MILAGRE COMO PRÁTICA DE CURA: O INVISÍVEL SIMPLIFICADO

Constitui equívoco essencial associar o milagre somente ao cristianismo. A convivência do homem crente com os fatos ex¬traordinários os milagres materializados a partir do poder divino é, na realidade, história de longa duração.
Os cultos terapêuticos dos povos que habitaram as terras férteis das margens do Indo, do Nilo e da Mesopotâmia eram fortes e muito utilizados. Naquelas culturas, algumas com mais de 6.000 anos, a doença estava invariavelmente ligada ao pecado e à ação dos deuses ruins, maus.
A cura, sempre de natureza religiosa, era obtida quando o curador identificava o deus mau antes de expulsá lo do corpo doente ou quando o enfermo, depois de confessar o agravo cometido, pagava certos tributos nos rituais de purificação. O agente da cura era também sacerdote e atuava como represen¬tante do sagrado. Os povos da antiguidade estavam repletos de deuses e deusas taumaturgas. Entre as mais famosas figuram o deus Mitra celebrado em muitos templos espalhados no Egito e Asclé¬pio, adorado em belas edificações do mundo grego antigo, como a de Epidauro, na ilha de Cós. Em todos os santuários, os peregrinos se dirigiram para suplicar a cura milagrosa.
Contudo, foi no Antigo Testamento (AT), no Pentateuco, que o milagre apareceu como SINAL, ligado à fé monoteísta, em contrapo¬sição ao politeísmo dominante. O fundamento da fé, para a liturgia judaica, não é o simples milagre, mas sim a Criação como a existência concreta e estrutura da moral. Ela foi realizada acima de todas as leis da natureza, sendo o primeiro e o mais importante de todos os SINAIS. Assim Iahweh estabeleceu o ritmo das estações (Ge 8, 22), o curso das estrelas (Sl 148, 6), o movimento dos mares (Jó 38, 10), as leis do céu (Jó 38, 33) e da terra (Jr 33, 25).
A herança do judaísmo observa duas tendências nas interpreta¬ções dos milagres. A primeira admite a Bíblia cheia deles, devendo constituir fonte de reflexão à pequenez do homem. A segunda está relacionada com as interpretações místicas do judaísmo contidas no Zohar, ou Livro dos Esplendores, escrito em torno do século 12, na Espanha. Nesse último, os rabinos não aceitaram a necessi¬dade do SINAL porque existiria harmonia absoluta entre o Criador e a sua obra. A tradição semita também compreendeu a enfermidade como castigo pelas faltas cometidas contra a Lei (Ex 4, 6) e a saúde ligada à intervenção divina (Sl 38, 2 6).
Os primeiros padres da cristandade fizeram uma fantástica elaboração teórica dos SINAIS do AT. Os milagres de Cristo, des¬critos pelos quatro evangelistas, assumiram grande importância na apologética da nova religião. O tomismo compreendeu a importância do milagre na fé como um ?fato extraordinário produzido por Deus?. Contudo os anjos bons e os Santos poderiam ser instrumentos na promoção dos acontecimentos situados à margem das leis naturais. Por outro lado, distinguiu o milagre do prodígio. Este último, simples simulacro, não era fruto do poder divino. Estabelecendo o juízo de valor, Thomas de Aquino dividiu o milagre em: absolutos ou de primeira ordem e relativos ou de segunda ordem. Todavia, só reconheceu o primeiro como verdadeiro porque superando, em si mesmo, todas as concepções da natureza criada, só Deus seria o autor. O relativo, ao contrário poderia ser determinado através das forças do universo sensível ligadas ao demônio. O milagre apologético, sempre de primeira ordem, é aquele que serve de louvor. Deve ser perceptível e confirmar a origem teísta da revelação. Tem particular interesse o seu aspecto físico porque é observável nos corpos. Logo, a cura de uma doença, considerada fatal e irreversível, pode ser entendida como milagrosa e um SINAL de Deus.

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CURAS MESSIÂNICAS

Nos países onde as pressões sociais para minorar o sofrimento pessoal e coletivo alcançam níveis insuportáveis, com fraca assistência médica, algumas vezes com o apoio institucional, ocorre vertiginosa multiplicação das curas messiânicas. A constatação é concreta e não deve ser deixada de lado. Ao contrário, envolve questões importantes não resolvidas do binômio saúde-doença e a com os indissociáveis componentes sociais, além da desconfiança coletiva dos recursos médico-hospitalares oferecida pelo Estado.
A antropóloga Maria Andrea Loyola, da USP, em pesquisa realizada no bairro em Santa Rita, em Nova Iguaçu (RJ), em 1984, estabeleceu importantes relações comparativas entre os tratamentos hospitalares e os oferecidos pelos curadores populares que ela denominou “especialistas não reconhecidos”. A pesquisadora também analisou alguns vetores sociais interferindo no processo de legitimação das duas formas de tratamento. Os resultados do trabalho estão publicados no livro ?Médicos e curandeiros: conflito social e saúde?, onde está claro que a procura do tratamento fora das instituições médicas, na comunidade estudada, é motivada pelo descrédito da Medicina e dos médicos.
Entretanto, existem muitos pontos obscuros tanto na origem quanto na reprodução dessas instituições que modelam curas messiânicas por meio de especialistas do sagrado. Sem comprovações explícitas, para explicar essa incrível reprodução, é válido pressupor que o poder político alimente a origem e os utilize como mecanismos de anteparo às pressões coletivas frente às dificuldades de o Estado no trato da saúde pública.
Nos anos 1960, apareceu no Rio de Janeiro um doutor Fritz que se autodenominou ?sete da lira?. Durante alguns meses, esse personagem atendeu centenas de pessoas no subúrbio de Campo Grande. De tudo, que restou foi o enorme patrimônio econômico da fundação que administrava os dons mágicos do curador.
É importante para a Medicina, Sociologia e a Antropologia busquem explicações para essa confusa realidade, onde as práticas de curas realizadas pelos “doutores fritz” continua sendo misturas atrapalhadas da magia e religião. Como consequência, esses estudos poderiam servir de estrutura teórica para os políticos melhor compreenderem os significantes sociais futuros desses acontecimentos que poderão interferir negativamente na disposição de o Estado atuar na oferta dos meios para corrigir os estreitos corredores das instituições que cuidam da saúde das populações.
No mundo, a maioria dos cultos de conjuração são cultos terapêuticos. Muitas manifestações de ideias e crenças religiosas utilizam a pressuposta crença de poder curar como elemento de catequese, também porque toca fundamentalmente no cerne da existência humana: usar todos os meios para evitar a morte.
Os indicadores apontam que os curadores e adivinhos messiânicos se constroem e reproduzem como rastilho de pólvora nos ambientes castigados por enormes desníveis socioeconômicos e se consolidam na ausência de políticas públicas voltadas à atenção primária da saúde.
De modo geral, algumas igrejas que oferecem curas messiânicas como estratégia de catequese estão trazendo curadores com características físicas diferentes dos das comunidades onde estão assentadas: prevalecem homens e mulheres de cor branca, loiros e de olhos azuis. É possível que essa evocação desses curadores seja ainda onda retardatária idealística ligada ao processo colonial, onde o agente colonizador se mostrava poderoso.
Parece que os organizadores dessas igrejas, consciente ou inconscientemente, esperar provocar maior impacto junto às crendices das populações para serem tratadas mais pelo curador alto, branco, loiro de olhos azuis do que pelo baixo, magro, moreno,de olhos pretos.

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