MEDICINA COMO ESPECIALIDADE SOCIAL – PARTE 8

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Cláudio Galeno nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor, no ano de 130 d.C. Foi sem dúvida o mais famoso médico do seu tempo. Os seus livros, acredita-se que outros se perderam, abordaram a anatomia, a fisiologia, a patologia, a sintomatologia e a terapêutica.

A maior parte dos seus livros foi reeditada, em Veneza, no ano 1538, e constituiu o principal livro de consulta dos médicos medievais.

O outro médico romano que ficou na História foi Sorano, nascido em Éfeso. Os escritos dele que foram recuperados são de extrema lucidez e bom senso. Esse médico notável descreveu a existência dos médicos parteiros, que deveriam ser numerosos, uma mistura de práticos e especialistas, semelhantes às parteiras da atualidade, e os que faziam abortos, proibidos pela lei romana. Quando descobertos eram punidos com o degredo.

Entre as obras de Sorano destaca-se o “Manual de Ginecologia”, que serviu de orientação para os médicos durante quase quinze séculos, praticamente sem qualquer contestação. Neste manual, ele descreveu com absoluta precisão as posições anormais dos fetos no útero grávido:

– Podálico com os pés unidos;

– Podálico com um só pé;

– Ajoelhado;

– Sentado;

– De ombros.

Essas posições anômalas do feto, no desenvolvimento do parto, ainda hoje, representam maior atenção para os obstetras, mesmo com todos os recursos atuais.

Sem dúvida alguma o Império Romano preocupou-se com a prática médica e procurou, através de normas jurídicas, em constituir um serviço público amplo na maior parte das cidades do Império. Porém, esse início foi a partir da melhora da assistência médica às militares das legiões, que foram as primeiras beneficiárias, com a construção de hospitais militares em diferentes regiões do imenso Império Romano. O mais famoso deles, o de Vindonissa, em Windish, na atual Suiça, com sessenta quartos e capacidades para 480 doentes distribuídos em enfermarias.

A preocupação coma saúde pública, entre as diferentes fases do império romano, era inquestionável. A Lei das Doze Tábuas que remonta aos primórdios da República estabeleceu normas para o sepultamento e queima dos cadáveres fora dos muros da cidade e a construção dos esgotos, como a Cloaca Máxima, em Roma, que ainda é utilizado na parte antiga da cidade.

As autoridades públicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene pública. Os grandes arquitetos romanos, como Vitrúvio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a construção das casas.

Além dos cuidados com a organização das cidades, foram construídas centenas de banhos públicos estimulando a higiene pessoal. Essas termas, algumas recuperadas pelos trabalhos arqueológicos, como o de Diocleciano, em Roma, contavam com médicos e podiam obrigar em diferentes piscinas e salas de ginásticas centenas de pessoas ao mesmo tempo.

Com a divisão do Império Romano, iniciada pelo Imperador Constantino e consolidada por Teodósio, em fins do século IV, o Império Romano do Ocidente teve a sua capital em Milão, na Itália, e o Império Romano do Oriente, em Constantinopla, atual Istambul, capital da Turquia.

O Império Romano do Ocidente sofreu profundas transformações sociais e políticas nos anos que se seguiram, notadamente, em conseqüência:

– Invasão dos visigodos;

– Cristianização;

– Gradativa mudança do sistema mercantil-escravista para o feudal,

Como não poderia deixar de ser, a prática médica foi envolvida e modificada pelas mudanças em curso. Com a cristianização do Império Romano do Ocidente, a influência exercida pela Igreja Católica na Medicina foi se fazendo de forma gradativa e irreversível.

Na realidade, a raiz dessa interferência remonta ao tempo pré-cristão, quando o pensamento judaico associava o aparecimento das doenças aos pecados cometidos e à cólera de Deus, semelhante às culturas egípcias e babilônicas. Progressivamente, a doença passou, novamente, de modo predominante representar espécie de pecado e o único tratamento possível para o sofrimento era o perdão da Trindade cristã, santos e mártires.

Essa relação do homem romano com a doença como consequência do pecado, após a cristianização, evoluiu sem alteração e se consolidou , no Ocidente, atada à ação evangélica de Jesus Cristo, que incluía a capacidade de curar milagrosamente inúmeras doenças, cujo relatos foram passados através das gerações, por meio do Novo Testamento, pelos apóstolos Marcos, Mateus, Lucas e João.

Entre os depoimentos dos apóstolos de curas milagrosas que Jesus Cristo realizou, é possível citar a cura do paralítico (Mt 7,32-35), cura do louco (Mt 20,30-34), cura do surdo-mudo (Mc 7,32-35), cura do epilético (Mc 9,16-26) , chegando a ressuscitar o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-25) e Lázaro, já em processo de decomposição do corpo (Jo 11,17-44).

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RELAÇÕES MÉDICO-MÍTICAS: A CONSTRUÇÃO DA VIDA APÓS A MORTE

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

O genial Rabelais, religioso e médico, escreveu Gargantua no século 16. Inúmeras associações foram construídas, nos séculos seguintes, em torno dos personagens, em especial, Gargantua e seu filho Pantagruel.

Não será muito difícil estabelecer mais uma relação: a semelhança entre o processo de desenvolvimento da medicina com a crônica pantagruelina. Em ambas, o fantástico e o imaginário, são mesclados nas ações das pessoas e os sonhos da vida eterna.

As relações médico-míticas transcenderam no tempo e chegaram  a nós vivificadas tão intensamente que fica quase impossível dissociá-la do cotidiano das relações sociais.

A própria data de comemoração do dia do médico na atualidade, 18 de outubro, corresponde na mitologia grega o dia no qual o deus médico Asclépio, filho de Apolo, era celebrado na Grécia Antiga, há 2.500 anos. A morte de Asclépio, determinada por Zeus, divindade suprema da maioria dos povos indo-europeus, resultante da terceira geração divina da mitologia grega, por temer que a ordem natural do mundo fosse alternada pelos poderes de Asclépio, capaz de ressuscitar os mortos, fulminou-o com o raio dos Ciclopes, seres monstruosos com um só olho no meio da testa, representados por: Bronte, o trovão; Esteropes, o relâmpago; ,Arges o raio.

Apolo não tendo poderes suficientes para vingar-se de Zeus, matou os Ciclopes, demônios das tempestades, assassinos de Asclépio.

O homem atual pertence possui  características exclusivas entre todas as quatro mil  duzentas  e trinta e sete  espécies de mamíferos. É bípede, sem pelos e transforma a natureza ao sabor da própria vontade. Entretanto, conserva muitas particularidades fundamentais de todos os animais, mesmo quando está em uma estação  orbital, tem que comer e urinar.

O homem se envaidece de possuir o maior cérebro entre todas as espécies animais vivas, pesando pouco mais de mil e quatrocentos gramas no adulto jovem. Essa massa cinzenta é uma estrutura especializada em receber e estocar informações, emitindo instruções baseadas nelas. Sem dúvida, as buscas da origem primeira e do destino final devem entar essas funções essenciais.

No intervalo de tempo entre esses dois pontos da consciência do tempo, o início  e o fim da vida, o homem convive com a certeza da doença e da morte. Nas poucas dezens de anos que o homem consegue viver, gasta grande parte dormindo e na procura incessante do conforto, da saúde e da justificativa  mais coerentes da imaginável vida após a morte.

Depois  de estabelecer, ao longo de milhares de anos, as relações saúde-doença e vida-morte, o homem acumulou historicamente conhecimentos ojetivando o aumeto do tempo de vida: o renascimento após a morte.

Essa posiçaõ na busca da imortalidade impossível é tão antiga quanto os registros paleoantropológicos que chegaram dos nossos ancestrais e se tornou responsável pelo aparecimento  de uma especialização social que originou a procura sistematizada do conforto físico e da saúde, nessa vida e após a morte.

O processo que culminou com o aparecimento  do homem moderno foi lento: Australopitecos,  2.500.000 anos; Homo habilis, 1.000.000 de anos; Homo erectus, 500.00 anos, o Homo sapiens neanderthalensis, 100.000 anos e Homo sapiens sapiens, 50.000 anos.

O cuidado com a saúde pode ter começado em qualquer ponto dessa escala geneológica e certamente se iniciou na procura do conforto físico. A retirada de espinhos e parasitas da pele em forma individual ou coletivamente com a ajudade outros membros da comunidade pode ter sido a primeira forma de assistência médica prestada nos nossos ancestrais. Essa assimilação da conduta social foi fundamental para o desenvolvimetno e sobrevivência da espécie.

Já é do conhecimetno dos zoólogos que os nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, são capazes de se tratarem mutuamente lambendo pequenas feridas da pele, retirando parasitas e espinhos que penetram acidentalmente no corpo. Náo se trata de simples catação. É indício de verdadeira assistência médica, porque envolve atividade consciente e dirigida a um determinado ponto onde está ocorrendo desconforto físico.

A partir do aparecimento da consciência do tempo, reveladora da impotência frente a ocorrência das doenças que levavam à morte, multiplicaram-se as explicações míticas para explicar a morte.

O ponto de convergência desse caminho que moldou o pensamento criativo do homem foi o fantástico número de deuses e deusas com poderes de curar e ressuscitar os mortos registrados pela História.

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