A COISA SAGRADA: O CORPO DA MEDICINA POPULAR GERANDO CONFLITO 1

“Por nove dias, as setas do deus dizimaram o exército…
Filho de Atreu, quero crer que nos cumpre voltar para casa sem termos nada alcançado, no caso de à morte escaparmos, pois os Aqui¬vos, além das batalhas, consome os a peste. Sus! Consultemos, sem mora, qualquer sacerdote ou profeta, ou quem de sonhos entenda que os sonhos de Zeus se originam para dizer nos a causa de estar Febo Apolo indignado: se por não termos cumprido algum voto ou, talvez, heca-tombes, ou se lhe apraz, porventura, de nós receber o perfume de pingues cabras e ovelhas, a fim de livrar nos da peste?. (Homero,Ilíada, I, 53).
Esse segmento do texto de Homero retrata com clareza o conflito: a medicina incompetente para curar os pestilentos, restou à população suplicar a ajuda de Zeus. Na análise histórica das metáforas da coisa sagrada, tanto nas práticas sociais das políticas dominantes quanto nas periféricas, é indispensável repensar o conflito de competência entre a medicina e a religião.
As práticas de curas remetem às incontáveis imagens das metamorfoses da coisa sagrada como parte das expressões e crenças religiosas populares desvinculadas das rígidas estruturas hierárquicas das igrejas. Sob essa perspectiva, é possível entender como e por que os curadores, adivinhos, magnetizadores, feiticeiros e benzedores nunca cessaram de receber os consulentes.
Por esta razão, o repensar do binômio ?curas-coisa sagrada? suscita contínuo interesse das academias que evitam os compromissos monolíticos com a lógica das concepções científicas, porque a cura mágica ou milagrosa, que interliga o suplicante à coisa sagrada, parece tratar-se de credulidade. O processo reprodutor desse fenômeno social passa, necessariamente, pela crença pessoal ou coletiva no poder de curar exercido pelas coisas sagradas. Deste modo, a coisa sagrada é, antes de tudo, aquilo que cura.
A disputa trançada entre essa medicina popular, amparada na coisa sagrada como instrumento de cura, e a medicina construída nas universidades, raramente vem à tona despida de paixões, ora em defesa, ora atacando violentamente uma ou outra. Como conseqüência desse embate, a importância social da medicina popular é diluída na polarização de uma luta de poder em torno da cura, que pode ser simbolizada na mesma essência de Apolo e Dionísio, onde a medicina universitária se confronta com a medicina-religião.
As mensagens rupestres, nas paredes das cavernas, quando associadas aos dados da paleopatologia, sugerem que a coisa sagrada e a crença no renascimento estariam presentes antes de a espécie Homo ser dominante.
Fora outras discussões teóricas, ligando a coisa sagrada à religião foi analisada por Croce que negou a independência da ?categoria religião”, considerando somente subproduto da “categoria moral”. Por outro lado, Otto se esforçou para demonstrar a realidade da experiência pessoal com o sagrado como fundamental para qualquer religião e Gramsci desconsi¬derou qualquer conceito de religião sem a correspondente relação cul¬tural entre o indivíduo e a coisa sagrada. Os estudos gramscianos colocaram a religião no conjunto ideológico ligado à ética e por isso contribuin¬do, em certas circunstâncias, para que o homem aceitasse as desigualda¬des sociais.
Desse modo, independente das interpretações teóricas, a coisa sagrada continua compondo o corpo da medicina popular e alimentando conflitos entre a medicina construída nas universidades e a religião.

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TECNOLOGIAS, SAÚDE E DOENÇA

Renomados pesquisadores sociais.no Brasil, proporcionaram muitos para consoli¬dar a estreita ligaç o das ciências sociais com a medicina, bus¬cando explicações para os componentes não biológicos do binômio saúde-doença.
A descrição de Engels das condições de trabalho e da saúde dos operários ingleses, em 1844, representa o divisor de águas do quanto é importante a prévia compreensão da realidade social e as condições de trabalho.
Não existe qualquer possibilidade de dúvida, mesmo aos mais irresponsáveis, de que a industrialização desordenada com desmonte do ecossistema e o descaso pelas normas elementares de respeito à vida humana levará a todos, ricos e pobres, para o mesmo buraco.
No início do século, em 1910, o famoso Relatório Flexner sobre as cento e cinquenta faculdades de medicina existentes, naquela época, nos Estados Unidos, seguido dois anos depois pelo segundo Relatório Flexner, que descrevia os cursos médicos da França, Inglaterra, Alemanha e Áustria, selaram o destino da nova metodologia do ensino da medicina.
Entre as consequências dos Relatórios Flexner, passou a ser considerado exclusivamente como verdadeiro e produtor de saúde as relações científicas vindas da ciência e tecnologia. Tudo apoiado no pressuposto de que a utilização de aparelhos para intermediar a ação médica seria responsável, em futuro muito próximo, pela melhoria das condições de saúde do homem.
Os anos que se seguiram mostraram exatamente o contrário: a melhoria da vida coletiva e o aumento da longevidade não está atrelada à parafernália da tecnologia médico industrial e a supermedicalizaçã o e sim às medidas básicas de saneamento, moradia, educação, trabalho e lazer.
Os Relatórios Flexner contribuíram efi¬cazmente para a atual situação de descalabro em que se encontra a prática médica na atualidade. Os abusos dos medicamentos e das tecnologias passaram a ser utilizados como suporte indispensável ao exercício da medicina. O resultado final se concretizou na entrada definitiva da medicina no consumismo incontrolável da produção industrial, sem que tenhamos qualquer comprovação de que este fato tenha participado para a melhoria da qualidade da vida.
O processo de industrialização acelerado do pós guerra, nos anos 1950, fincou a ação dos poderosos grupos econômicos defensores do lucro a qualquer preço, especialmente, ligados à venda da parafernália médico-hospitalar desnecessária e predatória à saúde pública. Essa inquestionável realidade impediu, de diferentes maneiras, que as universidades discutissem plenamente as relações sociais da medicina. Assim foi mantida fora das salas de aula a clara causalidade entre a estrutura social e nosologia.
É evidente que esta situação, valorizando o exclusivamente tecnológico na prática médica e que tornou impagável a dívida dos sistemas públicos de assistência médica nos países industrializados, está sendo modificada. O início dessa revisão e mudança se concretizou na análise dos indicadores de saúde que os países industrializados: a saúde de um povo não está ligada à tecnologia do aparelho médico-hospitalar, mas à educação, saneamento básico, condições de trabalho e laser:
1. A Escola de Chicago centralizou as atenções, a partir de 1939, com as análises psiquiátricas encontradas entre os operários das periferias urbanas. As conclusões se voltaram de modo incisivo para a associação entre as doenças encontradas e as bruscas mudanças ocorridas na urbanização pós industrial;
2. Os estudos financiados pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização Panamericana de Saúde, enfocando o componente sociocultural nos mecanismos determinantes das doenças;
3. A medicina fundamentada no consumo tecnológico começou a sofrer severas crítica, a partir dos anos 1960, por meio de estatísticas mostrando que a supermedicalização em nada contribuía na melhoria da vida.

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