TEORIAS DOS CONHECIMENTOS

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

            Sem esquecer Nietzsche: “Não há fatos, somente interpretações”, é possível pensar, sem receio dos exageros da paixão, que o rápido aumento do desvendar da microestrutura, nos níveis moleculares, nos últimos vinte anos, está aproximando a ciência dos mistérios da memória, fonte majestosa de todo o conhecimento. Sob essa perspectiva, torna-se razoável rever as teorias de conhecimento e aproximá-las do genoma, a origem da vida e da morte.

A abordagem para discutir outras teorias do conhecimento obriga ligações diversas das concebidas, por exemplo, a partir dos saberes de Locke, na idéia da “tabula rasa”, e dos de Marx, maximizando o valor do coletivo sobre o pessoal.

Torna-se cada vez mais difícil deixar de lado a importância do pessoal. Em muitas conceituadas universidades, onde se produz ciência voltada ao desvendar da matéria, na micro-dimensão, fala-se cada vez mais do genoma.

Os estudos de G. K. Beauchamp, K. Yamazaki e E. A. Boyse (Harvard University) estão ajudando a transpor os genes da histocompatibilidade com o social. Sob rígido controle metodológico, os estudos experimentais têm demonstrado que camundongos machos e fêmeas com histocompatibilidade diferentes se mostraram mais dispostos ao acasalamento. Esse fato explicaria uma memória-sócio-genética para evitar a consanguinidade, pelo menos entre os animais estudados, fortalecendo os saberes historicamente acumulados.

Não parecer ser adequado minimizar o valor dos novos saberes, notadamente, o da genética, impondo fantásticas mudanças conceituais no modo de compreender as formas e as funções do corpo humano, nas menores dimensões da matéria.

Por outro lado, apesar das muitas interpretações de como o ser humano produz os conhecimentos, nada mudou na maneira humana de fugir da dor, ao longo de milhares de anos, gerando padrões comportamentais que impulsionam homens e mulheres na busca do prazer. Na realidade, essa questão – o medo da dor – não é nova. Os epicuristas compreendiam a filosofia, a essência do conhecimento, como a perene ambição à felicidade. A “felicidade epicurista” pode ser entendida como a possibilidade de existir condições, no convívio humano, de o prazer superar a dor.

Mesmo aceitando ser impossível articular as teorias do conhecimento e os saberes em si mesmos, fora do contexto onde são produzidos, não há dúvida quanto a fantástica repetição de atitudes humanas de fuga à dor ou a simples ameaça de situação dolorosa, nos quatro cantos do planeta.

Parece claro que esse conjunto comportamental, evidente nas relações sociais, teve forte influência na concepção do jusnaturalismo aristotélico, ajuizando valor ao equânime, mais fortemente presente, até o século XVII, quando sofreu transformações sob a influência do historicismo de Hobbes e Rousseau.

De certo modo, a intolerância do contrato social engessado na obediência irrestrita às leis, esquecendo a importância do prazer individual, flexibilizado por Locke ao admitiur ser justa a ruptura do consentimento coletivo, quando a dor pessoal de muitos, determinada pelo abuso do poder dominador chegasse a níveis insuportáveis. Assim, sendo possível à força da ação coletiva fixar valores quanto ao justo e ao injusto, a partir da conjuntura social, Hegel admitiu os saberes a partir da construção de uma sociedade planificada, onde novos conhecimentos fortes em si próprios seriam capazes de conceber outros saberes melhor aceitos.

A antítese do jusnaturalismo aristotélico iria tomar força social por meio das publicações de Marx e Engels. As vontades pessoais, base da construção do coletivo, pouco representariam quando colocadas em confronto com os interesses do Estado Planificador Coletivista.

A proposta teórica das memórias sócio-genéticas admite certos instrumentos sociais, formados ao longo da ontogênese, por meio dos quais, a ordem genética interage com o social em contínuo processo de aperfeiçoamento com o objetivo de compor atitudes corporais e sociais para fugir da dor e procurar o prazer.

Os instrumentos sócio-genéticos mais antigos conduzindo todos os animais à fuga da dor, especialmente os humanos, como adaptação à vida, pertencem ao passado distante, que fixou as interligações entre áreas cerebrais pré-neocorticais e o genoma, estão essencialmente contidas nas múltiplas manifestações e metáforas da sexualidade, cooperação e territorialidade.

Os instrumentos sócio-genéticos mais recentes que compõem o formidável conjunto articulador humano na busca permanente ao prazer e aos significantes simbólicos, estabelecendo estreitas conexões entre o genoma e o social, estão atados à linguagem.

Sob a égide dos novos conhecimentos, as teorias do conhecimento serão atualizadas quando for acrescentado o sócio-genético aos pressupostos teórico-idealista (Hegel), material (Feuerback), histórico-social (Karl Marx), biológico (Darwin) e comportamental (Freud). Desta forma, as memórias sócio-genéticas são as pontes biológicas que articulam a herança genética ao social e vice-versa.

 

 

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MEDICINA GREGA COMO PAIDÉIA

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

A Medicina como especialidade social empurrando os limites da morte estava presente nas linguagens-culturas centenas de anos antes do esplendor grego.

Por outro lado, as práticas médicas, no Oriente Próximo, nas primeiras cidades, se mantiveram ancoradas na complexa relação entre a adivinhação, o mágico, as crenças e idéias religiosas e os saberes historicamente acumulados. Desse modo, naquelas organizações sociais, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico eram executados sem método, casual, exercidos de modo predominante pelos especialistas no trato com a coisa sagrada. Sem receio cometer exagero, nos estratos sociais privilegiados, próximos do poder político e econômico, os registros mesopotâmicos cuneiformes e egípcios hieroglíficos atestam as prescrições médicas entendidas como receitas de bolo repetidas independentes das características individuais das doenças e de cada doente.

Como consequência, esses fatores representaram obstáculos intransponíveis para compreender aqueles conhecimentos fora dos restritos grupos dos eleitos. Esse pressuposto fica mais claro nas civilizações que se desenvolveram nas margens dos rios Eufrates, Tigre e Nilo. Apesar do notável senso empírico, a Medicina do segundo milênio permaneceu contida nas amarras tenebrosas da adivinhação, do mágico.

Os livros sagrados da tradição judaico-cristã estão abarrotados de passagens que enaltecem o poder de Deus sobre a vida e a morte, destacando a dádiva divina e o médico como alguém especial enviado pela divindade:

Dt 32, 39: E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).

Sb 17, 20: Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.

Eclo 38, 1-2: Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

A cultura grega antiga absorveu as origens mítico-religiosas da Medicina e do médico.  As mais antigas alianças que concederam o imenso destaque social ao médico, próximo do divino, como descrito no magistral “Ilíada”, em (XI, 510): “Máxima glória dos povos arquivos, Nestor de Gerena, toma o teu carro depressa; ao teu lado coloca Macáon, e para as naves escuras dirige os velozes cavalos, pois é sabido que um médico vale por muitos guerreiros, que sabe dardos extrair e calmantes deitar nas feridas”.

A presença do médico homérico estava atada, marcadamente, ao espaço sagrado das relações sociais. Macáon, mencionado por Homero, e Podalírio, são os dois filhos de Asclépio, o deus da Medicina grega, que se destacaram na guerra de Tróia.

O deus Asclépio, filho de Apolo com a mortal Corônis conquistou fama inimaginável. Mais cirurgião do que médico criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Junto com as filhas Hígia e Panacéia, era celebrado em grandes festas populares, próximas do dia 18 de outubro, data em que, até hoje, se comemora o dia do médico no Ocidente.

Após Asclépio ter ressuscitado alguns mortos, Zeus preocupado que a ordem do mundo fosse alterada ordenou a morte de Asclépio com os raios dos Ciclopes, os gigantes de um só olho.

Desde o século 4 a.C., a prática divinatória médica continuou forte no universo cultural grego e alcançou os territórios romanos, mantendo a metamorfose heróica associada à cura: deuses se destacavam no atributo do dom de curar as doenças e as feridas de guerra.

A Medicina e os médicos atados às idéias e crenças religiosas transpuseram as fronteiras grego-romanas, cristianizados no Ocidente, alcançaram o mundo, ficaram docemente marcados no ministério de Jesus Cristo, bondoso em Si mesmo, onde as curas milagrosas se destacam em muitas passagens bíblicas, estabelecendo novo paradigma da Medicina: a caridade cristã como instrumento de cura.

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