EUTANÁSIA E ORTOTANÁSIA: A MORTE COM DIGNIDADE

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Em março de 2005, milhões de pessoas viram na TV o drama familiar da doente norte-americana em coma durante quinze anos. Após a autorização judicial, morreu treze dias após serem interrompidos os cuidados médicos.

O fato trouxe à tona novas discussões em torno do direito de morrer com menos sofrimento por meio da eutanásia e da ortotanásia.

            A eutanásia ativa objetiva a interrupção da vida por meio de autorização consentida entre o doente e o médico executante. A eutanásia passiva não provoca a morte imediata, mas interromp todos os cuidados médicos que mantêm a vida.

            A ortotanásia pode ser entendida como a chegada da morte no processo natural. Nessa circunstância, a assistência médica não contribui para prolongar artificial e desnecessariamente o processo de morte.

O drama da doente norte-americana provocou três questionamentos:

– O poder das instituições hospitalares e do médico para manter a vida artificialmente dos doentes sem qualquer possibilidade de recuperação;

– O direito de pedir a própria morte quando o doente lúcido, sem possibilidade de cura, com sofrimento incomensurável, não quer mais dor;

– Na impossibilidade de o doente decidir, nas mesmas condições acima citadas, se alguém da família poderia decidir a hora da morte

De modo geral, a discussão de ordem jurídica e ética, alcançaram diferentes espaços das relações laicas e religiosas. Sem unanimidade frente às várias correntes, a discussão acabou restrita aos abusos da tecnologia médico-hospitalar que transformou o doente terminal em mercadoria de valor, seja científico ou monetário.

É importante ressaltar os órgãos fiscalizadores públicos e privados, inclusive os da Igreja, por meio da Bula Evangelium Vitae, de 1995, do papa João Paulo II, valorizam a ortotanásia, opondo-se aos excessos terapêuticos, sustentando que as renúncias aos meios desproporcionais para prolongar a vida, não correspondem ao suicídio ou a eutanásia.

As publicações em muitas línguas reforçam o desejo coletivo de poder morrer com dignidade, próximo da família e sofrendo o menos possível.

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18 DE OUTUBRO – DIA DO MÉDICO

Prof Dr.HC João Bosco Botelho

Os registros pré-históricos evidenciam que a humanidade sempre conviveu com a certeza da doença e da morte. A epopéia edificada na busca da saúde empurrando os limites da morte sedimentou o aparecimento dos agentes da cura, da benzedeira ao médico, e a materialização da Medicina como especialidade social.

A inteligência humana elaborou no espaço sagrado as construções teóricas para justificar  a doença e a morte, em especial, de modo espetacular, a ambicionada felicidade na imaginável vida depois da morte.

Curar é uma palavra mágica porque interliga o sagrado com o profano. O ato de curar incorpora na essência o poder ou a sensação de vencer o maior de todos os obstáculos da vida: a morte.

Esse é o alicerce primordial da resistência humana: vencer a morte inevitável!

 O fato está claro na mitologia grega. A data atual de comemoração do dia do médico  — 18 de outubro — corresponde, à época em que era celebrada a festa do filho de Apolo, Asclépio, o deus da Medicina grega.

O estudo da representação social de Asclépio,  no panteão grego,  é capaz de identificar um ponto comum na relação entre os mundos sagrado e profano: a insubordinação à ordem divina.

 Asclépio conquistou uma fama inimaginável. Tinha a delicadeza do tocador de harpa e a fina habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros oráculos procuravam os serviços médicos de Asclépio. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios das Ciclopes. Zeus matou o filho de Apolo porque temia que a ordem natural das coisas fosse subvertida pelas curas e pela ressurreição dos mortos.

 O deus da Medicina grega deixou duas filhas — Hígia e Panacéia — e dois filhos — Machaon e Podalírio. As duas mulheres se tornaram famosas pelos conhecimentos empíricos ligados à higiene e às plantas medicinais. Os dois homens foram reconhecidos como médicos guerreiros praticando a cirurgia, na guerra de Tróia, e foram citados nominalmente por Homero (Ilíada, 830).

 Muitas esculturas e afrescos retratando Asclépio e a sua filha Panacéia, feitos entre os anos 400 e 100 a. C.,contêm a serpente enrolada em um bastão, como símbolo do renascimento.  O poder da divindade  mantendo a primazia da vida sobre a morte, foi revigorado pela gradativa consolidação do cristianismo como religião dominante. O calendário cristão manteve o dia 18 de outubro como o registro festivo para marcar o nascimento de Lucas, o evangelista médico.

A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sincretismos religiosos da história.

Não é sem razão nem simples coincidência que os médicos comemoram, muitos sem saberem porque, o dia 18 de outubro como marco da resistência à morte inevitável.

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