BUSCA DA ARQUEOLOGIA DA CURA

Os seres vivos, dos unicelulares ao homem, manifestam-se na natureza em torno da complexa dispersão da multiplicidade das formas e das funções biológicas visíveis e invisíveis. Nessa maravilhosa identificação dos múltiplos, uns mais semelhantes do que outros, porém únicos, que é possível aos sentidos humanos, tanto os inatos quanto os cognitivos, apreender a partir da comparação e, a seguir, reproduzir, modificar e interpretar o observável.
Parece ter sido também por meio do conhecimento historicamente acumulado ? a repetição ou a repulsa do visível e do sentido ? que nós nos fizemos humanos. A explosão da inteligência humana dá-se na construção de idéias para desvendar o ainda invisível, a partir do processo cumulativo dos saberes.
Se tomarmos como exemplo um grupo de pessoas adultas, ao longe o suficiente para vermos a forma ? o corpo ?, poderemos caracterizá-lo, sem esforço, como homens e mulheres. Contudo, conforme nós nos aproximar-mos, perceberemos que continuam homens e mulheres, porém diversos entre si em cada porção, agora mais perceptível, dos seus corpos.
Hipoteticamente, se essas pessoas fossem submetidas à cirurgia da glândula ti-reóide, pelo mesmo cirurgião, ele perceberia que todas possuem as tireoides ? o órgão ? parecidas, porém com as formas diversas, seja no tamanho, na cor, na consistência ou em qualquer outro parâmetro. Mesmo assim, com todas as dissimilitudes de apresentações, na dimensão do corpo, prosseguem como homens e mulheres, e na dimensão do órgão, tireoides, para qualquer observador.
Continuando o desvendar da matéria viva, a mesma e incrível variação continua na dimensão microscópica ? a célula. Apesar de as células serem passíveis de re-conhecimento como sendo originadas na tireóide, são distintas entre si. Não obstante ainda não dispormos de tecnologia específica, cabe indagar: o mesmo fenômeno que molda o ser vivente e as coisas ocorre também no nível molecular? (a célula é formada por milhões de moléculas com formas diferentes e funções).
O que torna mais fascinante o desafio de compreender o corpo humano, na busca da arqueologia da vida, é o fato de a doença reproduzir, nas dimensões macro e microscópicas, um conjunto infinitamente maior da multiplicidade das formas e das funções quando comparado ao corpo considera “normal”.
A perda do caráter individual dos seres vivos ocorreria na dimensão atômica. Os corpos, órgãos, células e moléculas, “normais” ou “doentes”, mantêm a multiplicidade, porém os átomos que os compõem não teriam diferenças entre si. Esse é o ponto de encontro marcando os limites entre o mundo vivo e a natureza inerte. Isso quer dizer que a ciência admite que os átomos do carbono do diamante são iguais aos dos átomos de carbono das moléculas das células do coração humano.
Neste momento, cabe a pergunta fundamental que continua sendo o paradoxo fundamental da Medicina: Em qual dimensão da matéria viva o “normal” se transforma em “doença”?

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Darwin, evolucionismo e a medicina

As ideias de Darwin revolucionaram os saberes anteriores: os questionamentos não ficaram restritos a biologia e atingiram fundamentalmente a religião. Sem dúvida, o naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913) também teve importante parcela na evolução dos acontecimentos. Independente de Darwin, ele formulou conceitos semelhantes sobre a evolução das espécies. Entretanto, ele reconheceu a prioridade do colega inglês, que tinha feito estudos mais detalhados e completos.
Em carta a outro naturalista amigo, Charles Darwin escreveu: “Nunca vi tamanha coincidência; se Wallace tivesse o esboço do meu manuscrito de 1842, ele não poderia ter feito um melhor resumo”.
Wallace esteve, no Amazonas, em 1848, e publicou em 1853, o livro “Narrativa de viagens no Amazonas e no Rio Negro”. Foi após esse período, conhecendo a multiplicidade da natureza amazônica, que consolidou o seu pensamento evolucionista tão revolucionário quanto o de Darwin. Durante a viagem, Wallace soube das observações de Henry Walter Bates (1825-1892). Nesse livro, descreveu a incrível capacidade de algumas borboletas, para mudar a aparência, com o objetivo de evitar o ataque de certas aves. É possível que essa constatação de Bates tenha servido para ajudar Wallace na sua teoria evolucionista.
Esse conjunto de informações motivou particular interesse nos teóricos da escola positivista, liderada pelo francês Augusto Comte e foram aplicados em alguns ensaios também com o objetivo de estruturar outra teorização do controle social.
A Igreja Católica defendendo o criacionismo iniciou forte oposição às teorias evolucionistas. A disputa ideológica persiste até a atualidade. Esse fato ? a contenda entre os criacionistas e evolucionistas, responsável pelas pressões eclesiásticas junto aos Estados laicos, para conter o ensino do evolucionismo sob o prisma neodarwinista.
O caso mais conhecido ocorreu no sul dos Estados Unidos, conhecido como o “cinturão da Bíblia”, a região politicamente mais conservadora daquele país. Em 1982, uma lei obrigou que as escolas cumprissem o mesmo número de horas de aulas tanto para a teoria criacionista quanto para a evolucionista. Chegaram a afirmar, em documento conjunto, que o fato poderia ter conseqüências nefastas ao desenvolvimento científico dos Estados Unidos.
Mais representativo e polêmico foi o julgamento e condenação do professor John Scopes, no Tennesse, em 1925, somente revogada em 1967: “O seu crime foi desobedecer a uma lei do Estado que proibia o ensino do evolucionismo: É ilegal ensinar qualquer teoria que negue a história da Criação Divina do homem como ensinada na Bíblia, e ensinar em seu lugar que o homem descende de uma ordem inferior de animal”.
As propostas teóricas de Darwin foram incorporadas à Medicina e proporcionaram que o século 20 persistisse na busca da saúde e da doença em compreensões abrangentes entendendo o Homem com produto de múltiplas evoluções.

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