NOVAS ABORDAGENS TEÓRICAS DA SAÚDE E DA DOENÇA

Com certa independência da escolaridade formal, porém profundamente marcado pela construção cultural, homens e mulheres sempre souberam que as próprias condições de vida interferiam no curso das enfermidades.
Para que se possa reutilizar o conhecimento sociocultural historicamente acumulado na luta atávica contra a doença e a morte, é imperativo reestruturar o aprendizado do médico. Novas saberes precisam ser consolidadas para possibilitar ao aluno de Medicina situar historicamente os pontos importantes da saúde pública. Assim, será mais fácil fornecer durante o aprendizado acadêmico os subsídios teóricos das soluções para os problemas que corroem a saúde de milhões de brasileiros e fazem morrer por ano outras tantas crianças com menos de um ano de idade.
Somente com o resguardo da história social evitaremos a posição política dogmático maniqueísta, montada na fantasia da incompetência politiqueira, rastreadora do apoio corporativista inconsequente.
A doença nas diversidades de apresentação, sempre acompanhou o homem ao longo do processo de transformação. Sob este ponto de vista, é possível entendê la como forma de expressão da vida, onde cada cultura cristaliza ao longo do tempo, as próprias condições de luta para vencer as enfermidades.
Nas sociedades industriais, a necessidade rápida de mão de obra impôs a atual complexidade aos sistemas de saúde com efetiva participação dos médicos e do Estado. O povo passou a ser coagido, de modo crescente, para cumprir normas oficiais de higiene. Este conjunto de ações representa, do mesmo modo que nos templos bíblicos, a resposta das sociedades atuais ao inevitável aparecimento de novas formas de doenças. Foucault caracterizou esta fase como a tomada de uma consciência política, onde o médico participa da vigilância sanitária junto com outros mecanismos coercitivos do Estado.
Desse modo, como as instituições públicas e privadas respondem pela aplicação da política de saúde, ao mesmo tempo, são as responsáveis pelo aparecimento de novas modalidades de doenças nas pessoas e nos outros animais. Essa trágica combinação se dá no momento em que permitem a terrível agressão ao meio ambiente causada pela busca irresponsável de novas fontes de matéria prima, alterando de modo irreversível o ecossistema. Já é possível avaliar o que representará à humanidade as destruições que estão em pleno curso.
Se for acrescentado o uso indiscriminado dos antibióticos, dos aparelhos hospitalares, das cirurgias desnecessárias e as infecções hospitalares, índices de morbidade e mortalidade causadas pelos serviços de saúde, é possível que alguns aspectos da atual prática médica causem mais danos que vantagens ao homem.
Alguns pesquisadores sociais partem da tese de que existe uma tendência universal para curar e compreender a doença. É aqui que se interligam forte e indissoluvelmente os sistemas cognitivos o mítico e o empirico para compor o sistema de respostas processadas por meio do conhecimento historicamente acumulado.
Os mecanismos que interferem na assimilação social da doença são muitos e complexos. Como a nossa herança cultural está solidamente fincada na memória, é impossível ao médico não conviver diariamente na prática com os mitos que se acoplam na compreensão popular da doença. Deixar de aceitar esta realidade é tão danoso quanto ignorar a pesquisa do laboratório.
Para que o médico possa se situar nesse conjunto das relações sociais e tome consciência do próprio papel, é necessário que os dois sistemas cognitivos mítico e empírico sejam analisados, mesmo porque eles convivem em unidade indissolúvel.
Muitas universidades iniciaram, há mais de cinquenta anos, os estudos das ciências sociais ligadas à medicina. Entre as mais conhecidas estão a Yale e Stanford nos Estados Unidos, Oxford e Cambridge na Inglaterra, Sorbonne na França e a Autônoma de Barcelona. Dezenas de publicações sobre o tema circulam anualmente financiadas por esses grupos de trabalho.
Entre as primeiras universidades brasileiras a perceberem essa nova necessidade no aprendizado médico, em Manaus, alguns ex-alunos e eu tivemos a honra de ter iniciado esse processo, com a Disciplina Historia da Medicina e Grupo de Pesquisas, em 1982, na Universidade Federal do Amazonas; em 2001, Universidade do Estado do Amazonas e, 2002, na Universidade Nilton Lins.

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DEFESA IMUNOLÓGICA DO CORPO, ORGANIZAÇÃO SOCIAL E DOENÇAS

Há muito tempo, desde os primeiros registros, tanto nos escritos religiosos quanto nos laicos, sabe-se da estreita relação entre saúde e doença e o modo como as sociedades se organizaram. Hoje, basta comparar o tipo de doença, no mesmo período, nos países industrializados e nos subdesenvolvidos, para a certeza da importância da saúde como indicador social.
Depois da publicação dos trabalhos do pesquisador Susumi Tonegawa, o ganhador do Nobel da Medicina de 1987, esclarecendo algumas dúvidas de como ocorre a variação dos aminoácidos dos anticorpos produzidos pelos linfócitos B. Tonegawa demonstrou que quando o linfócito B se desenvolve, segmentos do seu material genético são selecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milhões de sequências variadas de aminoácidos, capazes de efetuar com mais competência a defesa do corpo humano contra as agressões micro e macroscópicas vindas do meio ambiente.
Como consequência imediata dessas pesquisas, é possível afirmar que pelo menos parte da estrutura genética do homem é móvel e capaz de desenvolver durante a vida uma infinidade de combinações gênicas adaptativas. Para que este mecanismo biológico ocorra na sua plenitude, é indispensável que o corpo disponha da mais importante fonte de energia o alimento.
Deste modo, se dissolveram como castelo de areia à chuva, por meio da demonstração científica, os pressupostos étnicos racistas alimentados pelos interesses dos diferentes matizes ideológicos. Isso significa que as crianças subnutridas dos países pobres não poderão competir, em igualdades de condições, com outras dos países industrializados, onde a oferta de alimentos, indispensável para a maturação do genoma, é feita em níveis calóricos adequados.
É indiscutível que estamos nos afastando rápido, nos últimos anos, da medicina cartesiana classificatória, representante do conhecimento contido num espaço hermético e inquestionável, para colocar a doença no contexto mais abrangente e complexo das relações sociais.
Os conceitos positivos da imobilidade da saúde e da doença foram substituídos pela convicção da existência do equilíbrio dinâmico entre ambas, onde ter a doença não significa, necessariamente, estar doente. Essa tendência está nitidamente clara a partir do século 19 quando o médico abandona o conceito restritivo da saúde e adota o da normalidade, provavelmente motivado pela melhor compreensão da fisiologia experimental, em plena efervescência, nos trabalhos de Claude Bernard.
Esse primeiro momento, ficou impregnado da necessidade de explicar como tudo funcionava nos corpos. Como o mecanicismo dominava os meios acadêmicos, a máquina foi escolhida como o modelo ideal. O corpo humano passou como num passo de mágica a ser comparado a um grande relógio, onde as doenças eram somente desajustes na engrenagem.
Entretanto, essa construção teórica restritiva não encontra suporte na História. A certeza da importância do sociocultural produzindo doença já estava presente nos livros laicos e sagrados escritos, há milhares de anos, nas culturas que se desenvolveram na Mesopotâmia, Egito e Índia.
Naquelas épocas, os legisladores laicos e religiosos utilizaram os poderes disponíveis e interferiram nos hábitos coletivos das populações, para evitar a doença. Assim conseguiram determinar, ao longo dos séculos que se seguiram, modificações na cadeia epidemiológica de muitas doenças.
O exemplo de fácil verificação é o câncer do colo uterino, com baixíssima prevalência, entre as judias. A explicação é dada pela cirurgia da fimose feita, obrigatoriamente, nos homens judeus no sétimo dia após o nascimento. Com isto, o prepúcio fica livre e facilita a higienização impedindo que o vírus Epstein Baar, relacionado com a etiologia do câncer do colo uterino, e aloje no esmegma (secreção espessa, caseosa, malcheirosa, formada por células epiteliais descamadas, que se encontra, sobretudo, em torno da genitália externa) da glânde masculina.
O câncer do pênis é o outro lado da mesma questão: acomete homens com fimose. O Nordeste brasileiro, como todas as outras regiões do mundo subdesenvolvido, onde o homem enfrenta enormes dificuldades de sobrevivência, ainda apresenta uma das maiores prevalências do mundo.

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