A SERPENTE E A MEDICINA

A importância da cobra nas construções metamórficas da proteção contra a dor, à morte e os infortúnios está presente desde muito tempo. A naja enfeita em posição superior e em destaque a belíssima máscara mortuária de ouro maciçodo jovem faraó Tutankamon.
A asso¬ciação entre a serpente e a Medicina estava presente na sociedade babilônica, em torno de 1500 a.C. O deus da cura Ningishzida, da região de Lagash, era representado por duas cobras enroladas em um bastão.
É possível estabelecer pelo menos duas imagens simbólicas unindo a cobra à Medicina. A primeira está ligada ao fato desse animal poder viver acima e abaixo da terra, mediando dois mundos diferentes. A outra, mais importante, pelas ligações metafóricas com o renascimento, por meio da renovação periódica da pele.
O caminho trilhado pelo imaginário humano na busca da imortalidade ligada à cobra, também está presente em dois fantásticos registros mais ou menos da mesma época:
1. Rig Veda, onde os Adityas são descri¬tos como descendentes da cobra porque ao perderem a pele, se tornam imortais;
2. Epopéia de Gilgamesh, on¬de esse herói mítico, príncipe de Uruk, após vencer incríveis obstáculos para garantir a posse do vegetal capaz de garantir o renascimento do amigo morto numa batalha, num instante de descuido, presencia o réptil renovar a pele após comer a planta sagrada, a plena posse da vida eterna. Restou a convicção da inevitabilidade da morte.
Como não é possível separar a luta humana para viver para sempre das práticas médicas, a mais significativa herança ocidental das relações da serpente à Medicina é oriunda da mitologia grega. De modo geral, o herói grego estava associado à arte de curar. Grande número de deuses e deusas possuía o dom de curar doenças e feridas de guerra. Um dos filhos de Apolo, Asclépio, foi educado pelo centauro Quirão para ser médico. O centauro detinha o completo conhecimento da música, magia, adivinhação, astronomia e da Medicina, além de ter a maior habilidade entre todos, a ponto de manejar com igual destreza o bisturi e a lira.
Asclépio conquistou a fama inimaginável; possuía a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doen¬tes que não obtinham cura em outros oráculos procuravam os servi¬ços desse deus curador. Muito mais cirurgião, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Na famosa trilha de curas extraordinárias, ressuscitou guns mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios dos Ciclopes.
Zeus matou Asclépio porque temia que a ordem natural que rege a vida e a morte de todos os seres vivos, especialmente, as dos homens, das mulheres e coisas fossem subvertidas nas ressurreições dos mortos.
Asclépio se tornou o maior dos curadores do panteão grego; era celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro.
Após a conquista da Grécia pelas legiões romanas, com o passar do tempo, alguns aspectos da mitologia grega foram absorvidos pelos gregos: mantiveram a narrativa teogônica e rebatizaram Asclépio de Esculápio.
Logo após a cristianização do império romano a partir de Constantino, não ocorreram mudanças significativas na data de comemoração do dia do Médico no Ocidente. Muitos afrescos retratando Asclépio, entre os séculos 5 e 1 a.C., contêm a cobra enrolada no bastão.
Essa história de longa duração é tão forte que, ainda hoje, entre as alegrias dos pais plenos de orgulho, quando o filhos ou a filhas é aprovado no vestibular para Medicina, é presenteá-lo com o broche ou caneta contendo o milenar símbolo das práticas médicas: a serpente.

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MICROLOGIA DAS DOENÇAS SEM PERDER A BONDADE

O mais importante dos mecanicistas foi Marcelo Malpighi (1626-1696), aluno de Santório. Esse inigualável teórico representa na história da ciência o pioneirismo na construção do pensamento micrológico, isto é, a visão de estruturas vivas por meio das lentes de aumento.
Pode-se afirmar, sem risco de errar na imprudência do exagero, que após as publicações de Malpighi, a medicina-oficial de distanciou das outras práticas de curas e começou a própria história como ciência.
O pensamento microscópico mobilizou a doença da macroestrutura (corpo), para a microestrutura (célula). Com esse fato se abriu a porta que desvendaria a base de toda a medicina da atualidade: o diagnóstico microscópico.
Na atualidade, a maior parte do diagnóstico, tratamento e prognóstico das doenças que continuam afligindo a humanidade, são feitas na atualidade são alicerçadas no diagnóstico da infecção ou do tumor, portanto micrológico, a identificação da doença por meio do microscópio.
Para que se tenha ideia da grandeza dos estudos de Malpighi, a maior preocupação das pessoas e dos serviços de saúde, no mundo, nos dias atuais, são os diagnósticos e tratamentos das infecções e dos tumores, ambos realizados graças à microscopia.
As descrições de Marcelo Malpighi são empolgantes, plenas do novo que desloca o anterior: “a pulga é horrível, o mosquito e a traça os mais belos e foi com grande contentamento como fazem a mosca e outros pequenos animais para caminhar…”.
O conjunto das novas observações consequentes da utilização das lentes de aumento, compondo o microscópio rudimentar, se mostrou tão importante que se formaram associações científicas, onde eram comunicadas e discutidas as descobertas da microestrutura do corpo humano.
Entre muitas aplicações imediatas, no século 16, da construção teórica de Malpighi, se destacou a identificação do ácaro, como agente causador da sarna. Essa doença da pele, já era conhecida desde os tempos bíblicos como contagiosa, mas até então, sem explicação como se dava a contaminação.
Por outro lado, a certeza de poder fazer o diagnóstico por meio das lentes de aumento determinou mudança no comportamento do médico, antes mais próximo do leito do doente, como determinava os preceitos de Hipócrates, desde o século 4 a.C.. Recebeu forte crítica a frieza com que os médicos se ataram à concepção mecanicista, reduzindo o corpo à máquina.
As críticas dessa medicina mecanicista atingiu consolidação adequada com as publicações de Thomas Sydenham (1624-1689), que trabalhou até os últimos anos da vida voltado à demonstração de que o ponto fundamental da medicina era a presença do médico na cabeceira do doente, utilizando os recursos que pudessem auxiliar na cura.
Essa questão crítica da prática médica continua muito atual. Em muitas circunstâncias, alguns médicos ficam afastados das cabeceiras dos doentes, somente utilizando os recursos tecnológicos. Essa atitude leva ao enorme hiato que dificulta a compreensão do componente social no aparecimento e desaparecimento das doenças.
Algumas escolas de medicina ainda não se afastaram dos conceitos mecanicistas do Renascimento. Alguns estudantes de medicina são treinados no diagnosticar da rara doença cardíaca utilizando sofisticados aparelhos; se diplomam sem saber diagnosticar a verminose ou conduzir o parto normal.
De certo modo, a agudização dos conflitos entre médicos e doentes está assentada na ausência dessa relação humanitária: o médico amigo.

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