LINGUAGEM E LUTA PELA VIDA

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

É possível teorizar que os ancestrais do homem afastaram as fronteiras da morte fazendo-se curadores e modificando as relações do binômio saúde-doença em outro membro da comunidade por meio da linguagem e de ações específicas: parar a hemorragia após ferimento de caça e tratando as fraturas.

O Homo sapiens surgiu em torno de 40.000 anos e é razoável deduzir que possuía algum tipo de linguagem oral.

As pesquisas sobre a formação da linguagem nos nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, e nos mais distantes, os gorilas, não foram muito, esclarecedoras. É possível que os primeiros cheguem a entender algumas palavras ou mesmo frases, mas a estruturação do pensamento pela linguagem oral ficou aquém da expectativa.

Existem diferenças no tamanho e no formato dos cérebros dos ancestrais distantes e o do homem, perfeitamente perceptíveis pela impressão deixada pelo conteúdo cerebral da porção interna dos ossos dos crânios fossilizados.

O tamanho do cérebro dos hominídeos que viveram há 2.500.000 anos era, sem dúvida, menor que o do homem moderno. O Homo habilis que viveu há 1.000.000 de anos, tinha o cérebro duas vezes maior que os atuais chimpanzés, mas com o mesmo tamanho do corpo. Somente com a evolução que culminou com o Homo erectus, há cerca de 500.000 anos, ocorreu o impulso definitivo do tamanho do cérebro.

O atual tamanho e função do sistema nervoso central já estavam definidos, provavelmente, nos últimos 100.000 anos.

O registro arqueológico das ferramentas data de 2,5 milhões de anos. Evoluíram das rudimentares de pedra e osso aos machados de diferentes tipos com elementos de simetria que permaneceram até 200.000 anos atrás, quando foram introduzidos novos  componentes: lascas de pedras retiradas e manuseadas com detalhes, datando de aproximadamente 40.000 anos.

É dessa época que datam as comprovações arqueológicas dos sepultamentos rituais com a cabeça do morto voltada ao nascente, acompanhado com alimentos e instrumentos de caça, pressupondo existir a crença no renascimento após a morte.

A grande e insuperável preocupação do homem com a morte é fixada a partir desta época, quando o morto era acompanhado de coisas que faziam parte do seu cotidiano para ajudá-lo na suposta nova vida após a morte.

Essa atitude de essência não material, transcendente, se reproduziu nos milhares de anos, culminando com a fantástica elaboração da morte idealizada pelos egípcios com a construção das pirâmides e a mumificação dos mortos, que no seu conjunto, tinham como função a preparação do morto para a imaginável vida depois da morte.

Foi nessa busca incessante pela vida e na incompreensão da morte que o homem começou a interferir no curso das relações sociais, objetivando aumentar o seu tempo de vida por meio de medidas alternativas, quase sempre estritamente ligadas à compreensão mítica da realidade.

É provável que já estivessem consolidadas algumas ações curadoras nas comunidades pré-históricas. Existem comprovações nos fósseis encontrados: o fêmur transfixado com a ponta de lança, em torno de 10.000 anos, que sobreviveu muito tempos após o ferimento, comprovando a inequívoca existência de um ou mais membros do grupo que tratou e alimentou o ferido.

Por outro lado, a incompreensão dos fenômenos naturais, da própria origem da vida e da morte, pode ter sido decisiva à duradoura associação à interpretação mágica da realidade, talvez gerando um complexo conjunto de crenças e ritos transmitido às gerações futuras.

 

 

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ARQUEOLOGIA DO CURADOR

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

O homem contemporâneo pertence à subespécie Homo sapiens, que possui características exclusivas entre mais de quatro mil e duzentas espécies de mamíferos existentes no planeta: bípede, pelado e transforma a natureza ao sabor da sua vontade. Ele se envaide de possuir o maior cérebro entre todas as espécies: 1.500 gramas no adulto jovem, basicamente, especializado em receber e estocar informações e enviar ao corpo as instruções para manter a vida.

Coordenadas pelo cérebro, a fuga da dor e a busca de mecanismo para empurrar os limites da morte estão entre essas funções essenciais do homem. No intervalo de tempo entre o início e o fim da vida, convive com a certeza da doença e da morte. Nas poucas dezenas de anos que consegue viver, gasta grande parte na procura incessante da saúde e do prazer.

Depois de estabelecidas ao longo de milhares de anos as relações saúde-doença e vida-morte, o homem desenvolveu e acumulou conhecimento objetivando o equilíbrio entre esses dois binômios favorecendo o aumento do tempo de vida.

Essa construção da ontogênese é recente se comparada aos anos que o homem, e, provavelmente, representa a mais importante  especialização que deu origem a procura do conforto e da saúde, em consequência, à sobrevivência.

Se pensarmos que somente um por cento das espécies antes existentes conseguiram permanecer vivas, nada pode garantir que o homem viverá na Terra indefinidamente. Esta afirmação é tão verdadeira como é o comportamento destruidor que o homem sempre teve, capaz de determinar alterações significativas em quase todos os sistemas ecológicos do planeta, formados ao longo de milhões de anos.

O que talvez mais contribua para esta atitude desorganizadora da natureza seja a idéia falsa da imutável estabilidade do mundo. Nada pode ser mais enganador.

O processo que culminou com o homem contemporâneo foi lento. Há 600 milhões de anos a vida começou e ficou restrita aos mares nos 400 milhões de anos seguintes. Seguiu-se o aparecimento e o desaparecimento dos répteis gigantes, período que durou 200 milhões de anos, sendo acompanhado de significativas alterações na fauna e na flora marinhas em conseqüência do aumento da salinidade nos mares. Os últimos milhões de anos foram marcados pela gradativa ascensão dos mamíferos até o aparecimento dos nossos ancestrais mais distantes: Australopítecos,  2.500.000 anos; Homo habilis, 1.000.000 anos; Homo erectus, 500.000 anos; Homo sapiens neanderthalensis, 100.000 anos; Homo sapiens, 40.000 anos.

O cuidado com a saúde pode te começado em qualquer ponto dos últimos 40.000 anos e certamente se iniciou na fuga da dor e na procura do conforto. A retirada de espinhos e parasitas da pele em forma individual ou coletivamente com a ajuda de outros membros da comunidade pode ser considerada a primeira forma de cura. Esta assimilação de conduta social foi fundamental ao desenvolvimento e à sobrevivência.

O espaço de tempo, cerca de 40.000 anos, no qual a nossa espécie está vivendo, foi suficiente para a transformação predatória da natureza, mas insuficiente para o homem compreender que ele é somente uma  espécie biológica como foram outras que desapareceram.

Os estudos dos fósseis neolíticos evidenciam preocupação pelo conforto físico e para aumentar o tempo de vida. Esses fatos teriam provocado a especialização de alguns membros do grupo, que se interessaram por esses problemas concretos: a arqueologia do curador.

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