MEDICINA NA MITOLOGIA GREGA

As relações entre as práticas de curas e compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. Algumas vezes, é impossível distinguir onde começa uma e termina a outra, compreendendo que a mitologia nasce das relações com o mundo da natureza empírica, mas acima do meramente empírico.
Das primitivas relações do homem com o animal, predominando o sangue como garantia da vida, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o vegetal na bus-ca da saúde e evitando a morte.
O uso do vegetal, indispensável para a sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios sobre a origem primeira e do destino final do ser humano. Evoluíram da epopéia de Gilgamesh, dos babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e Yebá beló da lenda desana da criação do Sol, indígenas do grupo linguístico tucano, das margens dos rios Tiquié e Papuri, no alto rio Negro.
Os registros do século 6 a.C. descrevendo a Medicina ligada à mitologia grega são, provavel-mente, o produto das complexas relações do homem que antecedeu a formação do pensamento grego. É possível estabelecer certo paralelismo entre muitos aspectos das relações médico-míticas das civilizações babilônica, egípcia e indiana com as da Grécia antiga.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros. Posteriormente, identificado como Aplous, aquele que fala verdade. Apolo purificava a alma por meio das lavagens e aspersões e o corpo com remédios. Por essa razão,o deus que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio recebeu educação do centauro Quiron para ser médico. A escolha do centauro foi feita porque dominava os saberes da música, magia, adivinhação, astrono-mia e da Medicina. Além dessas habilidades, Quiron possuía incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
Para os gregos daquela época, Asclépio divinizou a Medicina. Celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro, data em que até hoje se comemora o dia do médico no Ocidente. Asclépio conquistou uma fama inimaginável, tinha a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros lugares, procuravam as curas milagrosas desse deus curador. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Com esse imenso poder, ressuscitou alguns mortos. Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, ordenou a morte de Asclépio com os raios das Ciclopes.
A genealogia mítica de Asclépio identifica duas filhas, Hígia e Panacéia; a primeira, celebra-da como deusa da saúde perfeita; a segunda, curadora por meio das plantas medicinais. Além de-las, dois filhos, Machaon e Podalírio, descritos por Homero como médicos guerreiros com destaque na guerra de Tróia.
Nos muitos registros de agradecimentos dos doentes para Asclépio, as esculturas produzidas, entre os séculos 6 e 2 a.C., contém a serpente enrolada no bastão. Seja qual tenha sido a razão que levou o homem, no passado, a estabelecer elos entre a serpente e a Medicina, está relacionada às imagens metafóricas da luta pela sobrevivência, entre as quais a mitologia é parte sustentadora.

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DOUTORES FRITZ

A antropóloga Maria Andréa Loyola após pesquisa realizada em Nova Iguaçu e Santa Rita (RJ), entre 1976 e 1979, estabeleceu importantes relações entre a busca de saúde nos hospitais e ambulatórios púbicos e a dos curadores por ela denominados “especialistas não reconhecidos” (rezadores, padres, freiras, pastores, benzedores, pais e mães de santos) e por mim caracterizados “doutores fritz”.
Os resultados desse trabalho estão publicados no livro “Médicos e curandeiros: conflito social e saúde”, em 1982, onde a pesquisadora esclarece que a procura do tratamento fora das instituições públicas representa reconstruções pessoais e coletivas, para superar a absoluta ausência do Estado, na atenção médica primária, a penúria social, certeza do abandono e, especialmente, o descrédito nos médicos e hospitais. Os “doutores fritz” possibilitam reinserções sociais por meio de outros sistemas de poderes locais relativamente autônomos que permitem aos suplicantes afirmarem as identidades e pensarem ser possível possuir lugares no mundo.
Existem pontos que podem ser questionados tanto na elaboração quanto na reprodução da liberdade com que os “especialistas não reconhecidos” ou “doutores fritz” se multiplicam e atuam nas igrejas ligadas às muitas tendências religiosas. O início da discussão pode ser a partir do pressuposto de alguns segmentos dos poderes políticos usarem esses curadores como anteparo às pressões coletivas frente às dificuldades do atendimento médico no sistema público. Dito de outro modo, sem esses “especialistas não reconhecidos”, a insatisfação popular cresceria gerando conflito e desgaste político.
Nos anos 1970, apareceu no Rio de Janeiro um “doutor fritz” autodenominado “sete da lira”. Esse personagem, durante alguns meses, sem ser importunado pelas autoridades sanitárias, atendeu milhares de pessoas no subúrbio de Campo Grande. Desgastado pelos incontáveis insucessos, esvaziado, restou o enorme patrimônio econômico da “fundação que administrava os dons mágicos do curador.”
Não é adequado rejeitar ou criticar a priori os “doutores fritz”. É importante que essa discussão tome maior corpo nas universidades, inclusive na Disciplina História da Medicina, onde os pesquisadores sociais, como a antropóloga Maria Andréa Loyola, continuem as analises e divulguem os resultados.
No livro “Medicina e religião: conflito de competência”, 2a. edição, que eu publiquei pela Editora Valer, em 2005, mantive a ideia de a importância mais imediata do sagrado continuar sendo a coisa sagrada, onde o conjunto que encanta e reproduz possui um ou mais objetos de fixação, do culto do corpo santo às relíquias, das imagens às oferendas nas encruzilhadas, gerando consciência e resposta, ajudando os suplicantes acharem e ocuparem os lugares no mundo.
Historicamente, a maioria dos cultos de conjuração é terapêutica, para amenizar a dor da pobreza ou a cólica menstrual. Essa forma de atuar na saúde e na doença, por ser mágica, sem passar por médicos e hospitais desacreditados, é a mais comum e toca fundamentalmente no cerne da existência humana na ambição de recuperar a saúde e evitar a morte precoce.
Os inaceitáveis indicadores que continuam contribuindo para a reprodução dos “doutores fritz” começam no atual modelo de desenvolvimento, gerador dos enormes desníveis socioculturais e se consolidam na ausência de uma política voltada para a atenção primária da saúde e da infância nos países onde os atendimentos médicos primários são frágeis ou inexistentes.

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