas de uma só vez, a cada minuto, no genoma não comportem erros.  Certamente, estamos submetidos continuamente, durante a vida,  ao processo  canceroso.  Entre muitas dúvidas é saber por que as defesas imunológicas do corpo conseguem bloquear a maior parte dos cânceres e perde a capacidade para outros.

            Respeitados cancerologistas, como o francês Dominique Stehelin, um dos responsáveis pela descoberta do oncogene (o fator intrínseco contido no teclado do piano) afirma que o câncer é a doença mais complicada do homem.

            O exemplo mais marcante e socialmente importante é a relação entre o hábito de fumar cigarros e o câncer do pulmão.  As pesquisas realizadas pelo Instituto de Câncer de Amsterdã mostraram o mesmo defeito no gene K‑Ras em trinta e nove pacientes fumantes. Contudo, uma pessoa pode fumar a vida inteira e não morrer de câncer. Como se o seu teclado, por mais que seja estimulado, não forneça o som desarmônico.

            Como ainda não dispomos de tratamento eficaz para a maior parte dos cânceres são válidas as campanhas de alertas contra os fatores externos – como a do tabagismo -, que tocam erradamente o teclado, relacionados com o aparecimento dos cânceres de pulmão, laringe, boca e bexiga.

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