OS PODERES LAICOS E RELIGIOSOS DISPUTANDO A CARIDADE MILIONÁRIA

Os doentes cada vez mais numerosos em consequência do avanço das doenças infecciosas, na primeira metade do século 15, inclusive a peste negra, eram internados em lugares conhecidos como ?Xenodochium pauperum, debilium et infirmorum? (Hospital dos pobres, dos fracos e dos enfermos?), administrados pela Ordem dos Hospitalários de São João, dos Antoninos e do Espírito Santo.
No medievo europeu, quanto maior a miséria coletiva, maior o chamamento à caridade. Portugal, particularmente castigado pela peste negra, em mais de vinte surtos registrados entre 1188 e 1496, junto às guerras intestinas da nação portuguesa, o quadro desolador se mostrou tão desesperador que o enterro dos mortos se tornou impossível; os cadáveres acumulavam-se por toda parte, dando um aspecto da chegada do fim dos tempos e o cumprimento das previsões apocalípticas.
A lepra, um dos flagelos que assolava o homem medieval, não distinguia ricos e pobres, poderosos e despossuídos. A desfiguração causada da doença repugnava o doente e a família, não só pelo aspecto grotesco da deformidade, como também pelo medo de contrair a enfermidade. Os leprosos, desamparados pelos familiares, tornavam-se itinerantes e rumavam munidos de catracas, anunciando a passagem, à procura da ajuda divina nos muitos santuários milagreiros anunciados pela Igreja. A maior parte deles morria da fome ou das complicações da doença, enquanto outros ficavam pelo caminho nas albergarias que os aceitavam.
Por acolherem os leprosos em maior número, esses lugares, com o passar dos anos, ficaram conhecidos como leprosários.
Nenhuma doença poderia simbolizar melhor a atenção que Jesus dedicou aos doentes quanto a lepra. Os leprosos foram escolhidos no Terceiro Concílio de Latrão (1179), sob o pontificado de Alexandre III (1159 -1181), para receberem tratamento especial dos cristãos ao mesmo tempo, foi reprovado o isolamento a que eles estavam submetidos pela sociedade. A Ordem de São Lázaro foi criada para dar cumprimento às ordens conciliares e o grão-mestre deveria ser sempre um leproso.
Não se deve estranhar que o pano de fundo das caridades patrocinadas, corporações, confrarias e irmandades tenha sido também a obtenção de vantagens pessoais, financeiras e políticas para os envolvidos nas edificações. Essa afirmação ganha suporte no fato de que D. Pedro, em 1420, escreveu ao seu irmão D. Duarte, sugerindo a intervenção real na administração das hospedarias, como alternativa para reabilitar a debilitada economia do reino, cujas reservas foram gastas nas guerras e o pouco arrecadado era consumido pelos fidalgos.
É fácil de compreender o interesse por essas instituições, tanto das ordens religiosas como da corte portuguesa. As ordens religiosas devem ter sido mais ágeis para dirigir o produto monetário da caridade aos cofres eclesiásticos, a ponto de a situação ter ficado insustentável, causando prejuízo à arrecadação do reino. A reação foi imediata. Por ordem de D. Duarte e publicada nas Ordenações Alfonsinas de 1446, foi decretada a interdição real nas albergarias, determinando que todos os legados que fossem doados às irmandades deveriam passar pelas cortes civis e não mais pelos tribunais religiosos.
Essa providência interrompeu, em Portugal, um aspecto rendoso da caridade cristã, porque proporcionava o recebimento de vultosas quantias em doações e heranças dos súditos bem intencionados.

Publicado em ÉTICA MÉDICA-BIOÉTICA | Deixe um comentário

CORPORAÇÕES NA IDADE MÉDIA: MELHORA DO ATENDIMENTO MÉDICO

Desde a baixa Idade Média, existiam organizações dedicadas à guarda e proteção dos interesses de grupo de trabalhadores especializados.
Em Valenciennes, floresceu entre 1050-1070, tinha uma característica predominantemente laica, enquanto que a de Saint-Omer, ativa entre 1072-1080, era de natureza eclesiástica. Algumas delas já apresentavam estrutura administrativa: o órgão de decisão (capitulum), o líder (décani) e a sede (Guildhus).
As corporações, confrarias e irmandades ofereciam novo tipo de proteção aos membros, sob a presença dos santos mais importantes ou ligados à tradição religiosa da região. A próspera corporação de lanifício de Florença, com cerca de vinte mil operários e duzentas oficinas, pode representar muito bem esse interesse eclesiástico: a sede dessa rica corporação, o Palácio da Lã, se ligava por meio de uma ponte com a Igreja Orsanmichele.
A inserção das corporações, confrarias e irmandades surgiram fortalecidas em regras protecionistas de solidariedade mútua econômica e social articulada à hierarquia religiosa e laica. A Igreja se manteve muito próxima dessa nova construção social e estimulou novas alianças, especialmente, com a Confraria dos Cirurgiões, já que o êxito do projeto de melhorar a assistência médica dependia dos cirurgiões-barbeiros.
É importante relembrar que o aparecimento desse personagem complexo, o cirurgião-barbeiro, ocorreu consequente da resposta social à interdição intolerante da Igreja à dissecção do corpo morto, obrigando o fim de estudo da anatomia e fechamento das escolas de Medicina. Como resultado, os cirurgiões ficaram cada vez mais escassos até o completo desaparecimento na primeira metade do século 9.
O aumento da circulação de moeda e do comércio pode ter contribuído para forçar, por parte da população mais organizada, o preenchimento do espaço vazio, antes dos antigos cirurgiões desaparecidos. Pode ter sido por aí que as normas das corporações, confrarias e irmandades, respeitando-se as diferenças estruturantes, buscaram outras formas de amparo aos membros e às famílias.
A maior parte daquelas instituições possuía hospital próprio, como o da rica Confraria de São Leonardo, em Viterbo, Itália, no século 12, capaz de prestar vários tipos de atendimento e amparo à viuvez e aos órfãos.
A ética cristã baseada na caridade, que valorizou a exaustão a recompensa pessoal após a morte e da obediência aos dogmas eclesiásticos, abandonou os cuidados com a saúde pública, a higiene pessoal, redes de abastecimento de água potável, escoamento dos esgotos e o pagamento pelo serviço profissional médico.
Por essas razões, a maior parte das populações da Europa medieval sofreu na pele o descaso pelas normas essenciais para preservar a saúde coletiva: as cidades eram aglomerações humanas desordenadas, em torno de suntuosas catedrais góticas, sem água potável, esgotos sanitários e habitações inadequadas, onde, de tempos em tempos, grassavam epidemias de várias doenças infecto-contagiosas, que matavam freqüentemente milhares de pessoas em poucas semanas.
Também como resistência ao descaso com a saúde pública e à corrupção tanto laica quanto religiosa, as regras das corporações, confrarias e irmandades reforçavam ajudas mútuas entre os membros e as famílias. Um dos exemplos marcantes foi o estatuto da corporação dos curtidores de couro branco, em Londres, em 1346, rezando no primeiro artigo: o bem-estar de membros era o objetivo maior.

Publicado em HISTÓRIA DA MEDICINA | Deixe um comentário