LINGUAGENS E AS MEMÓRIAS-SÓCIO GENÉTICAS

Um dos aspectos mais intrigantes e fascinantes é como ocorreu, no corpo, desde tempos imemoriais, o processo de adaptação que culminou no acervo, guarda e reprodução dos conhecimentos historicamente acumulado por meio das linguagens.
Na realidade, o maior obstáculo do pesquisador continua sendo estabelecer as correlações entre a forma e a função, no sistema nervoso central, em níveis macroscópico (órgão), microscópico (célula), ultramicroscópico (molécula), atômico e subatômico. Dito de outro modo, se o ser humano é capaz de falar e escrever se torna obrigatório existirem áreas anatômicas e funcionais, nos níveis acima mencionados, responsáveis pelas linguagens.
Os entraves aumentam na razão direta do avanço dos estudos na direção da menor estrutura.O desconhecimento fica mais denso a partir da molécula, portanto ainda muito distante da unidade massa energia, no interior do átomo, objetivo maior da investigação científica.
A convicção de um evoluir temporal impõe de modo contundente o estudo das mudanças corporais estendidas no tempo. Assim, sob a guarda da anatomia, no nível macroscópico, e da fisiologia do sistema nervoso central (SNC), é possível ensaiar por meio da paleopatologia a análise das impressões determinadas pelo cérebro dos hominídeos, os antepassados muito distantes, na face interna dos crânios fósseis.
As transformações sofridas na forma do SNC, há milhares de anos, e, consequentemente, o modo como o órgão se mantinha, em contato com os ossos do crânio estão também, com a atual capacidade de falar e de escrever.
Alguns antropólogos, como Calvin Wells, afirmam que as moldagens endocranianas dos Pithecanthropus (Homo erectus que viveu em torno de 300.000 anos) evidenciam as marcas das áreas identificadas como responsáveis pela linguagem falada. Nesse sentido, é razoável pensar que esse antepassado já possuísse algum tipo de fala.
Os atos de falar e de escrever estão unidos em complexa ponte, envolvendo a maior parte do SNC com a vida de relação, principalmente certos segmentos do córtex responsáveis com a capacidade de imaginar e representar a ficção, isto é, a coisa não percebida na materialidade espacial.
Um dos principais alicerces da ponte entre o passado muito antigo, contido no cérebro primitivo, oriundo da filogenia comum, e o cérebro atual, resultante do processo evolutivo é a insubstituível polaridade entre a dor e o prazer. Fugir da dor e buscar o prazer continua sendo a mais forte das ordens genéticas da espécie. Os animais de qualquer espécie se organizam com o objetivo de evitar a dor de qualquer natureza e ativar, sempre que necessário, as fontes naturais produtoras de prazer. Entre as mais importantes estão a sexualidade e o alimentos, ambos acompanhados de incontáveis derivações simbólicas representações metafóricas.
As contradições contidas nos dramas sociais, provocados pela luta em torno da sobrevivência dos antepassados humanóides, induziram, pouco a pouco, modificações na forma do corpo e, especificamente, na do SNC, ajustando as metas das novas funções: sobreviver com mais prazer e menos dor.
Aceitar o prazer e recusar a dor alicerçou o projeto da vida humana no planeta. Todo o corpo foi adaptado a essa determinante sócio genética. Incontáveis terminações nervosas livres mantêm todas as estruturas corporais atentas à dor e ao prazer. Pode se afirmar, sem receio de estar cometendo um exagero, que a vida humana não teria sido possível, sem essa adaptação.

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ANATOMIA: O DESVENDAR DO CORPO

A história mostra com fartos registros que o estudo do corpo humano, escondido pela pele, en-controu dificuldades nas estruturas de poderes das crenças e ideias religiosas, notadamente, no monoteísmo. A justificativa da resistência continua contida no dogma do homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus.
Para consolidar a nova estrutura de crença e ideia religiosa, os teóricos dos monoteísmos reor-ganizaram a forte tradição politeísta anterior a partir do pressuposto de o indivíduo observável representar a cópia fiel de outro ser (divino, invisível e perfeito). Entre as mudanças patrocinadas por essa concepção do corpo sagrado, nada justificaria o estudo do corpo. O naturalmente desconhecido fazia parte do milagre criador.
No judaísmo, de modo geral, os rabi¬nos só autorizavam o estudo da anatomia nos cadáveres insepultos dos heréticos e condena¬dos (Talmud, Bekhoroth 45a. = Um dia os discípulos de Rabin Ismael dissecaram o corpo de uma prostituta que o governante tinha condenado à figueira…).
O cristianismo introduziu mudanças importantes na estrutura do espaço sagrado. Diferente do judaísmo acrescentou certa oposição entre o físico e o espiritual (Mt 10,28). O ser humano, agora ple-namente concebido como dual, isto é, corpo e espírito, deveria ser o instrumento para servir a Deus (2Cor 5,10 ). Por outro lado, os empecilhos para abrir os corpos mortos mantiveram semelhança no AT e NT. Um dos pontos confluentes é a natureza mítica do sangue (Mt 16,17 e 1Cor 15,50), mantendo semelhança entre a de Moisés, que inaugurou a Antiga Aliança entre Deus e o povo eleito, e a Nova e Eterna Aliança selada por Jesus com o seu próprio sangue (1Cor 11,25 = Do mesmo modo, após a ceia, tomou o cálice dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei o em memória de mim). No islamismo, a palavra correspondente de anatomia em árabe – ilm al tasrib – é precedida pela raiz saraha que significa literalmente trinchar, cortar, separar. Como o islamismo entendeu a criação dependente e sequenciada (Sura 23,13 14 = Depois, transformamos o esperma em coágulo, e o coágulo em óvulo, e o óvulo em osso, e revestimos o osso com carne. E era mais uma criatura. Louva-do seja Deus, o melhor dos criadores), a inevitável intervenção do exame, dilacerando a carne, foi seguidamente impedido pela convicção da importância do corpo conservado após a morte.
Com a desconstrução da ordem feudal, na Europa, ocorreu a sedução coletiva para renascer a cultura grega, que recebeu o nome de Renascimento. O desejo de conhecer o corpo encoberto sob a pele dominou a interdição. Os dogmas em torno da natureza sagrada do sangue foram colocados ao largo e reiniciado o estudo da anatomia nas muitas salas de dissecção espalhadas na Europa, especi-almente, na Itália e França.
A harmonia dos limites interiores do corpo desvendado encantou todos e fez vibrar também a caneta dos poetas e os pincéis dos artistas. A sensibilidade de Leonardo da Vinci ( 1452 1519) buscou a profundidade da forma e produziu inúmeros desenhos dos ossos, das artérias e veias com a perfei-ção.
Outros artistas conseguiram transpor para a tela o instante em que o saber é a emoção, como Rembrandt (1606 1669) na tela a Lição de Anatomia do Dr.Tulp. O quadro que deu vida à atitude ma-jestosa do cirurgião e aos semblantes dos alunos, inflados de fascínio, é uma prova inquestionável do quanto o desvendar da anatomia.

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