DEUSES GREGOS CURADORES: APOLO E ASCLÉPIO

O contínuo movimento dos homens e mulheres é uma das principais diferenças da cultura grega das anteriores que se desenvolveram nas margens dos rios Indo e Nilo. Ao contrário das pinturas e esculturas, estáticas frontais ou laterais, egípcias e mesopotâmicas, a grega mostrava os corpos em movimentos.
De maneira semelhante, talvez mantendo laços na construção cultural, a teogonia (nascimento dos deuses e deusas relacionados à formação do mundo) e a cosmogonia gregas (narrativa, doutrina ou teoria que explica a origem do mundo e do Universo) se assentaram na grande mobilidade de deuses e deusas descritos com qualidades e defeitos equiparados aos dos humanos.
Na complexa construção do panteão (conjunto de deuses e deusas de determinada religião politeísta) grego reproduzindo o nascimento das divindades, como se atavam às agruras humanas e os caminhos míticos das soluções, sem dúvida, receberam destaque os deuses mais competentes para curar doenças temidas.
Apolo, filho de Zeus e Leto (uma das amantes prediletas de Zeus), adorado na Grécia e nas cidades do Mediterrâneo oriental, como deus da luz do sol, vencia a obscuridade; da purificação, trazia a benção da pureza do belo; da harmonia, vencia os conflitos; e da adivinhação, mostrava aos homens e às mulheres o caminho da cura. Ao mesmo tempo, o povo grego também reconhecia e temia Apolo como cruel vingador quando se sentia contrariado, matava os inimigos com as flechas de ouro certeiras, presentes de Zeus, logo após o nascimento.
Na Grécia, o mito da carruagem trazendo o sol luminoso se ligou a Hélios e seu filho Fetonte. Após a conquista romana, nas representações artísticas que incluem moedas, pinturas e esculturas de mármore e bronze, Apolo se confunde com Hélios, o deus-sol grego. As imagens metamórficas desse poderoso deus curador penetraram no território romano, sempre ligadas as proteções das doenças, talvez por essa razão, indissoluvelmente atado ao controle do sol radiante.
Com as qualidades e defeitos humanos, Apolo foi infeliz em algumas paixões, rejeitado e traído em outras. Contudo, gerou descendências de natureza divina, de heróis e de semideuses. Entre as onze mulheres amadas por ele que geraram onze filhos, se destacou a paixão avassaladora com Coronis, filha de Flegia, rei da Tessália. Dessa união plena de dramas e artimanhas nasceu Asclépio, que se tornaria o mais importante deus curador grego, a partir do século 4 a.C., vivamente festejado no dia 12 de outubro em grandes procissões nas ruas.
Após a conquista da Grécia pelas legiões romanas, Asclépio absorvido na cultura mítica do conquistador, recebeu o nome de Esculápio. As grandes públicas que comemoravam Asclépio e Esculápio continuaram com grandeza crescente. O cristianismo em franca ascensão não conseguia conter o culto desses deuses curadores. O sincretismo não tardou, as autoridades eclesiásticas determinaram que 12 de outubro fosse o dia do nascimento de Lucas, o apóstolo médico. Desse modo, na atualidade, muitos médicos continuam comemorando o “Dia do Médico” sem saberem que se trata do “Dia de Asclépio”.
Como no mito de Gilgamesh, do panteão mesopotâmico, no qual o herói presenciou a planta da vida eterna ser comida pela cobra, que imediatamente após, renasceu perdendo a pele, a condição mortal humana está expressa na morte de Asclépio, determinada por Zeus por meio dos raios dos Ciclopes, temendo que a ordem natural do mundo fosse alternada pela ressuscitação os mortos,.

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CIDADE ORGANIZADA E SAÚDE PÚBLICA

Na sociedade grega, especialmente na do século 4 a.C., políticos compreendiam a necessidade de organizar as cidades à semelhança dos corpos saudáveis, como se fossem organismos vivos. Ao contrário, a desorganização causando tensões na maior parte da população, gerando ou se aproximando do caos, era considerada sinônimo de doença.
Aos gregos daquele tempo, não seria possível administrar a cidade com competência satisfazendo as aspirações coletivas de bem-estar se as doenças de qualquer tipo fossem prevalentes. O administrador, o político competente estava identificado, de modo obrigatório, naquele que poderia curar os sinais de qualquer desordem no ritmo urbano, capaz de determinar prejuízo às pessoas, impedir o sossego coletivo, as trocas comerciais e as relações com as ideias e crenças religiosas.
Tanto na administração laica do político quanto na dos sacerdotes e sacerdotisas, no mundo mágico da adivinhação oracular, a passagem da ordem (saúde) à desordem (doença), envolvendo mudanças nas coisas e nos acontecimentos, implicando riscos à saúde e à vida, estava claramente em polos opostos.
O poder de curar pessoas e sociedades, evitando a enfermidade e adiando a morte, tem sido historicamente utilizado pelo poder político, como mecanismo de coesão e controle sociais. Nessa esteira, sem dúvida, mais ou menos, exigida pelos cidadãos nos quatro do mundo, obrigam que os administradores e políticos tanto nos macros quanto nos microssistemas, continuamente, como primeira obrigação, ofereçam à cidade médicos, hospitais, ambulatórios resolutivos e de fácil acesso, que são sempre mostrados à população como provas da competência gerencial. Desse modo, como na Grécia, do século 4 a.C., hoje, respeitando as devidas proporções, construir hospitais, ambulatórios e contratar médicos continuam sendo mostrados aos eleitores como indicativo que podem confiar nesse ou naquele político.
É possível teorizar que esse elo motivador para a consolidação dessa extraordinária associação entre competentes sistemas de saúde e boa administração pública também esteja relacionado com as compreensões da morte. O sofrer e a morte da pessoa amada determinam transtornos complexos, em diferentes níveis do corpo, trazendo incontáveis sinais físicos de desconforto, variando em cada pessoa. O sistema nervoso central libera substâncias que alteram o ritmo biológico e interferem para amenizar a baixa da defesa imunológica inata. Esse terrível padecer, também entendido como sensação de perigo iminente, provoca mudanças nos ciclos do sono, da fome, da sede, da libido e da afeição. Logo, o político que consegue transmitir a mensagem pública de que consegue amenizar esse sofrimento, por meio da oferta de hospitais, ambulatórios e médicos, invariavelmente, é identificado como confiável.
Continuando a teorização, parece lógico pressupor que as atitudes específicas, usadas no enfrentamento da dor temida, minorando o sofrimento do homem e da mulher, tenham sido valorizadas e, continuamente, aperfeiçoadas pela ordem social. As ações humanas transformando a natureza para atenuar o desconforto, são imperativas! Estão ligadas diretamente aos mecanismos neuroquímicos que modelam e controlam todos os corpos dos seres vivos, em especial, os humanos.
Na atualidade, a compreensão da sociedade organizada sem as dores da miséria dos deserdados que clamam por água e comida, como na Grécia antiga, está ligada aos políticos que zelam pelo bem público e buscam solução para curar os sofrimentos.

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