ÉTICA DA MEDICINA NO MEDIEVO EUROPEU

O processo da cristianização de Roma, durante o reinado do Constantino e após, fruto do enfraquecimento das fronteiras romanas, pelas invasões dos godos e visigodos, introduziu mudanças no sistema mercantil escravista para o feudal alcançou a ética da Medicina.
Nesse processo complexo, a Medicina se distanciou dos conceitos gregos jônicos da físis e se aproximou da doença como mal gerando o castigo divino, como nas culturas da Mesopotâmia, Egito, Índia e Grécia homérica, entre os séculos 7 e 5 a.C.. Sem pretender simplificar muito, o tratamento mais importante para a doença como mal, seria a força de Deus e de Jesus Cristo intervindo para promover a cura por meio do milagre.
É possível compreender essa abordagem, que motivou outros conceitos teóricos à ética e moral, alcançando também as práticas médicas, como regressão às conquistas greco-romanas. Essas mudanças também provocariam desconstrução urbana, no medievo cristão europeu, com as administrações das cidades se descuidando da higiene pessoal, ruas estreitas, casas abafadas e sem exposição solar, pouca água potável, retorno do enterramento dos corpos nos limites urbanos e ausência de esgoto sanitário.
Os banhos públicos, usados simultaneamente por homens, mulheres e crianças, entendidos como local de excessiva exposição dos corpos propiciando maior exacerbação da sexualidade foram precocemente combatidos pela nova ordem cristã que se empenhou em fechar todos.
Esse fato associado às outras importantes mudanças no urbanismo das cidades alcançou o novo mundo cristão em ascensão, inclusive e especialmente a prática médica, fechando as escolas de Medicina e interditando o manuseio do corpo morto para o estudo da anatomia. Esse conjunto fulminou as práticas médicas grego-romanas, sob a égide da ética hipocrática, e introduziu outro processo monolítico ideológico, sob forte fiscalização eclesiástica, reconstruindo outra ética na Medicina, que se estenderia até a baixa Idade Média.
Os serviços profissionais dos agentes da Medicina-divina, Medicina-empírica e Medicina-oficial, até então entendidas como trabalho profissional remunerado, passam para a categoria dos trabalhos que deveriam seguir o exemplo de Jesus Cristo e dos apóstolos, cujos sacerdócios incluíram muitas curas milagrosas. O milagre cristão passou a ser a principal motivação da cura das doenças.
A ética da Medicina absorveu, na Roma cristianizada, o entendimento da doença, como consequência da desobediência a Deus, Jesus Cristo e aos santos, se transformou em sinônimo de castigo. Com as escolas de Medicina fechadas e consequente o ciclo da formação de médicos interrompido, o povo sem opções, se intensificaram:
– Peregrinações aos santuários católicos, especialmente, Jerusalém e Santiago de Compostela, na Espanha;
– Devoção aos santos com poderes de curar determinadas doenças;
– Edificações de ofertórios dedicados aos santos ou santas relacionados à doença mais temida, nas principais ruas ou praças das cidades.
Com o fechamento das escolas de Medicina, a partir do final do século 6, as práticas médicas se aproximaram dos abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética, moral e caridade cristã.
Sob a guarda das proibições eclesiásticas impondo nova ordem à ética médica, impedindo as práticas cirúrgicas, mais duramente a partir do século 9, a cirurgia foi excluída da Medicina e se tornou atividade não recomendada aos homens de bem.

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MEDICINA GREGA DO SÉCULO 4 A.C. INFLUENCIANDO O SÉCULO 19

O marco organizador da nova e fundamental etapa da Medicina na construção dos procedimentos éticos atados à busca da materialidade da doença ocorreu na escola de Cós, sob a liderança de Hipócrates. Apesar de saber-se, pelos indicativos etimólogos e lingüísticos, que das 72 obras contidas no ?Corpo Hipocrático?, conjunto de textos produzidos na ilha de Cós, somente 12 foram reconhecidamente escritos por Hipócrates. Esse conjunto filosófico-médico iniciou o processo da separação da Medicina-oficial das idéias e crenças religiosas.
Nesse contexto, um dos livros mais importantes, ?Da Medicina Antiga?, escrito por Políbio, genro de Hipócrates, está elaborada a teoria dos Quatro Humores, a primeira estrutura laica edificada com o objetivo de explicar a saúde e as doenças fora das idéias e crenças religiosas. O processo teórico explicita o corpo humano constituído de quatro humores: sanguíneo, linfático, bilioso amarelo e bilioso preto. A saúde seria consequente ao equilíbrio dos humores e a doença apareceria após o desequilíbrio, isso é, a predominância de um sobre os outros.
É importante ressaltar que Políbio estratificou a teoria dos Quatro Humores atada à teoria dos Quatro Elementos de Empédocles. Esse genial médico e filósofo pré-socrático, tentando entender o mundo, fora das idéias e crenças religiosas, explicou mundo visível por meio da combinação de quatro elementos fundamentais: água, terra, fogo e ar. Desse modo, para cada elemento de Empédocles, existiria um humor.
Como imediata resposta à genialidade de Políbio, duas transformações mudariam a Medicina no Ocidente:
– As terapêuticas ficaram mais livres da presença dos deuses e deusas curadoras e firmaram propósito para retirar do corpo o excesso dos humores desequilibrados, por meio das sangrias, suadouros, diarréias, vômitos e diurese.
– O primeiro código de ética médica ? Juramento de Hipócrates ? com admirável avanço indicou, simultaneamente, a necessidade de os bons resultados estarem unidos ao respeito à dignidade do doente.
Por essa razão, usando a linguagem do filósofo francês Gaston Bachelar, é possível considerar esse acontecimento ? a teoria dos Quatro Humores ? como o primeiro corte epistemológico da Medicina-oficial.
A historicidade do Juramento de Hipócrates atada à teoria dos Quatro humores assinala pontos marcantes: bons resultados, respeito à intimidade e autonomia do doente, competência, sigilo e responsabilidade profissional.
Os quatro elementos de Empédocles (água, terra, ar e fogo) e os Quatro Humores de Políbio (sangue, fleuma, bílis preta e bílis amarela), da Escola de Cós, ambas do século 4 a.C., foram retomados por Galeno, um dos mais famosos médicos romanos, do século 1, para edificar a teoria dos Temperamentos, inserindo componentes sociais nas doenças.
Assim, se alguém estivesse com ?um humor desequilibrado? e possuísse determinado ?temperamento dominante?, seria mais suscetível a certa doença. Hoje, parece tudo sem sentido, mas é importante ressaltar que além de as teorias dos Quatro Humores e a dos Quatro Temperamentos se situavam fora dos poderes divinos e continuaram citadas até a primeira metade do século 19, quando o viajante alemão Von Martius, esteve no Amazonas, em 1844, entendeu os índios: ?de temperamentos fleumáticos, com pouco sangue?, com o objetivo de explicar a equivocada leitura do comportamento dos indígenas quando comparado ao dos europeus.

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