RITOS DE CURAS E PRÁTICAS MÉDICAS: PECADO E TABU

Existem vários significantes do pecado associado à doença. Um dos mais interessantes é o pecado mágico, não ético, à violação do tabu.
De modo geral, o tabu previne contra algum de tipo de poder maléfico em pessoas, coisas e situações. Esse entendimento está claro na descrição do rito de cura relatado por Rasmussen, citado por Lévy-Bruhl, na aldeia dos esquimós Iglulik: ?Nela participam além de todos os habitantes da aldeia, o xamã, que desempenha o papel principal, e os espíritos familiares do doente. Perante as injunções do xamã, o doente enumera, uma após outra, todas as violações do tabu, leves ou graves, que cometeu. Quando tem a certeza de que nenhuma foi esquecida, a assistência retira-se, convencida de que a confissão das culpas e dos pecados quebrou a espinha da doença.? É importante entender que a confissão do doente esquimó não representa arrependimento; é, sim, a libertação que cura a doença, o mal.
A compreensão do pecado na antiguidade oferece aspectos interessantes. Entre muitas culturas-linguagens, especialmente nas religiões milenaristas, a libertação do pecado, da doença, sempre se relaciona à confissão seguida pelas rezas e penitências. Dependendo da linguagem-cultura, o curador retira o mal, exorciza o pecado, dirige as aspersões e usa imagens e outros artefatos protetores.
A maior parte das experiências empíricas acumuladas para afastar a dor fora de controle ou empurrar os limites da vida permaneceu guardada pelos especialistas da coisa sagrada. Esses fatores representaram ásperos obstáculos para reproduzir os saberes acumulados fora dos restritos grupos dos enclaustrados representantes das divindades, como assinala a tradição judaica:
1. O incrível poder do curador divino sobre a vida e a morte de tudo e de todos. Em Dt 32: 39 – E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).
2. Os saberes empíricos como dádivas divinas. Em Sb 17: 20 – Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.
Em outro momento, esses poderes foram transmitidos aos médicos:
1. O médico como representante reconhecido e festejado da divindade. Em Eclo 38: 1-2. Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.
Desafortunadamente, alguns médicos, desarticulados da construção histórica, para o infortúnio dos doentes, continuam acreditando nessa relação mítica.

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RITOS DE CURA COMO HIEROFANIAS

Desde tempos ágrafos, homens e mulheres aliaram-se aos panteões lutando para entender, sem aceitar, passivamente, a brevidade da vida frente à natureza circundante. Reagiram se organizando para viver mais e melhor desafiando a tirânica competência dos deuses e das deusas para controlar a vida, curar as doenças e os infortúnios.
Os ritos de curas, como hierofanias são muito anteriores se comparados às práticas médicas. Alguns sítios pré-históricos mostram claras comprovações, com mais de 10.000 anos, que membros da espécie homo utilizando artefatos cortantes executaram intervenções deliberadas e repetidas sobre os corpos, como as trepanações de crânios e amputações dos membros.
O aparecimento da palavra ?médico? nas linguagens-culturas mesopotâmicas esteve associado ao forte marco identificador dos poderes pessoais desses especialistas sociais ? curadores de todos os matizes ? para intervir na doença, como pressuposta garantia para aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle.
Curadores e médicos entendidos sob essa perspectiva ? agentes sociais oriundos de muitas linguagens-culturas capazes de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle ?, de lá para cá, como história de longa duração, mantiveram esse entendimento nos cinco continentes.
De lá para cá, quase quatro mil anos, os ritos religiosos de cura inseridos nas ideias e crenças religiosas nunca foram abandonados, mais ou menos valorizado em dependência das linguagens-culturas e dos bons ou maus resultados obtidos nos tratamentos mágicos. Em certos textos mesopotâmicos é difícil distinguir onde começava a prática médica e terminava os ritos de curas.
Por outro lado, fora das análises acadêmicas, a maior parte das pessoas continua valorizando a ausência da dor, do mal, da doença como fruto da obediência às divindades. É possível que a arqueologia desse intricado nó entre as práticas de curas e as religiões esteja assentada nas antigas compreensões do pecado como sinônimo de doença. Entre os claros registros nas tábuas de escrita cuneiforme, achada na biblioteca de Hammurabi, um é particularmente interessante para demonstrar as práticas médicas atadas aos ritos de curas religiosos: assírios e babilônios entendiam o pecador como doente, débil, angustiado, possesso do demônio (utukku). Os termos sortilégio, malefício, pecado, doença, sofrimento aparecem como sinônimos. A libertação desse pecado, a doença, só seria obtida no rito religioso da confissão e penitência.
Essa compreensão do pecado ligado à doença como sinônimo do mal está mais claramente presente nas religiões que admitem o pressuposto da violação voluntária do livre arbítrio, contra a ordem divina, gerando culpa ao pecador, punido com a doença. Para apagar o pecado, o mal, a culpa, deve cumprir ritos de expiação: os da consciência, confissão e penitência; e os da obediência ao divino: rezas e sacrifícios.

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