LINGUAGENS E A CRÍTICA DA PROTEÇÃO PURA

É precisamente na convergência entre o físico presente na estrutura celular e o crivo do sócio-genético, dando forma à função e vice versa, que ocorre a maravilhosa e intrigante materialidade da ideia invisível, imponderável, mas capaz de nominar, desvendar,criar e transformar o objeto.
Por essa razão não existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. No contexto da multidisciplinaridade, as gramáticas são ideológicas, porque expressam um tipo de posse do real e as características pessoais que marcam profundamente nos corpos os prazeres e as dores sentidos e imaginados.
Por essa razão, a busca da verdade é construída no conflito entre o objetivo e o subjetivo (de certa forma, se confundindo com o sagrado e o profano), refletindo as múltiplas leituras das coisas numa determinada temporalidade. A variante do tempo se impõe por estar contida na essência que torna perceptível a forma e a função do ser vivente.
O objetivo primário da ação, a ideia seguida do movimento do corpo, motivada na mensagem sócio-genética, por si mesmo, ao mais fundamental sentimento mantenedor da sobrevivência: a cooperação unindo todos para fugir da dor e desfrutar do maior prazer. Algo que poderia ser chamado de crítica da proteção pura.
Sem exceção, os seres vivos desejam o abrigo protetor. Não se trata, exclusivamente, do viver. O morrer pode representar, em certos instantes, o ato cooperativo dominante e, nesse caso, a morte representará a proteção pura.
O anseio para compreender as diferenças entre o constatado pelos sentidos (objetivo) e a ficção propiciou interdependência muito forte entre as partes. Em certas etapas do processo, é impossível saber onde começa a realidade e termina a ficção.
Não existiram partidas independentes. A realidade vivida pelos humanos com os outros animais, dividindo o meio ambiente comum, contribuiu para fortalecer profundas imitações simbólicas, presentes como marcas profundas do tempo passado, na consciência coletiva.
Muitos inventos e expressões estéticas, no passado e presente, projetados pelo aprimoramento da técnica, acabam sendo facilmente identificadas no meio comum partilhado.
O ímpeto para reproduzir os elementos visíveis, tirando deles a utilidade para sustentar o conforto (aqui compreendido como a fome e a sede saciadas,o alívio da dor e o abrigo contra o frio e o calor), influenciou as primeiras interações entre pensamento, ação e necessidade social.
O fato de os nossos ancestrais longínquos terem aprimorado as cópias do perceptível na natureza circundante, animais e coisas, nos abrigos das cavernas, há milhares de anos, representa a certeza da profunda coerência entre as formas e as funções nos corpos.
Apesar de os estudos da anatomia e fisiologia terem desvendado aspectos importantes da forma e da função do cérebro relacionadas às linguagens, estamos longe, muito longe de compreender a maior parte das dúvidas. A principal barreira é a fantástica multiplicidade das formas, nos seres viventes, gerando funções semelhantes. Apesar de os homens e as mulheres possuírem áreas anatômicas semelhantes, relacionadas às linguagens, jamais se expressam igualmente.
O produto final das linguagens é consequente aos vetores que modulam os componentes extrínsecos (natureza, social e História) e os intrínsecos (padrões sócio-genéticos herdados) e estruturam a crítica da proteção, capaz de impelir os seres de todas as naturezas para fugir da dor e buscar o prazer.

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LINGUAGENS, VOGAIS E CONSOANTES

As evidências mostram que os elementos formadores das teorias pretendendo desvendar as linguagens, nas quais estão incluídas as que tratam da fantástica capacidade de escrever em muitas linguagens, tanto descrevendo o objeto visível quando na ficção, estão contidos no cérebro. A coisa (ou as coisas) que estruturou as linguagens é física.
Se as áreas cerebrais responsáveis estão danificadas, não é possível a expressão das linguagens. Isso significa, sem nenhuma dúvida, que o conjunto formador que gera as linguagens não se dá sobre o nada. As estruturas nervosas responsáveis pela intercomunicação entre a memória, a linguagem, os sentidos e o social se ligam, no cérebro, por meio de bilhões de sinapses (ligações entre as células cerebrais ou neurônios). É a prisão mental de cada um! É a jarra de Pandora que construiu na oralidade e continua brotando, na linguagem escrita, os infortúnios e esperanças da humanidade.
Quando danificados nos traumas cranianos ou pela cirurgia, em animai de experimentação, alguns centros neurológicos específicos relacionados às linguagens alteram o comportamento emocional e emites sons em desacordo com a necessidade daquele momento: expressões de sono, agressividade e medo ou fazer o animal assumir posição de cópula ou de choro. Sob essa comprovação, há de existir algum tipo de coerência funcional a nível celular, ligando o ser ao mundo, transcrito no ato de escrever. Logo, a capacidade individual de sentir e expressar as emoções nas linguagens, inclusive mentiras, nasceram em consequência das relações do ser no mundo.
Vez por outra, o lento desvendar das complexas estruturas das linguagens avança apoiado no estudo dos achados acidentais. Nesse sentido, foram descritos dois casos clínicos, na literatura especializada, relacionados com os núcleos cerebrais da linguagem, atendidos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do Hospital Maggiore, Bolonha, na Itália.
No primeiro, um homem com 62 anos, depois de sofrer um derrame cerebral (ruptura de artérias ou veias no cérebro lesando maior ou menor quantidade de tecido) , não conseguiu mais escrever as vogais; as palavras eram escritas em perfeita simetria com o pensamento expresso oralmente, porém só com as consoantes. O paciente não conseguia simbolizar as cinco letras. Essa publicação impõe a certeza de que a escolha dos caracteres, para compor a linguagem escrita, está contida em segmento específico do cérebro.
O segundo relato diz respeito ao paciente do sexo masculino, 32 anos, norte americano, também após isquemia cerebral (ao contrário do derrame, as artérias se contraem, também determinando danos ao tecido encefálico), perdeu a familiaridade com a língua materna, o inglês, e passou a acrescentar vogais às palavras, resultando num sotaque escandinavo. A cura do distúrbio ocorreu na medida da recuperação da área cerebral danificada.
É precisamente nessa convergência, entre o físico presente na estrutura cerebral, oriundo de uma memória genético social, dando função à função, que ocorre a maravilhosa materialidade do real e do abstrato, capaz de nominar, desvendar, criar e transformar o objeto.
Por essa razão não existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. Nesse contexto, as gramáticas são, na essência, ideológicas, porque expressam tipos diversos de posses do real, onde o uso de vogais e consoantes são partes da relação do ser no mundo.

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