RENASCIMENTO APÓS A MORTE: MAIOR DAS CURAS

O cuidado com a saúde pode ter começado em qual¬quer ponto da escala genealógica do homem. Sem dúvida que o aperfeiçoa¬mento da linguagem teve grande importância, já que a elaboração dos sons para caracterizar a dor do seu desconforto deve ter sido um dos pontos de partida para o domínio da natureza com objetivo de gerar o conforto, consequentemente fugindo da dor e do sofrimento de qualquer natureza. A abordagem de Engels continua interessante como um dos precursores que entenderam o processo da hominização por meio das transformações do traba¬lho e das linguagens.
A medicina surgiu como especialidade social em comunidades ágrafas de caçadores e coletores. Nessa fase, milhares de anos antes da linguagem escrita, os ancestrais distantes comunicaram as experiências e sentimentos por meio das ações concretas, gestos isolados, olhares ou com o silên¬cio. Pode ter sido por meio dessa linguagem simbólica que nossos antepas¬sados referiram a dor no braço estraçalhado em acidente de caça ou o desconforto causado pela febre.
Nessa época remota dos nossos antepassados, utilizavam as cavernas para proteção contra as intempéries da natureza gelada, fabricavam e usavam artefatos de pedra e osso trabalhados com delicadeza e objetividade, além de usar fogo domado e de praticar o sepultamento ritual dos mortos.
O historiador Mircea Eliade com propriedade incompará¬vel atribuiu a dificuldade, quase intransponível de mensurar esse passado no fato de que as crenças e as ideias não serem fossilizá¬veis. Quando os arqueólogos descobrem um túmulo com significação histó¬rica, todos os detalhes do esqueleto e das oferendas são importantes para compreender o grupo social, porém grande parte dos valores e revelações intrínsecas do morto continuará nas suposições. Essas dificuldades são proporcionalmente maiores na medida em que recuamos no tempo. Por esta razão, alguns reconhecidos autores, como Leroi-Gourhan, assumem posição crítica em relação à existência de religiosidade anterior há 40.000 anos.
A partir dessa data é claríssima a presença nos sepultamentos rituais da crença na vida após a morte. Os mortos foram enterrados acompanhados de artefatos de caça e pesca e grandes porções de carne.
O imaginável renascimento após a morte pode representar, em última análise, a mais importante das curas, quando as doenças e sofrimentos são superados pela possibilidade de recomeçar a vida. Essa fantástica busca pode ter começado com o juízo arcaico de ser possível renascer a partir dos ossos, ligada ao sepultamento ritual. Nesse sentido, essa construção pode estar relacionada às passagens do Antigo Testamento: a mulher a partir da costela do primeiro homem (Gn 2, 21 24) e o renascimento a partir dos ossos descarnados (Ez 37, 1 8). Assim, não deve parecer estranha a crença popu¬lar no poder curador dos ossos dos santos, conservados como relíquias e amuletos contra a doença e o infortúnio.

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A COISA SAGRADA: O CORPO DA MEDICINA POPULAR GERANDO CONFLITO 2

Os dois pressupostos ? a existên¬cia da coisa sagrada nas crenças religiosas como instrumento de cura e a religião mantendo diversos níveis de conflito com a medicina universitária ¬?, contribuíram para estruturar pensamentos que conduziram o Homem no duplo papel de executor e objeto das práti¬cas de curas, para enfrentar o determinismo da morte.
Também por essa razão não é adequado entender a religião como Portter: “A religião foi a mãe das ciências e das artes…?, mas ampliar o horizonte dos debates em Jung, que fundamentou a confissão reli¬giosa na transformação provocada pela experiência pessoal do “numinoso “, seguida da fidelidade à coisa sagrada.
É possível identificar várias tentativas para entender a religião a partir das palavras latinas “relegere” e “reli¬gare”, porém todas são passíveis de críticas, já que esses termos latinos não tinham, exatamente, o atual sentido de religião. É possível que indicasse também conjunto complexo de regras e interdições não relacionadas à coisa sagrada.
É importante relembrar que diferen¬tes formas de ideias religiosas, presentes na maioria da população do planeta, entre as quais também predominam entendimentos das doenças e da morte atados à coisa sagrada.
Os livros de medicina e religião não pararam de ser escri¬tos, de geração a geração, para além dos sistemas de valores de refe¬rência e de interpretações aos quais se ligam. Até um passado recente, a maior parte tecida nas historias lineares quantitativas, onde as estruturas das mentalidades foram seguidamente pouco valorizadas. A literatura que trata dos mesmos temas, nos últimos quarenta anos, por meio da Nova História, se afastou dessa análise acrítica e se enriqueceu nos trabalhos associando a intencionalidade de curar das práticas religiosas e coisa sagrada..
Os progressos teóricos para melhor entender os movimentos sociais por meio da História das Mentalidades, estão se fazendo de modo contínuo, inclusive no que diz respeito às abordagens das doenças e curas atreladas à coisa sagrada.
Nessa trilha, existem antigas evidências da associação da coisa sagrada à cura e à luta ancestral para vencer o determinismo da morte. Uma das mais significativas é a data da comemoração do dia do médico ? 18 de outubro ? que corresponde, na mitologia grega, à festa do filho de Apolo, Asclépio, o mais importante deus curador do panteão grego. Pela importância da festa nas tradições populares da antiguidade, o cristianismo provocou inteligente sincretismo e manteve o mesmo registro festivo, no calendário cristão, ao nascimento de São Lucas, o Evange¬lista médico.
Pode ter sido essa epopéia ? edificada na luta contra a morte inevitável ?, desde a pré-história, um dos fatores que contribuíram no aparecimento da especialização que ungiu a procura sistemática do con¬forto e da saúde ligada à coisa sagrada.
Nessa época remota, os registros neandertais demonstram o entendimento da morte dos entes queridos entrelaçado a coisa sagrada e ao sepultamento ritual. Muitos esqueletos mostram as cabeças voltadas ao leste, acompanhados generosas porções de carnes e de instrumentos de caça e pesca.
O imaginável renascimento após a morte ? mais significante de todas as coisas sagradas ? que prolonga a vida ao tempo infinito, é o alicerce que mantém vivo o conflito de competência entre a medicina e a religião.

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