EXISTIRIAM CURADORES E ADIVINHOS TRANSCENDENTES?

A manutenção do poder dos curadores e adivinhos, ao longo da história, não tem sido uniforme, muito menos permanente. Alguns aspectos da construção do cristianismo, nos primeiros tempos, poderiam ser inseridos nesse contexto, onde muitos povos, desgastados com as suas antigas crenças, foram buscar na nova mensagem cristã as forças da libertação, sob a guarda de um Deus essencialmente generoso e bondoso, que não pregava a vingança em nenhuma circunstância. Não é sem razão, que a chegada do cristianismo continua sendo saudada como a Nova Aliança.
O processo de substituição dos curadores e adivinhos nunca ocorre em linha reta. De modo diverso, serpenteia os conflitos sociais e políticos mais agudos. E pode ser entendido em dois momentos distintos e próximos que sedimentam as mudanças na direção da mudança almejada: a desmoralização do antigo e a substituição pelo novo. Todavia, é somente no segundo instante que a mudança do velho pelo novo se consolida, quando pode aparecer o herói mítico de salvação, para satisfazer as aspirações coletivas e minorar o sofrimento.
A análise histórica está repleta dos registros confirmando a existência, desde tempos imemoriais, dos curadores e adivinhos que fluíram no sabor das mudanças sociais e políticas. Os registros descritivos transcrevem elogios quando a mudança apoia o poder dominante ou, simplesmente, despreza os quando representam a resistência.
É possível entender outro papel social e político dos curadores e adivinhos situado em contexto muito mais amplo: abordagem dessa história de longa duração sob o enfoque dinâmico da luta travada entre grupos na ocupação dos espaços sociopolíticos, para serem compreendidos como agentes de coesão social, sempre aliados aos deuses e deusas dominantes naquele momento.
Seria possível que as pessoas reconhecidas como especializadas em curar e adivinhar, apresentadas pelas ideias e crenças religiosas, tenham qualidades especiais próprias o dom capaz de curar e amenizar o sofrimento pessoal e coletivo que os distinguiriam dos outros mortais?
Não há dúvida, desde milhares de anos, existe o reconhecimento coletivo da existência de homens e mulheres com essas capacidades especiais, pressupostas transcendentes, para curar e adivinhar, intermediando a vontade da divindade. Infelizmente, continuamos sem compreender o significado biológico. Permanece sem resposta a indagação: será que o curso da vida de ma pessoa ou de populações pode ser modificado por esse dom, pelo milagre?
Enquanto não há outra resposta, continua prevalecendo o sentido bíblico (Tg 1,17): “Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vem do alto e desce do Pai das Luzes”, largamente difundido depois da cristianização do Ocidente.
A maior parte dessa comunicação religiosa acabou sendo feita sobre a regra binário do prêmio-castigo. A saúde, o prêmio pelo cumprimento das ordens; a doença, o castigo pela desobediência. Por esta razão, o aliado do poder dominador que curasse a doença e previsse os infortúnios, representava a divindade. Ao contrário, quem não reproduzisse a mensagem dominado¬ra, mesmo que sarasse e adivinhasse com maior competência, era identi¬ficado com agente da antidivindade, do deus inimigo que deve ser destruído.
Desse modo, se torna mais fácil entender porque existem, nos cinco continentes, milhares de identificações para deuses e deusas acumulados desde os primeiros registros escritos. Cada grupo social identifica o próprio deus como o mais poderoso e mais verdadeiro: capaz de curar as doenças e os infortúnios.

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CURANDEIROS E ADIVINHOS: AGENTES DE COESÃO SOCIAL

A história da medicina, em certas circunstâncias, evidência que alguns diagnósticos e tratamentos não mantiveram nenhuma aderência aos saberes da época. Aquelas sociedades, no passado, e outras, nos dias atuais, validam a crítica de Jannie Carlier: “As fronteiras entre adivinhação e medicina são tão vagas que não nos surpreenderá encontrar num tratado médico um prognóstico aventureiro e, num tratado de adivinhação, um diagnóstico médico pertinente.”
Os grupos de doenças comumente relacionadas com esse contundente pressuposto – curas mágicas ou milagrosas como recurso de tratamento pertinente – são aqueles para os quais a medicina não oferece resultados convincentes: alguns tipos de cânceres, certas síndromes articulares dolorosas, determinados distúrbios de comportamento e a maior parte das doenças imunomoduladas.
Esse conjunto complexo entre diagnóstico e tratamento competentes está intimamente atado ao ainda não desvendado paradoxo fundamental, da medicina: em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença? Se é que existe o normal e a doença como pressupomos.
Nessa construção, mesmo utilizando todos os recursos da tecnologia médico-hospitalar da atualidade, incontáveis doentes morrem sem que os respectivos diagnósticos tenham sido reconhecidos.
Por outro lado, é notório há milhares de anos o reconhecimento coletivo da existência de homens e mulheres reconhecidas com capacidades especiais para curar e adivinhar a margem de todas as leis da Física. Infelizmente, a Ciência continua sem compreender o significado biológico dessa cura.
Permanece sem resposta a indagação: o curso da vida pode ser modificado por esse dom? De outro modo, as quatro forças (no macrocosmo: gravitacional, eletromagnética; no nível atômico, pequena força e grande força) que constroem as relações entre as matérias vivas e inertes poderiam ser modificadas magicamente, por meio do milagre?
Enquanto não há outra resposta, continua prevalecendo o sentido bíblico presente em Tg 1, 17: “Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vem do alto e desce do Pai das Luzes”.
Os primeiros registros nos livros sagrados é possível identificar a intrincada relação de dependência entre essas pessoas especiais com os diversos segmentos sociais das comunidades onde atuavam. Esse nó está relacionado ao pro¬cesso da ligação humana ao transcendente por meio da experiência religiosa com o sagrado. A constatação ficou clara a partir da melhor compreensão da escrita cuneiforme, dos povos babilônicos, no segundo milênio a. C., esclarecendo que as palavras sortilégio, malefício, pecado, doença e sofrimento embutiam significado semelhante.
É também possível evidenciar que os curadores e adivinhos, em muitos contextos históricos, exerceram função equivalente na organiza¬ção social. É por esta razão que os tratados divinatórios e os prognósticos médicos estão ligados desde os primeiros tempos. A posse do dom de curar doenças e malefícios sempre acrescentou mais poder a quem o possuía, colocando o em destaque na comunidade.
Contudo, a manutenção desse poder nunca se evidenciou uniforme nem permanente. A possibilidade de substituição fora vivenciada, de modo contundente, pelos curadores e adivinhos quando, sob outro po¬der político, sofriam as imposições do conquistador. Alguns reis citados no Antigo Testamento, como Baal e Astarte (Jz 2, 13), cultuados na Mesopotâmia, foram identificados pelo judaísmo como curadores e adivinhos ligados ao demônio pelo fato de não estarem alinhados ao monoteísmo judeu.

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