MEDICINA COMO ESPECIALIDADE SOCIAL – PARTE 7

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

A aparência física do médico também foi prevista pelos ensinamentos hipocráticos. No capítulo “Do Médico”, no “Tratado Ético”, lê-se: “A norma do médico deverá ter boa cor e bom aspecto… Pois será de grande utilidade para si colocar-se elegantemente e perfumado agradavelmente… e tudo isto agradará ao doente”. Continua sendo essa imagem exigida do médico ideal, independente de sua diferenciação no domínio do conhecimento.

         É indiscutível a influência da Medicina grega no vasto domínio territorial romano. Após a terceira guerra púnica, os romanos consolidaram o grande império no Mediterrâneo. Nos anos seguintes, alguns destacados intelectuais resistiram à Medicina grega hipocrática. O historiador romano Marco Pórcio Catão, no século 2 d.C., expôs a sua opinião: “Os gregos decidiram matar todos os bárbaros com a Medicina e a ainda cobram por isto”. E em carta dirigida ao seu filho foi enfático: “Proíbo-te de recorrer aos médicos.”

O espírito legislador romano não deixou de abordar as atividades médicas. Com a regulamentação romana, os médicos constituíram categoria profissional definida, tanto entre os homens livres quanto entre os escravos. As obrigações do médico eram estipuladas pelo Estado que pagava pelos serviços profissionais.

Sob o império de Adriano, no século 2 d.C., os médicos eram dispensados do serviço militar e quase todas as cidades romanas dispunham de assistência médica pública.

Em torno do século 4 d.C., a profissão médica foi severamente fiscalizada e foi instituído rigoroso exame para todos que quisessem exercer a profissão. O império romano subvencionava os estudantes de Medicina, mas em troca eram obrigados a prestar assistência aos pobres.

Existem registros de que foram proibidos de praticar o aborto e negar o atendimento a qualquer doente, sob risco de castigo corporal e multa. Nessa mesma época, sob o império de Diocleciano, no ano de 300 d.C., um édito do Imperador impunha como condição para entrar na escola de Medicina, a apresentação de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade de origem.

A diferenciação entre médicos e cirurgiões foi reforçada. Nesse sentido, Cícero falava dos médicos verdadeiros, o que corresponderia aos clínicos gerais de hoje. Em seus versos, o erudito romano registrou as especialidades médicas: “Cascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os cílios que

irritam os olhos, Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos e Hermes goza de fama de ser o Podalírio das hérnias.”

Os historiadores da Medicina acreditam que o grande número de especialistas na Medicina romana tenha sido conseqüência não somente dos progressos técnicos, mas principalmente porque as especialidades eram mais lucrativas para quem as exercia.

Alguns médicos especialistas romanos como Stertínio, conseguiram formar grande fortuna como fruto do trabalho médico. Provavelmente, em conseqüência dos abusos nos lucros obtidos por alguns médicos, no ano de 368 d.C., o imperador Valentiano proibiu que os médicos empregados do Império recebessem dinheiro dos doentes pobres.

Todos estes problemas éticos e pecuniários não impediram o aparecimento de grandes expoentes na Medicina romana. Entre eles, um dos mais destacados foi Galeno, considerado o sucessor de Hipócrates e que influenciaria decididamente a Medicina medieval. Esse famoso médico romano, professo do monoteísmo, elaborou a teoria dos Quatro Temperamentos, como seguimento à teoria dos Quatro Humores.

De certa forma, Cláudio Galeno reforçou a teoria hipocrática admitindo que a predominância constante de determinado humor provocaria o aparecimento de um tipo específico de temperamento que marcaria, definitivamente, as relações entre a saúde e a doença das pessoas na vida social:

Fleuma
Fleumático
Bile amarela Colérico
Sangue Sangüíneo
Bile preta

Melancólico

 

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MORTE REJEITADA: BUSCA DA VIDA

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

            A necessidade incontrolável de dar sentido à vida, diferente da dos outros animais, e minimizar a dor determinada pela morte de entes-queridos, está expressa com transparência em todas as culturas, materializando como opostos, a saúde e a doença. A primeira, sinônimo de vida, ficou ligada ao bem, ao bom, ao belo; a segunda, compreendida como mal, ruim, feio, antecipando o falecer temido.

            A pulsão inata para desvendar a forma visível, em especial a do corpo, sadio ou doente, dotado com propriedades sensíveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor, pode ser considerada como a arqueologia que materializa a vontade atávica para viver! É verdadeira em si mesma, porque dá forma ao viver, num movimento metafórico, composto pela presença da carnalidade da pele quente, pela realidade dos sentidos, da respiração e do ritmo cardíaco.

            Atinge e entrelaça o ser no mundo por meio de reconstruções. O novo surge dessas reconstruções, em muitas circunstâncias, oferecendo  consistência ao pensamento que transforma e consolida a consciência-de-si do corpo sadio ou do corpo doente.

            O conjunto sociocultural, presente na memória, adquirida e transmitida, geração após geração, desempenhou papel de extrema importância nas mentalidades. Os atuais saberes ocidentais, em parte marcados pela influência cultural greco-romana, uniram e solidificaram esse patrimônio, perdido nos confins enigmáticos do tempo indivisível.         A pólis, organizada à semelhança do corpo saudável, passou a ser compreendida como organismo vivo. Ao contrário, o caos social era sinônimo de doença. O político competente era aquele que curava a sociedade doente. No mesmo patamar, o juízo de valor das condutas fora estabelecido utilizando as emoções humanas como parâmetro.

            No mundo das ideias e crenças religiosas, a passagem de um para o outro lado, da saúde à doença, envolvendo mudanças nas coisas e nos acontecimentos, implicando riscos à saúde e à vida, funcionando como pólos opostos, tem sido comunicada às sociedades pelo sacerdote, o representante da divindade. De modo geral, esses especialistas do sagrado, apesar de não negarem o conhecimento empírico da natureza circundante, confessam serem incapazes de compreender a vontade divina, limitando-se a obedecer e implorar a misericórdia, por meio dos ritos específicos para abrandar a ira transcendente.

            O poder de curar pessoas e sociedades e adivinhar com antecedência os infortúnios, evitando as doenças, para melhor organizar determinado grupo social, oferecendo a saúde e adiando a morte, tem sido historicamente utilizado pelo poder político, como mecanismo ora de coesão, ora de dissolução sociais.

            O sofrer e a morte da pessoa amada determinam transtornos complicados, em diferentes níveis do corpo, trazendo incontáveis sinais físicos de desconforto, variando em cada pessoa. Os sistemas nervosos, central e periférico, liberam substâncias que alteram o ritmo biológico e estabelecem a baixa global da defesa imunológica.

            A ansiedade, entendida como sensação de perigo iminente, interferindo na sociabilidade das pessoas, provoca complexas mudanças nos ciclos do sono, da fome, da sede, da libido e da afeição, ainda pouco compreendidas.

            O lento avançar da medicina molecular identificou a substância conhecida como GABA (ácido gama-aminobutírico), como o principal neurotransmissor, inibitório do sistema nervoso central. A maior parte das milhares de trocas químicas específicas processadas, em cada instante, nos tecidos, estão voltadas para manter o ser vivo e embotar, temporária ou perenemente, as sensações desagradáveis e perturbadoras.

            Parece lógico pressupor que as atitudes específicas, usadas no enfrentar da adversidade temida, minorando o sofrimento do homem e da mulher, tenham sido valorizadas e, continuamente, aperfeiçoadas pela ordem social, por trazerem resposta de bem-estar, para manter a vida, sempre!

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