SABEDORIA MÉDICA NOS TEXTOS VEDAS

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

Durante os dois últimos milênios a.C., as práticas médicas das primeiras cidades mantiveram indissociáveis laços com as idéias e crenças religiosas dominantes, a tal ponto de ser impossível distinguir onde começava uma e terminava a outra.

Na Índia antiga, está claro esse processo sociopolítico complexo unindo medicina e as crenças e idéias religiosas. De certo modo, nos dias atuais, permanece vivo em alguns segmentos sociais: os significados dos binômios saúde-doença e vida-morte mantêm marcas profundas da influência dos conceitos védicos contidos no Yajurveda. Por exemplo, o termo yaksma, usado nos textos védicos, com o sentido de debilidade, continua sendo utilizado na atualidade no sentido de caracterizar as doenças crônicas como a tuberculose que exaurem cronicamente o organismo.

De acordo com os conceitos védicos, a Medicina teve origem divina. As práticas médicas, com o objetivo de empurrar os limites da morte, teriam sido reveladas por Brahma a Prajapati, o senhor de todas as criaturas, que transmitiu aos Ashvin, os médicos gêmeos; esses, à Indra, o rei dos deuses e esse último, a Divodasa, rei de Kâshi (atual Benares). Finalmente, o rei de Benares as ensinou aos homens mortais, revelando os segredos da medicina aos médicos. Entre eles, estava o lendário médico indiano Sushruta.

É possível que entre esses personagens míticos tenham existido e que contribuído à transmissão dos conhecimentos médicos historicamente acumulados. Um dos exemplos é o personagem Atreya, que é cantado em várias lendas ao longo de milhares de anos.

O médico Sushruta, o último da cadeia da origem mítica da medicina da Índia antiga, escreveu o Sushrutasamhita ou Manual Médico de Sushruta. Esse tratado de Medicina, com novecentas páginas, nas edições modernas, é conhecido como Corpus Sushruta.

O magnífico Sushruta-samhita aborda os diagnósticos e os tratamentos de muitas doenças e descreve minuciosamente as plantas medicinais com as respectivas modalidades de preparo. Está dividido em seis livros que tratam de: clínica; cirurgia; higiene pessoal e coletiva; banhos e massagens; dieta e exercícios; gravidez.

O segundo mais importante livro médico da Índia antiga é atribuído a Charaka. De data posterior ao de Sushruta, se caracteriza pela pouca importância dada à cirurgia como forma de tratamento das doenças.

É provável a influência da medicina grega sobre alguns aspectos da Medicina na Índia antiga e vice versa. Um dos exemplos da confluência dos conceitos que existiu entre as duas Medicinas é a referência à temperatura dos lugares, às estações do ano, os períodos das chuvas e ao vento nas obras de Sushruta, Caraka e nas publicações da Escola de Cós.

As semelhanças dos conceitos são grandes para serem somente meras coincidências. No livro “Dos Ventos, Águas e Ares”, atribuído a vários autores, escrito em torno do século 4 a.C., na Grécia, na Escola de Cós, existem passagens muito semelhantes as dos livros indianos, em especial, os de Sushruta e Caraka.

Em acréscimo às aproximações conceituais, o juramento dos iniciados na Medicina, da Índia antiga, também guarda notável similaridade ao sermão atribuído a Hipócrates. Os pontos doutrinários de ambos os juramentos são basicamente os mesmos: valorização aos professores que contribuíram na formação médica, dedicação às atividades de curar; origem divina da medicina; resistência frete as tentações da sexualidade; manutenção do segredo profissional; obediência as normas sociais.

 

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CURAS NOS LIVROS SAGRADOS DA INDIA

Prof.Dr.HC João Bosco Botelho

É provável que a medicina, na Índia antiga, estivesse sistematizada séculos antes da invasão pelos arianos vedas em torno do ano 2.000 a.C. Os estudos arqueológicos, na cidade Mohenjo-Daro, no noroeste da Índia, nas margens do rio Indo, os seguimentos aluvionais, com até 6.000 anos, oferecem a primazia de estar entre as cidades mais antigas do mundo. As escavações arqueológicas mostram ruas bem traçadas, rede de esgotos, canalização para água e banhos públicos. Esses achados reafirmam idéias precisas dos cuidados de saúde pública na profilaxia das doenças.

A primeira sistematização da medicina na Índia antiga está contida no Ayurveda, escritos originalmente em sânscrito e pleno de forte religiosidade. Esses textos podem ser entendidos como a compreensão do corpo ligado ao mundo circundante, donde Veda (conhecimento, o saber) e Ayur ou Ayu (corpo vivente religado ao mundo pelos cinco sentidos). Dessa forma, também é aceitável compreender a palavra Ayurveda como o conhecimento da vida humana ou a ciência da vida humana.

O Ayurveda significa veda da longa vida e constitui a base teórica da medicina tradicional da Índia. O texto original é constituído de mil capítulos divididos em cem mil versículos ou Shlokas, por sua vez, subdivididos em Ashtânga, palavra até hoje entendida, na Índia, sinônimo de Medicina.

Os oito capítulos do Ayurveda tratam de temas médicos específicos:

            Shalya: cirurgia para retirada de corpo estanho, feto morto retido intra-uterino, drenagem de ferida com pus e a utilização de instrumental cirúrgico;

            Shalakya: cirurgia dos olhos, nariz, orelhas e garganta;

            Kayacikitsã: tratamentos clínicos com mais de oitocentos diferentes tipos de plantas medicinais;

            Bhutavidya: ensinamentos como se comunicar com os espíritos dos mortos, demônios e doentes possuídos pelos deuses causadores de doenças;

            Kaumarabhritya: cuidados dos recém nascidos e das mulheres grávidas;

            Agadatantra: toxicologia, aos venenos e os antídotos;

            Rasayana ou Jarâ: plantas do rejuvenescimento e os afrodisíacos que contribuem para a manutenção da saúde;

            Vajikarana ou Vrisha: descreve as propriedades dos afrodisíacos.

As práticas médicas indianas estavam diferenciadas em relação as do Egito e assírio-mesopotâmica porque possuía estrutura teórica para explicar a saúde e a doença aconteciam, respectivamente, pelo equilíbrio ou desequilíbrio dos cinco elementos fundamentais: dhatu: éter ou vazio; vayu: vento; agni: fogo; jata: água; bhumi: a terra.

A alimentação inadequada seria o determinante mais significativo da desarmonia entre os cinco elementos que regiam a vida. Como consequência, a dieta e a higiene desempenhavam papel crucial no tratamento contido no Ayurveda.

Ainda hoje, essas terapêuticas distinguem os remédios que fortalecem o corpo dos que curam. Os primeiros eram os afrodisíacos e os segundos eram os vegetais com propriedades medicinais, que deveriam ser tomados segundo as normas rituais contidas nos Vedas.

É importante ressaltar que o Ayurveda entende três tipos de doenças: curáveis (sadhya), melhoráveis (yapya) e incuráveis (pratyakhyeya),  consequências de culpas das vidas anteriores (karmaja) e para curá-las é indispensável fazer a penitência (prayashcitta).

Esse livro magistral descreve mais de setentas espécies de vegetais, alguns utilizados nos dias atuais pelo curador andarilho – shivaista – que cantando hinos védicos os administra aos doentes.

Não há dúvida: os ensinamentos do Ayurveda ainda são extraordinárias fontes de saberes.

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